abril 25, 2005

Capítulo 22 - Dois gatos malhados

Antes de entrar na selva, Nailo retornou à mina para conversar com Batloc. Na cela, o genasi o alertou para que os heróis secassem as roupas para que os outros soldados não desconfiassem de nada. Nailo pediu a Batloc para que ele conseguisse roupas novas para ele e seus amigos e pediu ao soldado que lhe conseguisse um balde para substituir o recipiente danificado do relógio d’água. Batloc prometeu empenho para conseguir as coisas para o ranger e os dois se despediram.
Já na mata, Nailo e seu lobo iam à frente dos outros, guiando-os por uma trilha praticamente imperceptível para aqueles que não tivessem intimidade com a floresta. A luz da lua penetrava entre as copas das árvores, fornecendo iluminação suficiente para que o grupo pudesse ao menos enxergar por onde pisavam.
Subitamente, o lobo parou, farejando o ar e o chão. O seu rosnado indicava perigo logo à frente. Sairf e Squall fizeram contato mental com seus familiares, ordenando-os para verificar as redondezas. Os dois pássaros sobrevoaram as copas das árvores em círculo e então mergulharam em num vôo rasante, logo à frente do grupo, sumindo entre as árvores. Nailo deu ordem de ataque ao seu companheiro animal, que correu em disparada na direção das aves. Os aventureiros foram logo atrás do animal, com as armas prontas para atacar. Legolas se deslocava em saltos curtos entre uma árvore e outra, sempre se mantendo protegido e oculto. Lucano, seguido por Sairf, saiu da trilha e deu a volta pela floresta, para cercar e surpreender por trás aquilo que o lobo havia farejado.
Após alguns metros de corrida desesperada, todos chegaram simultaneamente a uma clareira. O lobo parado, em posição de ataque, rosnava ferozmente para dois grandes felinos cerca de nove metros à frente do grupo. Sairf e Lucano chegaram por trás das feras, parando a uma distância de três metros das mesmas. A pele alaranjada coberta de manchas negras refletia a luz lunar no meio da clareira. Posicionaram seus corpos esguios de forma ameaçadora e, num salto, avançaram em grande velocidade até o grupo principal.
Os dois guepardos saltaram em direção ao lobo, tentando atingi-lo no pescoço. O alvo conseguiu se esquivar do primeiro ataque, mas não do segundo. Nailo se encheu de fúria ao ver o sangue de seu amigo de infância nas mandíbulas do guepardo e atacou sem piedade. A espada longa do ranger atingiu o tórax de um dos animais, abrindo uma grande ferida.
Sairf veio por trás, com seu bordão, mas não conseguiu surpreender os guepardos e não conseguiu atingir nem mesmo o que já estava ferido. Inconformado, o mago aquático arrependeu-se de se aventurar na selva sem poder contar com seu poder mágico.
Anix, também não podia contar com suas magias para lutar, e teve que apelar para o seu arco. Conhecendo suas limitações, o elfo não quis arriscar e disparou a flecha á queima roupa numa das feras, arrancando-lhe a orelha direita. Porém, o mago se aproximou demais dos guepardos e, antes de poder atacar, foi severamente ferido pelo animal atingido por Nailo. As presas dilaceraram o braço de Anix, atingindo uma artéria e fazendo-o perder muito sangue. Não fosse por esse ferimento, o seu ataque poderia ter sido mais preciso e, ao invés de uma orelha, poderia ter atingido um ponto vital.
Com os animais cercados por todos os lados, Lucano estava impossibilitado de realizar qualquer ataque. O clérigo então se posicionou próximo aos combatentes, aguardando o momento certo de agir, seja lutando ou auxiliando seus amigos feridos. Com espada e escudo nas mãos, o jovem sacerdote fez uma prece à Glórien, pedindo por sua proteção.
Loand correu para ajudar seus companheiros. Sem poder usar sua espada, quebrada na luta anterior com o genasi, o paladino se via forçado a usar outras armas menos eficientes. O jovem seguidor do deus da justiça avançou com sua besta, disparando-a contra a fera atingida anteriormente por Anix. Loand conseguiu, com o virote, decepar a outra orelha do guepardo, fincando-a no chão. A fera soltou um urro de dor que ecoou por toda a floresta.
Bem atrás dos demais se encontrava Legolas. Distante do combate, o elfo precisava encontrar uma forma de atacar sem ferir seus companheiros que estavam bloqueando sua visão. O arqueiro olhou ao redor, nas árvores, e viu um galho logo acima de sua cabeça. Num salto ele alcançou o galho com as mãos e, balançando as pernas, tomou impulso para dar uma cambalhota e apoiar o ventre sobre o galho. Deu mais um impulso com os braços e, em uma fração de segundo, ficou em pé, com as costas apoiadas no tronco da árvore. Preparou uma flecha e a disparou. O projétil passou sobre a cabeça de Nailo, indo de encontro ao corpo do guepardo que enfrentava o ranger.
Enquanto a fera ainda se contorcia de dor, Squall já se deslocava em alta velocidade, contornando o flanco esquerdo de Nailo, com sua espada nas mãos. Gritando enfurecido, o feiticeiro lançou seu corpo contra o animal, cravando a lâmina da espada na altura do coração. O animal recuou com a força do golpe e caiu diante de todos, já sem vida.
Os familiares dos conjuradores atacaram conjuntamente a fera remanescente. A coruja de Sairf e o falcão de Anix conseguiram causar pequenos ferimentos no corpo o animal, ao contrário do lobo de Nailo e do falcão de Squall. Desesperado, e sem seu companheiro, o guepardo tenta fugir para a floresta. Ao dar as costas para os heróis, o animal foi duramente atacado por aqueles que estavam mais próximos. A fera conseguiu se esquivar habilmente de todos os ataques e correu até a borda da selva. Mas para sua infelicidade, Nailo saiu em seu encalço. A espada do ranger alcançou as costas do pobre felino antes que ele pudesse se esconder entre as árvores, ceifando sua vida.
Os heróis recolheram suas armas principais e pararam alguns minutos para descansar. Anix e Legolas sacaram suas adagas e começaram a retirar as peles dos animais. O mago ficou com os pedaços maiores, enquanto o arqueiro guardou consigo apenas a pele que envolvia o pescoço de um dos guepardos. Nailo e Lucano dividiram entre si as presas dos animais, arrancadas com muito esforço pelos dois. Fizeram uma rápida análise do lugar procurando as razões para aqueles animais estarem ali. Nailo encontrou pegadas de pequenos roedores seguindo na direção da trilha e as seguiu. O grupo já se levantava para seguir viagem, enquanto Anix abria o estômago de um dos animais. Ao ver que não havia nada ali, o elfo concluiu que ele e seus amigos seriam a refeição dos felinos. Sairf olhou nas genitálias dos animais e ao ver que se tratava de dois machos, concluiu que a clareira não era nenhum tipo de toca ou ninho. Os dois magos se levantaram e seguiram seus companheiros pela mata.

abril 22, 2005

Capítulo 21 - Descobertos

Os momentos finais da jornada aquática dos heróis foram calmos e sem distúrbios. Entretanto, uma terrível surpresa os aguardava em terra firme. Já dentro da gruta, os aventureiros suspenderam a balestra para dentro do navio com o auxílio de cordas. Nailo encheu um barril com água e alguns pequenos peixes e nele colocou os caranguejos que haviam capturado para que sobrevivessem até o momento de se transformarem em comida. Foi quando todos estavam próximos da entrada do túnel que conduzia até a cela que o pior temor dos heróis se tornou real.
Encontrei vocês afinal! Estavam planejando uma fuga, mas agora eu vou acabar com todos vocês, seus imprestáveis! – uma voz forte e ameaçadora vinha de dentro do túnel, ao mesmo tempo que o pobre Roryn era arremessado para dentro da gruta por alguém ou alguma coisa oculta na escuridão do corredor.
O medo tomou conta de todos e, neste momento, Anix se arrependeu de ter permitido que seus amigos contassem todo o plano de fuga para o anão. Com certeza Guiltespin os havia traído e agora o próprio Teztal estava ali para liquidá-los.
Entretanto, ao invés do temível genasi de platina, quem surgiu na entrada do corredor foi apenas um dos genasis de cobre que espancavam os escravos. Armado de seu mangual, o soldado disse ter surpreendido Roryn e os outros escravos enquanto eles fechavam a entrada do túnel secreto. Com outro soldado de guarda na entrada da cela, o genasi prometia matar os heróis e entragá-los a Teztal. Segundo ele, o soberano de Ortenko lhe daria uma grande recompensa por isso. Após trocas de insultos, os heróis se lançaram naquela que seria a mais terrível luta enfrentada por eles até aquele momento.
Sairf e Lucano usaram seus feitiços remanescentes para invocar um cão dos planos superiores e um escorpião gigante. As criaturas surgiram logo atrás do genasi, bloqueando seu caminho caso ele desejasse fugir do combate. No entanto, os ataques das criaturas eram defendidos com grande habilidade pelo soldado de cobre que, num impulso violento, aproximou-se de Anix e desferiu um forte golpe na cabeça do mago. Severamente ferido, Anix saiu cambaleante, afastando-se o quanto podia de seu inimigo e usando contra ele suas orbes ácidas restantes.
Todos perceberam a imensa força do inimigo, mas não tinham outra opção senão lutar por sua sobrevivência.
Nailo ordenou ao seu companheiro animal que ficasse em guarda e se o genasi se aproximasse que o atacasse sem piedade. O ranger entrou em combate corporal com o soldado e também foi gravemente ferido, tendo que se afastar para recuperar o fôlego.
Loand e Legolas, num movimento conjunto, circundaram o inimigo e o flanquearam levando uma pequena vantagem sobre o mesmo. Legolas, soltando seu arco sobre seus pés, passou a atacar com sua espada pelas costas do genasi, enquanto o paladino o atacava pela frente.
Loand conseguiu desferir um golpe devastador no soldado, deixando-o severamente ferido e acabando com seu ar de superioridade. O contra-ataque veio também de forma assustadora. Com meio abdome aberto pela espada do paladino, o soldado de cobre, segurando seu mangual com as duas mão, lançou a bola de aço com extrema violência na cabeça de Loand. O servo de Khalmyr caiu sob os pé do inimigo completamente inconsciente. Nailo correu para ajudar seu amigo enquanto o genasi se colocava em posição defensiva.
Todos os ataques dos heróis eram defendidos, com extrema habilidade, pelo genasi. Apenas o lobo de Nailo conseguiu atingi-lo com suas presas quando o ranger tentou, em vão, atirar o veneno coletado da serpente na floresta nos ferimentos do genasi para envenená-lo.
Sentindo que ataques com flechas não surtiam efeito, Sairf, Squall e Anix passaram a usar seus últimos truques para ferir o genasi com orbes ácidas e raios congelantes. Mas o inimigo era muito astuto e se desviava dos ataques que, invariavelmente, atingiam Legolas, drenando a vida do elfo aos poucos.
Quando Sairf congelou a parede rochosa ao lado do arqueiro, quase o atingindo, Legolas tomou distância, jogou seu arco para o alto com os pés, o apanhou em pleno ar e cravou uma flecha nas costas do genasi, deixando-o furioso.
Loand, já recuperado graças à ajuda de Nailo, levantou-se num rompante de fúria e evocando o nome de Khalmyr, golpeou o genasi com toda a força de seu corpo e o poder dado pelo seu deus para combater o mal. Bastou o genasi inclinar o corpo levemente para trás para arruinar a intenção de Loand. O paladino atingiu a rocha sólida da caverna com a sua espada, partindo-a em duas partes. Da poderosa espada bastarda passada de geração em geração, restava apenas uma pequena e insignificante adaga bastarda nas mãos de Loand. O genasi ria da desgraça do servo dos heróis e os chamava de patéticos. Irritados com o desrespeito do inimigo, Anix e Lucano prepararam seus últimos feitiços. Anix, que recebera os primeiros socorros do colega clérigo, lançou sua última magia sobre seu próprio arco, encantando-o de forma que não errasse o próximo ataque. Lucano, de forma semelhante, encantou o arco de Legolas com uma magia um pouco menos poderosa que a do mago.
Mas o genasi não se renderia tão facilmente. Voltou-se para Legolas dizendo “você não terá tempo de usar este arco, elfo” e desferiu um golpe que paralisou a todos. O crânio de Legolas foi aberto com o impacto do golpe. O arqueiro caiu pálido, vertendo grande quantidade de sangue no chão, seu peito não se movia. Legolas estava morto.
Nailo fez um sinal para Squall, que correu até o ranger, desembainhando a cimitarra do mesmo para tentar acertar o inimigo. Um novo bloqueio, com o cabo do mangual, parou a lâmina do feiticeiro. Nailo baixou a cabeça, temendo ser aquele o fim de todos e viu o corpo de Legolas dando os últimos suspiros no chão.
_Legolas ainda está vivo!!! – gritou eufórico o ranger. Lucano correu até o amigo e usou sua última prece para impedir sua morte. Com a hemorragia interrompida, o clérigo ministrou uma das poções de cura dadas por Enola para trazer o arqueiro de volta ao mundo dos vivos.
Legolas despertou a tempo de ver Anix disparar a flecha que havia encantado. O projétil percorreu o túnel como que em câmera lenta, diante dos olhares dos heróis. A flecha cortou o ar, iluminada pela fraca luz lunar que penetrava na gruta e atingiu seu alvo, exatamente no coração.
_ Malditos!!! Não posso acreditar que me venceram! Ao menos levarei alguém comigo para o mundo dos mortos, nem que seja este animal! – enquanto caia, já quase sem vida, o genasi desferiu um golpe na cabeça do lobo de Nailo. Felizmente, o ataque já não tinha o mesmo impacto de antes e apenas causou algumas escoriações no animal.
Legolas se levantou, ainda tonto, para desferir um pontapé no genasi e se livrar de toda a raiva que sentia naquele momento. Enquanto era chutado, o soldado murmurou suas últimas palavras, dizendo que seu companheiro se encarregaria de exterminá-los. Um calafrio percorreu suas espinhas. Ainda havia pelo menos um inimigo esperando por eles dentro da mina. Com muita sorte seria somente um, mas era mais provável que o soldado já tivesse dado o alarme de rebelião.
Nailo e Sairf subiram pelo túnel lentamente. O ranger colocou a cabeça para fora do fosso, olhando dentro da cela, e não teve tempo de esboçar qualquer reação quando viu um enorme machado se deslocando em direção ao seu pescoço. Para sua surpresa, o machado interrompeu sua trajetória. O outro genasi era Batloc.
Batloc aguardava que o soldado retornasse para pegá-lo de surpresa e eliminá-lo com as próprias mãos. Por uma infelicidade, o soldado havia descoberto o túnel secreto, mas, para sorte de todos, o soldado a quem ele pedira ajuda era Batloc. O paladino genasi ficou aguardando na cela, orando a Khalmyr para que seus amigos conseguissem sobreviver à fúria do genasi. Felizmente, Khalmyr ouviu suas preces e os dados de Nimb rolaram a favor dos prisioneiros.
Nailo entregou a Batloc o vidro com os pedaços do cogumelo e pediu que ele os entregasse a Elesin. Pediu também que o genasi dissesse ao druida moribundo que escolhesse Yczar e os heróis como testemunhas do sacrifício. Yczar disse ao ranger para que escondessem o corpo do soldado na floresta para que os demais genasis pensassem que ele tinha sido atacado por um animal selvagem.
Os dois retornaram para a gruta e transmitiram as instruções do genasi aos demais. Os heróis escalaram o paredão que dava acesso à floresta, arrastaram o corpo do genasi derrotado para cima e o carregaram mata adentro. Nailo usou o mangual do soldado para deixar marcas de luta nas árvores e no chão. Quebrou alguns galhos e ordenou que seu lobo mordesse o soldado e deixasse marcas de pegadas por todo o local, simulando uma luta entre o genasi e um animal. Fincou uma moita no local para deixá-la como sinal para Batloc encontrar o corpo, e cruzou os dedos para que o plano do genasi funcionasse. Após isso, começaram a debater qual seria a próxima ação do grupo. Nailo queria ir até a cabana de Enola e estava disposto a fazê-lo sozinho, se necessário. Mas seus amigos não permitiram que ele se arriscasse sozinho na selva à noite e ferido, assim todos foram juntos encontrar a dama da floresta.

Capítulo 20 - A pequena sereia

O retorno seguiu tranqüilo, para alívio de todos, até o momento em que os aventureiros se aproximaram do navio em que haviam deixado parte do tesouro encontrado.
Foram surpreendidos pela passagem de uma pequena criatura de aspecto humanóide, composta exclusivamente de água, bem diante de seus olhos. Todos rapidamente assumiram posição de combate, acreditando que seriam atacados pelo ser. Mas, para surpresa ainda maior do grupo, a pequena criatura se aproximou sem demonstrar intenções hostis, como uma criança curiosa.
Com a proximidade, Sairf viu que se tratava de um pequeno elemental da água. O elementarista da água apressou-se em se comunicar com o elemental, tentando evitar um novo combate.
Sairf disse à criatura que seus amigos não eram maus e não tinham intenção de machucar o elemental. De fato, a criatura agia como uma criança, brincando e rindo, enquanto conversava com o mago no seu idioma racial. A pequena Lada, como se apresentou a elemental, mostrou-se amistosa, para alívio de todos.
Então o grupo ouviu um som distante, parecido com o canto de um golfinho, que se tornava cada vez mais próximo do grupo. Sairf, o único que entendia o idioma aquan, reconheceu uma voz feminina suave e doce chamando por Lada. Assustado, o mago perguntou à elemental quem estava vindo e pediu que esta dissesse que os heróis não eram hostis.
Do mar aberto, uma silhueta foi se tornando cada vez mais nítida aos olhos dos jovens. Finalmente eles puderam distinguir a figura de uma pequena seria de longos cabelos azuis. Ela se aproximou chamando por Lada para que ambas retornassem para a vila.
A notícia de que havia uma vila sob o mar naquela região deixou todos espantados. A pequena sereia, na verdade uma criança tritão segundo Sairf, olhava admirada para aqueles estranhos seres do “mundo seco”. Narse, como era chamada pela elemental, examinava cuidadosamente as pernas de Saif. Ela apalpou e apertou o corpo do mago, tocando inclusive nas genitálias do arcano, com a inocência de uma criança curiosa diante de um brinquedo novo. Ao ver isso, os outros aventureiros quiseram se aproveitar da inocência da sereia e diziam a Sairf para pedir beijos, mechas de cabelo, escamas, e para tocar no corpo da pequenina. Sairf lia as mensagens escritas na areia por seus amigos e as transmitia para Narse tomando o cuidado para que a infante não tocasse nem fosse tocada em partes indevidas, preservando sua pureza. Assim, os “pés secos” fizeram contato corporal com a sereia. Ensinaram-lhe cumprimentos usados no reinado, como apertos de mãos e beijos no rosto. Nailo trocou uma mecha do seu cabelo com uma mecha do cabelo de Narse, mas quando a pequena quis trocar escamas, o ranger se negou a retirar uma de suas unhas para dar à criança, alegando que ele sentiria dor se o fizesse.
Sairf traduzia tudo o que os heróis escreviam na areia para Narse e tudo o que a pequena dizia para seus amigos, sempre tomando o cuidado de não ofendê-la ou de abusar dela. Então Anix e Legolas tiveram quase simultaneamente a idéia de pedir para dar um beijo na boca de Narse, justificando como um cumprimento especial do “mundo seco”. O mago da água sorriu e transmitiu a mensagem para a menina, mas disse que quem ensinaria a saudação seria ele. Assim, enquanto todos se descabelavam, morrendo de inveja e raiva, Sairf deu um longo e molhado beijo na pequena sereia. Narse ficou ruborizada. Disse que ensinaria aquela saudação a seu pai e a seus amigos. Sairf, ainda bestificado, disse à pequena que aquele cumprimento só era usado na superfície e que não agradaria aos tritãos. Na verdade o mago sabia que teria problemas se Trohan, o pai de Narse soubesse do que acontecera ali. A menina já havia dito que seu pai não gostava das criaturas da superfície, quando pediram para conhecer a sua aldeia. Sairf ficava com medo de imaginar o que o tritão faria com se descobrisse que ele havia flertado com sua filha, que além de tudo era ainda uma inocente criança. Narse deu outro beijo em Sairf e se despediu, retornando para o mar aberto. Sairf, já apaixonado, passou ao lado de Legolas que lhe apontou os dedos, prometendo enfiá-los nas guelras do mago e testando o efeito em si próprio para saber se aquilo causaria dor ao arcano. O sorriso sarcástico no rosto do elfo mostrou que sim.
Dentro do navio, Sairf pegou o seu manto, no qual estavam embrulhadas as moedas e todos partiram de volta à gruta do cemitério dos navios.

Capítulo 19 - Pânico na água, o retorno das caveiras

Mais alguns minutos de caminhada no fundo do mar, após se refazerem do último desafio, os heróis avistaram o navio de Guncha ancorado no cais. A nau flutuava sobre um solo rochoso. Por todo o solo haviam pequenos caranguejos circulando, peixes nadavam em volta da corrente da âncora que era habitada por diversos mariscos. Os aventureiros fizeram o reconhecimento do local e ficaram assustados ao ver ao longe, no mar profundo, uma imensa mancha negra de aparência ameaçadora. Anix foi em direção à mancha, aproximando-se lentamente, até sumir completamente. Todos ficaram espantados com o fato e elegeram dois batedores para ver o que tinha acontecido com o mago. Legolas e Nailo se aproximaram lentamente do estranho objeto, armas em mãos prontas para qualquer surpresa. Quando, no limite da visão, perceberam que se tratava de um navio afundado, aliviados, fizeram sinais para que os seus companheiros lhes acompanhassem.
Quando estavam bem próximos da embarcação naufragada, puderam ler claramente o nome Lázarus entalhado no casco. Sem dúvida alguma, aquele era o navio em que haviam chegado até a ilha. Dentro da nau, já total mente destroçada, Anix revistava o que havia sobrado dos corpos dos marinheiros com quem havia viajado. O navio já não tinha mais divisões claras de onde ficava a cabine do capitão, a cozinha ou o porão. Em meio aos corpos boiando, espedaçados e carbonizados, o elfo recolheu o que encontrou de útil, as adagas dos marujos. Nada mais podia ser aproveitado ali, as roupas estavam apodrecidas pela ação da água, e o estoque de comida não se encontrava em melhor situação.
Squall e Nailo entraram para ajudar o conjurador na busca por algo que pudesse ter serventia para eles. Enquanto o feiticeiro ajudava Anix, o ranger encontrou, em meio aos escombros no chão, o que havia sobrado da clepsidra do navio. Nailo guardou o que ainda podia ser aproveitado do relógio de água em sua mochila e foi ao encontro de seus amigos no convés no navio.
Do lado de fora, Legolas fazia cálculos e circundava a carcaça tombada da embarcação até que finalmente encontrou o que buscava. A balestra do Lázarus estava caída, semi enterrada no solo arenoso que ficava em volta do navio. O arqueiro examinou a peça com cuidado e se encheu de alegria ao ver que a arma estava em bom estado. Marcou a posição do objeto com um pedaço de madeira e subiu até a superfície cuidadosamente.
Lá em cima, oculto sob as ondas, o elfo viu dois genasis dourados circulando no convés do navio de Guncha. Com a certeza de que não havia sido notado, o elfo retornou ao fundo do mar para junto de seus companheiros, tendo em mente que com soldados de vigia, todas as suas ações teriam que ser muito cuidadosas para não arruinarem a missão.
Nas profundezas, Nailo e Sairf dirigiam-se até a popa do Lázarus em busca de mais alguma coisa de valor que pudesse ser aproveitada. Passaram ao lado do corpo carbonizado do capitão Arthur, que mais parecia um pedaço de carvão do que o capitão habilidoso que fora um dia. Enquanto retornava ao fundo e via essa cena, Legolas se emocionou e suas lágrimas se misturaram com a água do mar.
Nailo ia mais à frente, apressado e impulsivo como sempre. Sairf, um pouco mais atrás, admirado com mundo subaquático, andava lentamente prestando atenção em cada detalhe daquele lugar que tanto admirava.
Mas aquilo que parecia ser um lugar de descanso para os mortos provou ser um lugar perigoso para se aventurar. Nailo começou a caminhar por um solo arenoso e seus pés desapareciam no meio da areia fofa. Ao dar um passo, o ranger sentiu um peso estranho preso a sua perna e o pavor tomou conta de seu espírito ao ver uma mão esquelética agarrada ao sem membro. Junto com a mão, um corpo composto de ossos animados magicamente emergiu da areia e atacou o elfo. Ao mesmo tempo, outros quatro esqueletos se levantaram do chão com orbes brilhantes em suas fossas oculares e garras afiadas em suas mãos ósseas. Instantaneamente os heróis reconheceram os inimigos. Eram as mesmas caveiras que haviam enfrentado em alto mar, ainda no Lázarus. Deviam ser os esqueletos atirados ao mar que provavelmente se agarraram ao casco do navio com suas garras e agora queriam vingança.
Nailo disparou sua besta mágica no crânio do ser que o segurava enquanto este se levantava. O ataque do ranger nada fez ao monstro que revidou com sua garra afiada, rasgando as costas de Nailo.
Todos correram para ajudar o companheiro naquele momento crítico. Sairf foi o primeiro a chegar, invocando dos planos infernais um polvo para ajudá-lo no combate. Entretanto, o pequeno animal nada podia fazer contra os mortos-vivos que rapidamente cercaram os dois combatentes.
Lucano e Loand se aproximaram das criaturas por trás dando apoio aos seus companheiros. Legolas nadou até próximo do combate e, enquanto deixava seu corpo afundar, preparou seu arco para o combate.
De dentro do navio, Squall e Anix notaram que havia algo de errado quando viram um dos esqueletos passando em frente a um dos buracos no convés do navio. Rapidamente os dois correram para auxiliar os amigos com seus feitiços.
Sob as águas, as condições de luta eram ainda piores que no convés do Lázarus. Além de possuírem vantagem contra as armas cortantes e perfurantes, as caveiras eram beneficiadas pelo fato da água desviar as flechas e impedir que os heróis desferissem golpes com toda a potência que podiam. Os únicos ataques que surtiam efeito eram os dardos místicos lançados por Squall e Anix, mas depois de tantos combates, os dois conjuradores já haviam gastado quase todas as suas magias. Quando as magias acabaram, foi a pesada espada de loand que fez a diferença no combate. A arma, uma herança de família, destroçava as costelas dos esqueletos e o paladino agradecia em pensamento aos seus ancestrais por aquele presente. Enquanto o servo de Khalmyr combatia ferozmente com sua arma de família, os demais, apesar das inúmeras dificuldades, iam pouco a pouco minando a resistência dos inimigos.
Legolas, vendo que o combate à distância não surtia efeito, se aproximou dos inimigos e começou a atacar corpo a corpo com seu arco. Disparando á queima roupa, o arqueiro conseguiu desferir um tiro que seria mortal se o inimigo não fosse uma criatura morta-viva. Sua flecha atingiu o crânio do adversário que se não fosse apenas um esqueleto animado por mágica, teria sucumbido ao ataque.
Sem mais magias poderosas e podendo realizar apenas pequenos truques mágicos, Sairf afastou-se do campo de batalha. Conjurou sobre si a última magia preparada que possuía. Seu bordão emanou uma luz fantasmagórica e o mago sabia que não erraria seu próximo ataque. O arcano foi até onde legolas lutava e com um único golpe, espedaçou o monstro que ameaçava o elfo. Estilhaços de ossos atingiram as pernas de Legolas ao mesmo tempo em que seus amigos faziam tombar as últimas caveiras.
Anix certificou-se esmagou o crânio de cada esqueleto com seus pés para ter certeza de que eles não voltassem a ameaçá-los. Com todos refeitos do susto, o grupo retornou ao navio de Guncha, levando consigo um novo tesouro, a balestra do Lázarus.
Já sob a nau da genasi, após uma longa discussão e vários planos e frases riscados na areia do solo, o grupo tomou uma decisão sobre o que fazer. Todos começaram a trabalhar arduamente, arrastando as maiores rochas que encontravam para cima da âncora do navio. Após formar uma enorme pilha de rochas sobre a âncora, começaram a enterrá-la com pedras menores, do tamanho de um punho. Vinte minutos após o início do trabalho, Sairf colocou a esfera de argila encantada por Guiltespin no centro das rochas, em contato com a âncora e as pedras. O mago pronunciou a palavra de gatilho que ativava a magia e uma reação em cadeia se iniciou.
As rochas, tanto as pequenas, quanto as maiores, começaram a se fundir umas nas outras, formando enormes esferas de quase três metros de diâmetro, envolvendo a âncora e sepultando-a para sempre no fundo do mar. Temendo que o efeito se expandisse infinitamente, Nailo correu para abrir uma vala no chão, tirando as pedras mais distantes do contato com a magia. Enquanto isso, seus amigos se esforçavam para segurar a corrente do navio e impedir que ela balançasse com o movimento causado pela magia e despertasse a atenção dos discípulos de Guncha.
Após alguns momentos de tensão, o efeito mágico cessou. A âncora estava enterrada sob uma pequena montanha e suas pontas, firmemente cravadas nas rochas, só poderiam ser libertadas após muitas horas de escavação.
Legolas subiu até a superfície, escondendo-se sob a curvatura do casco do navio e constatou para seu alívio, que a montanha formada não poderia ser notada da superfície, nem mesmo sob o sol do meio-dia.
O elfo juntou-se aos seus amigos e todos iniciaram a jornada de volta à mina. Enquanto caminhava pelo solo arenoso, Legolas pisou acidentalmente em uma arraia camuflada no sob a areia e quase levou uma ferroada na perna. Nailo tentou abater o animal com a lança que trazia com sigo, retirada dos kuo-toas enfrentados no convés do Lázarus, dias atrás. Como não conseguiu, o ranger teve outra idéia para conseguir alimento para o grupo. Capturou diversos caranguejos que caminhavam pela corrente da âncora do navio e os prendeu em sua mochila. Seus amigos o ajudaram, carregando o que conseguiam em suas roupas.

abril 15, 2005

Capítulo 18 - Viagem ao fundo do mar

Rapidamente o grupo retornou à mina, onde Guiltespin os aguardava para conjurar a magia. Batloc os estava esperando perto da cela que dava acesso ao túnel secreto. O genasi paladino havia, de alguma forma, conseguido que os outros soldados ficassem alguns minutos fora da mina. Os heróis tinham não mais que alguns minutos para levar a argila até o anão e retornarem para sua cela.
Enquanto Batloc vigiava a entrada da caverna, próximo ao elevador que conduzia até o andar superior, os aventureiros se apressaram para falar com Guiltespin. Com a ajuda de um dos outros escravos, que possuía algumas ferramentas escondidas num buraco, eles quebraram os grilhões que prendiam o anão na parede da mina.
Guiltespin entoou o feitiço sobre a pequena esfera de argila. Embrulhou-a em um pedaço de pano retirado da roupa calça de Squall e a entregou a Sairf, que havia se oferecido para transportar a esfera.
_ Braxat!!! – bradou o anão em tom firme. A esfera de argila brilhou e o brilho tomou as mãos de Sairf.
_ Quando chegar até o navio de Guncha, enconste esta esfera na âncora e nas rochas que estão no fundo do mar e pronuncie a palavra flemxnaljia! Então as rochas irão se transformar em esferas e selar a âncora no fundo do mar. Não se esqueça, flemxnaljia, lembre-se bem desta palavra. – com um pouco da palha retirada de uma das camas, o anão conjurou uma magia sobre o grupo.
Todos sentiram uma súbita falta de ar por um breve instante. Quando a respiração se estabilizou, puderam perceber que agora eles tinham brânquias, como os peixes.
_ Agora vão, antes que os soldados voltem!
De posse da argila, e prontos para atravessarem o mar, os heróis seguiram o conselho do anão e correram para o elevador. Nailo ainda pediu emprestado o martelo usado pelo escravo para libertar Guiltespin. Quando o ranger chegou ao elevador, este já estava sendo puxado para beixo por Batloc.
Desceram pelo túnel rapidamente e chegaram até o cemitério de navios. Lá chegando, começaram os preparativos para a jornada aquática. Lucano pegou apenas suas armas e saltou na água. Nailo foi logo atrás levando todo o seu equipamento consigo. O ranger deixou para trás apenas seu saco de dormir. Anix foi o próximo, levando consigo seu arco, suas flechas e as amostras do cogumelo que havia pegado na floresta. Legolas pulou na água armado com seu arco de madeira negra, suas flechas, sua espada e sua armadura. Também levou consigo o fruto encantado que havia ganhado de Enola. Loand se mostrou precavido e, além da espada e da armadura, levou também uma das poções mágicas que recebera da ninfa. Sairf saltou na água com todo o seu equipamento sem pensar nas conseqüências. O mago da água começou a afundar e decidiu retornar para livrar-se do excesso de peso. Voltou para a água apenas com seu bordão, o fruto mágico de Enola e a esfera de argila encantada por Guiltespin. Squall foi o último a saltar na água, levando consigo arco e flechas, uma das poções de cura e comendo uma das frutas colhidas na selva. Antes de saltar, o feiticeiro se lembrou do mais importante. Nem ele, nem seus companheiros arcanos estavam levando suas bolsas com os componentes materiais usados para realizar os feitiços. Squall pegou sua bolsa e a de seus companheiros e saltou na água com os outros.
No início, a sensação de respirar na água era estranha e desconfortável. Mas logo os heróis foram se acostumando à situação e passaram a se sentir à vontade dentro da água. As guelras criadas pela magia de Guiltespin funcionavam perfeitamente como esperado. Sem perder tempo, seguiram para a saída da gruta pois, segundo as palavras de Guiltespin, eles teriam menos de três horas para realizar a tarefa. Calculavam que gastariam cerca de uma hora para chegar até o navio, o dobro do tempo que gastavam andando em terra. Deveriam então se apressar, ou correriam o risco de ver o efeito da magia do anão terminar enquanto ainda estivessem submersos.
Assim, os heróis iniciaram sua jornada pelo fundo do mar. Naquele lugar de águas calmas e claras, a lua em escudo fornecia iluminação suficiente para que todos pudessem ver com clareza até uma distância de quase quarenta metros ao redor. Nailo, Lucano e Squall tentaram se deslocar nadando, mas como o esforço para se manter flutuando era muito grande, resolveram acompanhar os demais e caminhar sobre o leito oceânico.
Todos estavam maravilhados com toda aquela beleza que havia em baixo d’água. Estavam numa profundidade de cerca de dez metros, caminhando em meio a corais, algas e cardumes de peixes multicoloridos. Numa brincadeira inocente, Legolas tentou abocanhar um dos peixes que passavam próximos dele. Todos apreciaram a idéia do arqueiro e em pouco tempo todo o grupo estava a caçar peixes com suas bocas. Por um breve momento os heróis se esqueceram de todos os problemas que estavam tendo que enfrentar e dos que ainda estavam por vir. Nailo provou aos outros que era um grande predador e conseguiu capturar um pequeno peixe com seus dentes. O ranger mordeu o animal com força, arrancando um pedaço de sua carne e espalhando um rastro de sangue pela água. Nailo parecia um verdadeiro selako brincando com sua presa. Nesse instante, em Pelágia, Grande Oceano, o deus dos mares se enfureceu com a crueldade que estavam cometendo com suas crias. E o castigo não tardou a vir. Atraídos pelo rastro de sangue, dois selakos atacaram o grupo com ferocidade.
Os dois enormes tubarões encurralaram o grupo contra o paredão de pedra, deixando-os com pouco espaço para se movimentarem. Sob a água, as condições eram desfavoráveis aos heróis. As flechas de Legolas eram freadas pela massa de água e nada causavam aos inimigos. Os golpes de espada desferidos por Lucano e Loand também não surtiam grande efeito, já que a água impedia que os dois golpeassem os animais com toda sua força. Nem mesmo a magia podia ser usada sem dificuldades. Entoar as palavras mágicas para conjurar os feitiços era muito difícil e algumas magias acabavam se perdendo.
Legolas e Anix uniram suas forças contra um dos tubarões, enquanto o restante do grupo concentrou todas as suas forças no outro inimigo. O arqueiro foi duramente ferido e teve seu braço quase arrancado pelo monstro, mas não recuou. Suas flechas não surtiam efeito, mas os feitiços de ataque conjurados com muito esforço por seu amigo iam minando pouco a pouco as forças do selako.
O outro tubarão enfrentava vários oponentes ao mesmo tempo e, apesar de sua força, não resistiu muito tempo. Squall, com as marcas das cinco fileiras de presas afiadas cravadas em seu peito, fazia explodir seus dardos mágicos na face da criatura, enquanto Loand golpeava com a bastarda enfurecido. O paladino também foi ferido, tendo sua cabeça quase esmagada pela mandíbula do animal. À distância, Nailo atacava com flechas, sem conseguir atingir o inimigo, ao mesmo tempo em que Sairf invocava criaturas marinhas para atacar o peixe faminto. O elemental aquático e o tritão evocados pelo mago da água deram tempo para que Lucano ajudasse Squall e Loand curasse suas próprias feridas e voltasse a atacar. O paladino conseguiu abrir o maxilar superior do tubarão com sua espada, deixando-o muito debilitado. Nailo que até então não conseguira acertar um único golpe sequer, conseguiu atingir o ferimento feito por Loand com uma flecha mortal. A abertura feita pelo paladino permitiu que a flecha do ranger atingisse sem dificuldades o cérebro da criatura, extinguindo sua vida por completo.
Todos voltaram suas atenções para o segundo selako que era combatido por Legolas e Anix. A ação conjunta do grupo deixou a fera sem qualquer chance de sobreviver, levando-o à morte pelo foi da espada de Lucano, num golpe fulminante que dividiu a cabeça do animal em duas partes.
O grupo seguiu em sua jornada, caminhando junto à costa de Ortenko, rumo ao navio da genasi de ouro. O ferimento no braço de Legolas deixava um rastro de sangue atrás do grupo. Loand pediu para que Legolas lavasse o braço, sem se lembrar de que os braço do arqueiro não poderia ser mais lavado do que já estava. O temor do paladino logo transformou-se em realidade. Atrás do sangue dos tubarões mortos e do rastro deixado pelo elfo, um numeroso grupo de selakos famintos surgiu. Em poucos segundos, as feras devoraram as carcaças de seus semelhantes e passaram a seguir o rastro deixado pelos heróis. Squall rapidamente rasgou um outro pedaço de sua calça para que Legolas pudesse enfaixar o ferimento, diminuindo assim o sangramento. Mesmo com a idéia do feiticeiro, eles precisavam fugir dali, ou seriam devorados. Ao redor deles só havia algas e pequenas pedras, nada que servisse de esconderijo. Mas um pouco distante dali, no alto mar, uma mancha negra que lembrava uma enorme rocha, parecia o abrigo perfeito para escondê-los dos predadores. Rumaram para a suposta rocha e se surpreenderam ao descobrir que na verdade tratava-se de um navio naufragado há muito tempo.
Era o esconderijo que procuravam. Entraram na nau que estava tombada no leito oceânico e se dirigiram para a popa. Entraram naquilo que devia ter sido uma cabine e fecharam a porta para impedir que qualquer ameaça os alcançasse. Lá dentro, o pouco de luz que penetrava por uma escotilha permitia ver um enorme baú dentro da cabine, junto com restos de uma mesa e algumas cadeiras.
Legolas e Loand forçaram o cadeado com suas espadas. Nailo, com a marreta que tinha pegado do escravo na mina, desferiu um forte golpe na tranca, despedaçando-a. As espadas atravessaram a madeira podre da velha arca e fizeram-na em pedaços. Uma pilha de tesouros se espalhou pelo casco do navio, fazendo com que os olhos dos aventureiros brilhassem como chamas ardentes.
Seguindo a idéia dada pelo paladino, dividiram as armas para utilizarem na jornada submarina e deixaram as moedas ali para pegarem quando voltassem. Squall usou um feitiço para descobrir se algum dos objetos era encantado. Assim eles levaram consigo apenas os tesouros mágicos, deixando as moedas dentro do navio, enroladas no manto de Sairf, para pegá-las depois.
Lucano ficou com o escudo prateado com a figura de um leão entalhada em alto relevo. Nailo pegou a besta leve que também era mágica, assim como o escudo. Loand pendurou em seu pescoço a jóia mágica que o deixava mais sábio. O camisão de cota de malha, feito da liga metálica conhecida como mithral ficou em posse de Legolas. A varinha mágica que servia para invocar criaturas foi para o feiticeiro Squall. Os pergaminhos mágicos, que seriam usados em conjunto, ficaram com Anix. E, finalmente, as poções mágicas, foram divididas de forma justa entre todos. Sairf, que não havia recebido nenhum dos outros tesouros, recebeu duas poções a mais que o restante do grupo. Assim, felizes por terem encontrado seu primeiro tesouro e já livres da ameaça dos selakos, os heróis retornaram para o mar para cumprir a sua missão.
Após uma pausa de aproximadamente dez minutos dentro do navio, os heróis voltaram a caminhar ao redor da costa da ilha. Andaram submersos por quase uma hora e todos sabiam que já estavam próximos do Imperatriz Dourada, o navio de Guncha. Entretanto, chegar até a nau da genasi não era tão fácil quanto parecia. Sairf, que no início da jornada estava maravilhado por conhecer o fundo do mar e estar em contato com as criaturas de seu elemento favorito, já não via com entusiasmo o ambiente em que estava. O mar era um lugar hostil e cheio de perigos, apesar das maravilhas que o habitavam. A água impedia que lutassem com todo o seu poder para defenderem suas próprias vidas. Mas mesmo assim, os heróis não desanimavam, todos tinham confiança de que conseguiriam cumprir a tarefa e escapar do cativeiro na ilha.
Subitamente, do mar aberto uma criatura aproximou-se do grupo em grande velocidade. Era um ser de aparência graciosa que lembrava uma mulher em miniatura. Possuía um par de asas semelhantes às de um morcego, usadas para se deslocar sob a água. Sua pele tinha uma coloração azulada e era recoberta de escamas brilhantes que contrastavam com seus olhos negros e bulbosos. Ficou muito próxima do grupo, tomou fôlego e soprou um cone de um líquido cáustico que feriu aqueles que estavam mais próximos da criatura.
Todos reagiram rápido e, enquanto suas peles queimavam devido ao ácido, começaram a atacar a criatura inimiga. Entretanto, a criatura parecia portar alguma qualidade mágica especial que impedia que os ataques dos heróis a ferissem, embora vários deles tivessem lhe atingido. Somente as magias pareciam surtir efeito na pequenina, que atacava com garras afiadas os corpos frágeis dos heróis.
Squall e Anix conjuravam mísseis mágicos contra a criatura que, enfurecida com os ataques, disparou magicamente uma esfera ácida em Anix. Por sorte o elfo conseguiu se esquivar do ataque e nada sofreu.
Com sua espada, Loand conseguiu atravessar a pele da inimiga, abrindo uma profunda ferida. Entretanto, para espanto de todos, o ferimento começou a se fechar lentamente diante dos olhares dos aventureiros. Além de resistir à maioria dos ataques que recebera, a criatura também podia se regenerar.
Cercada por todos os lados, a pequena mulher começou a entoar palavras mágicas e uma névoa negra se formou ao seu redor. A nuvem se expandiu por todas as direções quase dez metros além da criatura. O cheiro insuportável que a bruma exalava impedia os heróis de realizarem qualquer tarefa dentro dela. A única coisa que conseguiram fazer foi se afastar do alcance da névoa.
Apenas Loand conseguiu resistir aos efeitos nocivos da nuvem fétida. O paladino continuou atacando a criatura sozinho, mas esta se recuperava a cada golpe e revidava com suas garras e seu sopro ácido.
A criatura era muito perigosa e todos tinham consciência disso. Legolas sabia que todos corriam o risco de morrer. Sabia também que se Sairf morresse, a esperança de fugir da ilha estaria acabada, pois o mago da água era o único que podia ativar o feitiço que prenderia o navio de Guncha no cais. Pensando nisso, o elfo segurou o mago pela gola da camisa e o afastou da criatura o mais longe que pode, para só então retornar ao combate.
Os outros aventureiros tentavam se aproximar da criatura, mas a nuvem os impedia de realizar qualquer ação. Anix pediu a Loand que usasse seus poderes para descobrir se a criatura era maligna. Todos ficaram surpresos ao saber pelos gestos do paladino que o ser não possuía maldade em seu coração.
Anix e Nailo tentaram se comunicar com a mulher para tentar encerrar o combate de forma pacífica. As primeiras tentativas em idioma élfico falharam. Além de ser extremamente difícil pronunciar palavras embaixo d’água, a criatura aparentemente não conhecia a língua dos elfos. O mago tentou todas as línguas que conhecia, e ficou muito surpreso ao descobrir que a criatura entendia Valkar, o idioma comum no reinado. Falando com extrema dificuldade e gesticulando muito para se fazer entender, o elfo conseguiu fazer com que a criatura os deixasse ir embora pacificamente, desde que deixassem o seu território. E assim eles fizeram.