maio 17, 2006

Capítulo 204 – O desaparecimento de Squall

Capítulo 204 O desaparecimento de Squall

_ Muito bem! Vamos revistar tudo e sair daqui o mais rápido possível! Temos muito a explorar ainda! – disse Glorin, ofegante.

_ Capitão, o senhor está bem? – perguntou um dos elfos.

_ Sim! Estou bem sim! Aquela sombra maldita conseguiu me atingir, mas não é nada que eu não possa superar! – respondeu o anão.

Os heróis começaram então a investigar a capela, em busca de outros inimigos para exterminar, de câmaras secretas, pistas e tesouros. Atrás de uma das estátuas, Nailo encontrou grandes manchas de sangue, secas há muito tempo. Havia também marcas de pancada na parede e no corpo da estátua. Alguns pequenos fragmentos de madeira, incrustados na estátua, revelaram ao ranger a natureza das manchas de sangue. Alguém tinha sido encurralado naquele canto e fora golpeado até a morte por algum tipo de clava ou maça de madeira. Lucano também encontrou outras marcas menores de sangue espalhadas pelo restante do salão. Glorin ajudava o clérigo, ao mesmo tempo em que recuperava o fôlego e vigiava a porta. Legolas, sentado em um dos bancos, descansava enquanto seus amigos exploravam o lugar.

_ Capitão! O que acha de usarmos esse lugar para acampar? Sendo uma igreja, ele é mais seguro contra os mortos-vivos! – perguntou Nailo.

_ Não adianta! Mesmo sendo um templo, existiam aqueles fantasmas aqui! Mas eu poderia orar a Glórien para que ela abençoasse esse lugar! Dessa forma ele ficaria protegido contra os mortos! – interveio Lucano.

_ Não, rapazes! O melhor é ficarmos naquele quarto mesmo! Aquela porta é menor do que essa, portanto mais fácil de proteger! Além disso o lugar fica mais próximo da saída e Lucano pode abençoar aquele lugar também! – respondeu Glorin.

Após terminar de examinar a outra estátua, Anix foi na direção do altar, onde estava Squall. Depois de se debater em desespero, para se desenroscar de um corpo que estava putrefato há eras atrás do altar, o feiticeiro havia se levantado do chão e colocado sobre o balcão de pedra uma porção de objetos que ele mesmo havia derrubado. Dentre esses objetos, estavam uma varinha de madeira e um pergaminho, dos quais Squall sentia uma aura mágica emanando, uma estátua de Khalmyr, de cerca de trinta centímetros de altura, esculpida em ouro maciço, quatro jóias ovaladas de cor azul e um anel de ouro, que trazia entalhado o símbolo do deus da justiça em baixo relevo.

O feiticeiro guardou as jóias e a estátua. Colocou o anel em seu dedo e, junto com o irmão, se concentrou em decifrar o pergaminho e a varinha. Em um idioma estranho, Squall conseguiu decifrar no pergaminho os seguintes dizeres: “Glorioso Khalmyr, deus da justiça! Que suas bênçãos recaiam sobre esta arma para punir o que profanam teu nome”. Estava evidente para ele que aquele pergaminho serviria para abençoar uma arma, concedendo a ela propriedades mágicas.

Seus esforços se voltaram então para a varinha. Era um pedaço de madeira, de cerca de trinta centímetros de comprimento e fina como uma caneta. Era toda decorada com entalhes que se entrelaçavam ao longo da varinha formando uma trança. Escrita em idioma dracônico, uma palavra semi destruída pelo tempo, aumentava a aura de mistério ao redor do objeto. Squall não conseguia decifrar todo o conteúdo da palavra, e pediu ajuda a seus amigos. Nailo e Legolas também conheciam o idioma. Legolas o havia aprendido com seu mestre, nos anos em que treinara arduamente com ele. Já Nailo, aprendera por si só a língua dos dragões, depois que um deles matara alguns de seus amigos durante a infância. Com o intuito de se vingar algum dia, o ranger passou a estudar os hábitos e anatomia dessas criaturas, tornando-se um habilidoso em caçar dragões. Habilidades que tinham sido úteis no confronto com Escamas da Noite, e que agora se mostravam novamente necessárias.

_ Não dá pra entender direito! Alguns trechos das runas foram quebrados, mas a palavra a ser pronunciada tem as seguintes letras! A...desconhecida...O...R...outra que letra desconhecida...outra que não sei se seria um I ou um L...e termina com A! – disse Nailo após analisar o objeto.

_ Bom, então é simples! Basta completar as letras faltantes com todas as combinações possíveis até ativar a varinha! Deixe-me tentar! – pediu Legolas, tomando a varinha em suas mãos.

_ Mas Legolas, não vai funcionar, você não faz magia, esqueceu? – disse Squall.

_ Tem razão! Bem, mas, espere! A quinta letra da palavra a ser pronunciada é um F, tenho certeza disso! – respondeu o arqueiro, devolvendo o objeto para Nailo.

_ Bom, agora está mais fácil! Só falta descobrir uma letra! E a outra só pode ser um I ou um L! Vou tentar! – disse o ranger.

Nailo gastou um longo tempo, tentando todas as combinações possíveis, supervisionado por seus companheiros, que não o deixavam esquecer nenhuma letra. Mas, a varinha não funcionou, embora ainda existisse magia nela, como atestou Squall.

_ Já sei! Talvez ela só possa ser ativada por um usuário de magia arcana, como um mago ou feiticeiro! As poucas magias que você faz Nailo, vem dos deuses, de Allihanna! Eu não, eu retiro energia mágica dos elementos! Talvez seja isso que esteja faltando! Deixe que eu tento agora! – bradou Anix, entusiasmado.

_ Bom, como essa varinha estava num templo de Khalmyr, e estava num corpo que parece ser do antigo clérigo daqui, não deve ser uma coisa ruim! Vou usar você pra testar a magia, maninho! Akorfia!!! – prosseguiu o mago, apontando o objeto para Squall.

A varinha emitiu um brilho difuso e uma pequena sombra negra se formou em sua ponta. A sombra cresceu numa fração de segundo, ficando tão grande e assustadora quanto os espíritos das trevas que os heróis tinham acabado de combater. A sombra saiu da varinha e foi em direção a Squall, envolvendo o corpo do feiticeiro num giro frenético. A escuridão saída da varinha foi aumentando ao redor do corpo de Squall, que empalideceu e desfaleceu. Antes que o pobre feiticeiro pudesse atingir o solo, as sombras o envolveram completamente, cobrindo todo o seu corpo. Quando as sombras desapareceram em pleno ar, Squall também já não estava lá. O feiticeiro havia desaparecido completamente. Talvez para sempre. Talvez já estivesse morto.

_ Nãããão! Squall!!! Meu irmão!!! O que foi que eu fiz!!! Nãããããão!!!!! – gritava Anix desesperado, em prantos, ao se dar conta de que sua imprudência podia ter custado a vida de seu irmão. Squall, não estava mais entre eles.

maio 16, 2006

Capítulo 203 – Sombras dos mortos

Capítulo 203 Sombras dos mortos

_ Capitão! O senhor entende de pedras, certo? Quanto acha que vale essa pepita de ouro que eu encontrei? – perguntou Anix assim que chegou ao corredor.

_ Bem, eu não sou especialista em jóias, então meu julgamento não deve ser interpretado como verdade! Mas, eu acho que essa pepita deve valer algo em torno de 150 a 200 tibares de ouro! – respondeu Glorin ao tomar a pedra em suas mãos.

Lucano, Nailo e Squall chegaram ao corredor nesse instante. Lucano e Nailo tinham deixado suas coisas escondidas em um vaso dentro do quarto feminino, carregando consigo apenas aquilo que fosse realmente necessário para enfrentar os mortos-vivos. Squall, entretanto, se deixou levar pela ganância e desobedeceu a ordem, mais que coerente, de Glorin, para abandonar o que não fosse útil em combate. Squall desejava levar consigo todo o ouro que conseguira juntar a duras penas durante as aventuras pelas quais passara. Fez um acordo com Nailo, para que o ranger carregasse seu peso extra. Nailo possuía maior força física, e além disso contava com uma bolsa mágica que comprara logo após o julgamento de Legolas, e que podia carregar uma infinidade de coisas sem ter seu peso alterado. Nailo colocou todo o ouro e outros objetos de Squall na mochila, que continuava pesando cerca de oito quilos, apesar da quantidade de coisas que havia dentro dela.

Anix viu os companheiros chegando e se lembrou da atração que Nailo sentia pelo ouro, do seu desejo incontrolável de juntar pepitas de ouro quando ainda estavam presos na ilha de Teztal, mesmo arriscando sua própria vida e as dos companheiros. Pensando nisso, Anix ofereceu sua pepita a Nailo por 200 tibares de ouro, o preço máximo estimado por Glorin. Mas, o ganancioso Nailo, estava disposto a pagar apenas a metade desse valor ao companheiro.

_ Não Anix! Se você quiser troca isso comigo, só se for por 100 tibares de ouro! Também quero lucrar em cima de você, oras! Não dou nem um tibar a mais! – Nailo inflou o peito e sorriu, rejeitando com veemência o preço pedido por Anix.

_ Não, deixa pra lá então! Eu mesmo fico com essa pedra! – respondeu Anix, encerrando a negociação.

O Capitão, por sua vez, estava irritado com toda aquela barulheira produzida pelos dois. Sabia que não era o local, nem o momento para esse tipo de conversa. O anão chamou a atenção de todos para aquilo que realmente importava, os mortos-vivos. O grupo abandonou as futilidades e se concentrou em sua importante missão.

_ Muito bem Anix! Você não viu nenhuma ameaça clara lá na frente, certo? – perguntou Glorin, sussurrando.

_ Isso mesmo capitão, somente as armaduras me chamaram a atenção! – respondeu o elfo.

_ Bem, as armaduras não parecem ser um problema enquanto estivermos longe delas! Vamos começar por essas portas aqui! Vamos entrar numa delas, e apenas numa de cada vez! Vamos vasculhar o lugar em busca das pessoas raptadas e de mortos-vivos! Os mortos-vivos encontrados serão exterminados e se encontrarmos alguma coisa de valor, guardaremos para comprar cerveja depois! Qualquer outra coisa não nos interessa aqui! Entenderam? – murmurou o anão ao grupo reunido.

_ Certo, mas não vamos comprar cerveja e sim vinho capitão! – respondeu Lucano.

_ Elfos... – suspirou o capitão.

_ Capitão, sugiro que a gente abra primeiro essa porta sem a viga de proteção! Se tiver alguma coisa na sala ao lado, aquela viga de madeira vai impedir que ela sai de lá e nos ataque! – disse Nailo, apontando para a porta que estava diante deles, uma gigantesca porta de madeira reforçada, com o símbolo de Khalmyr entalhado em alto relevo.

_ Certo! Mas tentemos fazer isso em silêncio! Se algum de vocês é bom com fechaduras, tente abrir esta porta! Preparem-se todos! – concordou Glorin.

Nailo sacou sua adaga e se ajoelhou diante da porta. Tentou forçar a fechadura com a ponta da faca, sem sucesso, enquanto Anix passava uma adaga por baixo da porta, procurando alguma trava ou armadilha.

_ Afastem-se! Eu vou arrombá-la! – bradou o anão, girando seu machado com força.

Com uma pancada forte, Glorin arrebentou a porta no local onde ficava a fechadura. Pedaços de madeira podre voaram pelos ares, enquanto a porta se abria lentamente. Um rangido agoniante ecoou pelo corredor, enquanto a balança entalhada na porta se dividia em duas partes à medida que a porta de quase cinco metros de altura se abria.

Os dois lados da imensa porta em arco terminaram de ser abertos pelas mãos do anão. Glorin se posicionou diante da entrada, com sua arma preparada para atacar, enquanto Squall iluminava os cantos mais distantes do aposento com sua lanterna coberta. Pouco a pouco, os heróis foram entrando e se posicionando dentro da sala, enquanto, aos poucos, as luzes da lanterna de Squall e do arco de Legolas revelavam cada detalhe do ambiente.

Uma sala escura e muito grande, como as anteriores. Pinturas descascadas e desbotadas cobriam as paredes e o teto, retratando a figura do deus da justiça combatendo o mal, julgando as almas dos mortos, destruindo o deus serpente Zzssaas, entre outras coisas. Seis enormes bancos de madeira se distribuíam em duas fileiras, uma de cada lado da sala, deixando uma passagem central de três metros de largura entre eles. No fundo, uma mesa de pedra imponente servia de repouso para alguns objetos que brilhavam ao refletir a luz do lampião. Nos cantos ao fundo, duas enormes figuras humanóides, com três metros de altura intimidavam os heróis. Uma olhada mais atenta revelou a natureza dos dois vultos, eram estátuas do deus Khalmyr, esculpidas em pedra sólida, verdadeiras obras de arte. Estavam em uma igreja, um templo dedicado ao deus da justiça, isso estava mais do que óbvio para eles agora. A não ser pelo altar, as estátuas e pelos bancos, o lugar estava completamente desocupado. Entretanto, de forma semelhante aos outros aposentos, todas as janelas, que ficavam próximas ao teto na parede atrás do altar, estavam lacradas por tábuas de madeira e pregos.

_ Muito bem! Vamos investigar atrás dos bancos, das estátuas e do altar! Se não tiver nenhum zumbi aqui, iremos para a sala seguinte sem perder tempo! – sussurrou Glorin.

O grupo foi avançando cuidadosamente em direção ao fundo da capela. Legolas e Lucano se separaram, caminhando respectivamente pelos flancos esquerdo e direito do templo. Os dois iam ziguezagueando ao redor dos assentos, enquanto Glorin e Squall avançavam pelo meio do salão. Glorin olhava ao redor, atento para cada detalhe, sempre com seu escudo e seu machado em posição de ataque. Squall caminhava à frente do anão, usando seus poderes para detectar a existência de magia no lugar. Nailo aguardava perto da porta, com suas espadas em punho, dando cobertura à distância aos amigos. Anix seguia mais lentamente, fazendo o mesmo caminho de Lucano, intrigado com as duas estátuas.

Squall sentiu auras mágicas emanando dos objetos no altar, e alertou seus companheiros disso. Não havia nenhum inimigo no local, desta forma, o altar se tornou o objetivo do grupo. Entretanto, ao passar diante da última fileira de bancos antes do altar, Legolas despertou a atenção das criaturas que espreitavam além do alcance dos heróis.

Três criaturas disformes, compostas de uma essência negra, aglomerada numa forma que lembrava vagamente uma criatura humanóide. Aquelas sombras negras surgiram magicamente à frente de Legolas, do outro lado do salão, perto de Lucano, e atrás do altar. As criaturas se deslocaram pelo ar, atravessando objetos sólidos como se eles não existissem e foram em direção a Lucano e Squall. Legolas inclinou o corpo para trás instintivamente, tentando se afastar da mão fantasmagórica que penetrava em sua armadura. Sentiu um calafrio que percorreu todo o seu corpo enquanto o monstro tentava tocar em seu peito.

Sem perder tempo, o arqueiro apoiou sua mão direita sobre o banco e jogou seu corpo para trás, dando uma pirueta em pleno ar e caindo em pé atrás do banco. Rapidamente Legolas sacou uma flecha de sua aljava e a disparou de seu arco em cheio no centro do corpo da criatura. A flecha penetrou na criatura até desaparecer envolta em trevas. O monstro se contorceu numa expressão de dor, mas parecia que aquele ataque não era suficiente para detê-lo.

Anix e Nailo correram para ajudar os amigos. Os dois avançaram pelas laterais da igreja, Nailo com suas espadas e Anix disparando mísseis mágicos para proteger Lucano. Enquanto a sombra se retorcia e se deformava com o ataque mágico, Nailo usava um dos pergaminhos mágicos comprados por ele em Follen para aumentar sua velocidade e seus reflexos em combate.

Glorin auxiliava Lucano, usando seu poderoso machado na criatura surgida próximo ao clérigo. Mas nem toda a força do anão foi capaz de destruir o monstro. A lâmina de madeira atravessou a sombra, sem causar-lhe dano algum. Então, foi a vez dos inimigos revidarem.

A primeira sombra a aparecer atravessou o banco da igreja e levou sua mão tenebrosa ao peito de Legolas. O arqueiro empalideceu, e todos viram-no bambear e quase soltar o arco das mãos. Um calafrio mórbido percorria sei corpo, à medida que suas forças eram drenadas pela criatura.

O segundo monstro, saído de trás do altar, atacou Squall com suas mãos. O feiticeiro se encolheu de medo, escapando por pouco dos dedos gélidos do espírito. A criatura abandonou o feiticeiro, passando por dentro de seu corpo e foi até onde estava Anix.

Ao mesmo tempo, a terceira aparição sugava as forças de Glorin, deixando o anão ofegante e visivelmente enfraquecido. Da mesma forma que a outra, a sombra atravessou o corpo do anão e cercou Anix.

Vendo seu amigo cercado e correndo perigo, Lucano apontou o símbolo sagrado de Glórien na direção das duas criaturas.

_ Criaturas das trevas! Em nome de Glórien, eu as esconjuro!!!! – gritou o clérigo.

Os monstros olharam na direção do sacerdote, deformando-se e gemendo, até desaparecerem por completo da faze de Arton. Restava apenas um inimigo agora. Mesmo assim, Squall não foi capaz de controlar seu medo e correu, desesperado, em direção ao altar. O feiticeiro se atirou sobre o balcão de pedra, deslizando por cima dele, derrubando os objetos sobre ele e indo parar no chão, atrás do altar.

_ Elfos...! – bufou Glorin, demonstrando exaustão.

Legolas se afastou do último espírito maligno que restava em pé. Disparou mais uma flecha contra o inimigo, mas desta vez, o projétil atravessou pelo corpo da criatura sem causar-lhe qualquer dano, indo se chocar na parede adjacente. Coube a Anix destruir a sombra, com uma rajada de energia mágica na forma de dardos. O monstro explodiu, espalhando pedaços de sua essência por todos os lados. Pedaços que desapareciam em pleno ar logo após se separarem do corpo principal da criatura.

maio 09, 2006

Capítulo 202 – Envoltos em mistérios

Capítulo 202 Envoltos em mistérios

Nailo e Anix estavam num dos quartos, que ficava a leste de onde o restante do grupo se encontrava. Eram dois quartos de aparência semelhante. Tinham cerca de quinze metros de largura e vinte e tantos de comprimento. Na parede ao norte, quatorze camas estavam enfileiradas, lado a lado, em ambos os quartos. Na parede sul havia grandes armários, que ocupavam quase metade da parede. Duas mesas, uma próxima da entrada e outra mais ao fundo, se encontravam no centro dos quartos, cada uma rodeada por quatro cadeiras, todas empoeiradas e cobertas de teias e sujeira. Nos cantos existiam grandes vasos, com plantas secas e murchas, já sem qualquer sinal de folhas ou flores, que se partiam ao menor toque, revelando seus caules ocos e sem vida. Ao fundo existia um espaço quadrado, cercado por paredes quase tão robustas quanto às demais, e com uma porta no centro, formando um pequeno e misterioso cômodo dentro de cada quarto. Várias janelas se distribuíam pelas paredes opostas às entradas dos quartos. Entretanto, todas as janelas estavam fechadas, bloqueadas por tábuas e pregos, impedindo a entrada de qualquer iluminação externa. Os dois ambientes estavam visivelmente abandonados há muitos anos, isso era evidente. Entretanto, as tábuas e pregos que bloqueavam as janelas eram todas recentes, como se tivessem sido colocadas ali há apenas alguns dias ou no máximo, alguns meses. Estava claro para eles que os dois aposentos eram, no passado, quartos para provavelmente a criadagem do castelo. Nailo e Anix estavam no alojamento masculino, enquanto os demais estavam no quarto feminino. Após circularem pelos quartos, destruindo os pedaços dos mortos-vivos que ainda teimavam em se mover, e após constatarem que não havia mais nenhuma ameaça evidente, os heróis se dividiram e começaram a vasculhar cada metro dos quartos, em busca de pistas que pudessem revelar o que tinha acontecido aos antigos moradores do castelo, e, principalmente, quem era o seu senhor agora.

Squall abriu o armário, que ficava na parede sul do aposento. Várias peças de roupas femininas, corroídas e destruídas pelo tempo, esboçavam a prosperidade que aquele lugar pudera ter tido outrora. Guiado pela luz de sua lanterna, o aventureiro entrou dentro do antigo guarda-roupa, arrancando de seus cabides os belos vestidos que se esfarelavam ao menor toque da mão do feiticeiro. Squall foi avançando dentro do móvel, vasculhando dentro de cada bolso, atrás de cada vestido, em busca de itens ou pistas que pudessem ser úteis ao grupo. No fundo do armário encontrou uma pequena caixa de madeira. Era uma bela caixa envernizada, decorada com entalhes sinuosos e com uma pequena fechadura, onde uma chave permanecia, há eras, intocada. Squall saiu do guarda-roupa e foi até uma das mesas que existiam no aposento. Balançou a caixa, ouvindo um som de pedras se chocando lá dentro, misturado com o som de um sino fraco. Ávido por tesouros, colocou a caixa sobre a mesa e a abriu.

Uma melodia agradável tomou o lugar do mórbido silêncio que preenchia o ambiente. Nas mãos de Squall, dentro da caixa, uma pequena bailarina esculpida em madeira, girava ao som da música. Dentro da caixa de música, havia também três jóias ovaladas, mescladas em amarelo e laranja, um colar de contas brancas, possivelmente pérolas, e um par de brincos dourados em formato de pingente que terminavam em pequenas pedras esverdeadas. Squall sorriu, feliz com o tesouro que havia encontrado, e o mostrou ao capitão. Glorin, que tinha nas mãos uma tiara dourada, com pequenos cristais rosas incrustados nela, disse para Squall guardar os objetos consigo.

Não muito longe dali, estava Lucano, com um sorriso largo na boca, da mesma forma que Squall. De uma das cadeiras, debaixo da outra mesa, o clérigo retirara uma bolsa de couro feminina. Tinha cor preta, e parecia ter sido envernizada no passado, já que uma pequena área de sua superfície ainda permanecia lisa. Lucano abriu a bolsa cuidadosamente, olhando lá dentro. Num compartimento menor, havia várias moedas de ouro, já escurecidas pelo desuso. Pelo volume formado, devia haver cerca de cem moedas ali. No outro compartimento havia uma pequena caixa de madeira, pintada num tom branco já completamente amarelado pelo tempo. Lucano abriu a caixinha, que continha várias porções coloridas de um tipo de pasta já ressecada, além de alguns pequenos pincéis. Era um estojo de maquiagem. Lucano jogou o estojo na parede, deixando o estojo em pedaços e Glorin irritado com a barulheira provocada.

Havia também uma carta de amor, escrita num papel quase decomposto por alguém chamado Romen, declarando seu amor a uma tal Joulie. Além da carta, um pequeno espelho estava enroscado num bracelete de prata, ricamente decorado com temas florais. Dois anéis de ouro também estavam dentro da bolsa, um deles com detalhes que lembravam vime trançado, e um outro liso e fino, ornado com uma pequena gema azul.

Assim como Squall, o clérigo também estava feliz com os tesouros encontrados. Mas, a sensação de satisfação logo deu lugar ao temor, assim que Legolas terminou de revistar os cadáveres destruídos por eles.

_ Capitão! Eu revistei os zumbis que matamos! Tem algo muito estranho aqui! – disse Legolas, com cara de espantado.

_ O que você descobriu? – indagou Glorin, a voz rouca e baixa.

_ Bom, tem um homem, que morreu faz muito tempo! Ele tem marcas no pescoço, como se tivesse sido enforcado! Já um outro não tem marcas pelo corpo, mas apresenta uma rigidez estranha nas mãos e no rosto! Parece que ele morreu do coração ou algo parecido! E aquela mulher, tem uma marca de corte nas costas, acho que ela foi esfaqueada! Os outros corpos também, cada um parece ter morrido de um jeito distinto e em épocas diferentes! - Respondeu o elfo, gesticulando e apontando para os corpos revirados.

_ É, intrigante! Eles também têm alguma semelhança física? – perguntou o anão, coçando a barba.

_ Não! Inclusive, um deles tem a pele bem morena, totalmente diferente dos outros! – continuou Legolas.

_ É, não existem pessoas de pele escura nesta região! Significa que ele veio de longe! Parece que alguém anda raptando pessoas por ai, ou juntando cadáveres e trazendo-os para cá! – concluiu Glorin.

Legolas mostrou a Glorin um colar de prata, cravejado de pedras amarelas que havia encontrado no corpo da mulher esfaqueada e pediu para ficar com a jóia. Queria dá-la de presente a Liodriel. Glorin permitiu que o elfo guardasse o tesouro.

Então chegaram Nailo e Anix, após revistar o aposento ao lado. Anix ficou ainda mais temeroso ao ver que os dois quartos eram praticamente iguais, como se um fosse a imagem refletida do outro. O mago não sabia o que aquilo significava, mas sabia que não gostava nem um pouco daquelas estranhas coincidências.

Anix trazia consigo uma pepita de ouro, encontrada escondida dentro de uma bota que estava ainda encaixotada no guarda-roupa do outro quarto. Já Nailo tinha encontrado uma bolsa de moedas de ouro, com mais de cinqüenta delas, escondida debaixo de um travesseiro. Além das moedas, um dente de ouro brilhou sob a luz da tocha do ranger, bem como um belo broche de prata, o rosto de um leão boquiaberto, adornado com jóias vermelhas formando seus olhos e sua língua.

Os dois contaram o que viram e encontraram na outra sala aos demais. Era quase tudo igual ao quarto em que estavam agora, com exceção dos inimigos e do fato de ser um quarto masculino. Sobre uma das mesas havia um baralho apodrecido, e alguns tibares de cobre, dando a entender que alguém estava jogando pouco antes de ter que sair repentinamente. Entretanto, não havia sinais de correria pelo lugar. Nailo olhou em todo o cômodo, inclusive atrás da porta que dava acesso a um outro cômodo dentro do quarto, um banheiro há muito esquecido. Nailo investigou o banheiro, onde encontrou uma tina podre e vazia, além de uma fossa e pedaços de sabão secos e rachados. Amarrou a tocha numa corda para olhar dentro da fossa e constatou que ela já estava seca há muito tempo. Depois disso, abandonou o banheiro e foi ajudar Anix a revistar as camas. O mago já tinha olhado dentro do armário e agora se ocupava de olhar as camas, mas com um total desinteresse.

Glorin ordenou que guardassem consigo os tesouros encontrados e começou a olhar ao redor. Coçou a barba, pensativo.

_ Estranho! Dois quartos iguais, como num espelho como Anix diz! Mas o que mais me intriga é outra coisa! Desse lado só havia zumbis, enquanto que no outro quarto só havia esqueletos! Parece alguém os “guardou” separados por tipos! E o mais interessante! Esses quartos são tão grandes, com espaço para tanta gente,mas só havia cerca de dez monstros em cada um! Por que tão poucas criaturas em tanto espaço? Onde estão as outras dezenas de mortos que vimos na vila? – disse Glorin, com ar de confuso.

As perguntas do anão permaneceram sem resposta. Todos se calaram, ninguém entendia o motivo daqueles fatos estranhos. Glorin sugeriu que montassem ali um acampamento, para deixar o peso desnecessário do acampamento, e para descansarem, caso não conseguissem cumprir a missão até o anoitecer.

Nailo e Lucano começaram a levar os corpos para o outro quarto, e os atiraram dentro da fossa, para que não pudessem ameaçá-los novamente. Os outros começaram a retirar das costas todo o peso extra que carregavam, tal qual moedas, sacos de dormir e qualquer outra coisa que não tivesse utilidade para combater mortos-vivos.

Squall, usou sua mágica para analisar os tesouros que tinha encontrado, mas não sentiu nenhuma aura em seus objetos. Depois, fez o mesmo com as coisas de Lucano, Legolas, Nailo e Anix. Nenhum dos objetos encontrados possuía poder mágico, nem mesmo a tiara encontrada pelo capitão. No entanto, havia algo de mágico junto ao capitão. Squall não resistiu à tentação e começou a analisar magicamente o anão e seus objetos.

O feiticeiro sentiu que fortes auras mágicas emanavam da armadura, do escudo e do machado do anão. Sua mochila também tinha várias auras mágicas difusas, emanando dela própria e de seu interior. Squall não resistiu à curiosidade.

_ Capitão, o que você tem nessa mochila ai? Eu quero ver! – pediu Squall, inocentemente.

_ Ora, são minhas coisas! – respondeu Glorin secamente.

_ Mas eu quero saber que coisas são essas, eu tenho direito! – insistiu Squall.

_ Que tem direito nada! O que está na minha mochila é meu, não interessa a mais ninguém! Deixa de ser curioso e vamos logo com isso, terminem de aliviar o seu peso e vamos em frente! – respondeu o anão com sarcasmo.

_ Não! Eu quero saber agora! Bem que meu irmão disse que você era estranho! Você já sabe um monte de coisas da gente, leu nossas fichas no quartel em Follen, mas a gente não sabe nada de você! Eu quero saber sobre você antes de seguir em frente e quero saber o que tem nessa mochila ai que emana tanto poder mágico! E também você fica soltando gelo pelas mãos ai e nem é mago! Isso é muito estranho, estou cismado com isso! – continuou o feiticeiro.

_ Ah, garoto! Não me amole! Você também solta fogo pelas mãos e eu não me impressiono com isso! Não temos tempo pra perder com essas besteiras! Temos uma missão a cumprir! Deixe a paranóia de seu irmão de lado e vamos logo seguir em frente! – gritou o capitão.

_ Não! Eu exijo saber o que você tem ai! Eu tenho esse direito! – teimou Squall.

_ Direito coisa nenhuma! Ninguém tem o direito de fuçar nas minhas coisas a não ser eu! Sabia que esses elfos iam me dar problemas! Deixa de frescura! Temos uma missão a cumprir! Não temos tempo para essas suas frescurinhas de elfo! Agora pare de me amolar e vamos logo, antes que os mortos-vivos resolvam atacar a vila novamente! – Glorin recuou lentamente em direção à porta, enquanto ralhava com Squall.

_ Não! Eu não vou enquanto você não falar! – Squall cruzou os braços e respondeu bufando. Estava irritado, tanto pelo fato do capitão fazer segredo sobre si e seus pertences, quanto por ele questionar a masculinidade dos elfos.

_ Faça como preferir então! Eu não dou a mínima! Só sei que vim aqui para matar uns mortos e salvar algumas crianças! E eu vou fazer isso com ou sem sua ajuda! Se quiser ficar ai, fique então! Agora se quer tanto assim saber o que eu carrego e saber sobre mim, deixe de frescuras e vamos logo cumprir nossa missão, garoto! Depois que terminarmos com esses mortos, eu lhe respondo qualquer coisa que você quiser saber! Mas não venha me encher o saco agora, pois não tenho tempo pra ficar paparicando um bando de elfos frescos, tenho um trabalho importante a fazer e vou fazê-lo, com ou sem a ajuda de vocês! – Glorin avançou na direção de Squall, bufando de raiva. Seu rosto pálido agora estava corado, seu sangue fervia. O anão encarou o elfo, colocando o indicador em seu nariz, enquanto rugia como um leão feroz. Depois se afastou de Squall, encarando-o e saiu pela porta.

_ Está bem então, capitão! Mas não esqueça, quando sairmos daqui, a gente vai ter uma boa conversa! – concordou Squall, correndo para a porta.

_ Tá! Agora vamos logo! Ei Legolas, traga esse seu arco aqui pra iluminar o caminho! – sussurrou o anão, já no corredor.

Legolas saiu apressado e ficou ao lado do capitão, iluminando o corredor com seu arco mágico. Glorin olhou para ele e esboçou um sorriso, apontando para a porta que estava trancada por fora com uma viga de madeira. Os dois caminharam lentamente, acompanhados pelo restante do grupo. Glorin olhou novamente para Legolas e, quando ia fazer um gesto com a mão, seus olhos se voltaram na direção do arco mágico.

_ Diga-me Legolas! Onde conseguiu esse arco? – perguntou Glorin em voz baixa.

_ Ah! Era de um dragão que nós matamos! – respondeu Legolas, orgulhoso.

_ Um dragão? Deixe-me ver isso! – exclamou Glorin, espantado.

Legolas entregou o arco ao anão, que começou a observá-lo atentamente. O anão parecia assustado.

_ É verdade capitão! Nós matamos uma dragonesa negra que tinha raptado minha noiva, junto com um ex-amigo meu! Ela disse que tinha matado um dragão branco e tomado esse arco dele! – continuou Legolas.

Glorin arregalou os olhos ao ouvir as palavras de Legolas. Todos perceberam a estranha reação do anão. Parecia que o mistério ao redor dele era maior do que se imaginava.

_ O senhor já tinha visto esse arco antes capitão? – perguntou Anix, desconfiado.

_ Não! Só achei estranho ele brilhar no escuro! – Glorin voltou ao estado normal. Sua voz estava novamente fria como o gelo, falava com a tranqüilidade de flocos de neve em queda.

_ Mas isso é porque ele é um arco mágico! Não sei por que se assustar com isso! – continuou Anix.

_ Bom, é que meu machado também é mágico, mas nunca brilhou assim! Achei isso bem diferente! Bem, mas isso não importa agora, vamos seguir em frente! – Glorin deu um sorriso encabulado e depois fez uma expressão séria. O anão se calou e prosseguiu em seu caminho, chamando seus bravos companheiros para a batalha.

maio 03, 2006

Capítulo 201 – Mortos por todos os lados

Capítulo 201 Mortos por todos os lados

_ Bem, parece que não corremos mais o risco de sermos cercados caso precisemos bater em retirada! Podemos seguir adiante então! Anix, já que você está invisível mesmo, você será nosso batedor! Você irá na frente! Mas apague essa vela antes, senão de nada adiantará essa sua invisibilidade! – Disse Glorin, abrindo as portas que levavam adiante.

As portas se abriram para um largo corredor, de quase seis metros, e de comprimento desconhecido. Os heróis avançaram em bloco cerca de cinco metros, parando diante das duas primeiras portas que existiam no corredor. Anix seguiu em frente, protegido por sua magia de invisibilidade, avançando lentamente, tateando as paredes e explorando com cuidado cada canto do piso com seus pés.

Depois de caminhar na escuridão total por cerca de quinze metros, Anix encontrou uma grande porta na parede da direita. Era uma porta dupla de madeira alta e larga, com quase seis metros de um batente ao outro. Anix tateou a porta com cuidado, e notou que ela era toda entalhada. Não resistiu e acendeu uma vela, mesmo contrariando as instruções de Glorin, para poder ver o que estava desenhado na porta. O anão levou a mão ao rosto e suspirou, ao ver o brilho da vela surgindo no meio do corredor.

Anix olhou a porta com cuidado, e logo reconheceu os entalhes que simbolizavam uma balança de dois pratos apoiados numa espada. Era o mesmo símbolo que aparecia nos medalhões carregados por Yczar, Batloc e Loand, o símbolo de Khalmyr, o deus da justiça.

O mago se virou, e viu na parede oposta, uma grande porta, de dimensões e aparência idênticas à anterior. Os entalhes eram a única coisa que diferenciavam uma da outra. Nesta, existiam detalhes de instrumentos musicais, flores e pássaros. Um outro detalhe chamou a atenção de Anix, uma robusta viga de madeira, apoiada sobre hastes de metal presas à porta, trancava-a por fora. Anix ficou intrigado com aquilo, tentando deduzir o porquê daquela proteção, e quais perigos estariam trancados ali dentro.

Sem perder muito tempo com devaneios, o mago seguiu adiante. Seis metros depois, ele encontrou mais duas portas, uma oposta à outra. Estas, eram portas simples, comuns. Anix continuou andando e após mais seis metros, encontrou outra porta comum, mas desta vez, apenas na parede direita. O corredor virava para a esquerda, se abrindo num grande salão, com uns quinze metros de largura aproximadamente.Seguindo em frente, havia outra porta grande, de frente para o corredor pelo qual caminhava, e centrada nele. Na porta, Anix podia ver claramente o mesmo símbolo que estava entalhado no portão de entrada e nas espadas encontradas por Lucano e Legolas. O elfo virou para a esquerda, abandonando a porta no final do corredor seguindo a extensão dele. Duas armaduras de batalha completas serviam de adorno no saguão, encostadas cada uma numa das paredes do salão e em pé sobre pedestais de pedra. Cada armadura segurava uma espada em suas mãos, com a ponta voltada para baixo, apoiada sobre a base de pedra.

Além das armaduras existiam outros vultos de tamanho semelhante, perdidos na escuridão. Temendo uma armadilha, Anix pegou um pergaminho mágico e conjurou a magia que estava nele. Estendeu as mãos na direção das armaduras e sentiu fortes auras mágicas de conjuração presentes nas duas. Anix lançou uma nova magia, sobre a armadura mais próxima dele, dissipando a aura mágica que ela possuía. Então ele foi cuidadosamente até a armadura e retirou a espada de suas mãos. Era uma espada bastarda, sem grandes detalhes ou adornos. Anix levou a arma consigo e voltou na direção de seus amigos, usando sua magia para detectar auras mágicas atrás de cada porta que encontrava no caminho de volta. Porém, não detectou nada mágico atrás de nenhuma delas. Anix entregou a espada a Glorin, e contou ao seu grupo tudo que havia encontrado no corredor.

Todos concluíram que a porta com o símbolo de Khalmyr devia ser uma capela, como sugeriu o anão. Também concordaram que atrás da porta trancada com a viga de madeira deveria existir um grande perigo, ou então as crianças que foram raptadas de Carvalho Quebrado, se é que ainda estavam vivas. Também concordaram que as armaduras com auras mágicas poderiam conter armadilhas, pois ninguém deixaria armaduras mágicas abandonadas sem proteção alguma, em exposição num corredor. Após uma longa discussão sobre qual caminho tomar, os heróis decidiram começar a exploração pelas portas mais próximas, deixando livre de perigos o caminho para a saída. Glorin entregou a espada para Nailo e deu a ordem para que ele abrisse a porta da direita. O capitão ainda conversava com Anix, quando foi surpreendido pelo som da porta sendo arrombada pelo ranger. Glorin nem teve tempo de dizer nada, sendo surpreendido também por Squall e Legolas, que arrombaram a porta oposta, criando a possibilidade do grupo ser cercado no corredor. Glorin suspirou em desaprovação e entrou, calado, na porta da direita, junto com Nailo. Enquanto isso, Lucano, Legolas e Squall invadiam o aposento da esquerda. Anix, ao invés de ajudar seus amigos, apenas se sentou no corredor e pôs-se a ler seus pergaminhos.

Os dois grupos avançavam simultaneamente, mas em salas opostas. À medida que iam caminhando, a iluminação fornecida pela tocha de Nailo e pelo arco de Legolas, ia revelando os detalhes dos aposentos.

Eram dois quartos de tamanho, formato e aparência semelhantes. Numa das paredes, a direita para o grupo de Glorin e a esquerda para o grupo de Lucano, existiam vários armários antigos e um vaso com uma planta seca e morta. Na parede oposta, existiam camas, alinhadas paralelamente até o alcance da visão. Alguns vultos, que pareciam ser mesas com cadeiras, surgiam na escuridão, no meio dos quartos, à medida que avançavam.

Nailo soltou sua tocha no chão, e a chutou em direção ao meio do aposento, enquanto que na sala ao lado, Legolas se abaixava para investigar sob as camas. As duas fontes de luz, a tocha e o arco, fizeram algo brilhar no meio da escuridão dos quartos, despertando a atenção dos heróis. Glorin e Nailo viram pequenas luzes vermelhas, cintilando como fogo, avançando rapidamente em sua direção, até revelar uma dezena de esqueletos orbes brilhantes que investia contra os heróis. Lucano e os outros viram algo se aproximando lentamente, num movimento débil. Uma dezena de zumbis, atraídos pelo cheiro da carne fresca dos heróis, caminhava para atacá-los.

Rapidamente, Legolas soltou seu arco no chão, pegando o outro arco que trazia consigo, e com o qual já estava acostumado a lutar, e disparou uma flecha certeira, na garganta de um dos mortos que atacava. Legolas gritou, chamando pelos companheiros que tinha ido investigar o quarto ao lado, alertando-os da presença dos zumbis. Do outro lado do corredor, os esqueletos cercavam rapidamente Glorin e Nailo, atacando-os com suas garras afiadas, rasgando a carne dos dois aventureiros. Glorin respondeu a Legolas, dizendo que ele e Nailo já tinham seus próprios inimigos para cuidar, enquanto Nailo finalmente entendia a natureza do som que havia escutado atrás da porta, minutos antes, o barulho dos pés dos esqueletos se chocando contra o piso de pedra, enquanto as criaturas caminhavam pelo aposento.

Os esqueletos corriam ao redor de Nailo e Glorin, atacando-os com suas garras. Os dois combatentes de defendiam como podiam, esquivando e contra-atacando quando tinham oportunidade. Glorin conseguiu destruir um dos inimigos num desses ataques oportunos, mas ainda restavam vários deles. Nailo também, com muito esforço, conseguiu se livrar de um dos seus adversários.

Enquanto isso, na sala ao lado, os zumbis se aproximavam lentamente dos heróis, dando-lhes tempo para atacar. Legolas disparava suas flechas, fazendo tombar um a um os cadáveres animados. Lucano fulminava-os com sua espada espiritual, abrindo verdadeiras crateras nos corpos das criaturas. Já Squall, ao ver os mortos caminhando, entrou em choque. Em sua mente estavam os difíceis momentos enfrentados em Carvalho Quebrado, contra a horda de mortos-vivos, os diversos tipos de criaturas semelhantes encontradas na montanha de Durgedin, os pesadelos premonitórios que tinha tido. Squall não conseguiu se controlar e entrou em pânico, fugindo desesperadamente dali. Squall correu para fora do corredor, trancando-se no salão de entrada do castelo, tremendo de medo, enquanto seus amigos lutavam corajosamente.

Na outra sala, Glorin começava a demonstrar o seu verdadeiro poder. Um a um, o capitão ia derrubando no chão os esqueletos que estavam à sua volta. As criaturas iam ao chão com seus crânios esfacelados, suas costelas estilhaçadas, membros moídos em milhares de pedaços minúsculos pelo machado do anão. Glorin atacava girando ao redor de si, limpando o caminha até a porta e até Nailo, até que restaram apenas dois esqueletos.

_ Nailo, cuide do resto! Eu vou ajudar os outros rapazes! – gritou Glorin, saindo pela porta.

Nailo brandia a espada bastarda conseguida por Anix, e manejava a arma com grande habilidade. Entretanto, não era tão hábil quanto se capitão, e tinha mais dificuldades para derrotar os dois inimigos que o cercavam. Os monstros flanquearam Nailo, desferindo sucessivos golpes em seu corpo. Nailo se esquivava e se defendia com a espada, escapando da maioria dos ataques, mas não conseguiu ficar ileso de ferimentos. Mesmo em desvantagem numérica, Nailo superou a dor e conseguiu derrotar os dois inimigos, restando apenas uma grande pilha de ossos podres e partidos espalhados pelo chão.

Paralelamente, no outro cômodo, Legolas e Lucano travavam uma batalha épica contra os zumbis. Vendo-se cercado, Legolas deu um salto mortal para trás, girando no ar e caindo sobre uma das camas. Ao mesmo tempo, o arqueiro ainda foi capaz de sacar uma flecha e dispará-la com precisão no crânio de um dos inimigos. A arma espiritual convocada por Lucano se encarregava de manter os inimigos afastados, mutilando-os a cada ataque. Quando os mortos finalmente se aproximaram do clérigo, Lucano decidiu tentar algo que até então não usara em toda sua carreira como sacerdote. Tomado de coragem e fé, Lucano ergueu o símbolo de Glórien na direção dos zumbis, e gritou o nome de sua deusa. O amuleto brilhou por um instante, e os mortos-vivos começaram a recuar, assustados e visivelmente mais fracos.

As criaturas fugiam do clérigo como gatos evitando a água, tropeçando nos móveis, nos corpos que jaziam pelo chão e até mesmo uns nos outros. Muitos deles foram ao chão, atordoados pelo poder do clérigo, dando oportunidade para que os heróis atacassem com mais facilidade. Entretanto, a batalha que parecia ganha fez Lucano cometer um erro. O sacerdote abusou de sua sorte e se aproximou demais de algumas das criaturas. Sem ter para onde escapar, os monstros foram obrigados a superar o pavor que sentiam e cercaram o clérigo. Foi quando Anix e Glorin chegaram para ajudar. Anix entrou no aposento disparando rajadas de energia mágica para todos os lados. A cada disparo, um inimigo tombava morto definitivamente. Glorin entrou no quarto com seu poderoso machado, golpeando os cadáveres que restavam em pé. Os heróis avançaram na direção dos inimigos, Legolas disparando flechas mortais, Anix atacando com magias destrutivas, Glorin com seu machado mortal e Lucano usando seu poder para enfraquecer os inimigos e desferindo golpes letais de espada, até que não restou mais nenhum morto-vivo em pé.

Squall, por sua vez, finalmente conseguiu superar o pavor e retornar a tempo de destruir um dos últimos zumbis com um raio de chamas ardentes. Duas dezenas de criaturas que compunham o exército de mortos-vivos já estavam aniquiladas. As forças do inimigo estavam reduzidas ainda mais e sem nenhuma perda para os aventureiros. Após recuperarem o fôlego, os heróis retomaram a exploração dos dois aposentos, correndo contra o tempo, para terminar a missão antes do anoitecer.

maio 02, 2006

Capítulo 200 – Enxame...o ataque dos ratos

Capítulo 200 – Enxame...o ataque dos ratos

Centenas, talvez milhares de ratos despertaram com o ruído provocado pelo elfo. Surgiram do meio do mato seco dentro do barracão, de trás da mobília, do teto. Eram tantos ratos avançando na direção de Legolas, que lembravam uma onda indo em direção à praia. Os animais corriam em direção à saída, passando por cima de tudo que estivesse em seu caminho. Aquela assustadora massa de animais de chocou com Legolas. Os ratos passavam por cima do arqueiro, atropelando-o e uns aos outros. Sentindo-se ameaçadas, as pequenas criaturas atacavam tudo o que viam com suas presas afiadas, além de defecar e urinar constantemente. Legolas ficou nauseado, sendo pisoteado por aquelas criaturinhas nojentas, e sua única reação possível naquele momento foi pedir ajuda aos companheiros.
Todos ouviram o chamado de Legolas, e viram dezenas de ratos saindo de dentro da forja abandonada. Rapidamente, Nailo pegou um frasco de óleo em sua bolsa e o entregou para Lucano. O clérigo acendeu o pano que tapava o recipiente com sua tocha, e correu até a porta do barracão para atirá-lo nas criaturas que cercavam Legolas.
_ Moleque, se você queimar minha roupa eu te mato! – gritou Legolas, ameaçando o amigo que tentava lhe ajudar, enquanto os ratos passavam por dentro de sua boca.
Lucano ficou indeciso, com medo de ferir Legolas com as chamas e arremessou o vidro de óleo além do arqueiro. O frasco explodiu ao se chocar com o chão, espalhando óleo em chamas numa grande área ao redor do local de impacto. Entretanto, os animais não foram atingidos, e continuaram atacando enquanto fugiam desesperados, avançando também por cima de Lucano.
Glorin avançou na direção dos animais, congelando-os com seu raio polar. Dezenas de criaturas caíram mortas, sendo rapidamente pisoteadas pelas que vinham atrás.
Squall correu, parando diante da porta. Concentrou sua mente e conjurou uma magia. Pequenas chamas surgiram entre os ratos, dotadas intrigantes apêndices que lembravam pequenas pernas. As chamas saltavam como se tivessem vida própria, pareciam dançar em meio à multidão de ratos. Mas, sua aparência inofensiva logo foi substituída pelo espanto. Cada vez que algum rato colidia com alguma das pequenas chamas dançarinas, era provocada uma pequena explosão, que aniquilava dezenas de ratos. Foram cinco explosões ao redor de Legolas, que reduziram em um terço a quantidade de ratos. Mas Squall sequer teve tempo para comemorar o sucesso de sua magia. Os ratos restantes, que ainda eram muitos, avançaram sobre ele e Glorin, mordendo-os e sujando-os com seus excrementos.
Anix correu para ajudá-los, entrando corajosamente no meio dos animais para chutá-los para longe de seus amigos. Os pequenos monstros subiram por cima do mago também, deixando nele suas marcas.
Legolas se afastou do bando de ratazanas que atravessava a porta, ficando fora de seu alcance e disparou uma flecha congelante entre as pernas de Squall. O projétil perfurou alguns ratos, mas logo foi coberto pela massa de animais que se espremia para fugir. Os ratos alcançaram a área do jardim e se dividiram em dois grupos. Nailo viu as criaturas correndo na sua direção e usou seus poderes para ficar invisível para os pequenos animais. O ranger entrou no outro barracão, que fora um celeiro no passado, e escapou da investida das criaturas.
Squall fez um leque de chamas mágicas com suas mãos, incendiando os animais, enquanto Lucano se refugiava na casa da forja com Legolas. Glorin tentava acender uma tocha para combater as criaturas, enquanto Anix ainda se debatia, tentando vencer os inimigos com os pés.
Os ratos já se distanciavam, e o combate já não se fazia mais necessário. Entretanto, os jovens não queriam deixar que os ratos saíssem ilesos, queriam se vingar pelos ferimentos sofridos e pela humilhação que aquelas criaturinhas lhes faziam passar. Assim, Legolas correu até a porta, e arremessou a pequena bola de dentro de sua bolsa na direção dos ratos que fugiam para o mato. A bolinha se transformou num javali que foi rapidamente coberto pelos ratos e começou a combatê-los desesperadamente. Nailo correu até a porta também, preparando um novo frasco de óleo para jogar nas criaturas. Glorin já estava com a tocha acesa, pronta para ajudar Nailo em seu plano, quando Squall se colocou entre os dois. Os três ficaram espremidos no corredor, se acotovelando enquanto os ratos se distanciavam. Squall usou novamente lançou um leque de chamas mágicas a partir de sua mão, reduzindo ainda mais o número de criaturas. Entretanto, as chamas atingiram também os três heróis que se espremiam para atacar os ratos, ferindo-os ainda que superficialmente.
Os animais fugiram, deixando os heróis para trás, sujos e feridos. Os heróis aproveitaram para revistar os dois galpões, enquanto Glorin observava o jardim ao lado do castelo para onde os ratos tinham fugido. Lucano encontrou uma espada de cabo prateado com a lâmina toda trabalhada e com pequenos cristais vermelhos incrustados no cabo. Glorin, observando o movimento dos ratos no jardim, ficou convencido de que ali não existia nenhuma outra criatura que pudesse ameaçá-los além dos ratos. Nailo vasculhou o antigo celeiro, onde encontrou apenas restos de cavalos mortos há tempos. Os esqueletos foram destruídos para prevenir que se levantassem e atacassem os aventureiros. A área estava limpa, então era hora de partir para investigar outro lugar do castelo.
O grupo já estava de saída, quando Anix viu nas mãos de Lucano a espada que o clérigo acabara de encontrar e ficou intrigado. Anix pediu para ver a espada de Lucano e a de Legolas, e comparou as duas armas. O mago achava intrigante o fato de haverem galpões idênticos no castelo, exatamente opostos um em relação ao outro. E mais estranho ainda era o fato de Legolas e Lucano terem encontrado cada um uma espada de tamanho semelhante, cada uma em uma das forjas do castelo. Anix estava desconfiado quanto àquele fato, parecia que os dois lados do castelo eram idênticos, como se estivessem refletidos num espelho.
Entretanto, as espadas não eram iguais. A não ser pelo fato de ambas serem espadas longas, e por possuírem jóias e entalhes em suas lâminas e cabos, elas não tinham nada em comum. Os desenhos diferiam, as jóias diferiam, o local onde estavam abandonadas eram diferentes. A única coisa igual nelas era um símbolo, um escudo com um leão e uma faixa sobre ele, que aparecia tanto nas espadas, quanto na porta principal do castelo e no portão. Deveria ser o brasão da família que habitara aquele castelo algumas gerações atrás, mas nenhum deles conhecia aquele símbolo.
Os heróis seguiram para o outro lado do castelo, onde havia um corredor que terminava na torre direita da fortaleza, uma construção idêntica àquela por onde eles haviam entrado. De forma semelhante, também havia pegadas espalhadas pelo chão, pés humanóides e do mastim de Thyatis, como reconheceu Nailo. Havia também rastros de animais menores, provavelmente filhotes do cão que guardava o saguão de entrada. Não havia pegadas na escada, dando a entender que ninguém havia subido até o alto da torre. Entretanto, como todas as torres eram interligadas pela muralha do castelo, nada impedia que alguém subisse por outra torre e chegasse até ali para cercar os heróis. Com o intuito de prevenir isso, os heróis montaram uma armadilha para surpreender quem tentasse descer a escada. Com sua espada, Nailo destruiu alguns degraus, e enfraqueceu a estrutura de outros, criando uma armadilha para quem tentasse saltar o buraco feito por ele.
Agora sim eles tinham certeza de que não seriam cercados caso precisassem sair rapidamente do castelo. Mas uma coisa preocupava Squall. Seu irmão havia desaparecido.
Anix tinha ficado para trás, enquanto os demais investigavam a torre. Squall retornou para encontrá-lo, mas não o viu em lugar algum. O feiticeiro retornou para a torre desesperado, irritado com Glorin, por terem deixado Anix sozinho. O anão se zangou e, junto com os outros, correu para o salão principal. Lá, começaram a chamar pelo mago.
_ Estou aqui! – respondeu calmamente Anix. No lugar de onde vinha a voz, uma luz brilhava, flutuando a cerca de um metro do chão.
Anix estava invisível. Somente era possível ver a luz da vela, acesa por ele para não ficar perdido na escuridão. Alegres por encontrar o amigo são e salvo, os heróis seguiram adiante, rumo ao interior do castelo.