agosto 16, 2006

Capítulo 218 – Orações e rituais, os poderes mágicos revelados

Capítulo 218 Orações e rituais, os poderes mágicos revelados

A manhã do 15º dia de Lunaluz, um aztag, finalmente chegou, trazendo novamente o sol para aquecer o mundo. Os heróis acordaram e começaram a se preparar para continuar em sua árdua jornada. Engoliram um pedaço das suas rações junto com um gole d’água. Sem que ninguém visse, principalmente o capitão, Lucano bebericou alguns goles de sua garrafa de vinho. Aos poucos foram vestindo suas armaduras, conferindo as armas e preparando as magias que usariam naquele dia. Lucano orava a Glórien, a deusa dos elfos, pelas suas bênçãos. Como fazia todas as manhãs, o jovem clérigo realizava suas orações e através delas se entregava à Deusa como seu instrumento sagrado, reafirmando seus votos de lealdade a ela. Em troca, a mãe dos elfos derramava uma centelha de seu poder divino sobre o seu servo, que ele utilizava como energia para realizar seus feitos mágicos. O poder concedido era limitado e portanto devia ser utilizado com sabedoria. Lucano escolhia os tipos de magias que iria utilizar durante o dia e transformava a energia recebida da deusa nessas magias. Assim, quando precisasse utilizá-las, seriam necessários alguns poucos gestos e palavras para disparar a ativação do feitiço. Quanto mais leal e mais poderoso o clérigo, maior era o poder recebido por ele da deusa.

Já Anix utilizava a magia de forma diferente. Seus poderes não vinham dos deuses, como no caso de Lucano, mas sim da natureza, dos elementos. Anix empregava um grande esforço com estudo para criar rituais complexos e demorados que conseguissem captar a energia latente que o cercava e moldá-la à sua vontade. Essa energia, também chamada de mana, poderia ser retirada da água, do fogo, da terra, do ar, das plantas, da luz e até das trevas. Entretanto, durante o cotidiano, um mago não teria tempo disponível para gastar com longos rituais, principalmente se estivesse em uma situação crítica como um combate, por exemplo. Justamente por isso o mago, assim como outros de mesma classe, preparavam com antecedência as magias que usariam durante o dia. O que ele fazia era, logo no início do dia, realizar todos os rituais necessários para ativar as magias sem no entanto ativá-las, deixando alguns pequenos detalhes para serem concluídos no momento em que se fosse utilizar o feitiço. Desta forma, em apenas algumas frações de segundo, com o uso de algumas palavras, gestos e componentes certos, Anix poderia completar o ritual iniciando pela manhã e fazer surgir uma bola de fogo destruidora. A escolha das magias, assim como no caso de Lucano, deveria ser feita com muita sensatez para não desperdiçar energia com algo que não fosse útil e principalmente, para não ficar sem os recursos necessários para os desafios do dia a dia. Além de tudo, a mana era uma forma de energia poderosa e indomável. Um mago necessitava de um grande esforço para conseguir dominá-la e devido a esse motivo necessitava de longas horas de repouso absoluto para poder preparar corpo e mente para controlar a energia. Ainda assim, não existia um mago conhecido que fosse capaz de domá-la por completo. Todos estavam sujeitos a um certo limite diário de poder que seriam capazes de controlar. Assim, quanto mais poderoso o mago, mais numerosas e mais poderosas seriam as magias que ele poderia utilizar.

Squall também utilizava o poder da mana para realizar seus feitos mágicos, mas de forma diferente da de seu irmão. Enquanto Anix se via obrigado a elaborar grandes rituais para conseguir usar a energia mística, seu irmão tinha a capacidade de controlá-la com facilidade. Pessoas como Squall eram conhecidas como feiticeiros e não magos, como Anix. Os feiticeiros possuíam o poder de canalizar a energia mágica naturalmente através de seus corpos e transformá-la em mágica de forma natural. Squall também necessitava de um longo período de repouso para preparar seu corpo para usar a mana, mas, diferente de seu irmão, só precisava gastar uns poucos minutos por dia em concentração total para reunir mana para utilizar durante o dia. A energia ficava concentrada em seu corpo e ele a moldava da forma que desejasse, criando os efeitos mágicos que precisasse, sem ter a necessidade de tentar prever as magias que usaria como faziam os magos. Se precisasse de fogo, bastava ele desejar o fogo, pronunciar as palavras corretas, gesticular de maneira adequada e usar alguns itens como foco para transformar a mana armazenada em seu corpo em fogo. Assim ele convertia a energia diretamente em qualquer um dos seis elementos ou usava a energia no seu estado puro para realizar outros feitos como controlar a mente ou fazê-la explodir numa rajada brilhante. Mas, a esses benefícios se contrapunham algumas limitações. Da mesma forma que um mago, o feiticeiro era capaz de armazenar somente uma certa quantidade de mana para usar durante o dia, ainda que fosse uma quantidade maior que a dos magos. Quanto mais poderoso o feiticeiro, mais poderosas as magias e maior a quantidade delas que ele poderia lançar. Squall também tinha um repertório relativamente pequeno de magias. Enquanto um mago podia através de pesquisa e rituais vir a aprender qualquer magia que desejasse, o feiticeiro estava limitado àquilo que seu corpo e sua mente eram capazes de criar a partir da mana pura. Enquanto que Anix precisava apenas ler seu grimório e seguir os rituais nele descritos para fazer qualquer façanha, Squall tinha que aprender como transformar a energia dentro de seu corpo, o que significava um esforço grande e complicado. O sangue de um feiticeiro poderia ferver quando ele transformasse a mana em fogo. Mas controlar a temperatura deste sangue conscientemente para criar efeitos diferentes com o mesmo fogo era uma tarefa tremendamente árdua. Dessa forma, enquanto Anix possuía dezenas de magias à suas disposição em seu grimório, Squall contava apenas com algumas poucas variações para utilizar.

Por fim estava Nailo, que contava com um repertório limitadíssimo de poderes concedidos por Allihanna, a deusa da natureza, a quem o ranger pagava tributo e, de forma semelhante a Lucano, recebia uma pequena parcela de poder divino para realizar façanhas mágicas.

Quando tudo estava finalmente pronto, os heróis deixaram o quarto que haviam feito de acampamento e retomaram sua jornada.

agosto 15, 2006

Capítulo 217 – Leitura Noturna...os livros mágicos

Capítulo 217 Leitura Noturna...os livros mágicos

_ Lembro-me de meu mestre! Certa vez, ele foi picado por uma serpente venenosa, e um ranger o curou com o próprio veneno da serpente! Talvez os tentáculos do monstro sejam a chave! – Legolas se levantou de sobressalto, anunciando com entusiasmo a idéia que acabara de ter. Correu até o corpo de um dos monstros e cuidadosamente cortou um dos seus tentáculos. Usou o membro decepado para fazer um tipo de compressa em Squall. Mas o feiticeiro continuava imóvel.

Já haviam empregado todos os meios para tentar desparalisar Squall, Nailo e Lucano, mas os três continuavam imóveis. Glorin abrira forçosamente a boca de Squall para depositar nela um líquido que, segundo ele, era um poderoso antídoto e poderia neutralizar os efeitos da secreção pegajosa da criatura. O líquido desceu com dificuldade pela garganta de Squall, mas o feiticeiro continuou imóvel. Como de costume, Anix esbofeteou o rosto do irmão desesperadamente, tentando tirá-lo daquele transe sobrenatural à força. Mas o feiticeiro continuou imóvel. Legolas usou o tentáculo do próprio monstro, numa tentativa de “combater fogo com fogo”. Esfregou o órgão gosmento nos amigos caídos, mas os três continuaram imóveis. Lembraram das canções dos bardos, nas quais a princesa sempre despertava após receber um beijo de seu príncipe encantado, mas decidiram descartar a idéia. Eles até poderiam se considerar príncipes, mas com certeza os três paralisados não tinham nada de princesas. E os três permaneceram imóveis.

_ Bem, vamos embora desse lugar! Vamos retornar ao quarto onde estão nossas coisas, lá é um lugar seguro! Aí poderemos pensar com calma no que fazer com esses três! – Glorin, outrora o confiante e destemido líder do grupo, agora parecia inseguro e sem saber o que fazer naquela situação.

O anão agarrou o corpo enrijecido de Lucano e o colocou sobre seus ombros. Legolas segurou as pernas de Nailo e Squall e começou a arrastá-los para fora do banheiro. E os três voltaram a se mover.

_ Vocês estão bem? – perguntou o capitão.

_ Sim capitão! Estamos feridos e cansados, mas fora isso já estamos normais! – respondeu Nailo.

_ E sujos! Preciso de um banho urgente! – completou Squall, fazendo uma cara de nojo e derramando o conteúdo de seu cantil sobre seu corpo imundo.

_ Está certo! Vamos encerrar as atividades por hoje! Já são mais de cinco horas, creio eu, vamos retornar ao acampamento e descansar! Lá existe uma tina, que poderemos usar para tomar banho! Lucano a enchera de água usando aqueles pergaminhos encontrados na cozinha! Vamos! – continuou o anão, indo na direção do corredor.

Os aventureiros retornaram para o imenso quarto onde haviam passado a noite. Tiraram suas armaduras e armas e se entregaram ao sono e ao cansaço. Legolas trouxe, junto com Anix, a tina do quarto em frente. Nailo os dois recipientes com o que restava de água em seus cantis. Lucano pegou os pergaminhos e começou a recitar as palavras mágicas. Um brilho cálido se formou diante do sacerdote e da luz começou a jorrar água potável. A água foi vertendo dentro da tina de madeira, enchendo-a até a metade. Lucano usou os outros pergaminhos para terminar de encher os dois recipientes e os cantis do grupo. Enquanto a água jorrava, o clima de descontração tomou conta do grupo.

_ Cuidado, Lucano! Não encha totalmente a tina, ou o capitão não conseguirá alcançar o fundo com os pés! – disse Legolas rindo.

_ É verdade! Não vá matar nosso capitão afogado! – continuou Anix, já vermelho de tanto rir.

_ Grunf! Podem rir seus inúteis! Só por causa disso eu vou ser o primeiro a tomar banho! E não se preocupem, porque eu sei nadar muito bem, seu bastardos! – rosnou Glorin, irritado.

_ É verdade! Esqueci que fezes não afundam! – cochichou Legolas no ouvido de Anix, tomando cuidado para que o anão não ouvisse.

Glorin foi o primeiro a se banhar na tina d’água já cheia. Nailo ocupou a segunda vasilha de água, enquanto os demais arrumavam suas roupas e armas. Squall, o mais sujo de todos, estava impaciente.

_ Anda logo capitão! Eu estou fedendo, preciso tomar um banho logo pra me livrar dessa imundície! Além de aquele monstro ter me ferido e babado em mim, ele ainda me arrastou pra dentro daquela fossa nojenta! Meu corpo está coberto de fezes! Pare logo de brincar com esse patinho de madeira ai e deixe-me tomar banho também! – reclamava o feiticeiro com agitação.

Glorin olhou para a água, para o tal patinho de madeira e seu rosto corou levemente. Deu um sorriso malicioso e respondeu com ironia:

_ Primeira coisa! Você vai ser o último a tomar banho para não contaminar a água da banheira! Segundo! Isso aqui não é nenhum patinho de madeira! Isso aqui é o meu...bem...você sabe...e nem pense em tocá-lo! Pare de já olhar para minhas partes íntimas, sua gazela! Elfos...hunf!!! – o anão resmungou e se levantou, deixando à mostra o tal “patinho” que pendia de seu corpo. - Eu já terminei meu banho! Próximo!!!

Um a um, os jovens se lavaram, lavaram suas roupas castigadas pelas batalhas e foram descansar. Passaram alguns momentos de pura descontração, quase esquecendo do perigo que os cercava naquele castelo assombrado. Nailo aproveitou para dar algumas aulas de esgrima para Squall, usando suas espadas devidamente protegidas por tiras de pano. Anix ajudava Lucano a preencher seu grimório, ainda quase todo em branco, com magias arcanas que o mago conhecia muito bem e com outras que Lucano mesmo conseguiu criar por esforço próprio. Glorin e Legolas cuidavam de suas armas, amolando, polindo, limpando espadas, escudos, armaduras e flechas. Uma hora após o anoitecer, fizeram uma rápida refeição, devorando em poucos segundos suas rações. Todos eles já estavam cansados de ter que comer aquelas rações intragáveis e ansiavam por sair logo daquela fortaleza amaldiçoada para poderem dormir em camas quentes e confortáveis e para terem uma comida decente para apreciarem. Após o jantar, Nailo retomou as lições dos seus alunos, ensinando-os a linguagem dos povos silvestres. Infelizmente, não poderiam mais aprender a língua dos povos aquáticos, já que o mago Sairf há muito deixara o grupo para seguir atrás de sua amada sereia Narse. Por isso mesmo eles se dedicavam ao máximo durante as aulas de Nailo. Junto com as lembranças de Sairf, também vieram as de outro amigo querido, Sam Rael. Nesses momentos o alegre bardo sempre tocava alguma coisa para embalar o sono de seus amigos. Squall pegou então o seu alaúde, que fazia parte da antiga orquestra do castelo, e começou a tocá-lo, relembrando os dias de aventura ao lado de Sam. Anix tentou acompanhá-lo com uma flauta que havia pegado no salão de baile, mas foi vaiado pelo grupo e interrompeu sua desastrosa performance, aborrecido.

Legolas terminou seu trabalho com as armas, deitou-se em seu saco de dormir e pegou um livro em sua mochila, um livro que contava a história das religiões e deuses de Arton, e começou a lê-lo. Então, os heróis se lembraram dos misteriosos livros mágicos que tinham encontrado na biblioteca do castelo e decidiram que aquele era um bom momento para averiguá-los.

Squall foi o primeiro. Abriu seu livro, o Código de Arnlaug, e começou a folheá-lo. As paginas estavam todas amareladas e deterioradas por umidade. Algumas delas tinham as inscrições borradas e praticamente indecifráveis. As primeiras páginas estavam escritas em linguagem comum. Traziam um linguajar mais rebuscado e arcaico, mas ainda assim era possível entender o que diziam. Era um tipo de tratado sobre armaduras, que descrevia seus vários tipos e benefícios, formas de usar, vestir e construir. As páginas finais eram escritas com runas complexas, e demorariam algum tempo para serem decifradas completamente. Squall sabia que eram magias escritas naquelas páginas finais e por isso pediu ajuda a seu irmão para decifrá-las. Entretanto, algo curioso chamava a atenção do jovem feiticeiro. As últimas folhas antes das magias davam uma ênfase exagerada a um tipo de proteção mundano, as manoplas. Um longo trecho do livro era dedicado a descrever o funcionamento das manoplas, explicando os benefícios de proteger as mãos com este tipo de utensílio.O mais estranho é que, a última página escrita em valkar estava totalmente malfeita. Além de apresentar marcas de umidade e mofo, algumas letras do texto tinham sido mal impressas, com os tipos desalinhados e tortos. Algumas letras apareciam até de ponta cabeça, parecia que a folha havia sido impresso com total desleixo. Squall parou justamente nesta página, observando com grande curiosidade a bagunça formada no livro. As letras tortas eram apenas algumas poucas, em um grande texto que descrevia as vantagens de se usar uma manopla com cravos. Squall atentou para essas letras e começou a pensar. As letras eram T, que aparecia na palavra tensão (...e a tensão no braço não deve ser muito forte para...), R, que aparecia na palavra rechaçar (...rechaçar golpes de espada...), A de agarrar (...podendo agarrar o seu inimigo com maior força...), N de não (...prender arma na manopla de segurança para não cair...), S de socar (...excelente para socar inimigos sem ferir a mão...), M que aparecia na palavra manopla (...o uso deste tipo de manopla...), U da palavra unhas (...para usá-la é melhor manter as unhas bem curtas...), T de torta (...se a manopla for mal colocada poderá ficar torta durante o combate...) e por fim a letra E, que aparecia na palavra evitar (...manopla ajuda a evitar ferimentos nas mãos...). Então, de repente:

_ Transmute! – gritou Squall, juntando todas as letras distorcidas para formar uma palavra.

Todos voltaram suas atenções para o feiticeiro. Se tivesse algum inimigo por perto, certamente já teria ouvido o feiticeiro gritando. Não só isso, além do berro do feiticeiro, outra coisa chamava a atenção. O livro brilhou por um breve instante e começou a se mover, como se fosse vivo. Em uma fração de segundo o misterioso livro se desfigurou todo, como se derretesse, e foi aos poucos envolvendo a mão direita do feiticeiro até cobri-la totalmente junto com o antebraço. E quando o processo assustador terminou, o livro havia se transformado numa manopla de metal, cheia de cravos.

Squall, mais que todos os outros, estava admirado e surpreso com a transformação da manopla. Além de ter envolvido seu braço como uma proteção e uma arma eficaz, o livro tinha lhe dado outro benefício. Talvez fosse apenas impressão, mas Squall se sentia mais forte que antes de “vestir” a manopla mágica. O feiticeiro testou o poder do item, dando um forte soco na parede que estava ao lado, e confirmou sua suspeita. A manopla realmente tinha ampliado sua força magicamente. Squall continuou a olhar para o item, impressionado com seus poderes, e não conteve a emoção:

_ Caraca!!! – exclamou o feiticeiro. Então a ponta da manopla começou a ficar lentamente avermelhada e Squall começou a sentir um forte calor na mão. Assustado, ele afastou a mão do corpo o mais longe possível, imaginando que ele fosse explodir e arrancar-lhe a mão. Mas, ao invés disso, o item simplesmente disparou um leque de chamas contra a parede, muito parecido com uma magia que Squall costumava utilizar.

Todos ficaram ainda mais espantados. Aquele simples livro era muito mais útil do que parecia. Todos se reuniram ao redor de Squall para analisar a manopla, menos Nailo, que correu até sua mochila e pegou nas mãos o outro dos três livros mágicos que eles haviam encontrado.

_ Destransmute! – disse Squall, revertendo a transformação da manopla que voltou a ser o livro novamente.

_ Me deixa ver isso!!! – Legolas, ansioso e entusiasmado com o poder do livro tomou-o da mão de Squall para também experimentar seus efeitos. – Transmute!!! – gritou, mas o livro permaneceu imutável. Todos riram por um segundo do fracasso de Legolas. Squall tinha em sua mente a certeza de que somente alguém capaz de fazer magias poderia acionar o poder do livro, e Legolas não era esse tipo de pessoa. Então eles ouviram um grito agoniante que os assustou. Era Nailo.

_ O que foi Nailo? O que aconteceu? – perguntou Glorin, assustado.

O ranger nada respondeu. Permaneceu parado com o olhar vazio e uma palidez perturbadora em sua face. Seu livro estava caído no chão, diante dele. Anix deu um safanão no rapaz que finalmente despertou para a realidade e começou a balbuciar algumas palavras com dificuldade.

_ Eu...eu...! Nossa...o que aconteceu...estou zonzo...minha cabeça dói...! – Nailo falava lentamente, parecia que se perdia nas palavras, parecia que as tinha esquecido, esquecido como falar.

Os heróis colocaram Nailo sentado em seu saco de dormir, serviram-lhe um gole d’água e o acalmaram até que ele finalmente se recuperou e explicou o que acontecera.

_ Eu estava tentando ler o livro, mas não conseguia por causa das runas estranhas que existem nele! Também era difícil de ler por causa do contraste das páginas vermelhas com a tinta preta, cheguei a ficar com dor de cabeça por causa disso! Então eu lembrei do que o Lucano fez para identificar os pergaminhos, aquela magia que ele usou, e decidi fazer a mesma coisa pra decifrar esse livro! Depois que usei a magia eu comecei a ler o livro, mas senti uma forte pontada na cabeça e fiquei completamente atordoado! Por um instante eu até me esqueci quem eu era e onde estava, foi muito estranho! – explicou Nailo, ainda falando pausadamente e com dificuldade.

_ Tudo bem, garoto! Agora que você já está bom, guarde este livro e trate de descansar! Teremos um longo dia amanhã! – Glorin falava agora não como o enérgico e arrogante comandante, mas era mais parecido com um pai dedicado que cuidava do filho.

Anix recolheu o livro do chão e olhou rapidamente para seu interior. Suas páginas vermelho sangue e suas runas negras e complexas deixaram o mago um tanto assustado. Anix devolveu o livro para Nailo, que o guardou em sua mochila e depois se deitou, assim como os demais. Squall e Anix ainda permaneceram mais algum tempo acordados, pesquisando o misterioso código de Arnlaug e decifrando os encantamentos que ele continha.

Eram dez feitiços ao todo, alguns deles já conhecidos pelos dois conjuradores. O primeiro servia para conceder ao usuário uma capacidade maior de resistir a encantamentos e venenos, aumentando as resistências naturais da pessoa por um breve período de tempo. A segunda magia tinha a capacidade de criar magicamente uma esfera cáustica que podia ser usada para atacar ou simplesmente corroer amarras e coisas do tipo. O feitiço seguinte permitia que o usuário conseguisse decifrar qualquer inscrito mágico que desejasse durante a duração da magia. Era a mesma magia usada por Lucano nos pergaminhos do grupo e por Nailo no misterioso livro vermelho. A quarta magia era um capricho para os magos, criava uma assinatura personalizada que poderia ser visível ou não, dependendo da vontade do utilizador. Mas não só isso, o mago poderia usar essa marca em conjunto com outras magias para conseguir efeitos poderosos. A quinta magia seria de grande utilidade para o grupo. Com ela eles poderiam descobrir mais facilmente os poderes mágicos secretos dos itens que eles possuíam, poupando um considerável tempo com experiências e testes muitas vezes arriscados, como provara Nailo. A próxima magia era pra ser usada em casos de emergência, caso alguém despencasse de grandes alturas. Ela tinha a capacidade de diminuir a velocidade da queda e fazer a pessoa pousar suavemente no solo. O sétimo feitiço era o mais poderoso e perigoso do livro. Criava uma névoa venenosa capaz até de matar quem respirasse seu ar mortal. Depois uma magia que tinha a ver com seres de outras dimensões, outros mundos. Com ela era possível aprisionar um ser invocado, impedindo-o de retornar ao seu mundo de origem. Anix lembrou-se de Idalla, a súcubo que estava aprisionada dentro da forja do anão Durgedin e pensou que talvez a mulher demônio tivesse sido vítima daquele tipo de feitiço. A penúltima magia pertencia ao elemento fogo, e era capaz de transformar uma simples chama numa luz extremamente brilhante ou em uma grande quantidade de fumaça. Por fim, o último feitiço do livro tinha o poder de espionar as pessoas, mesmo que elas estivessem a milhas de distância, e revelar o local onde se encontravam. Uma magia melhor usada por alguém que possuísse uma bola de cristal e uma das mais poderosas do livro.

Anix e Squall demoraram algumas horas para conseguir decifrar todos os escritos. Já era bem tarde quando conseguiram finalmente terminar o árduo trabalho, mas valera a pena todo o esforço. Agora eles poderiam contar com novos recursos para enfrentarem os novos desafios que estavam por vir.

agosto 10, 2006


Capítulo 216 Vermes malditos

_ Vamos explorar este salão! Se algum pedaço de cadáver se mexer, destruam! – ordenou Glorin.

Rapidamente os heróis se dividiram dentro do aposento, vasculhando cada canto, conferindo o estado de cada cadáver. Nailo foi até a pilha de corpos no canto nordeste e começou a destruí-los com sua espada. A lâmina cortava os cadáveres um a um, até que só restasse um amontoado de carne picada no chão. Legolas, Anix e Squall reviravam as roupas dos mortos, buscando por tesouros e por pistas que pudessem lhes revelar as causas da morte de todas aquelas pessoas e da queda do castelo. Lucano percorria a sala vagarosamente, com sua mente concentrada, tentando localizar objetos mágicos no lugar. Não havia nada. Nenhuma aura mágica, nem mesmo dos restos de zumbis que ainda insistiam em se mexer, mesmo depois de picotados. Não havia passagens secretas, ao menos nenhuma que eles tivessem encontrado. Tesouros, só alguns talheres de prata sobre as mesas, cerca de uma dúzia, e míseras dez moedas de ouro dentro dos bolsos dos mortos. Nailo e Lucano dividiram o pequeno tesouro encontrado. Os heróis gastaram cerca de uma hora vasculhando toda a sala e destruindo os corpos. Ao final desse período, eles tinham dois novos caminhos a seguir.

Duas portas, uma a sudeste e outra a sudoeste, existiam dentro do cômodo. Ambas estavam fechadas e não possuíam entalhes ou outros detalhes que dessem pistas do que elas escondiam. Legolas foi até uma delas, a que ficava a leste, desconfiado. A porta estava voltada para a direção da entrada do castelo, despertando a curiosidade do arqueiro. Pediu silêncio a todos, sendo prontamente atendido sem questionamentos. Legolas girou a maçaneta e todos puderam ouvir o som de um frasco caindo no chão e se partindo em pedaços atrás da porta. O frasco que Nailo preparara para servir de alarme para o grupo. A porta conectava o salão real à sala de repouso onde as aparições haviam atacado os heróis e deixado Lucano seriamente debilitado. Restava agora apenas mais uma porta a ter seu conteúdo desvendado.

Glorin posicionou o grupo como um pelotão organizado, mandou todos prepararem suas armas e girou a maçaneta da porta. Estava aberta. O anão engoliu em seco, empurrou a porta com o pé e a atravessou escondido atrás do metal do escudo. E quase caiu inconsciente.

Um odor pútrido inundou as narinas do anão e dos elfos. A fedentina era tal que os jovens imediatamente se lembraram dos trogloditas de Khundrukar. Mas não eram trogloditas. Estavam em um corredor largo, de cerca de três metros, e tão longo quanto o salão anterior. Várias janelas altas se distribuíam pela parede esquerda do corredor. De forma semelhante ao salão real e a todos os outros aposentos do castelo, todas as janelas estavam devidamente lacradas com tábuas de madeira. No fundo existia um balcão de madeira baixo e largo. A luz da lanterna mostrou que existia um grande buraco de formato circular exatamente no centro do balcão de aonde parecia emanar toda aquela fetidez. Estavam em um banheiro. Um banheiro sujo e fedido. E há muito tempo abandonado. Sua fossa, sem receber os devidos cuidados há eras, exalava um cheiro fedorento e onipresente. Glorin tapou seu nariz largo e arredondado com as mãos e ordenou a saída do lugar.

_ Vamos embora deste lugar fedorento! Isso é só um banheiro abandonado, não tem nada de importante aqui! – a voz do anão soava estranha por causa do nariz tapado.

Imediatamente, todos saíram do lugar, retornando ao lugar onde o ar carregado de poeira e do aroma dos mortos parecia o ar fresco e puro das montanhas. Entretanto, Squall permaneceu dentro do banheiro.

_ Capitão, eu vou dar uma olhada no fundo do banheiro! Só pra ter certeza que não tem nada lá! – disse o feiticeiro tentando não respirar.

_ Eu vou com ele capitão! Só por precaução! – completou Nailo.

Glorin não deu resposta alguma. Apenas consentiu com movimento da cabeça e se afastou o mais rápido da fonte do fedor.

_ Squall! Prepare uma daquelas suas bolas de fogo! Se aparecer algum inimigo, lance-a mesmo que nós sejamos atingidos também!

_ Tudo bem, Nailo! Pode deixar comigo!

Os dois começaram a caminhar. A cada passo o cheiro ficava cada vês mais e mais forte. Era extremamente difícil conter a ânsia que sentiam ao permanecer naquela fedentina. Nailo pegou do chão uma pedra, um pequeno pedaço da laje que se desprendera do teto já envelhecido. Suas espadas estavam prontas para atacar qualquer coisa que se movesse. O ranger se aproximou da latrina, esticando o pescoço para olhar o que havia lá dentro, e soltou a pedra no largo buraco que servia de fossa. A pedra bateu em algo próximo, algo mole. Nailo chegou mais perto para olhar e viu uma massa verde e gosmenta dentro do buraco. A massa saiu do buraco tão rápida quanto um raio e revelou-se um monstro. Era um tipo de lagarta verde e muito grande coberta por um muco fétido e pegajoso. Possuía vários pares de patas que terminavam em afiadas unhas. Oito tentáculos longos se distribuíam logo abaixo da cabeça, terminando em apêndice cheios de protuberâncias que pareciam ventosas. Uma boca enorme e repleta de dentes afiados se abriu ameaçadoramente, enquanto um par de olhos insanos projetavam-se para fora da cabeça na direção de Nailo.

O ranger sequer teve tempo para reagir quando um dos tentáculos do monstro atingiu seu pescoço e o cobriu com o muco viscoso e nauseabundo. Squall se assustou, mas Nailo parecia confiante demais para isso. Manteve-se firme e imóvel, mesmo quando atacado. Nem um grito, nem uma piscada, nenhuma reação ou expressão de medo. Talvez Nailo estivesse tentando dar coragem a Squall para não se apavorar diante do monstro como fazia ao ver um morto-vivo. Talvez estivesse com o contra-ataque preparado para por um fim àquela criatura abusada. Era o que pensa Squall, sem suspeitar da terrível verdade.

Como combinado, o feiticeiro arremessou um pedaço de enxofre dentro da bocarra que rugia em sua direção e pronunciou as palavras que ele já conhecia tão bem. Uma explosão se formou, envolvendo os três num fogo devastador. Squall protegeu-se com as mãos, encolhendo o corpo para não ser queimado pelas chamas. Sorte ter deixado Cloud lá fora, pensou ele lembrando-se de seu fiel falcão. Nailo não se moveu. Continuou a encarar o monstro, com as duas espadas erguidas, como se não quisesse perdê-lo de vista. O monstro se encolheu para dentro da fossa rapidamente para depois se erguer mais veloz ainda e golpear Squall com todos os seus tentáculos nojentos. E, assim como seu companheiro, Squall parou de se mover. Estavam completamente paralisados.

_ Ouviram isso? Foi uma explosão! Aqueles dois estão com problemas! Vamos lá, rápido! – Glorin parou subitamente. Sua voz tinha era baixa e hesitante, era visível a sua preocupação. O anão se virou rapidamente e correu de volta para o banheiro acompanhado pelos demais. Ironicamente, a explosão que feriu seriamente o corpo de Nailo e Squall também foi a salvação para os dois.

O grupo invadiu o corredor com agressividade. Chegaram a tempo de presenciar o monstro saindo da latrina para atacar Nailo pelas costas com suas presas enormes. Outro monstro idêntico saiu de dentro da fossa e abocanhou a cabeça de Squall. Os dois nem se mexiam. Eram obrigados a testemunhar sem poder fazer nada enquanto os vermes os devoravam ainda vivos.

Sem pensar nas conseqüências, Glorin correu, urrando, na direção dos monstros. O machado arrancou um pedaço do todo da cabeça do que atacava Nailo, junto com um dos olhos telescópicos do monstro. O anão ergueu seu machado para desferir um novo ataque, mas não foi preciso. O corpo da criatura foi iluminado por uma luz alva que explodiu ao tocar o corpo asqueroso do monstro. A besta caiu pesadamente no chão, o anão olhou para trás e viu que tinha sido Anix. As mãos do mago apontavam diretamente para a criatura morta.

Assustado com a presença dos combatentes, o segundo monstro agarrou Squall com seus tentáculos e com sua boca repulsiva e o ergueu no ar. O monstro desapareceu dentro da latrina, levando o feiticeiro consigo. Squall via o fim se aproximando dele cada vez mais a medida que seu corpo era tragado para as profundezas. Então, sentiu as mãos de alguém o puxando para cima, salvando-o da morte certa. Era Legolas. O arqueiro estava sem seu arco, abandonara-o no chão para pegar o amigo antes que fosse tarde demais. Travava uma disputa de força com aquele ser repugnante pela vida de Squall. Enquanto isso, Lucano e Glorin tentavam entender o que acontecera ali. O clérigo chamava pelo ranger, mas este o ignorava. Parecia até que ele estava paralisado. E estava. Lucano encostou levemente no corpo de Nailo, e o jogou no chão, rijo como uma tábua. Glorin finalmente entendeu a grave situação e correu para ajudar Legolas.

Os dois juntaram suas forças e puxaram, trazendo Squall de volta à superfície. Mas, o monstro também emergiu das trevas, agarrado ao pescoço do elfo com suas presas. Os oito tentáculos serpentearam no ar rapidamente, atingindo Lucano, Legolas e Glorin. E Lucano também não se moveu mais.

Com o monstro exposto, Anix correu na sua direção entoando versos mágicos. Sua mão brilhou e faiscou, enquanto se aproximava da lagarta verde e gosmenta. Num movimento rápido a criatura golpeou o peito de Anix com um de seus tentáculos paralisantes. O mago resistiu bravamente e continuou avançando até toca na cabeça da criatura e descarregar um violento choque elétrico. Todos que estavam em contato com a criatura sofreram os efeitos da magia de Anix. Glorin, Legolas e principalmente Squall sentiram a corrente elétrica percorrendo seus corpos com violência. O monstro soltou Squall para tentar se defender e recebeu um golpe de machado que abriu seu crânio em duas partes. O monstro tombou morto, sangrando uma gosma esverdeada, enquanto Legolas se afastava com Squall.

O arqueiro deitou o companheiro no chão para tentar reanimá-lo, e percebeu que seus olhos já não tinham mais brilho. Legolas pôs o ouvido no peito do elfo caído e ouviu que seu coração batia cada vez mais fraco. Squall estava morrendo. Na tentativa de liquidar o monstro, seu próprio irmão quase acabara com sua vida. Legolas gritou desesperado para seus amigos, sem saber o que fazer para ajudar o feiticeiro. Velozmente as mãos do anão se moveram dentro de sua mochila, trazendo à luz um pequeno frasco dum líquido esverdeado. O capitão jogou o vidro para Legolas, que já sabia muito bem o que deveria fazer. Sem perder tempo Legolas abriu o recipiente e despejou seu conteúdo na boca semi aberta de Squall. Os olhos do feiticeiro recobraram a cor, e Legolas pode ouvir o coração de Squall voltando a bater com toda força. Squall estava salvo. Entretanto, ele, Nailo e Lucano ainda continuavam completamente paralisados, sem mover um músculo sequer que não fosse para respirar e manter o coração pulsando.

agosto 09, 2006

Capítulo 215 – Depósito macabro

Capítulo 215 Depósito macabro

A porta se abriu num rangido seco e agoniante. Suas pesadas dobradiças estalavam, liberando pó de ferrugem no ar enquanto Legolas e Glorin empurravam os enormes portões ao entrarem no salão. Nenhuma ameaça estava à vista. Legolas já disparara uma flecha no exato instante em que a porta começara a se abrir sem que ela atingisse ninguém. O grupo finalmente entrou, após quarenta longos minutos de espera enquanto Lucano decifrava os pergaminhos. O clérigo, assim como Anix, aguardavam do lado de fora, na retaguarda conforme decidido pelo capitão, esperando por um sinal de seu líder.

Squall e Legolas iluminaram o ambiente. A luz da lanterna alcançava os cantos mais distantes do gigantesco salão em que se encontravam. Era possível ver uma fonte seca logo diante da entrada e dois majestosos assentos de pedra lado a lado no fundo do aposento dispostos como se fossem dois tronos. Mesas decoradas e organizadas para um grande banquete se dividiam em dois pares, um de cada lado, separados pelos tronos e pela fonte. Um banquete que também não terminou. Restos de comida, talheres e pratos estavam espalhados sobre a mesa, da mesma maneira que estavam séculos atrás. Provavelmente, aquela refeição também estava envenenada.

Os olhos de Squall percorriam cada canto do aposento, acompanhados pela luz trêmula da lanterna. O facho luminoso descreveu uma trajetória em arco, indo da esquerda para a direita, onde o feiticeiro viu um vasto amontoado de corpos empilhados. Existiam carcaças apodrecidas de humanos de várias idades e em variados estados de decomposição. Mas, não houve tempo para reparar nos detalhes da pilha de mortos. Squall retornou sua atenção para a esquerda, espantado, para confirmar se o que vira de relance era real ou apenas um delírio de sua mente. Era real. O sangue de Squall congelou, suas pernas estremeceram e seu coração pareceu parar de bater. Diante dele estavam cerca de trinta pessoas mortas, caminhando em sua direção com as mãos estendidas como que desejando agarrá-lo e devorá-lo. Eram homens, mulheres, idosos e crianças, de diferentes raças e etnias. Alguns pareciam que tinham acabado de serem retirados de suas covas. Outros pareciam estar mortos há centenas de anos, com pedaços faltando e ausência quase total de pele. A pequena multidão avançava, cambaleante próxima à parede onde ficava a entrada do salão. Traziam consigo um odor nauseabundo de carne podre que enojava até os de nariz menos sensível. Como se não bastasse isso, do lado oposto do salão havia mais um pelotão de iguais proporções, avançando contra Glorin e Legolas.

_ Encontramos o que procurávamos! Eis o exército de zumbis que viemos matar! Dêem tudo de si, sem piedade e sem hesitar! – gritou o anão com o machado em riste, seus olhos brilhavam como fagulhas no meio das trevas que era o salão.

Nailo correu para o flanco direito, suas duas espadas já preparadas como as presas de um animal selvagem pronto para o bote. A maior delas se deslocou rápido, descrevendo uma trajetória circular e atravessando a garganta putrefata de um homem já sem vida. O crânio desprendeu-se do pescoço, indo se espatifar na parede, num rodopio rápido e fatal. Nailo comemorou a queda do primeiro inimigo com um urro.

Na esquerda, duas flechas perfuraram como arpões seus alvos. O primeiro deles, uma mulher de aparência ainda jovem, mas carcomida pela podridão, teve seu crânio trespassado na altura de um dos olhos. Com a força do impacto a cabeça girou para trás, quebrando o pescoço e jogando a mulher no chão. O segundo, um homem já idoso e ainda mais deteriorado, tombou com uma flecha fincada no peito, exatamente no local onde um dia já batera o coração. Legolas avançou, cauteloso, acreditando que tudo estava fácil demais para ser verdade.

Um grito de cólera ecoou por toda a sala enquanto Glorin corria na direção dos zumbis. Suas pequenas pernas davam passos curtos e ligeiros. O anão atropelou quase uma dezena de mortos, tirando-os de seu caminho com o escudo metálico. Só parou quando viu que estava cercado por todos os lados pelos inimigos. Não havia mais como prosseguir. Não havia mais como recuar. Glorin empunhou seu machado e sorriu. E mais de uma dúzia de mortos-vivos se transformaram em poeira diante de seus olhos. Seus corpos brilharam, como se acendessem por dentro, e um a um os cadáveres foram caindo no chão ao redor do anão. Glorin olhou para trás e viu Lucano. Um medalhão brilhava prateado em suas mãos, evidenciando um entalhe em forma de arco e flecha. O símbolo da deusa Glórien. O capitão entendeu a situação e novamente comandou seus soldados:

_ Esses são os zumbis invadiram a vila! Os mesmos que nós enfrentamos! Eles já estão feridos e fracos desde aquele dia! Ataquem com tudo, será fácil derrotá-los!

As palavras do anão deram novo ânimo a Squall, que conseguiu vencer o seu medo insano e enfrentar os mortos-vivos. Sua mão desceu rápida até a bolsa de componentes mágicos, de onde Squall retirou uma pequena bola de enxofre. Atirando a esfera no meio da massa morta-viva que se deslocava em sua direção, Squall proferiu suas palavras mágicas, fazendo com que a inofensiva bolinha explodisse em chamas. Pedaços de pessoas mortas voaram por todos os lados. Os corpos carbonizados tombaram no chão, exalando um cheiro de carne queimada e podre. Uma roda se abriu no meio da massa compacta que avançava. Squall achou que sua bola de fogo fosse deter a todos, mas estava equivocado.

As criaturas avançaram, passando por cima umas das outras, até conseguirem alcançar Squall e Glorin. O machado do anão ainda fez tombar três inimigos, antes de ser totalmente cercado e agarrado pelos zumbis. A multidão que cambaleava pela sala se amontoou ao redor dos dois aventureiros, envolvendo-os num abraço repugnante. Squall e Glorin caíram, cada um num canto da sala, sobe uma chuva de socos, tapas e mordidas.

_ Saiam daqui! Não me mordam, seus nojentos! Eu vou matá-los! – gritava Glorin.

Squall estava mudo.

Nailo abriu caminho entre os mortos-vivos com suas espadas como se abrisse uma trilha no mato fechado. A cada novo golpe um novo inimigo tombava mutilado. Braços, pernas, mãos, cabeças, foram aos poucos formando um mosaico sinistro no chão por onde o ranger passava. Até que ele finalmente conseguiu se aproximar de seu capitão. Continuou golpeando sem parar os cadáveres animados que se amontoavam sobre o anão. Enquanto isso, Legolas e Lucano disparavam freneticamente seus arcos para ajudar Squall. As flechas se precipitavam nos mortos-vivos, matando-os uma vez mais. Anix os ajudava com rajadas energéticas, mas os inimigos eram muitos.

Alguns deixaram de atacar Squall e Glorin para investirem contra o restante dos heróis. Nailo os cortou, Legolas e Lucano os perfuraram e Anix os queimou com magia. Squall se debatia no chão, tentando usar sua magia contra seus agressores. Mas não conseguia se concentrar no meio daquela confusão toda, tornando inúteis os seus esforços. Sentiu uma das flechas de Legolas quase lhe perfurando o ventre ao atravessar a carcaça podre de um velho que o mordia. Deitado no chão, tudo o que Squall via eram criaturas putrefatas saltando sobre si como abutres sobre a carniça. Tudo o que ouvia eram os gemidos dos mortos sobre seu corpo.

Glorin também se encontrava em situação igualmente grave. Sem poder usar seu machado ou seu escudo, tudo o que o anão conseguia fazer era gritar maldições para os agressores enquanto tentava se livrar deles. Anix se assustou com a gritaria do líder. Sentiu que precisava ajudar o capitão de alguma forma, tinha que acabar com todos aqueles monstros rapidamente. Bola de fogo. As chamas envolveram os mortos-vivos, Glorin e Nailo de forma destrutiva. O ranger se protegeu curvando seu corpo para fora da área das chamas e minimizando o estrago. O anão, preso entre uma dezena de inimigos, não pode sequer se mover.

_ Maldito! Quem foi o desgraçado que fez isso? Eu vou esfolar o filho da mãe! – Glorin se levantou de sobressalto urrando como um leão tomado pela fúria. Seu corpo estava todo chamuscado e coberto de pedaços de carne carbonizada. Agora o anão fedia tanto ou talvez mais do que os zumbis. As criaturas haviam desaparecido. Em seu lugar restavam apenas cinzas e carvão.

_ Fui eu capitão! Desculpe o mau jeito, mas eu não tinha outra opção! – Anix tentava se desculpar, arrependido por ter agido sem medir as conseqüências.

_ Você me paga garoto! Eu vou esfolar você!

­_ Desculpe capitão! Mas já que eu vou ter que pagar, então eu lhe pagarei uma cerveja pra me redimir!

_ Será preciso mais que uma cerveja pra que eu esqueça isso!

_ E que tal um barril?

_ Um barril? Estamos conversados! Agora volte ao trabalho!

Enquanto isso, Legolas continuava empalando os adversários de Squall um a um, até que restasse apenas um zumbi sobre ele. Cloud, seu fiel falcão, arrancou a cabeça do morto-vivo restante, livrando Squall do perigo. O último inimigo tombou pelas mãos do sacerdote. A última flecha atravessou o pescoço do ser repugnante de um lado a outro, fazendo-a tombar, pendurada apenas por um pedaço de pele apodrecida. O monstro ainda deu dois passos desgovernados antes de ir ao chão. Seu maxilar ainda se mexia, batendo os dentes uns nos outros cada vez mais lentamente, até o cadáver se silenciar por definitivo.

E tudo voltou ao silêncio. Os heróis recuperaram o fôlego perdido durante a batalha.Glorin se limpou, retirando os pedaços de carne queimada que estavam grudados em seu corpo e ordenou uma busca pelo local. E todos puderam finalmente ver todos os detalhes do lugar.

O imenso salão havia sido abandonado há centenas de anos. Parecia ser o aposento principal do lugar, um tipo de salão real, onde o lorde que comandava o lugar recebia seus convidados, despachava ordens para os comandados e convivia com todos nas horas de lazer apreciando as performances de algum bufão. Um banquete havia sido abandonado pela metade para ser devorado pelos ratos, baratas e moscas. Esses mesmos animais jaziam espalhados pelo chão, denunciando aquilo que a mágica divina de Lucano confirmou. Da mesma forma que o banquete no salão de festas, toda a comida do aposento estava envenenada. Mas o lugar já não estava mais abandonado. Alguém, ou alguma coisa estava utilizando o lugar para armazenar sua bizarra coleção de mortos-vivos. A sala estava infestada de zumbis, agora todos destruídos. Além disso, havia quase uma centena de corpos amontoados num canto do salão, provavelmente aguardando o momento de serem despertados como mortos-vivos por aquele que os havia colocado ali. Rastros no chão indicavam que os corpos tinham sido arrastados até ali, retirados das suas cadeiras no salão real e no salão de baile. Havia corpos de pessoas jovens e idosas, crianças inclusive. Havia homens e mulheres, fossem eles elfos, humanos, anões, halflings, etc. Estavam em variados estados de putrefação, alguns tinham morrido há eras, outros tinham sido retirados de suas covas há poucos dias e ainda conservavam terra fresca em seus farrapos. Existiam pessoas que pareciam não pertencer ao reino de Tollon. Pessoas de pele bronzeada como só os marinheiros costuma ter e até alguns de origem tamuraniana, com seus olhos rasgados. O ocupante do castelo estava reunindo pessoas de vários lugares e os transformando num exército das trevas. Era evidente que aquele salão era um armazém de zumbis e de matéria-prima para fabricá-los. O castelo inteiro servia para armazenar aquela coleção nefasta. Era um depósito macabro, que devia ser destruído o quanto antes.

agosto 08, 2006

Capítulo 214 – Almoço no salão dos espíritos

Capítulo 214 Almoço no salão dos espíritos

_ Estão todos bem? Conseguem seguir adiante? Nailo, Lucano, vocês foram os dois que mais receberam ataques! Como vocês estão? – falava Glorin, afoito, enquanto recolhia seu machado do chão.

_ Eu estou bem capitão! – respondeu Nailo, um pouco menos ofegante.

_ Eu não capitão! Já utilizei quase todas as magias que Glórien me cedeu! Além disso, aquele espírito maligno sugou minhas forças de alguma maneira! Sinto-me muito fraco e cansado! – disse Lucano. Era visível o estado lastimável do clérigo. Seu rosto, outrora corado, agora tinha a tonalidade de uma vela ou uma folha em branco nova. Além disso ele falava com dificuldade, entre uma pausa e outra para retomar o fôlego. Parecia que o simples ato de conversar já bastava para deixá-lo exausto. Os heróis entenderam o terrível poder que aquelas aparições possuíam e agradeceram aos deuses por todos terem sobrevivido àquela luta terrível.

_ Estou vendo, garoto! Você está tão pálido quanto um defunto! Vamos descansar um pouco antes de seguirmos em frente! Se algum de vocês tiver alguma magia que possa ajudar o Lucano a se recuperar, esse é o momento de usá-la! – Glorin levou a mão ao ombro do jovem elfo, confortando-o com suas palavras. Lucano imediatamente se sentou no chão, completamente exausto.

_ Capitão! Por que nós não aproveitamos para comer? Já passa do meio-dia! – sugeriu Nailo, que olhava através da porta a posição do sol.

_ Boa idéia! Vamos comer então! O momento é propício para isso e... já sei Squall, não precisa falar nada! Ficaremos todos na parte iluminada pelo sol, onde estaremos protegidos de um novo ataque! Mas vocês não devem ir lá fora, pois no meio deste matagal pode ter algum outro perigo escondido!­ – o capitão aceitou a proposta do ranger prontamente, ordenando uma pausa para o almoço. Depois, interrompeu Squall com a mão estendida e sorriu como se soubesse o que o feiticeiro iria dizer, conduzindo todos os aventureiros para a luz solar que aquecia o piso rochoso do salão. E todos puderam, por alguns instantes, esquecer de suas armas, armaduras e tirar de suas mentes as tensas batalhas que viriam pela frente.

Era um raro momento em que os jovens podiam relaxar. Nem lhes passava pela cabeça os desafios que enfrentariam dentro de alguns instantes, tampouco os terríveis eventos que seriam desencadeados no futuro, caso fracassassem em sua missão.

Os olhos de Nailo e Lucano brilhavam como duas jóias, enquanto suas mãos apalpavam os tesouros reunidos pelos dois até o momento. Nailo deu a Lucano o colar prateado que tinha sido a causa do último combate. Como retribuição, o clérigo presenteou o ranger com os anéis encontrados em outro dos cadáveres. Legolas e Anix entretinham-se com quatro belíssimos quadros que adornavam as paredes da sala. Eram quadros muito antigos e bem confeccionados por algum autor desconhecido e de grande talento. Todos eles retratavam a história da fundação do reino de Tollon. Num deles, o fundador do reino, Jeantalis Sovaluris, era retratado como um líder, conduzindo uma imensa caravana de colonos por terras congeladas e inóspitas. Em outro ele aparecia junto de seu amado filho, o jovem Tollonandir, os dois lado a lado em um imenso bosque de árvores negras. Segundo a história, Jeantalis decidiu se separar do grupo de Cyrandur Wallas, o heróico fundador de Petrinya, no meio do território das Uivantes, para tomar outra direção que ele considerava mais correta. Infelizmente, o traiçoeiro território gelado confundiu Jeantalis que demorou muito mais tempo para conseguir sair do território da rainha Belugha. O frio rigoroso ceifou a vida de muitos dos colonizadores que acompanharam Jeantalis, principalmente mulheres e crianças. Entre essas crianças estava o pequeno Tollonandir. E foi em homenagem a seu filho que o líder da caravana batizou o novo reino e as árvores negras e mágicas que o dominavam. A imagem do fundador era uma memória viva nas mentes de Legolas e Nailo, ambos nascidos em Tollon. Anix também conseguiu reconhecer o pioneiro ao observar outro quadro, no qual Jeantalis estava entregue aos prantos, segurando seu filho morto nos braços. Por fim, o mais belo dos quadros trazia o fundador já mais amadurecido, segurando a bandeira de sei país em meio à imensa selva que era o reino de Tollon. Legolas e Anix desmontavam calmamente as molduras, enquanto comiam suas rações. As telas, já sem as molduras, foram divididas entre os dois e guardadas em segurança junto com os mapas e pergaminhos que ambos carregavam.

Todos estavam calmos naquele raro momento de paz. Todos menos Squall. O feiticeiro estava enfurecido e inconformado com o estado de sua lanterna. O objeto havia se espatifado no chão ao ser jogado por Legolas no momento em que ele retornara do corredor para ajudar os amigos a enfrentar as aparições. A lanterna agora jazia toda amassada no chão e seu dono esbravejava pelo acontecido. Legolas desculpou-se com Squall, mas ele só foi se acalmar quando Nailo prometeu consertar o objeto.

Enquanto o ranger se ocupava em desamassar a lanterna, Squall investigava o ambiente, tentando localizar objetos mágicos com seus poderes. Entretanto não havia ali nada que contivesse qualquer poder mágico, com exceção de seus próprios pertences. Mas Squall descobriu algo importante, uma nova porta, oculta atrás de uma tapeçaria, que conduzia para o fundo do castelo. Era uma porta simples, de tamanho normal, com pequenos entalhes de formas geométricas diversas muito menos sofisticados que os detalhes de outras portas do castelo. A pedido de Glorin, Anix verificou a porta e descobriu que ele se encontrava trancada. Atrás dela somente silêncio e escuridão, da mesma forma que em todos os outros aposentos.

Já passava das 15:00 horas quando o grupo finalmente terminou seu descanso. Todos estavam bem alimentados, apesar do sabor nada inspirador das rações de viagem, e com as energias repostas. Reuniram seu equipamento e se prepararam para continuar a jornada. Nailo usou um dos seus frascos de óleo para preparar um alarme. Derramou o óleo no chão e equilibrou o frasco de argila na maçaneta da porta encontrada por Squall. Assim, caso algum inimigo saísse de lá, o som do frasco caindo no chão os alertaria do perigo. Legolas usou outro dos frascos para quebrá-lo e espalhar os cacos no chão, diante da porta. Se alguém passasse por ali, além de fazer barulho, iria ficar ferido e, portanto, mais fácil de ser derrotado.

Já no corredor, Glorin conferia seu equipamento e o seu grupo, integrante por integrante até chegar em Lucano:

_ E então garoto, está melhor? – perguntou Glorin a Lucano.

_ Não capitão! Continuo me sentindo muito fraco ainda! – respondeu o clérigo, desanimado.

_ Mas que droga! Desse jeito você vai ser uma vítima fácil! Temos que dar um jeito nisso! Algum de você tem alguma magia que possa ajudar? – o anão resmungou preocupado. Depois se dirigiu para o restante do grupo na esperança de uma solução.

_ Não capitão, nenhuma magia! – responderam Squall, Anix e Nailo, quase em uníssono, com as cabeças baixas.

_ Mas que situação! Já sei! E poções, vocês não têm nenhuma ai? Ou talvez algum pergaminho? – Glorin coçou a barba, pensativo. Seus olhos brilharam e sua boca se abriu num largo sorriso quando a idéia lhe veio à mente.

_ Bem, não temos nenhuma poção pra isso, mas temos alguns pergaminhos! Mas não sabemos o que eles fazem! – respondeu Nailo, mostrando o porta-mapas, onde estavam os pergaminhos encontrados por Squall na cozinha do castelo.

_ Mas que droga, usem logo alguma magia e decifrem isso! Pode ser que eles tenham grande utilidade pra nós! – ordenou Glorin.

_ Deixem comigo! Por sorte hoje pela manhã eu orei a Glórien por uma magia para usar numa ocasião como esta! Nossa deusa deve ter iluminado minha mente para que eu pedisse por esse poder! Anix, dê-me também aqueles pergaminhos que encontramos no fundo do mar, quando estávamos presos em Ortenko! Assim nós finalmente saberemos pra que eles servem!­ – Lucano, que até então estava abatido, encheu-se de energia e esperanças, e pôs-se a ler as escrituras.

Impaciente com a demora, Legolas pegou seu arco, e o apontou para a entrada do castelo, disparando uma flecha às cegas. Ouviu o som do projétil atingindo a porta de entrada e disparou uma segunda vez, esperando que, quando fossem sair do castelo, encontraria a segunda flecha fincada sobre a primeira.

Aquele amontoado de papéis sujos e velhos, repletos de rabiscos estranhos e incompreensíveis começou a se organizar lentamente. As runas foram aos poucos sendo decifradas por Lucano que, com a ajuda de seus outros amigos, foi desvendando um a um o funcionamento de cada pergaminho. Três deles eram de origem divina, magia dos deuses, e só poderiam ser utilizados pelo servo apropriado. Serviam para detectar a presença de animais e plantas e ficaram com Nailo, o especialista nesses assuntos do grupo. Dois deles Lucano conhecia muito bem o que faziam. Eram magias de cura, que o clérigo guardou consigo. Outro par deles tinha a capacidade de fazer duas pessoas se comunicarem à distância. Anix já tinha usado esse poder antes, para poder falar com Elesin, o pobre druida cujo sacrifício lhes permitiu obter os itens que necessários para sua fuga da ilha de Ortenko. Anix os guardou, assim como outros dois pergaminhos que continham uma poderosa magia de eletricidade e que também estavam no navio afundado na baía da ilha do maléfico Teztal. Os demais pergaminhos, os encontrados por Squall, foram divididos entre Lucano e Nailo. Todos eles possuíam magias de origem divina, por isso somente os dois poderiam ser capazes de utilizá-los. Cinco deles tinham o poder de criar água magicamente, suficiente para encher um recipiente. Dez deles tinham o poder de denunciar a presença de qualquer tipo de veneno, muito útil na cozinha do castelo, apesar de não terem evitado o envenenamento da comida. Outra dezena era capaz de tornar os alimentos estragados novamente bons para o consumo, eliminando os problemas do grupo com suas rações de viagem. Cinco outros tinham utilidade fundamental na cozinha, dois serviam para esfriar metais e um deles para apagar o fogo, o que deveria no passado ter evitado acidentes na cozinha do castelo. Por fim, três pergaminhos traziam aquilo que eles tanto desejavam, eram capazes de devolver a Lucano e a Nailo ao menos parte da vitalidade perdida pelos dois durante o combate com as almas sem descanso que habitavam o lugar. Lucano rapidamente usou os três pergaminhos, restaurando o vigor de seu amigo e o dele mesmo.

Era visível a melhora em Nailo. Seus olhos brilhavam com mais fulgor, sua pele já não era tão pálida e seus músculos pareciam maiores do que um instante antes. Lucano, entretanto, continuava pálido e abatido. Precisaria de muito mais que aqui para recuperar tudo que lhe haviam tirado. Somente com um longo período de repouso ele poderia recobrar totalmente seu vigor.

_ Melhorou Nailo? – era Glorin

_ Sim capitão?­ – Nailo sorria.

_ E você Lucano? – o anão olhando o elfo meticulosamente.

_ Muito pouco capitão! – Suspirou o clérigo.

_ Tudo bem! De agora em diante nós iremos protegê-lo! Você ficará na retaguarda e não se envolverá no combate corpo a corpo! Anix, você ficará na retaguarda com Lucano! Nailo, embora você tenha melhorado um pouco, ainda está bem fraco! Ficará com Squall no meio! Eu ficarei na dianteira com Legolas! – ordenou Glorin.

Todos assentiram as ordens do anão e se posicionaram diante da porta tal qual ele havia descrito. Era a maior e mais majestosa porta do andar inferior. Provavelmente atrás dela deveria ter algo grande, majestoso e talvez perigoso. Os heróis já haviam deduzido que as portas trancadas eram as que continham algum tipo de morto-vivo da coleção particular do lunático que criara aquelas aberrações. Ou seja, estavam trancadas para guardar alguma coisa, ou para aprisionar alguma coisa da qual ele tivesse medo, algo muito perigoso até para o criador de mortos-vivos, como os fantasmas na capela. Já as portas destrancadas não tinham nada de valor para o atual morador do castelo. As criaturas encontradas atrás destas portas pareciam fazer parte dos antigos moradores do castelo, de eras atrás, da época do banquete envenenado. A porta que abririam estaca trancada e com certeza guardaria algum grande perigo. Os heróis decidiram então se precaver.

Lucano usou as poucas magias arcanas que tinha conseguido aprender, com a ajuda de Anix, para proteger os corpos de Nailo e Squall. Squall usou seu poder mágico para deixar Nailo mais forte e Nailo usou dois pergaminhos que havia comprado em Follen para melhorar magicamente os seus reflexos e os de Legolas. Por último, Anix protegeu a si mesmo com uma armadura mágica. Dessa forma, eles seriam alvos difíceis de acertar e poderiam enfrentar os desafios que viriam. Mas, Lucano não se contentou e quis experimentar um pouco mais do poder arcano que começava a desenvolver.

_ Squall! Vou fazer outra magia em você! – disse maliciosamente o clérigo.

_ Obrigado Lucano! O que ela faz? Vai aumentar minha força? – perguntou Squall, inocentemente.

_ Não! Só vai fazer uma pequena flor crescer na sua cabeça! Você vai ficar muito engraçado! – sorriu Lucano, completando o feitiço.

Lucano evocou as últimas palavras mágicas, sob os protestos de Squall, e viu o mundo ao seu redor desaparecer nas trevas. Sua vista escureceu e ele perdeu os sentidos.

_ Nailo! Use aquela sua varinha e cure esse imbecil! – rosnou Glorin, recolhendo o machado que atingira a cabeça de Lucano com a lateral da lâmina.

Lucano acordou graças ao poder da varinha mágica e ao abrir os olhos, viu o anão sobre ele, com um olhar feroz.

_ Seu garoto idiota! Isso não é hora pra piadinhas! Temos uma missão a cumprir, se você tiver alguma magia pra usar, é bom que ela seja útil para a missão! Não temos tempo para perder com gracinhas! – esbravejou Glorin.

_ Nailo, use essa varinha de novo nesse idiota! Ele ainda está atordoado! Espero que você se lembre que sua gracinha custou os recursos do grupo na hora que precisarmos deles! – o anão vociferou uma vez mais para o clérigo, posicionou-se diante da porta pronto para arrombá-la com seu machado. – Prepare esse seu arco! – disse para Legolas e golpeou a porta.