outubro 10, 2006

Capítulo 243 – Vilarejo atacado

Capítulo 243 Vilarejo atacado

Alegres por finalmente chegarem a algum lugar habitado naquele imenso deserto gelado, e ansiosos por descerem dos cavalos e se aquecerem em alguma taverna aconchegante, os soldados aceleraram o trote rumo à vila. À medida que se aproximavam, notaram que pequenos vultos se deslocavam entre as raras árvores que existiam na vila e entre as casas. Temendo uma emboscada, Legolas pegou seu arco e acionou seu poder mágico, ficando pronto para atacar. Todos os seguiram o exemplo do sargento, e se prepararam para o combate.

Avançaram mais alguns metros, então um virote passou por entre o grupo, indo se perder no meio da neve. Continuaram avançando e veio outro virote, depois outro e mais um. Choviam projéteis na direção dos soldados, sem no entanto, atingi-los. Parecia que alguém queria apenas que eles fossem embora dali. Irritado, Kaen Blaco começou a xingar e a desafiar os atiradores.

_ Parem com isso! Ou eu vou matar todos com meu machado! – urrava o meio-orc.

Um novo virote foi disparado, desta vez bem no peito do bárbaro que empunhava o machado. Kaen Blaco urrou ainda mais, desta vez tomado pela fúria. Enquanto o meio-orc amaldiçoava os inimigos, Legolas viu um deles se ocultando atrás de uma casa. Era um anão.

_ Viemos em missão de paz! Somos do exército de Tollon! Somos amigos de Glorin! – anunciou o arqueiro em voz alta para que pudesse ser ouvido por todos. Depois, guardou seu arco e fez um gesto para que seus soldados fizessem o mesmo com suas armas.

_ E como você prova isso! – gritou uma voz de trás de uma das casas. Provavelmente deve ter pensado “Glorin jamais seria amigo de elfos”.

_ Eu tenho isto para provar! – Legolas estendeu o colar que trazia em seu pescoço, exibindo a bela jóia a todos. Parecia um pedaço de gelo preso a uma corrente prateada.

_ Isso não significa nada! Você pode ter roubado isso dele, ou até mesmo o matado enquanto ele dormia e tomado o colar! – retrucou a voz, enquanto a cabeça de um anão olhava por trás de uma cabana.

_ Bom, ele mandou um recado também! Digam a Bóllor que ele ainda não se esqueceu e que ainda vai raspar a barba dele! – disse o arqueiro.

_ Aquele desgraçado, ele ainda não esqueceu disso! Espere, como você sabe disso? – praguejou um dos anões.

_ Foi o próprio capitão Glorin quem me disse isso! Podem confiar em mim, eu fui mandado por ele! – respondeu Legolas, já descendo do cavalo.

Quatro anões saíram de seus esconderijos atrás das cabanas da vila. Outros três desceram das árvores próximas e mais seis surgiram debaixo da neve, cercando o pelotão, com bestas apontadas para os soldados. Um deles, que estava atrás de uma casa, tomou a dianteira.

_ Podem baixar as armas, companheiros! Ele diz a verdade! Nosso amigo Glorin atendeu ao nosso chamado! Sejam bem vindos! Eu sou Bóllor Trollback!

O pequeno anão deu as boas vindas aos soldados, agradecendo aos deuses por sua presença na vila. Os aventureiros desmontaram e rapidamente os anões pegaram os cavalos e os levaram para um estábulo, onde seriam tratados. Bóllor e os outros anões escoltaram os soldados até o interior da vila. Por onde passavam, os aventureiros viam marcas de destruição. Pegadas imensas de monstros e casas danificadas estavam por todos os lados. Aos poucos os anões foram se dispersando e se dirigindo às suas casas, até que sobraram apenas os soldados, Bóllor e mais dois anões. O pequenino, que parecia ser o líder da aldeia, convidou o grupo de Legolas para sua casa.

Lá dentro, Bóllor pediu a sua esposa, Belala, que preparasse algo para eles comerem, o que deixou Kaen Blaco extremamente ansioso. Todos se sentaram ao redor de uma mesa rústica, diante de uma lareira que aquecia o ambiente e começaram a ouvir a história de Bóllor.

_ Bem, imagino que Glorin já tenha contado por que os chamamos aqui! Vários monstros estão atacando nossa vila ultimamente! Tudo começou há uns doze dias atrás! Apareceu um urso branco enlouquecido na vila, atacando tudo e todos! O animal estava enfurecido, e atacava sem motivo! Sabemos que os animais só atacam quando ameaçados ou quando se sentem ameaçados, mas aquele urso agia muito estranho! Bem, nós juntamos todos os combatentes da vila e conseguimos matá-lo! Pensávamos que tinha sido um fato isolado, mas no dia seguinte apareceu um troll, e depois outros nos dias seguintes! Com muita sorte nós conseguimos apenas espantar os trolls! Então, decidimos que seria melhor buscar ajuda! – disse Bóllor.

O anão falava calmamente, com sua voz grave, enquanto todos prestavam atenção. Interrompeu sua narrativa por um instante para dar uma golada numa caneca de leite de mamute servida por sua esposa a ele e a seus convidados. Kaen Blaco não entendia nada do que Bóllor dizia, nem fazia questão de entender. Estava interessado apenas em comer e em matar, quem quer que fosse. Druidick e Eldon aproveitaram a pausa para saírem.

_ Sargento! Se não se importar, nós dois iremos dar uma olhada ao redor da aldeia, pra analisar as pegadas dos monstros, reconhecer o terreno e procurar alguma outra pista! – pediu o servo de Allihanna.

_ Está bem, mas tome cuidado! – respondeu o sargento.

_ Dak e Morur irão com vocês, eles os ajudarão! – disse Bóllor, fazendo um sinal para os outros dois anões que prontamente se colocaram ao lado dos dois soldados.

_ Muito prazer, eu sou Dark Firehead! – disse o anão de cabelos ruivos, cumprimentando os dois.

_ E eu sou Morur Platetearer! Nós iremos lhes mostrar toda a vila e os locais atacados! Venham conosco! – disse o outro anão, de cabelos louros amarrados em duas longas tranças, assim como sua barba.

_ Cadê minha comida? Eu quero comer! Estou com fome – reclamava Kaen Blaco.

_ Já está sendo preparada, amigo! Aguarde só mais um momento! – respondeu Bóllor.

_ Olha Kaen! Eu sei por experiência própria o quão desagradável deve estar sendo pra você ficar no meio de um monte de elfos e ainda por cima receber ordens de um elfo! Mas, procure se comportar, que eu prometo não pegar no seu pé, nem ficar lhe dando ordens! Está certo? – disse Legolas.

Kaen Blaco pensou por um instante e ameaçou reclamar novamente, mas resolveu se calar no último instante. Trevor e Logan apenas observavam e vez ou outra arriscavam um palpite, ou comentavam algo com relação aos acontecimentos da vila. Takezo somente olhava calado. Legolas pediu a Bóllor que continuasse.

_ Como vocês devem saber, as Montanhas Uivantes não são um reino, mas sim o território de um dragão, ou melhor de Belugha, a rainha dos dragões brancos! Muitos contam teorias sobre ventos, ou sobre demônios do gelo adormecidos sob as montanhas, mas a verdade é que o poder de Belugha é o verdadeiro responsável pelo frio que existe aqui nas Uivantes! Sendo assim, este território não é como os demais reinos que vocês estão acostumados a ver! Aqui não há grandes cidades, nem exército ou milícia! Por conta disto, e pela proximidade da nossa vila de do reino de vocês, é mais fácil para nós pedirmos ajuda a Tollon do que dentro das Montanhas Uivantes! E, como vocês já sabem, Glorin é um grande amigo de nossa aldeia, e por isso recorremos a ele! Nós precisamos que vocês descubram porque esses monstros têm nos atacado e que vocês derrotem essas criaturas para que esses ataques cessem! – concluiu o anão.

_ Não se preocupe, Bóllor, nós iremos cuidar de tudo! – disse Legolas.

_ Ótimo, ficamos muito gratos! Bem, agora vamos comer, Belala está trazendo o almoço de vocês!!!

A anã serviu a refeição aos soldados, um apetitoso ensopado de carne de mamute com castanhas e pinhões. Kaen Blaco enfiou sua cara em um pedaço de pernil e pôs-se a devorá-lo feito um animal. Enquanto comiam, foram surpreendidos pela porta que se abriu abruptamente.

_ Bóllor! Está começando novamente! Um monstro está atacando, e esse é dos grandes! – Morur entrou pela porta, junto com o vento frio, gritando para todos o que estava acontecendo.

Lá fora, Druidick e Eldon, após percorrer quase toda a vila analisando as marcas da destruição causada pelos monstros, corriam entre as casas para tentar cercar a criatura e atacá-la de surpresa pelas costas. Dak Firehead estava com eles, um pouco mais atrás, observando com espanto a criatura que invadia a vila.

Legolas e seus soldados abandonaram a refeição e correram para fora, com armas em punho, para enfrentar a criatura. Kaen Blaco relutou em deixar seu almoço, mas mudou rapidamente de idéia ao saber que enfrentaria uma criatura poderosa e acompanhou os demais.

Todos se reuniram do lado de fora da cabana e puderam ver o que enfrentariam. Era um monstro gigantesco de quase cinco metros de altura e dez de comprimento. Tinha o corpo semelhante ao de um réptil, com uma cauda bifurcada que se agitava freneticamente, derrubando árvores e pedaços de casas. Seis enormes cabeças de serpente ligavam-se ao corpo por longos pescoços que se agitavam de um lado para o outro enquanto suas bocas rugiam e soltavam gelo. Um hidra do gelo, um crio-hidra, invadia Cold Valley.

outubro 09, 2006

Capítulo 242 – Missão no gelo

Capítulo 242 Missão no gelo

Glorin e seus amigos se dirigiram até o portão, para receber os soldados que retornavam. Todos estavam ansiosos para saber como tinha sido a aventura daquele grupo. Glorin foi o primeiro a se manifestar.

_ E ai garoto! Seja bem vindo de volta! E então, como foi a missão? Conte-nos todos os detalhes! – disse o anão.

Legolas agradeceu as boas vindas e cumprimentou os seus amigos. Depois, começou a contar, em detalhes, tudo aquilo que ele e seus homens haviam enfrentado.

· · · · · ·

Alguns dias antes, no dia 10 de pace, kalag. Glorin começava a distribuir as novas tarefas aos sargentos, quando Legolas pediu para ir para as Uivantes, no lugar de Squall. O anão concordou com o pedido do elfo e permitiu que fosse ele o responsável pela missão na cordilheira congelada. Após instruir Anix sobre a sua missão em Rutorn e dispensá-lo para preparar seu pelotão, o Anão chamou Legolas para uma conversa particular afastada dos outros heróis.

_ Legolas, você irá para Cold Valley! É uma pequena vila no território das Montanhas Uivantes onde vivem alguns amigos pessoais meus! Eles estão com um sério problema de ataques de monstros! Vários monstros têm atacado aquela vila nos últimos dias sem motivo aparente! Quero que você leve os soldados que estão sob sua responsabilidade com você e investigue o que está acontecendo por lá! Se você sentir que o caso é pesado demais para seu grupo, retorne para cá para buscar ajuda! Entendeu? – disse Glorin.

_ Sim capitão! – respondeu Legolas.

_ Outra coisa, tome muito cuidado por lá! Eu sei que você está interessado em treinar no meio do gelo e que você quer aprender a usá-lo como eu! Mas, aquele território é muito traiçoeiro, tome muito cuidado por lá! E tome, leve isto com você! – o anão retirou um colar que estava oculto sob sua armadura e o entregou a Legolas. Era uma bela corrente prateada, presa a uma gema translúcida de tonalidades azuladas e alvas.

_ Obrigado, capitão! – os olhos do arqueiro brilharam ao receber a bela jóia do anão. Ele pegou o colar em suas mãos e o colocou no pescoço, guardando-o embaixo de sua roupa e armadura.

_ Não, não! Deixe isso à mostra! Isso poderá salvar sua vida em caso de problemas! Se tiver algum problema enquanto estiver nas Uivantes, mostre essa pedra! Isso o identificará como um amigo meu e poderá evitar encrencas para vocês! E quando chegar a Cold Valley, se for necessário, diga a Bolor que eu ainda não me esqueci e que vou raspar a barba dele algum dia! Agora vá preparar sua tropa, sargento Legolas! – completou o anão.

Legolas bateu continência e se retirou. Glorin saiu logo depois, indo em direção à taverna. Anix terminava os preparativos para sair em sua jornada. Legolas, foi até o campo de treinamento do forte, reunir seus homens para a tarefa.

O pelotão do arqueiro era composto de seis soldados. Eles eram: Trevor, um mago elfo ainda iniciante no caminho das artes arcanas; Druidick, um jovem elfo seguidor da deusa Allihanna; Takezo, um humano de descendência tamuraniana e um espadachim promissor; Kaen Blaco, um meio-orc indisciplinado, rude e pouco inteligente, porém muito forte; Logan, guerreiro elfo portador de uma poderosa espada de madeira negra; Eldon, um pequeno halfling arremessador de adagas e grande batedor de carteiras. O sargento reuniu o pelotão e ordenou que se preparassem para partir. Instruiu-os a levar roupas de frio, cobertores e tantas camadas de pano quanto coubessem sob suas armaduras. Kaen Blaco, como de costume, mostrava-se um problema. Recusava-se a obedecer as ordens do sargento e desafiava sua autoridade constantemente, zombando de sua masculinidade inclusive. Tratava o arqueiro por orelhudo, ao invés de chamá-lo pelo nome. Legolas tentou intimidá-lo, disparando uma flecha no pé de Kaen Blaco, sem no entanto feri-lo. Mas, o meio-orc apenas pegou seu machado e desafiou Legolas para um combate. O arqueiro então adotou outra tática, ameaçando deixar o soldado para trás, convencendo-o assim, a se preparar para a missão.

Enquanto seus subordinados iam se preparar, Legolas foi até o laboratório, ao encontro de Seelan. Anix acabara de sai de lá, levando consigo o equipamento que usaria em Rutorn. Legolas explicou ao mago pra onde iria e o que precisaria para sobreviver aos rigores das Montanhas Uivantes.

Seelan entregou ao arqueiro vários frascos com poções mágicas. Vinte delas eram para curar ferimentos superficiais, e cinco para tratar de feridas mais graves. Já que Legolas não contava com clérigos em seu pelotão, precisaria do maior número possível de cura mágica. Cinco pergaminhos contendo poderosas magias de cura também foram dados ao arqueiro, para que o druida do grupo pudesse usá-los em caso de necessidade. Legolas também recebeu três frascos contendo um tipo de líquido mágico que poderia tornar ele e seus homens mais resistentes ao frio, extremamente úteis para quem estava indo para a parte mais fria de Arton. Seelan pediu a Legolas que chamasse o mago do grupo para conversar com ele.

O arqueiro saiu para aprontar seu equipamento e dividiu as poções mágicas entre seus homens. Entregou os pergaminhos a Druidick e ordenou que Trevor fosse ao encontro de Seelan. No laboratório, Seelan entregou dois pergaminhos a Trevor.

­_ Bem, Trevor! Você ainda é um mago em início de carreira, portanto as magias nesses pergaminhos ainda são poderosas demais para você! Entretanto, se você se concentrar bem e seguir minhas instruções, você conseguirá ativá-los sem problemas! Esses pergaminhos contêm uma magia de altíssimo nível, que poderá salvar a vida de vocês quando estiverem nas Uivantes! Quando você sentir necessidade, use-os sem hesitar! Esses pergaminhos têm o poder de criar um abrigo mágico para proteger você e seus amigos dos rigores das Uivantes! Guarde-os muito bem, pois eles poderão ser a salvação de todos vocês! – Seelan explicou ao jovem mago como ativar os itens mágicos, pacientemente. Depois, despediu-se dele e deixou o laboratório. Queria se despedir de mais alguém.

Legolas riu, assim como todos os outros, ao ver Seelan dando adeus a Anix que partia com seu grupo. O mago abandonou sua postura afeminada e retornou para dentro do forte, conversando com Glorin. Legolas, Squall, Lucano e Nailo assistiram a tudo e entenderam que Seelan se fingia de homossexual apenas para brincar com Anix e deixá-lo envergonhado diante de todos. Legolas sorriu e entrou no estábulo do forte. Lá, despediu-se de Rassufel, seu estimado cavalo. Legolas detestava ter que se separar dele, mas preferia deixá-lo no forte, em segurança, ao invés de levá-lo para as Montanhas Uivantes, onde, sabia, correriam grandes riscos.

Assim, o grupo partiu, minutos após Anix também partir. Cavalgaram cerca de um dia entre as florestas negras de Tollon, sem encontrar qualquer dificuldade. Após um dia de jornada, entraram no inóspito ambiente das Montanhas Uivantes. Sabiam disso, pois as árvores que recobriam todo o território de Tollon tinham ficado para trás. Em seu lugar, apenas uma paisagem branca e gélida que ofuscava os olhos dos soldados através do reflexo do sol. O próprio sol, antes quente o suficiente para vencer o frio no reino da madeira mágica, agora era apenas um astro apático no céu, que servia apenas para cegar os aventureiros. Seu calor cálido e gentil era agora pouco mais que uma lembrança. Um vento congelante sobrava do norte, parecendo cortar as peles do grupo, que endureciam e perdiam o tato pouco a pouco. As patas dos cavalos, que até então avançavam velozmente pela trilha entre as florestas, agora se moviam lenta e pesadamente, afundando vários centímetros na neve a cada passada. Os animais se deslocavam lentamente, e era preciso parar várias vezes ao dia para que eles pudessem descansar. Suas patas, e seus corpos foram revestidos por várias camadas de pano, para protegê-los do frio que os cercava.

Os heróis sentiam na carne os terríveis efeitos do frio que os castigava. As condições eram mais terríveis que se podia supor, e minavam aos poucos a determinação dos mais valentes viajantes. Apenas Kaen Blaco conseguia quebrar o gelo, reclamando de tudo e de todos, colocando apelidos nos companheiros de grupo e provocando todos eles. Para ele, Druidick era o “boa fruta”. Eldon era o “tampinha”, Takezo o “mudinho” (já que o samurai era surdo e mudo de nascença). E o sargento Legolas era o orelhudo. O grupo se esforçava para não perder a paciência com o meio-orc e para não se deixar vencer pelo frio implacável que os atingia. Corajosamente, os soldados continuaram avançando por aquele interminável mar de neve. Neve. Neve branca e gelada. Neve mortal, por todos os lados. Somente ela cercava os aventureiros nos quatro dias que se seguiram, até que, eles finalmente avistaram duas manchas negras no horizonte.

Eram não mais que dois borrões escuros que manchavam a paisagem branca que os rodeava. Um estava bem ao norte deles, enquanto o outro se desviava um pouco para o leste. Atrás das manchas, havia uma cadeia montanhosa, muito mais alta que as colinas geladas que eles haviam transposto nos últimos dias. Legolas conferiu o mapa entregue pelo capitão Glorin, e confirmou que um dos pontos poderia ser o destino que eles buscavam. Esporearam os cavalos e cavalgaram o mais rápido que o frio permitia em direção ao norte, até que no final do quinto dia de viagem, eles finalmente conseguiram distinguir o que era aquele ponto negro. Um vilarejo. Era o entardecer do 15º dia de pace, um tirag, Legolas e seu grupo finalmente haviam chegado a Cold Valley.

outubro 06, 2006

Forte Rodick

Capítulo 241 – A partida de Lars Sween

Capítulo 241 A partida de Lars Sween

_ Soldados! Recolham o corpo do Jack e coloquem-no na carroça! Vamos partir imediatamente daqui! Isso é uma ordem! – Lars enxugou as lágrimas e se levantou. Já não tinha mais o sorriso de antes, e sua expressão era séria e sombria.

_ Ir embora? Mas por que, capitão? O que aconteceu com o senhor? – perguntou Lee Wood.

_ Temos que chegar ao forte rapidamente! Thyatis me abandonou! Não posso mais garantir a segurança de ninguém! Apressem-se! – Lars concluiu seu diálogo com pesar. Deu as costas para o grupo e retornou para a carroça. – Anix! Prepare as coisas! Estamos partindo!

Os soldados recolheram o corpo carbonizado de Jack. Estava irreconhecível, apenas uma massa negra e disforme sobrara do pirata. Colocaram-no na carroça, montaram em seus cavalos e partiram para o forte Rodick. Durante os dias que se seguiram, viajaram quase sem parar, apenas o mínimo necessário para se alimentarem e para os cavalos recuperarem suas energias. Nos dias que se seguiram, Lars permaneceu calado o tempo todo, preocupado com tudo à sua volta. Um sentimento de culpa ardia em seu peito, apesar de Anix e os outros tentarem convencê-lo de que Lars não era responsável pela morte de Jack.

Finalmente, no dia 27 de pace, um lanag, eles finalmente chegaram ao forte. Lars desceu apressado da carroça e deu ordens aos soldados para que cuidassem do corpo de Jack. Depois, se separou deles e se dirigiu ao centro de comando do forte. Lee e Anix tentaram conversar e até acompanhar Lars, mas foram proibidos de fazê-lo. O clérigo se afastou deles e entrou no prédio, sério e melancólico.

Anix e os demais soldados desceram da carroça e dos cavalos. Outros soldados se aproximaram para ver o que estava acontecendo, e Anix os deixou encarregados de cuidarem do corpo do pirata. O elfo perguntou sobre seu capitão, e foi informado por um dos soldados que Glorin estava na taverna. Sem perder tempo, Anix correu para lá, ao encontro do anão.

_ Capitão! Capitão! Preciso falar com o senhor! Urgente! – gritou Anix, adentrando na taverna.

_ Calma ai, garoto! Não vê que estou ocupado? Belie, me traz mais uma cerveja! – respondeu, tranqüilamente, Glorin.

_ É sério capitão! Não há tempo pra isso agora! Um soldado morreu! – continuou o elfo. Todos na taverna pararam para prestar atenção.

_ Quem morreu? – perguntou Glorin.

_ O Jack, capitão! O Jack morreu! – lamentou o mago.

_ Aquele pirata alcoólatra? Ótimo, um problema a menos! Belie, duas cervejas, pra comemorar o acontecido! Vamos beber em homenagem ao defunto!

_ Mas capitão! Isso não é hora pra piadas! Além disso, quem matou o Jack, foi o capitão Lars! – insistiu Anix.

_ O Lars?! Isso é grave! Belie, cancele as cervejas! Onde ele está, garoto? Onde está o Lars? – Glorin ficou sério repentinamente, parecia tão transtornado quanto o próprio Lars.

_ Ele está no comando, com o general!

_ Eu vou até lá!

_ Posso ir junto, capitão!

_ Não!

Glorin abandonou o estabelecimento rapidamente, deixando Anix sem explicações, e rumou para o centro de comando. Anix ficou desconcertado, sem saber o que fazer, e saiu vagando pelo forte. No meio do caminho, parou para conversar com um dos soldados.

­_ Ei recruta! Você viu o meu irmão por ai?

_ Sim, senhor! O sargento Squall está descansando no alojamento!

_ E o capitão Seelan?

_ Ele está no laboratório arcano, senhor!

_ Ótimo, preciso falar com os dois! Ah, soldado, quem cuida da limpeza aqui no forte?

_ Bem senhor... – o soldado não teve tempo de terminar.

_ Ah, já sei o que vou fazer! Estou com as roupas sujas, e vou pedir para o Seelan lavar elas pra mim! Vou me aproveitar dele! – disse Anix.

O soldado olhou de maneira estranha para Anix, e levou a mão à boca, segurando o riso.

_ O que foi soldado? Está achando graça de alguma coisa?

_ Não senhor! – respondeu o rapaz, tentando não rir.

_ Pode rir soldado! – autorizou o mago.

_ Sim senhor! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! O senhor vai abusar do Seelan! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há!

_ He! He! He! He! Muito engraçado, mesmo, eu sei! Agora pare de rir! Não é nada do que você está imaginando! Eu sou um elfo macho, e gosto de elfas, não sou como o Seelan!

_ Sim senhor!

O soldado continuou tentando não rir, enquanto Anix se afastava. Quando o mago já estava distante, correu para contar para outros sobre a novidade: Anix ia abusar de Seelan. E todos riram novamente às custas do mago.

Anix conversou com Squall e contou sobre o que tinha acontecido com Jack. Viu Cloud já forte novamente posado no ombro do feiticeiro e ficou feliz por seu irmão. Depois, foi até o laboratório, falar com Seelan.

_ Aniiiix!!! Que bom que você voltou, amiguinho!!! – Seelan saltou sobre Anix, agarrando-o num abraço apertado.

_ Para com isso Sélan! Eu vim aqui pra contar uma coisa importante pra você!

_ É Seelan, Seelan!!! E o que você quer me contar, amiguinho? – Seelan continuava se esfregando em Anix enquanto falava com sua voz aguda e afeminada.

_ O soldado Jack morreu! E quem o matou foi o capitão Lars! – respondeu Anix, tentando se livrar das mãos de Seelan.

_ O quê??!! Lars matou Jack?! Isso é grave! Onde ele está? – Seelan empurrou Anix. Sua voz era agora grave e séria, assim como seu olhar.

_ Está no centro de comando! O capitão Glorin foi pra lá também!

_ Eu vou até lá! Phalfe busjiamxusamer!!! – Seelan se afastou de Anix, indo em direção à porta do laboratório. Sussurrou algumas palavras no idioma dos dragões e desapareceu através de um portal mágico.

Inconformado por novamente ter sido deixado para trás, o mago decidiu ir até o centro de comando. A notícia da morte de Jack já tinha se espalhado pelo forte inteiro, bem como a notícia de que Anix e Seelan tomariam banho juntos e que um esfregaria as costas do outro. Quando chegou ao prédio de comando, encontrou Nailo, Squall e Lee Wood, que também queriam saber o que acontecia na reunião dos capitães com o general Wally Dold. Dois soldados barraram a entrada dos quatro na sala do general, dizendo que eram ordens expressas do capitão Glorin, e que não poderiam ser desobedecidas. Após vários minutos de suspense, a porta finalmente se abriu.

Glorin, Seelan, Jonathan, Todd, Lars e o general Dold foram saindo um a um da sala. Aflitos e ansiosos, Anix e os outros perguntavam o que tinha acontecido.

_ Lars está partindo do forte! – disse Seelan, com a voz suave e grave.

_ Partindo pra onde? Por que? – perguntou Anix.

_ Pra longe! Ele deve ir para o reino de Tyrondir, reencontrar sua fé! – era Jonathan Wilkes.

_ E quem vai com ele? – era Squall.

_ Ninguém! Eu devo ir sozinho! – respondeu Lars.

_ Não, é perigoso! Nós iremos com você! – disse Nailo.

_ Não garoto! Isso é uma coisa que ele deve fazer sozinho! Agora chega de enrolação! Vamos até a taverna! Eu pago uma cerveja pra vocês e lá eu explico tudo que vocês quiserem saber! Não devemos atrasá-lo ainda mais! – era Glorin. O anão bateu no ombro de Nailo e o puxou para fora dali, chamando também Squall e Lee.

Os três saíram, assim como os demais capitães. O general voltou para sua sala, e Anix foi conversar com Seelan.

_ Seelan, queria lhe pedir uma coisa! Minhas roupas estão sujas, pode lavá-las pra mim? – disse Anix.

_ O que? Você está querendo que eu, um capitão do exército, lave suas roupas imundas? Claro que sim, amiguinho, venha comigo, vou ensiná-lo a lavar suas roupas! – Seelan começou a responder com seriedade. Depois sua voz afinou, sua mão requebrou e ele sorriu e agarrou Anix. – Venha comigo, amiguinho, vamos!!!

Seelan arrastou Anix para o laboratório e começou a despi-lo. Anix tentou impedi-lo, dizendo que tinha vergonha de ficar nu. Mas, Seelan o tranqüilizou, dizendo que ficaria nu também, para que Anix se sentisse mais à vontade. Anix apenas suspirou, desgostoso. Enquanto lavavam as roupas e conversavam, Anix fez um pedido a Seelan.

_ Seelan! Você sabe onde eu poderia encontrar uma fada? – perguntou Anix.

_ Fada? Por que?

_ É que eu gostaria muito de conhecer uma fada! Nunca vi uma! O mais próximo disso que eu vi foi uma ninfa, a Enola! Eu sou apaixonado por ela e vou casar com ela um dia!

_ Bom, se você quer mesmo conhecer uma fada, eu vou te ajudar então! Tem uma aqui mesmo no forte! Venha comigo! – Seelan sorriu maliciosamente, e saiu correndo, arrastando Anix pelas ruas do forte. E os dois ainda estavam nus.

Os dois elfos passaram correndo, sem roupa, entre os soldados que estavam treinando. Todo o pelotão gargalhou ao ver aquela cena extremamente ridícula. Nailo, que passava por perto, para ir até a taverna conversar com Glorin, tentou impor ordem na tropa. A mando do ranger, os soldados tiveram que fazer flexões, como punição. Mas, os soldados mais riam do que curvavam seus braços, tendo que recomeçar a contagem várias vezes, até que Nailo desistiu e foi para a taverna.

Seelan e Anix passaram entre os estábulos do forte e foram em direção à muralha de pedra que cercava a fortaleza. Viraram à direita e passaram por algumas árvores e vegetação densa que se estendiam desde a muralha até a parede do estábulo. Após as árvores, Anix sentiu que estava em algum tipo de paraíso.

Estavam agora em um jardim todo florido, repleto de árvores frutíferas, flores de todos os tipos e cheio de animais. Esquilos, pássaros e outros animais vagavam livremente pelo lugar sem se preocupar com a presença dos dois elfos. Parecia um santuário. Parecia com o bosque onde Anix havia se despedido de Enola. O lugar era silencioso e pacato. Apenas o canto dos pássaros ecoava por entre as árvores. Pequenos coelhos, e até mesmo um servo pastavam e saciavam sua sede em um pequeno lago de águas cristalinas no centro do jardim. Um pequeno pássaro, mais parecido com um inseto grande, voou na direção de Anix e Seelan e os cumprimentou.

_ Olá Seelan! – disse a criaturinha.

_ Idor! Era justamente você que eu estava procurando! Este aqui é o Anix, e ele estava louco pra te conhecer! – disse Seelan.

Anix cumprimentou a pequena criatura e notou, agora mais perto, que não era um pássaro ou um inseto, mas sim um tipo de fada, um sprite. Anix suspirou, descontente, e reclamou, dizendo que queria conhecer uma fada fêmea, não Idor. O pequeno sprite ficou contrariado ao ser desprezado daquela forma, mas Seelan conseguiu fazer com que os dois conversassem pacificamente.

Então, o canto dos pássaros silenciou de repente. Anix ficou calado, pois sentiu uma forte presença se aproximando. Olhou para o fundo do jardim e viu um outro elfo se aproximando. Tinha longos cabelos prateados, e orelhas muito mais pontudas que o normal de um elfo. Trajava um manto branco amarrado na cintura por uma faixa. Movia-se com graça, e por onde ele passava as flores pareciam ficar mais viçosas e belas. Pássaros e outros animais saltitavam em seu ombro e o cercavam. Seu olhar era frio e assustador, mas ao mesmo tempo, não tinha aspecto maligno.

_ Então é você Seelan? O que está acontecendo? Posso ajudar em algo? – perguntou o elfo, sua voz era suave e ele falava pausadamente.

_ Ah! Olá Kuran, até tinha esquecido de você! Foi te encontrar, preciso lhe contar uma coisa! – a voz e a postura de Seelan mudaram completamente, agora ele não tinha mais aquele jeito afeminado de antes.

_ Quem é ele? – perguntou Anix ao pequeno Idor.

_ Ah! Perdoe minha indelicadeza! Eu sou Kuran Namino! Muito prazer! – disse o elfo, estendendo a mão para Anix.

_ Muito prazer, eu sou Anix! Por que você fica neste lugar, Kuran?

_ Eu me sinto mais à vontade aqui, entre as plantas e os animais! Bem, diga-me Seelan! O que você tem pra me contar?

_ É o Lars! Uma pessoa morreu pelas mãos dele! Ele está de partida para Tyrondir! – respondeu o mago, sem frescuras.

_ Hum! Isso é grave! Vou falar com ele! Com licença! – Kuran se despediu e partiu por entre as árvores. Parecia que os galhos e folhas se curvavam para abrir-lhe passagem.

_ Espere, Kuran! Você não tem uma roupa aqui pra me emprestar? Só para eu poder voltar ao laboratório? – gritou Anix.

O elfo retornou e olhou para o jovem mago. Moveu sua cabeça positivamente e retirou de um bolso uma espécie de pó. Eram minúsculas sementes, quase tão pequenas quanto o pólen de alguma flor. Kuran sussurrou algumas palavras que Anix não pode ouvir e assoprou as sementes sobre o mago. As sementes rodearam o corpo de Anix, agitadas pelo sopro de Kuran e começaram a brilhar. Em uma fração de segundo, as pequenas sementes germinaram, transformando-se em cipós que envolveram e cobriram o corpo de Anix.

Kuran partiu, deixando Anix, Idor e Seelan no jardim. O mago conversou um pouco com o pequeno sprite, saciando sua curiosidade sobre ele. Depois ele e Seelan retornaram para o laboratório.

_ Seelan! Eu vi que você sabe fazer magias de teletransporte! Posso lhe pedir um favor? – perguntou Anix.

_ Claro Anix! – respondeu Seelan.

_ Me leva pra ver a Enola! Estou com saudades dela! Por favor! Ela mora num bosque perto de Vallahim! Por favor! – implorou o mago mais jovem.

_ Vou pensar no seu caso! – respondeu o mais velho, divertindo-se com a ansiedade do outro.

Enquanto isso, na taverna, Glorin explicava a Nailo, Squall e Lucano o que tinha acontecido a Lars.

_ Bem, entendam! O Lars violou o dogma de seu deus! Sendo um servo de Thyatis, ele jamais poderia matar uma criatura inteligente! E por causa da magia que ele fez, o Jack acabou morrendo! Eu sei que vocês vão dizer que foi o Jack que se atirou no fogo porque quis, mas as coisas não são bem assim! Lars sabia que se o Jack tentasse fugir ele morreria, e mesmo assim ele decidiu arriscar! Por isso, ele é o culpado da morte daquele pirata, e, apesar de eu não considerá-lo muito inteligente, Thyatis considerou que lars violou seus votos! Por conta disso, o deus dele o abandonou, e ele perdeu todos os poderes que possuía! Agora ele terá que provar seu valor novamente para Thyatis para reaver seus poderes! Para isso, ele deve ir até Tyrondir, onde está o clérigo que o ordenou, e se confessar! Essa confissão sempre deve ser feita a um clérigo superior na hierarquia da ordem! Somente após isso, ele poderá recuperar os poderes que tinha! Isso é um teste, uma provação! É algo que ele deve fazer sozinho, sem a ajuda de ninguém, mesmo que seja arriscado! Só assim ele poderá se mostrar digno de receber a benção e o poder do seu deus! – disse Glorin, entre um gole e outro de cerveja.

A porta do bar se abriu e junto com o sol da tarde entrou Lars Sween. Caminhou lentamente em direção a Glorin e aos outros. Todos o observavam, como se não acreditassem que aquele homem pudesse ter perdido todos os incríveis poderes que possuía. Lars olhava a todos, e acenava com a cabeça como se dissesse “Sim, é verdade”.

_ Estou indo, meu velho amigo! – disse o sacerdote, pousando a mão no ombro de Glorin.

_ Eu sei! Boa sorte amigo! Cuide-se bem! Espero vê-lo em breve! – respondeu o anão, apertando a mão do clérigo.

_ Se essa for a vontade de Thyatis! – completou Lars.

_ Lars, tem certeza de que a gente não pode acompanhá-lo? Gostaríamos de ajudar você! – disse Nailo, inconformado com a situação.

_ Não, meu amigo! Isso é uma coisa que eu devo fazer sozinho! – respondeu o clérigo.

_ Bem, ao menos leve isso com você! Você poderá precisar! – Nailo abriu sua algibeira e retirou cinco pequenos frascos de vidro, com um líquido verde dentro deles. Eram poções mágicas de cura.

_ Obrigado Nailo!

_ Lars! Eu não tenho nada que possa ajudá-lo tanto quanto essas poções, mas quero que você fique com isto! É um carvão da Noite da Alegria! Um grande amigo nosso, o Sam, nos disse que um carvão de uma fogueira feita na noite da alegria traz boa sorte! Quero que você fique com ele, e espero que ele lhe traga muita sorte! – Squall quase não conseguia conter as lágrimas. Retirou de sua bolsa de componentes mágicos o tal carvão e entregou-o a Lars Sween.

_ Obrigado Squall! – agradeceu o clérigo – Agora, tenho que ir! Adeus meus amigos! – Lars se despediu de cada um dos presentes. Quando se virou para a porta, pronto para partir, viu um homem parado na entrada da taverna.

_ Pretendia partir sem se despedir de mim Lars? – disse a figura na porta.

_ Kuran, meu amigo! Claro que não! Jamais esqueceria de você amigo! – Lars esboçou um sorriso tímido.

Lars despediu-se de Kuran com um aperto de mãos caloroso. O clérigo andou em direção à porta lentamente, como se dissesse adeus a cada cadeira, cada mesa da taverna.

_ Ei Lars! Tome cuidado! E vê se não morre! – disse Glorin, sorrindo.

Lars parou na entrada da taverna por um instante, virou-se novamente para dentro. Seus olhos brilharam e ele sorriu.

_ Não se preocupe! Não há mal que não possa ser desfeito e não há pessoa que não mereça uma segunda chance! Até um dia, amigos!

Lars partiu, deixando para trás o forte Rodick e grandes e inesquecíveis amigos.

_ E ai, plantador de florzinha? Como tem passado, Kuran? – perguntou Glorin, na taverna.

Os dois começaram a conversar, e Kuran se apresentou a Squall, Nailo e Lucano. Alguns minutos após a partida de Lars, um dos soldados entrou na taverna gritando:

_ Eles chagaram! O sargento Legolas retornou de sua missão!

Finalmente, após dias nas Montanhas Uivantes, Legolas e seus soldados retornavam de sua missão.

outubro 03, 2006

Capítulo 240 – Morte nas chamas

Capítulo 240 Morte nas chamas

Assim, na manhã de um kalag, dia 24 de pace, eles entraram na vila de Rutorn. Os moradores os receberam com festa, agradecendo pelo bem que haviam feito. A vila já havia retomado sua rotina normal, e a Morta do Bosque não havia retornado mais, comprovando as suspeitas de Mepisto, de que Zenóbia e a Morta eram a mesma pessoa.

O grupo seguiu direto para a taverna do Ogro Roxo, escoltado pelos aldeões sorridentes. Anix desceu da carroça que conduzia e pediu ajuda a alguns moradores para descarregar os mantimentos e o rum que eles haviam trazido para Tomas. Mepisto foi dispensado pelo sargento e correu para sua casa, para rever seu ratinho de estimação. Para sua felicidade, encontrou-o são e salvo, dentro de sua pequena gaiola.

Já dentro da taverna, Tomas agradecia emocionadamente pela ajuda recebida. Enquanto Anix conversava com Tomas, e os demais se encarregavam de descarregar os mantimentos, Jack levou a jovem Silmara para fora da taverna.

_ Aqui está ela Lars! – disse o soldado.

_ Muito bem, Jack! Deixe-me examiná-la! O que aconteceu com você minha jovem? – respondeu o capitão, levando as mãos ao rosto da donzela.

_ Uma bruxa arrancou meus olhos, gentil senhor! – respondeu ela.

_ Bem, tire essa jóia de seu olho, para que eu possa ajudá-la! – disse o clérigo, delicadamente.

Silmara retirou, cuidadosamente, a pedra que ocupava o lugar de seu olho direito e a entregou para Jack. O pirata pegou a jóia com sua mão direita e a guardou em um bolso. Lars colocou sua mão direita sobre os olhos vazios de Silmara e orou a seu deus:

_ Ó gloriosa fênix! Opere vosso milagre através deste vosso servo!

Lars se afastou de Silmara. Ansioso, Jack pediu a ela que abrisse os olhos e ela o fez. E suas cavidades permaneciam vazias.

_ Bom, ao menos nós tentamos! – suspirou o pirata, entristecido.

_ Calma meu bom Jack! Não há mal que não possa ser desfeito, e não há pessoa que não mereça uma segunda chance! Tenha um pouco de paciência! E fé,meu caro, tenha fé! – Lars pousou sua mão gentilmente sobre o ombro de Jack, tentando confortá-lo. Os dois ficaram observando a moça, ansiosos, até que o milagre começou.

Primeiro uma pequena esfera azulada surgiu lá dentro. Ao redor dela, começou a se formar uma massa de carne, repleta de vasos sangüíneos pulsantes, que iam aos poucos se fixando no interior das cavidades oculares da jovem. Aquilo foi aumentando de tamanho e cobrindo toda a área antes vazia, até que dois belos olhos azuis se formaram, e Silmara enfim pode enxergar novamente.

_ Estou vendo Jack! Estou vendo! É um milagre! Pelos deuses! Obrigada, gentil senhor! Obrigada! – Silmara abraçou Lars, lágrimas escorriam de seus novos e belos olhos.

_ Não me agradeça, minha jovem! Agradeça ao grande Thyatis, por ter lhe concedido esta graça! E claro, agradeça ao Jack, que teve a idéia de me procurar e pedir ajuda! – respondeu o sacerdote.

Silmara agradeceu ao deus da ressurreição e deu um longo e açucarado beijo no soldado. Após o beijo, Jack entrou na taverna, logo após Lars, anunciando a novidade a plenos pulmões. Silmara ficou do lado de fora, apreciando a beleza da manhã com seus novos olhos. Na taverna, todos comemoraram a notícia, emocionados.

_ Bem, capitão Lars! Acho que nós cumprimos nossa missão aqui! Podemos ir embora já, mas eu sugiro almoçarmos aqui na taverna do senhor Tomas! O que o senhor me diz? – disse Anix.

_ Está certo, chame os homens! Almoçaremos aqui e partiremos à tarde! – respondeu o clérigo.

Enquanto eles se preparavam para almoçar, Jack voltou a infernizar a vida de Anix, imitando a voz de Seelan. O mago se descabelava de ódio, ao mesmo tempo em que o pirata se deleitava com a irritação do sargento.

_ Aniiiix!!! Aniiiix!!! – gritava Jack, insistentemente.

_ Ah! Droga! Já não agüento mais isso! Capitão Lars, dê um jeito nesse cara, por favor! – implorou Anix.

_ Ora, Anix! Use seu poder! Você está acima dele na hierarquia! – respondeu Lars, sorrindo.

_ Mas não adianta, ele não me obedece! Eu já não sei mais o que fazer! – disse o mago.

_ Está bem! Deixe comigo! Soldado Jack! Pare com isso imediatamente! E como punição, pode pagar quinze! – Lars quase não continha o riso. Sentia-se como um pai apartando a briga de suas crianças.

_ Sim senhor! Está bem capitão! Aqui estão, quinze tibares! – Jack interrompeu seu gracejo imediatamente, e entregou quinze moedas ao capitão.

_ Há! Há! Há! Não é disso que eu estou falando soldado Jack! Pague quinze flexões e pare de atormentar seu sargento! – disse Lars.

Jack, mesmo contrariado, guardou as moedas e se abaixou. Começou a fazer as flexões de braço como ordenado pelo clérigo. Enquanto pagava a punição, o pirata resmungava, contrariado com o tratamento que recebia.

_ Isso não é certo! Eu era um capitão, e tinha meu próprio navio! Agora tenho que ficar aqui beijando o chão por causa de um maricas! – reclamava Jack.

_ Maricas? Eu não sou maricas! Peça desculpas agora soldado! – enfureceu-se Anix, ao ser ofendido.

_ Não, calma sargento! Não estava falando de você, mas sim do seu namorado, o Seelan! – continuou Jack, ainda rindo do mago.

Anix não suportou mais e desferiu um pontapé em Jack. O pirata levantou-se cheio de cólera e com a boca sangrando, sacou rapidamente a besta que trazia na cintura e disparou-a em Anix. A situação começava a sair de controle, Anix tinha um virote fincado no rosto e preparava-se para fulminar Jack e toda a taverna com sua magia mais poderosa. Jack sacou seu florete e começou a provocar o mago, ameaçando-o com a arma. Dragnus preparava seu machado, pronto para partir ao meio um dos dois que brigavam, Lee Wood armava seus punhos, pronto para defender seu superior, e Dragnus se afastava da confusão, ignorando tudo e todos.

_ Capitão, tire todos da taverna! Eu vou matar ele! – gritava Anix.

_ Pode vir! Vem, sua bicha! Eu vou varar suas tripas, seu mariquinha! – provocava Jack.

_ Calma, rapazes! Não há necessidade disso, fiquem calminhos! – Lars entrou no meio da confusão, colocando-se entre os dois e murmurou uma prece. Uma aura de paz inundou o lugar, e todos ficaram mais calmos. Jack abaixou sua arma e interrompeu os insultos. Lars ordenou aos soldados que o capturassem e o amarrassem. Dragnus e Lee tiraram as armas e a mochila do pirata, e amarraram seus braços para trás com uma corda grossa. Levaram-no para a carroça e o colocaram deitado no assoalho do veículo. Como Jack não parava de reclamar e xingar a todos, Dragnus o amordaçou. Mesmo assim, o pirata esperneava e tentava falar amordaçado.

_ Mas você não tem jeito mesmo, não é senhor Jack? Bom, já que é assim, durma então! – Lars entrou na carroça, os outros já tinham voltado para a taverna. Tentou conversar com o pirata e acalmá-lo. Vendo que era impossível tranqüilizá-lo, Lars sussurrou uma palavra mágica em voz baixa e estalou os dedos. O anel em sua mão brilhou palidamente, e Jack caiu em um profundo sono. Lars retirou de sua bolsa alguns frascos contendo variados tipos de pó. Misturou o conteúdo de alguns deles em sua mão e começou a traçar um símbolo no chão, enquanto murmurava uma prece a seu deus. Quanto terminou o trabalho, arrastou o corpo adormecido do pirata para cima do símbolo, ocultando-o. Depois, ele deixou a carroça e foi para a taverna. No meio do caminho, encontrou Silmara, aflita.

_ Gentil senhor! O que será de Jack! O que vão fazer com ele? Não lhe façam mal, por favor, eu imploro! – choramingava a moça.

_ Ora, não se preocupe minha jovem! Somos soldados, não um bando de kobolds selvagens! Não vai acontecer nada a ele! Jack apenas ficará alguns dias detido na prisão do forte! O que ele fez foi grave! Podia ter matado o Anix! Ele deve pagar pelo erro que cometeu! Mas não se preocupe! Não há mal que não seja desfeito, e não há pessoa que não mereça uma segunda chance! Depois do castigo ele poderá voltar aqui para visitá-la muitas vezes! Eu percebi que vocês nutrem um sentimento mútuo, e gostei muito disso! Portanto, fique despreocupada, ele voltará para vê-la em breve! – disse Lars, com sua voz altiva e confiante, acalmando a donzela. O clérigo a deixou lá fora, observando seu amado pirata, e foi para dentro da taverna.

Anix aconselhava Tomas a não deixar sua neta se envolver com pessoas como Jack. O velho taverneiro, por sua vez, concordava com o mago e se comprometia a conversar com a jovem. Tomas serviu aos soldados uma saborosa refeição, e todos comeram, felizes e tranqüilos. Já no início da tarde, o grupo partiu de Rutorn, recebendo uma despedida calorosa e emocionada dos moradores. Silmara acenava com um lenço branco que usava para enxugar suas lágrimas. Seus olhos azuis se destacavam na multidão, e suas lágrimas pareciam expressar uma enorme tristeza, como se aquela fosse a última vez que ela os via. Ou, como se aquela fosse a última vez que ela via seu amado Jack.

A noite caiu, e os soldados resolveram parar para acampar. Pararam a carroça ao lado da estrada, numa pequena clareira, apearam e começaram a preparar uma fogueira e seus sacos de dormir.

_ Capitão Lars! Não seria melhor acordarmos o Jack e dar comida a ele? – perguntou Anix.

_ Claro que sim, Anix! Soldado, vá até a carroça e acorde o Jack, e dê-lhe um pouco de ração! – respondeu Lars, ordenando a Lee a missão.

Lee Wood mal se virou para se dirigir até a carroça, quando todos ouviram um som de pancada forte. Olhara para a carroça e viram Jack saltando de lá de dentro e correndo em direção à mata fechada com o corpo arqueado e as mãos amarradas nas costas.

_ Ele está fugindo! Peguem-no! – ordenou Lars.

Os soldados saíram pela mata escura, perseguindo o soldado fugitivo. Dragnus levava seu machado, pronto para arrancar a cabeça do pirata. Como ele era o único capaz de enxergar naquela escuridão, ia bem à frente dos outros. Necro vinha mais atrás, tentando atingir Jack com suas magias. Mas, mesmo sem ver para onde ia, e trombando várias vezes nas árvores à frente, o pirata era extremamente furtivo e conseguia escapar dos ataques do mago. Lee Wood vinha logo em seguida, acendendo uma tocha para poder iluminar o caminho dos soldados. Por fim veio o capitão Lars. Caminhando calmamente, Lars evocou o poder de seu deus e atingiu Jack com uma magia. O pirata conseguiu resistir ao efeito do feitiço, que deveria deixá-lo cego, e seguiu em sua fuga desesperada pela mata. Sem outra opção, Lars decidiu apelar.

_ Que as chamas de Thyatis se espalhem pela noite e formem uma barreira! – o clérigo orou ao seu deus, e uma enorme parede de fogo se formou no meio da mata, muitos metros à frente, clareando a noite com suas chamas ardentes. Tinha quase cem metros de comprimento e cerca de dez de altura. Jack estava a uns dez metros dela, mas mesmo assim podia sentir o calor intenso que emanava da muralha de fogo. – Jack! É melhor se entregar! Você não tem saída! Está cercado, entregue-se agora! E nem pense em tentar atravessar a muralha, pois você não conseguirá! Se tentar, morrerá! É melhor se entregar e continuar vivo! – completou o clérigo.

Mas, Jack não estava disposto a se render. Sabia que seria levado ao forte e que seria punido lá. Sua única chance era conseguir fugir dali, escapar dos soldados e retornar para seu adorado oceano. O pirata passou as mãos por baixo das pernas, levando-as à frente do corpo e retirou a mordaça da boca. O ruído produzido atraiu a atenção de Dragnus. O meio-orc se aproximou lentamente, tentando encontrar o pirata. Jack prendeu a respiração e se encolheu atrás de uma árvore, esperando não ser visto.

_ Ele sumiu, capitão! – gritou o meio-orc.

Jack suspirou aliviado e começou a circundar a árvore para se afastar dali. Mas, ele não sabia que Dragnus mentia, apenas para atingi-lo de surpresa com seu machado. Jack se abaixou, e tentou desamarrar seus braços. Foi sua sorte, no exato momento em que ele abaixou, o machado de Dragnus atingiu a árvore com violência, bem no local onde estaria o seu pescoço.

Dragnus ficou confuso, ao notar que seu machado havia errado o alvo. Jack, furtivamente, se esgueirou ao redor da árvore, escapando do ângulo de visão do bárbaro. Dragnus deu alguns passos à frente e começou a procurar pelo fugitivo. Quando virou para trás, viu Jack agachado ao lado da árvore. Mas, já era tarde demais. Habilmente, o pirata se levantou num salto e bateu os dois pés no peito de Dragnus, pegando impulso. O bárbaro ainda tentou atingi-lo com seu machado, mas Jack foi mais rápido e saltou para trás, dando uma cambalhota no ar e escapando do ataque. De ponta cabeça, Jack abriu as pernas e tentou agarrar a árvore com elas. Mas, ao invés disso, o pirata se chocou violentamente com o pinheiro e caiu no chão, aos pés de Dragnus.

O bárbaro sorriu com maldade para o pirata caído e ergueu seu machado, gritando furiosamente e o atacou. O machado abriu o peito de Jack, espalhando o sangue do pirata por todos os lados. Mao Necro, que estava próximo, usou uma mão mágica criada por ele para tocar em Jack e descarregar uma poderosa magia nele. Jack ficou ofegante, tanto pelo grave ferimento, quanto pelo poder do feitiço de Necro.

_ Jack! Está cercado! Entregue-se! Não tem pra onde fugir! – gritou Lars, chegando mais perto da batalha. Ignorando toda aquela confusão, Anix voltou para dentro da carroça, de onde observava a perseguição.

_ Vocês não vão me prender de novo, Lars! O capitão Jack não será capturado desta vez! – e dizendo isso, Jack se levantou e saiu correndo, na direção das chamas.

Lars tentou convencê-lo a se entregar, mas não conseguiu. Dragnus tentou derrubar o pirata com seu machado, mas não conseguiu. Jack correu e saltou na muralha de fogo, tentando atravessá-la. Mas não conseguiu. O corpo do corsário desapareceu no meio das chamas, sendo consumido por elas. Uma fração de segundo depois, e as chamas se extinguiram magicamente.

_ Nãããão!!! Não me abandone meu senhor!!! Jack...por que? Por que? – Lars se atirou de joelhos no chão, chorando. Estava em desespero. Aquele homem outrora tão sábio e confiante, agora parecia uma criança assustada. A metros dali, a tocha de Lee Wood iluminou algo, onde antes estava a parede de chamas, o corpo carbonizado de Jack. Seus dias como pirata tinham chegado ao fim, Jack estava morto.