abril 16, 2007

Campanha A - Capítulo 266 – Inimigo vegetal

Capítulo 266 Inimigo vegetal

E partiram. Lucano conduziu seus soldados por entre as florestas negras de Tollon por cinco dias seguidos. Passaram pelo entroncamento que conduzia a Forte Novo e a Rutorn, e seguiram adiante, saindo da estrada e penetrando na mata densa. Seus cavalos diminuíram a marcha para poderem percorre o acidentado terreno que se revelava à frente, e eles viajaram pelo restante do dia, até que a noite começou a cair e o sol tornou-se apenas uma lembrança, apenas uma mancha avermelhada no pouco que se via do céu além das copas fechadas das árvores.

Estavam agora em um bosque de carvalhos altos, frondosos e de folhagem farta, que tapava a luz do sol, tornando constantemente escuro o ambiente próximo do chão. O grupo já reduzira a marcha até que os cavalos apenas caminhavam a passos curtos e vagarosos, tão lentos quanto um grupo de viajantes a pé. Lucano já pensava em dar ordem para seus homens pararem e montarem um acampamento para passarem a noite, quando seus olhos avistaram um estranho movimento nos galhos de uma árvore próxima. Lucano desceu de sua montaria, apreensivo, e os soldados fizeram o mesmo. Apontou para seus homens o lugar onde havia visto o estranho movimento e disparou uma flecha entre a folhagem, apenas como sinal de alerta para quem quer que fosse. Porém, a mata permaneceu em silêncio, somente o som do vento agitava os tímpanos e as poucas folhas que se moviam na mata. Wood Croft, goblin de habilidades furtivas, discípulo de Todd Flathead, subiu rapidamente em uma árvore, para poder ter uma visão mais favorecida do terreno ao redor, e para tentar localizar o alvo da flecha do sargento Lucano. Sobre a árvore, o pequeno goblinóide contemplava a imensidão verde que o cercava, julgando-se protegido contra o suposto inimigo. Mas, foi surpreendido, e o ataque veio do local que ele menos esperava, da árvore. Um cipó coberto de folhas e ramos enrolou-se ao redor do pescoço de Wood, bloqueando sua boca, e estrangulando-o com força brutal. Desesperado, Wood tentou gritar, mas não conseguiu e o cipó o puxou para fora do galho, mantendo-o pendurado pela garganta. Com a intenção de pedir ajuda aos companheiros, o goblin atirou no chão uma das várias adagas que trazia escondidas embaixo de seu colete. A queda da arma despertou a atenção de todos, que não entendiam o que se passava, e por isso não correram em auxílio do pequenino. Vendo-se sozinho, Wood percebeu que sua vida, agora por um fio, dependia unicamente de suas habilidades. Suas mãos diminutas agarraram com força o cipó que envolvia o seu pescoço e, num impulso aflito, conseguiram libertar o pequeno ladino.

Lycan, hábil combatente da raça dos humanos, de temperamento forte e coragem inquestionável, aproximou-se da adaga no chão, trazendo seu poderoso machado nas mãos. Ao seu lado estava Arcany, um feiticeiro ainda jovem, que ordenou mentalmente ao pássaro pousado em seu ombro que fosse averiguar o que acontecia no alto da árvore. O pequeno corvo alçou vôo num rápido bater de asas, mas, antes que conseguisse ganhar altitude, inverteu a trajetória de seu vôo e retornou para o ombro de seu mestre. Quase ao mesmo tempo, Wood Croft despencou do alto da árvore, precipitando-se pesadamente no chão, enquanto tossia e respirava com dificuldade, como se estivesse sufocado com algo. E então, antes que alguém pudesse prestar auxílio para o soldado caído, um estranho arbusto despencou do alto da árvore, agitando longos feixes de cipó trançado como se fossem braços e movendo suas raízes na direção dos heróis como se fossem pernas com as quais caminhava. Um arbusto animado que vagava como um animal, e que atacou os heróis com seus tentáculos vegetais. Um arbusto errante, como provavelmente teria identificado Nailo, se estivesse acompanhando o pequeno grupo de Lucano.

Sem se deixar impressionar, Lycan lançou a lâmina de seu machado sobre o corpo da estranha criatura. A arma perfez um arco no ar e arrancou grandes pedaços dos muitos ramos que cobriam a fera. Folhas, galhos, raízes e uma viscosa secreção amarelo-esverdeada voaram pelo ar, sem no entanto conseguir fazer a criatura se curvar ou dar qualquer outra demonstração de dor.

Lucano largou seu arco no chão ficou lado a lado com Lycan. Num giro ascendente, atingiu o monstro com sua espada, no mesmo ponto que Lycan o havia ferido. Enquanto as folhas se espalhavam ao vento, o ex-clérigo gritava aos seus subordinados para que ateassem fogo à criatura.

Mas, apesar dos ferimentos, a derrota do monstro ainda estava longe de acontecer, e ele teve tempo de chicotear Lycan e Lucano com seus dois tentáculos. Wood aproveitou que o monstro voltava sua atenção para os dois e atirou todo o conteúdo do óleo que trazia consigo sobre o corpo da fera. Os dois cipós estalaram como se partissem ossos, no peito de Lucano e Lycan, e envolveram-nos como se fossem serpentes laçando pequenos roedores. O guerreiro conseguiu arquear seu corpo para trás, escapando do agarrão do monstro. Entretanto, Lucano estava enredado, com seus ossos sendo esmagados pouco a pouco, seus órgão sendo comprimidos até o limite, e seu fôlego se esvaindo rapidamente, junto com sua preciosa vida.

Arcany invocou um feitiço e comandou mentalmente uma pequena chama que avançava pelo chão como se tivesse pernas para se locomover. O pequeno fogo saltou do chão sobre o corpo da criatura e explodiu, espalhando faíscas incendiárias sobre o óleo que recobria o arbusto. E o monstro estava em chamas, porém, isso parecia não lhe causar incomodo algum, parecia imune ao fogo.

Então o machado de Lycan desceu com brutalidade sobre o cipó que agarrava o sargento e cortou-o, salvando Lucano da morte certa. Já quase inconsciente e sem forças, Lucano agarrou-se à cela de seu cavalo e se afastou rapidamente do monstro, carregado pelo animal. Distante do combate, ele teve tempo para se recompor e retornar para ajudar seus companheiros.

O sabre afiado de Wood Croft arrancou mais uma porção do corpo da criatura. Ela revidou imobilizando Arcany e Lycan com seus cipós e, num forte apertão, deixou o feiticeiro desmaiado.

Lycan ainda tentava se libertar em vão, quando Alejandro voou pela mata suspenso por seu chicote que estava preso no alto de uma árvore. Sua capa negra esvoaçante, bem como sua máscara igualmente negra, eram uma visão ao mesmo tempo bela e assustadora. O espadachim caiu diante do monstro, logo após dar uma pirueta no ar, sacou uma espada de lâmina longa e extremamente fina e golpeou o flanco da fera. Mais folhas voaram, e desta vez foi possível ver o interior do arbusto, com suas raízes e ramos entrelaçados formando algo que lembrava vagamente um corpo humanóide.

Nesse momento, Lycan conseguiu se libertar e jogou seu corpo na frente do companheiro desmaiado, protegendo-o. Sua condição, entretanto, não era muito melhor que a de Arcany. Mas, percebendo isso, Wood Croft correu por trás, ou ao redor daquilo que ele considerava ser as costas do monstro, e ficou lado a lado com Lycan. Em suas pequenas mãos ele trazia o frasco de óleo, já vazio, e uma poção mágica para dar ao seu companheiro ferido.

Ocorre que Wood não teve tempo de cumprir seu objetivo, pois o tentáculo do monstro foi mais rápido que as mãos do goblin e num rápido movimento, chicoteou e agarrou Alejandro, esmagando-o. Depois, ergueu o espadachim mascarado e o arremessou por cima de seu próprio corpo, na direção de Lycan e Wood. Os dois soldados se atiraram ao chão, enquanto Alejandro rodopiava no ar, desenrolando-se rapidamente do tentáculo do arbusto.

Sem se intimidar, o espadachim bateu os pés numa árvore próxima, deu um salto para trás, girando o corpo no ar e caiu em pé. Aproveitando o impulso, jogou o corpo para trás e deu uma série de cambalhotas e saltos mortais, passando sobre os companheiros caídos e ficando novamente diante do monstro numa pequena fração de segundo. E seu florete mais uma vez lançou ao ar pedaços da perigosa planta.

E em seguida o machado de Lycan cortou o tentáculo que segurava Arcany, e Wood Croft trouxe-o de volta a vida e ao combate com sua poção mágica. E, quando todos preparavam seus corpos para receber um novo ataque do monstro, Lucano surgiu dentre as árvores sobre seu cavalo, com a espada em sua mão e golpeou o monstro com fúria.

Infelizmente, a criatura encolheu seu corpo no momento exato, e a lâmina do clérigo passou no vazio sem atingir seu alvo. Mas, isso foi o suficiente para a criatura repensar sua estratégia, se é que possuía alguma mente, e perceber que não teria como vencer aquele combate.

O monstro saiu em disparada pela mata, arrastando suas raízes pelo chão com dificuldade. Mas, ainda assim tentou garantir alguma refeição, levando Alejandro arrastado pelas pernas, preso em suas vinhas.

Alejandro deu um assovio e Tornado, seu cavalo, correu pela mata indo de encontro ao dono. O espadachim tentava se agarrar à cela, enquanto Arcany, já acordado, disparava raios mágicos na criatura e Wood arremessava suas adagas.

Vendo que a criatura fugia do alcance, Lucano arriscou um ato ousado. Pegou em sua mochila o livro que tinha encontrado no castelo de Zulil, abriu-o numa página que lhe havia sido indicada por Seelan, e gritou “Apareça” no idioma de sua raça, conforme o mago tinha lhe ensinado. E um gigantesco dragão vermelho ergueu-se do livro, e agitou suas asas e rosnou ferozmente, assustando todos os soldados. Todos correram assustados, mas o arbusto não esboçou reação diante da imagem do dragão. E, percebendo o erro que cometera, Lucano fechou o livro e a imagem desapareceu, tão súbita quanto quando surgira, e todos finalmente perceberam que aquele dragão não passava de uma ilusão mágica. E, talvez movido pelo medo, Alejandro conseguiu agarrar os arreios e subiu em Tornado. E o cavalo continuou a perseguir o monstro, ou a fugir do dragão, e quando estavam lado a lado, Alejandro golpeou a besta uma última vez com seu florete, atirando-o ao chão, aos pedaços. E o que sobrou do arbusto foi pisoteado pelos cascos do corcel negro cavalgado pelo espadachim e desapareceu sob a relva.

Todos puderam relaxar seus músculos cansados e decidiram que era o momento de interromper a jornada e descansarem. Wood entregou o arco de Lucano, que havia ficado caído no chão, e aproveitou a distração do sargento para furtar uma pequena bolsa que o clérigo carregava na cintura. Mas, vendo que não havia objetos de valor lá dentro, apenas coisas que ele julgava inúteis, como pêlos, velas, cera, chaves, pequenos frascos com poeiras coloridas, Wood atirou a bolsa ao chão disfarçadamente, e avisou Lucano de que ele havia perdido a bolsa, fingindo não saber como ela tinha ido parar no chão. E Lucano agradeceu ao goblin inocentemente, e eles reuniram os cavalos e começaram a preparar o acampamento.

Campanha A - Capítulo 265 – Punição...lágrimas de uma deusa

Capítulo 265 Punição...lágrimas de uma deusa

Vários dias tinham se passado desde que Nailo retornara com seu grupo da missão em Forte Novo. Era final de primavera, o 13º dia de Áurea, um morag, uma suave brisa soprava para secar o suor dos corpos dos soldados que treinavam arduamente no forte Rodick. Reinava a paz no lugar, sem que nenhum incidente nas redondezas tivesse exigido os serviços do exército. Lucano, assim como seus companheiros, instruía seu pelotão, composto de soldados ainda jovens, e sem toda a experiência que o clérigo acumulara nas muitas aventuras que vivera com seus amigos.

Tudo parecia estar bem no forte, apesar da morte recente de Jack, e da partida de Lars. Mas, apesar das aparências, Lucano sabia que nem tudo estava certo. Havia algo errado, ele sentia isso. Era algo que apenas ele percebia, algo que afetava apenas a ele. Em suas orações diárias, o jovem elfo sentia que sua deusa parecia distante. A presença de Glórien já não era forte e evidente como antes, era como se ela estivesse em algum lugar muito distante, onde seu poder não pudesse alcançar Lucano.

Entretanto, apesar da dúvida que pesava em seu coração, Lucano seguia sua vida, dedicando suas orações a Glórien, estudando magia arcana com a ajuda de Anix, treinando suas habilidades no forte, ensinando seus soldados aquilo que ele sabia.

Naquela manhã em especial, treinavam a arte da arquearia. Lucano, Anix e os demais transmitiam seus conhecimentos para os novatos. Legolas, o mais habilidoso com o arco, transmitia dicas secretas para os soldados, para que todos pudessem se aperfeiçoar no manejo da arma. E foi durante esse treino que Lucano finalmente descobriu o que havia de errado. Enquanto treinava, um dos soldados atirou distraidamente e, por acidente, acabou por atingir o pé de Lucano com sua flecha.

Foi um instante de tensão e apreensão para todos. Lucano mancava, com a flecha cravada em seu pé, enquanto todos observavam com espanto. O clérigo se sentou no chão e, com um forte puxão, arrancou a flecha, causando-lhe ainda mais dor. Resistindo ao sofrimento, Lucano estendeu sua mão sobre o ferimento e sussurrou uma prece a Glórien. E nada aconteceu. O clérigo tentou novamente, uma ,duas vezes e o resultado foi o mesmo. Suas magias de cura, que por vezes foram a salvação sua e de seus companheiros, não mais funcionavam. Um frio cortante percorreu a espinha de Lucano. Desesperado, o clérigo se levantou e correu até onde estava seu superior, Glorin. Legolas, que estava mais próximo e viu tudo o que aconteceu, contou a Anix e a Seelan, que acabavam de chegar do laboratório do forte, tudo que se passava. O arqueiro, sem perda de tempo, correu atrás de Lucano, para tentar ajudá-lo, enquanto Anix e Seelan resolveram conversar com outra pessoa, Kuran.

_ Capitão! Eu preciso de sua ajuda! – disse Lucano, suplicante.

_ Fale garoto! O que você quer? – perguntou o anão.

_ Minhas magias de cura! Elas não estão funcionando! – respondeu o clérigo.

_ Ah, não? E o que você quer que eu faça? Eu não entendo de magia, garoto! Hunf...elfos! – debochou Glorin.

_ Eu quero que o senhor me ajude! O senhor é meu capitão, e é tem muito mais experiência que eu, precisa me ajudar! – pediu o elfo.

_ Está bem! Venha comigo! Vamos falar com quem entende do tipo de magia que você usa! Vamos até o Kuran! – respondeu Glorin.

Glorin e Lucano foram até o jardim onde Kuran costumava ficar. Legolas os acompanhou e, os três entraram no jardim. Glorin caminhava despreocupadamente, pisando nas plantas que cresciam naquele lugar. Idor, um sprite que costumava auxiliar e fazer companhia a Kuran, tentava repreender o anão. Mas Glorin era inflexível e teimoso como um anão deveria ser, e nem deu importância às reclamações da pequena fada. No fundo da pequena mata que se formava no forte, encontraram Kuran, sentado sob a sombra de duas árvores, com as pernas dobradas uma sobre a outra entrelaçando-se. Kuran se levantou, abandonando sua meditação, cumprimentou os três que estavam chegando e pediu a Glorin que tomasse mais cuidado com suas plantas. Depois, foi até o local onde o anão tinha pisado e amassado a relva e as flores e, com um simples movimento de mão e o murmurar de uma prece, fez com que as plantas voltassem a se eriçar, belas e viçosas. Seelan e Anix chegaram nesse momento e, maravilhados com a habilidade de Kuran, juntaram-se aos demais.

_ Digam-me! Por que vieram me procurar? O que está acontecendo? – disse Kuran. Sua voz era suave e tranqüila como o vento que agitava seus longos cabelos prateados.

_ É esse fresco do Lucano! Ele está com algum problema com seu poder mágico! Fale pra ele garoto! – respondeu Glorin, com sua voz rouca e seu falar debochado.

_ Um dos soldados atingiu meu pé com uma flecha por acidente, Kuran! Eu tentei usar minha magia para tratar o ferimento, invoquei o nome de Glórien, mas nada aconteceu! – falou o jovem clérigo, receoso.

_ Estranho isso acontecer! Só as magias de cura estão assim? Ou as outras também? Faça um teste com outra magia qualquer! – disse Kuran.

E Lucano tentou usar outro tipo de mágica, mas nada aconteceu novamente. E Kuran lhe deu um pergaminho que trazia na cintura, e explicou-lhe como ativá-lo. E novamente, Lucano não conseguiu realizar a magia. Kuran ponderou por alguns instantes, sua expressão era sábia e calma, e depois falou com uma voz mansa como a água de um lago:

_ Lucano! Além do fato de você não conseguir mais realizar magia alguma, você tem notado algo de estranho com você? Algo que pudesse explicar esse fato?

O elfo pensou por um breve momento, e lembrou-se dos últimos dias, de sentir a presença de sua deusa distante e fraca e contou ao druida e aos seus amigos aquilo que sentia. E Kuran, após meditar um pouco, falou:

_ Só há uma explicação! Busque em sua mente e em seu coração, Lucano, e pergunte a si mesmo se você fez alguma coisa recentemente que poderia desagradar Glórien!

Lucano emudeceu e se concentrou, buscando em sua mente quando fora a última vez em que ele tinha utilizado seus poderes. Kuran, Legolas, Seelan, Anix e Idor observavam-no ansiosos. Glorin sentou-se em uma pedra e permaneceu calado. Lucano continuou concentrado, até que Glórien tocou em seu coração e lhe mostrou a verdade que ele buscava.

_ Já sei! – disse o clérigo, consternado – Só agora eu fui perceber! A última vez em que eu usei minha magia, foi quando nós enfrentamos o Zulil, naquele castelo cheio de mortos-vivos! O que está acontecendo é resultado daquela batalha! Eu ataquei o Zulil, e colaborei para a morte dele! Por isso Glórien se afastou de mim! Eu fiz mal a um elfo! – explicou.

_ Sim! Agora as coisas fazem sentido! Você violou seus votos sagrados, e por isso Glórien ficou magoada com você! O poder que você recebeu dela era para ajudar os elfos, não para lutar contra eles! Por isso ela os tirou de você! Agora, da mesma forma que Lars Sween, você deverá novamente provar o seu valor a Glórien! Deverá mostrar que é digno de receber os poderes dela! – explicou Kuran.

_ Mas como ele fará isso? – perguntou Anix.

_ Primeiramente ele deverá encontrar um sacerdote de Glórien, acima dele na hierarquia clerical! E então, esse sacerdote lhe dirá o que deve ser feito! – respondeu Seelan.

_ E onde nós iremos encontrar um clérigo de Glórien no meio de reino de Tollon, que só tem anões e humanos? – era Legolas, revoltado.

_ Eu sei! – Glorin finalmente quebrou seu silêncio – Nas minhas andanças por esse mundo, eu encontrei um elfo, ao sul daqui! Ele deve ser um clérigo, ou um druida, não sei ao certo! Ele é um eremita, e provavelmente poderá ajudar! – complementou o anão.

_ Ótimo! Então, nos diga onde esse eremita vive! Vamos partir o quanto antes! Vou avisar o Squall e o Nailo! - disse Legolas.

_ Creio que isso não será possível! Assim como Lars, Lucano deverá ir sozinho! É ele quem deve provar seu valor, não vocês! – falou o anão.

_ Mas é muito perigoso! Ele não pode ir sozinho! – a voz de Anix tinha tom de súplica.

_ Glorin está certo! Ninguém poderá ajudar Lucano dessa vez! No máximo, para que ele não vá sozinho, ele levará seus soldados, já que eles são todos ainda fracos e inexperientes, não estariam ajudando Lucano! Certo Glorin? – era Seelan.

_ Façam como quiserem! – respondeu o anão.

Lucano estava cabisbaixo, triste e decepcionado por tudo que acontecia. Anix para Seelan e Glorin, suplicando para que o deixassem acompanhar o amigo. E Legolas tinha os olhos brilhantes, cheios de ódio e mágoa, pelo que estava acontecendo.

_ Não é justo! O Zulil era um desgraçado, chamou Glórien de prostituta! Mas quem recebe o castigo é o Lucano! Isso não está certo! – reclamava o arqueiro.

_ Não questione os desígnios dos deuses, Legolas! Não conhecemos as motivações deles, portanto não devemos julgá-los! Ao invés de revolta, você deve ter fé e acreditar em seu amigo e sua deusa! Façamos o seguinte, procurem-me amanhã de manhã! Até lá, eu já saberei a resposta de Glórien, e direi se vocês poderão ou não acompanhar seu amigo na jornada que ele deverá fazer! – disse Kuran, com toda a serenidade de sua fala, acalmando o arqueiro.

_ Como assim? Você vai falar com Glórien? – indagou Anix, surpreso.

_ Sim, por intermédio de Allihanna! – respondeu Kuran.

Ainda que relutantes, Legolas e Anix concordaram com a decisão do manipulador de vegetais. Deixaram o jardim, que era quase como um paraíso, e cada qual seguiu seu caminho.

Lucano, amargurado, foi com Glorin até o alojamento do capitão. Com suas mãos firmes de fortes, o anão traçou num mapa uma rota e explicou cada um dos detalhes ao clérigo, para que ele pudesse encontrar e chegar ao seu destino. Lucano saiu de lá e descansou pelo restante do dia, preparando-se para a jornada que faria na manhã seguinte.

Legolas, revoltado e triste, necessitava de um afago, de algumas palavras doces que trouxessem acalanto ao seu coração tempestuoso. Liodriel. O berloque da comunicação distante fez seu ruído característico e, do outro lado do reino de Tollon, a bela dama élfica atendeu ao chamado de seu adorado marido.Os dois deleitaram-se ouvindo a voz do ser amado. Graças ao bom Sam, ainda que estivessem distantes, eles podiam ficar mais próximos com aquele dispositivo mágico. Mas, como a conversa entre os dois não poderia durar para sempre, Legolas se despediu de sua esposa, e a solidão voltou a abater seu coração. Entretanto, agora ele estava fortalecido pelo amor de Liodriel.

Pois foi esse amor que o levou a conversar com o general Wally Dold. O ano já findava e, junto com o novo ciclo vinha também um breve período de comemorações em todo reinado, para festejar a mudança no calendário. Legolas desejava passar o feriado com sua amada, e pediu ao general que o dispensasse do serviço por uma semana, tempo suficiente, acreditava, para ir visitar sua amada e retornar às suas obrigações no forte. O general coçou seu queixo, enquanto ouvia ao pedido do elfo, e prometeu que pensaria no assunto.

Legolas saiu da sala do general esperançoso. Foi até seu alojamento, e pegou em seu armário os itens que estavam ali guardados. Vários tesouros que ele e seus soldados haviam recolhido após derrotarem o homem-serpente nas Montanhas Uivantes. Levou cada um dos objetos para a única pessoa do forte que seria capaz de descobrir para que eles serviam, Seelan. O arqueiro deixou os tesouros sob os cuidados de Seelan, e pediu que o mago os estudasse e desvendasse os segredos de cada um deles. E então, o arqueiro finalmente voltou à sua rotina normal.

Já Anix e Seelan, retornaram para o laboratório, onde retomaram seus trabalhos e suas pesquisas. Enquanto tudo isso se desenrolava, Nailo treinava seus soldados, sem desconfiar da desgraça de Lucano. Já Squall, deixara um de seus soldados responsável pelo seu grupo, e agora vagava pelo forte.

_ Major! Posso falar com o senhor! – perguntou o feiticeiro a Jonathan Wilkes, que saboreava uma caneca de cerveja na taverna do forte.

_Sim, sargento! Fale o que quer! – respondeu o homem, sempre com seu jeito bem humorado e debochado.

_ Eu gostaria que o senhor me desse uma dica! – pediu o elfo.

_ Claro! Mantenha sua espada sempre bem afiada! – sorriu Wilkes, sacando a arma da bainha.

_ Não, não era isso! Eu queria que o senhor me desse uma dica para que eu possa me relacionar bem com os soldados! – explicou o elfo.

_ Ah, bom! Agora entendi! Quer se dar bem com os seus subordinados? Isso é fácil! Seja duro com eles, e não deixe que sua autoridade seja abalada! Mas, saiba ser amigável com eles, para não parecer um tirano! – respondeu o homem, entornando a caneca.

_ Era isso que eu queria ouvir! Obrigado Major! – Squall agradeceu e se retirou. Ao invés de retornar ao treinamento dos seus soldados, foi até o laboratório, onde Seelan e Anix trabalhavam em suas pesquisas mágicas. Atravessou a entrada e pôs-se a observar o comportamento de Seelan que bolinava seu irmão. Squall sabia que Seelan apenas fingia ser afeminado para caçoar dos novatos e divertir a todos no forte. Mas, passados alguns meses, Seelan continuava enganando Anix, expondo-o ao ridículo diante de todos os soldados. E, o pior de tudo, parecia que Anix gostava do modo como era tratado por Seelan, já que ele, embora tentasse resistir, arrepiava-se todo, ruborizava e sorria encabulado cada vez que Seelan o tocava ou fazia um gracejo. Squall já começava a duvidar da masculinidade de seu irmão e pensava se não deveria revelar toda aquela farsa. Enquanto divagava sobre o comportamento suspeito de seu irmão, a presença de Squall foi notada, então ele decidiu tratar do assunto que o levara até aquele lugar.

_ Seelan! Preciso falar com você um instante! Quero perguntar algumas coisas para você! E é uma conversa particular! – disse o elfo com seriedade.

_ Claro que sim, amiguinho! Vamos conversar sim! Vamos lá pra fora, para ficarmos um pouco a sós! Quero dizer, isso se você não se importar, Anix! – Seelan sorriu, como de costume e foi até Squall, colocando seu braço por cima do ombro do rapaz. Depois alisou o peito de Anix com a ponta do indicador, enquanto falava com sua voz aguda e afeminada.

_ Claro que não me importo! Só não entendo o que o Squall teria a esconder de mim! – respondeu Anix.

_ Não importa, Anix! Isso é assunto meu! Depois eu quero ter uma conversa séria com você também! Você está me causando vergonha, com esse seu jeito! Depois a gente conversa! Agora vamos Seelan, e tire essa mão do meu ombro, pois isso não funciona comigo, eu sei seu segredo e se você não parar com essa frescura, eu vou revelá-lo! – respondeu Squall. Seu tom de voz era carregado de um desprezo que ele sentia pelo irmão naquele momento. Depois sua voz inflamou-se em cólera com a ousadia de Seelan.

_ Segredo? Ué?! Que segredo é esse que vocês estão falando? Eu quero saber! – perguntou Anix.

_ Não é nada! Bobagens! Depois eu te conto! Vamos Squall! Vamos lá fora conversar! – respondeu Seelan, arrastando o feiticeiro para fora.

Saíram os dois, deixando um Anix desconfiado dentro do laboratório. Não agüentando de curiosidade, e desconfiando que os dois tramavam algo, talvez algum plano para expô-lo ao ridículo ainda mais, Anix utilizou sua mágica para ficar invisível e seguiu os dois silenciosamente.

Enquanto caminhavam em direção à entrada do forte, afastando-se do laboratório, Squall perguntava a Seelan sobre algo que era tabu no território do reinado, armas de fogo. Durante o tempo em que estivera perdido no Mar Negro, Squall havia ouvido vários rumores sobre aquele tipo exótico de arma e, por uma única vez, pode testemunhar uma delas funcionando, no dia em que o navio onde ele estava fora atacado e abalroado por piratas. Depois daquele dia, Squall vagou longo tempo à deriva no mar, até que finalmente foi encontrado pelos homens que tripulavam o Lazarus, sob o comando do já falecido capitão Arthur Tym. Entre esses homens, estava Anix, seu irmão, que demorou dias para reconhecê-lo, devido à desidratação e às queimaduras do sol. Os infortúnios que vieram a seguir, sequer deram tempo a Anix e Squall para comemorarem o seu reencontro, após longo tempo. Junto com seu irmão e seus novos amigos, Squall viveu grandes aventuras, enfrentou perigos e se emocionou. Mas, mesmo após todo esse tempo, a imagem daquele pequeno artefato de metal explodindo em fogo e fumaça, perfurando os corpos dos marinheiros, causando morte e destruição sem auxílio de magia, jamais saiu de sua mente. Mesmo sabendo que aquele tipo de utensílio era proibido em todo o território do reinado, Squall pediu a Seelan que lhe conseguisse uma arma de fogo para que ele pudesse satisfazer sua curiosidade.

Seelan tentou desviar o assunto e fingir que nada sabia sobre as tais armas. Mas Squall sabia que no forte havia armas de fogo, capturadas de criminosos presos pelo exército, e que agora estavam guardadas em segurança. E Squall sabia que Seelan tinha conhecimento disso e o advertiu. Sem ter como escapar, o mago concordou com o pedido do feiticeiro e prometeu que faria uma demonstração para que todos os soldados pudessem conhecer os perigos que o uso da pólvora escondia. E novamente, no meio da conversa, o braço de Seelan envolveu Squall num abraço.

Squall empurrou Seelan e reclamou. Exigiu que ele parasse com aquilo, pois ele sabia de toda a verdade, sabia que Seelan apenas estava fingindo para enganar Anix. E Anix ouviu tudo e se surpreendeu com o que acabara de descobrir. E Seelan pediu desculpas, enquanto sua mão deslizava pelas costas de Squall. Vendo aquilo, Anix não se conteve e riu, e seu riso foi ouvido, e Squall e Seelan descobriram seu disfarce.

Anix se revelou, dissipando a camuflagem mágica que o tornava invisível. E encarou os dois e pediu explicações, sobre por que todos o enganavam daquele jeito. Squall se retirou, apenas dizendo a seu irmão: “Agora você já conhece a verdade! Então comporte-se como um elfo, não como um maricas!”. Anix encarou Seelan com fúria nos olhos, era o momento da verdade.

_ Por que você me enganou esse tempo todo? Por que você me fez de idiota na frente de todos? Por que ficou me dizendo que era um maricas, um veado? – perguntou Anix, cheio de rancor.

_ Mas eu nunca disse que era veado, maricas ou coisa parecida! E não fiz nada por maldade! Nunca tive a intenção de humilhar você! Só queria brincar! Desculpe se eu te magoei! E, sinto muito, mas infelizmente, nossa relação é impossível! Espero que você não fique muito triste com isso! – respondeu Seelan. Sua voz não tinha mais o tom afeminado de antes, era grave e ao mesmo tempo suave, preenchia todo o espaço à sua volta.

_ Ainda bem! Achei que você queria me namorar ou algo assim! Menos mal, mas ainda assim estou zangado com toda essa história! – respondeu Anix.

_ Ora, não fique assim! Quer que eu te leve para dar uma voltinha no forte, pelado, novamente? - sorriu Seelan.

_ Nem vem com graça! Mas, se você me levasse pra dar uma volta voando, eu bem que ia achar legal! – retrucou Anix.

_ Ótimo, então vamos! – gritou Seelan, agarrando a mão de Anix e levantando vôo com o auxílio de sua mágica. Assim, Anix ficou sabendo do segredo que Seelan escondia dele, e os dois voltaram a conviver em paz.

Na manhã seguinte, Lucano e seus amigos procuraram por Kuran, como haviam combinado antes. O druida explicou que falara com Allihanna em suas preces, e que a deusa dissera que Glórien estava muito triste com o uso que Lucano havia feito dos poderes concedidos por ela. E disse que Lucano deveria partir sem seus amigos para a jornada em que ele deveria provar o seu valor. Legolas ficou enfurecido, pois Lucano tinha apenas ajudado ele e seus amigos, todos elfos, enquanto que Zulil renegava o nome da deusa. Em uma explosão de fúria, o arqueiro começou a gritar palavras ofensivas para a deusa e, por um instante, o céu pareceu estremecer. Anix agarrou firme o pescoço de Legolas, e os dois por pouco não se enfrentaram. Felizmente, Glorin interferiu e impediu que os amigos brigassem entre si.

_ Parem já com isso garotos! Como Kuran disse, não se deve questionar as intenções dos deuses! Não sabemos o que eles pensam ou quais suas motivações, então, não adianta ficar discutindo! Lucano irá procurar o elfo que eu falei sem vocês, mas não irá sozinho! Ele irá com os soldados dele, que não representarão grande ajuda, já que são todos mais fracos e inexperientes! E, Anix, largue já o pescoço do Legolas, e tire essa pena da sua mão! Você está ainda mais aveadado com isso do que de costume! – disse o anão.

E ouviram e concordaram com as palavras de Glorin, embora não estivessem contentes com aquela situação. E Anix soltou Legolas e se desculpou por tê-lo agredido, e viu que em sua mão havia uma pequena pena branca presa. Anix retirou a pena da mão e a guardou, e ficou intrigado com aquilo. Mas, como estavam no jardim de Kuran, era possível que algum pássaro a tivesse deixado cair. Legolas pensou até que ela fazia parte do colar que ele e seus soldados tinham ganhado em Cold Valley, mas, contatou que seu colar estava intacto ao conferi-lo e não se importou com aquele fato.

E Lucano, foi e reuniu seus soldados, e juntaram equipamentos e selaram os cavalos e se prepararam para partir. E Glorin e todos os outros se reuniram com eles para se despedir e desejar boa sorte.

_ Ouçam com atenção, soldados! Vocês irão acompanhar Lucano numa missão! Deverão cumprir as ordens dele, como de costume, mas não deverão ajudá-lo nesta viagem! Se enfrentarem algum perigo, protejam apenas as suas vidas! Em hipótese alguma vocês poderão ajudar Lucano, mesmo que a vida dele dependa disso! Em outras palavras, vocês estão indo com ele apenas para fazer-lhe companhia, para adquirirem experiência e, caso ele não sobreviva, para carregar seu corpo de volta ao forte! Agora partam sem demora, e tenham boa sorte! – disse Glorin aos soldados, que ouviam atentamente as ordens do capitão. Embora não estivessem entendendo tudo o que estava acontecendo, pelo tom sério do anão, sabiam que não deveriam ignorar aquelas palavras.

_ Lucano! Leve isto com você!­ – disse o anão, entregando um pequeno broche de madeira em forma de folha de carvalho – Quando encontrar Laurelin Ramo de Carvalho, mostre isso a ele e diga Mão Gelada o enviou até ele! Assim você o encontrará mais facilmente!

_ Está bem, capitão! Obrigado! – Lucano agradeceu, prendendo o broche à roupa.

_ E leve isto também! São nossas últimas poções mágicas de cura! Vocês acabaram com todas em suas missões! Se Natanael não vier pra cá nos próximos dias, eu terei que dar um jeito de conseguir mais! – disse Seelan, entregando ao clérigo oito pequenos recipientes.

_ E Lembre-se! Você estará sendo testado por Glórien! Jamais desista e jamais deixe de confiar nela, pois, apesar de tudo, ela está olhando por você! – completou Kuran.

E depois foi a vez de Squall, Anix, Legolas e Nailo se despedirem do grande amigo e desejarem-lhe boa sorte. E Lucano montou em seu cavalo e ele e seus soldados deixaram o Forte Rodick. E quando eles já se tinham ido, Kuran suspirou e falou: “A provação que ele enfrentará será ainda maior do que ele imagina!”. E todos ficaram em silêncio.

Campanha A - Capítulo 264 – Cabo Nailo

Capítulo 264 Cabo Nailo

Na manhã seguinte, um dos soldados chegou à prisão do forte Rodick, destrancou todas as celas e soltou todos os que ali estavam presos. Nenhum deles entendeu o que estava acontecendo, já que, conforme as ordens de Glorin, todos sabiam que permaneceriam presos durante uma semana, pelo menos. Então, o soldado entregou as ordens a cada um dos libertos e as coisas começaram a fazer sentido. Todos, com exceção de Nailo, foram convocados pelo capitão Glorin, para receberem dele suas novas ordens. Quanto ao sargento, ele deveria se apresentar diretamente ao general Wally Dold, sem a companhia dos demais.

Assim, Kawaguchi, Akira, Lord e Hydor foram ao encontro de Glorin. O anão estava no campo de treinamento, inspecionando os exercícios das tropas, quando foi abordado pelo grupo recém liberto. Virou-se quando Kawaguchi o chamou e se apresentou, e sua expressão era séria e taciturna, seu olhar era frio como os picos nevados das Uivantes.

_ Capitão! Queria nos ver? – perguntou o samurai.

_ Sim, soldados! Seu período de detenção terminou! E eu já tenho novas tarefas para vocês! Venham comigo! – respondeu o anão.

_ Hay! – gritou Kawaguchi, concordando com a cabeça, Glorin bufou, contrariado.

Foram até os alojamentos dos soldados, os, agora, 86 loucos, como Glorin costumava dizer. O anão entrou com todos em cada uma das construções que serviam de abrigo para os recrutas e disse:

_ Vocês viram cada um desses barracões? Eu quero que vocês os limpem todos os dias, a partir de hoje e durante uma semana inteira! Farão isso na parte da manhã! Na parte da tarde, cuidarão dos estábulos! Limparão tudo, tratarão dos animais e os alimentarão! E, quando terminarem essas tarefas, ajudarão a cuidar de nossa horta até o dia terminar e o sol se pôr! Agora vão pegar equipamento de limpeza e comecem a trabalhar! E, enquanto estiverem fazendo esses trabalhos sujos e cansativos, quero que reflitam sobre o que fizeram nos últimos dias, para que vocês aprendam a serem disciplinados e mais educados! Agora vão!

_ Hay! – responderam todos em coro, e correram para o depósito do forte em busca de vassouras, baldes e escovas. Glorin balançou a cabeça de um lado para o outro, contrariado. Enquanto isso, Nailo se sentava diante do general, para receber sua sentença.

_ Bem, Nailo! Os últimos acontecimentos, e toda aquela discussão que aconteceu ontem aqui serviram para me mostrar uma coisa importante! Embora você seja um lutador poderoso e valente, como me disse o capitão Glorin logo que vocês chegaram aqui, você não tem capacidade de liderança! Você, assim como os seus soldados, é indisciplinado! Glorin já havia me alertado quanto a isso, e me relatado sobre seu comportamento durante o período em que estiveram juntos antes de chegarem aqui! Foi a pedido dele que eu concordei em promovê-lo a sargento, para lhe dar uma chance! Acreditávamos que, estando do outro lado da situação, atuando como comandante e não como comandado, você iria aprender a domar essa sua rebeldia toda! Mas, parece que nos enganamos! O espetáculo de ontem me mostrou isso! Você pode ser um bom combatente, mas definitivamente não é um bom líder! Por isso, não tenho outra opção a não tirá-lo do posto de sargento! Lembro-me que, pelas suas próprias palavras, sua grande preocupação era não ser responsável pelo que pudesse acontecer aos soldados! Pois bem, a partir de agora você não será responsável por ninguém mais além de você! De agora em diante você será cabo! Continuará treinando os soldados e ensinando-lhes um pouco daquilo que você sabe sobre combates, mas não irá mais liderar missões dentro ou fora do forte! Dessa forma não teremos mais problemas, espero eu! – o general falava vagarosamente e com pesar. No entanto, sua voz era firme, e preenchia todo o ambiente da sala, apesar dele falar em um tom baixo, quase sussurrando.

_ Sim, senhor! Eu compreendo, e espero um dia poder provar meu valor e receber uma nova chance de recuperar o que eu perdi hoje! – respondeu Nailo, com a cabeça erguida, mas com o orgulho ferido.

_ Está certo, eu também espero isso! Agora, volte ao trabalho, cabo Nailo! Dispensado! – concluiu o general.

Nailo bateu continência e se retirou, sem comentar com ninguém o que havia acontecido. Aos poucos, entretanto, todos no forte foram capazes de entender o que tinha sido decidido naquele dia e, apesar do desapontamento que o ranger sentia, a vida voltou ao normal em forte Rodick.

abril 13, 2007

Campanha A - Capítulo 263 – Conflitos

Capítulo 263 Conflitos

Partiram, assim, os valentes soldados que tinham salvado a pequena vila de Forte Novo, bem como o clérigo amaldiçoado Kyrnynn. Os aldeões fizeram uma balsa improvisada para atravessarem os heróis para o outro lado do rio e se despediram de todos. Kyrnynn lhes agradeceu por toda a ajuda, e prometeu ir ao forte Rodick assim que terminasse de ajudar os moradores da vila a reconstruir tudo aquilo que ele tinha destruído. Atilat sequer se despediu dos soldados, tornando-se invisível para assistir à partida deles, sem corre o risco de ser novamente vítima da brutalidade de Nailo e seus subordinados, e também para evitar ser novamente beijada por Kawaguchi. Assim começou a viagem de volta, com todos felizes por tudo ter acabado bem.

Ocorre que Hydor carregava com extrema dificuldade a enorme lança que recebera de Kyrnynn. Iria entregá-la a Kuran, pensava ele, e a levaria com seu próprio esforço, para mostrar-se valoroso diante daquele que tanto admirava. Mas, a ganância preencheu os corações dos soldados ao ver o pequeno sprite carregando um item valioso que não usaria, e eles desejaram possuir a lança de Hydor. De início Nailo pediu a lança, mas o pedido tinha mais ar de ordem do que de pedido, e pareceu a Hydor que o sargento desejava roubar sua lança. E talvez isso fosse verdade, mas ninguém poderia penetrar na mente do sargento para descobrir suas intenções, de modo que o pequenino ficou desconfiado. Depois foi a vez de Kawaguchi e Lord tentarem lhe tomar a lança, fosse para transportá-la, fosse para tê-la para si. Por último, Akira fez uma oferta em moedas de ouro pelo objeto. Mas, desconfiado e temeroso, Hydor recusou as ofertas e não soltou mais de sua recompensa, temendo que ela fosse roubada. Na saída da vila, Nailo e Hydor tiveram uma discussão, já que a fada atrasaria o grupo por carregar tanto peso. Nailo, tentando convencer Hydor a desistir de carregar aquele objeto, chegou a insultá-lo e menosprezar seu valor por causa de seu diminuto tamanho.

_ Você não vai conseguir carregar essa lança até o forte, seu nanico! E não adianta bufar ou querer bancar o valente comigo, pois basta eu lhe dar um assopro para jogá-lo no chão! Pois bem, se não quer me entregar essa lança para eu carregá-la, então fique ai, tropeçando no seu orgulho, sozinho! Vamos embora soldados, deixem-no pra trás! – disse Nailo, sussurrando algo no ouvido do cavalo que partiu em disparada. Mas, Kawaguchi não quis deixar Hydor para trás, e lhe ofereceu ajuda.

_ Suba em meu cavalo, eu levo você!

Assim eles partiram, desconfiados, desunidos e ressentidos uns com os outros. Então, quando chegou o primeiro anoitecer depois de terem deixado Forte Novo para trás, Nailo decidiu dar uma lição no pequenino. Enquanto todos dormiam, Nailo se aproximou furtivamente de Hydor para roubar-lhe a lança e escondê-la. Mas, quis o acaso que o ranger pisasse em um galho seco, provocando ruído suficiente para que os ouvidos sempre atentos do samurai percebessem e o fizessem despertar, alarmado. Kawaguchi levantou bradando seu grito de guerra e sacando sua katana, Nailo, para não ser apanhado como um ladrão, segurou Hydor no chão e sacou sua espada, como se tentasse mantê-lo calado por causa de algum perigo na mata. Por um instante, todos temeram que o sargento estivesse tentando matar o sprite, mas Nailo lhes disse que havia ouvido um ruído na mata, e que alguém os estava observando.

Rapidamente todos se levantaram, e ficaram em alerta. Akira usou seu poder mágico de vôo para olhar do alto, e tentar identificar o inimigo. Mas, só o que viu foi um corvo, pousado no galho de uma árvore não muito distante do acampamento. Akira avisou a todos sobre a presença do corvo, deixando que seus amigos ficassem mais tranqüilos.

Mas, Kawaguchi não se convenceu de que não havia ameaça, e decidiu eliminar o corvo com uma flechada, temendo que ele servisse a algum mago maligno que pudesse estar espionando-os. Talvez, fosse o próprio Stondylus. Assim, o samurai disparou seu arco na direção do pássaro, mas errou seu alvo, já que Nailo tentou impedi-lo de atingir o corvo. Contudo, o animal se assustou e levantou vôo e, antes que Nailo pudesse fazer qualquer coisa, Kawaguchi disparou uma segunda flecha, desta vez certeira, que derrubou o corvo no meio da floresta.

Nesse momento Nailo ficou extremamente irritado e correu para tentar salvar o pobre pássaro. Mas, quando o encontrou, o último sopro de vida já havia deixado seu corpo emplumado e negro. Nailo entristeceu ao ver um animal ter sido morto pelo seu erro e por sua ganância, e sentiu-se responsável por tudo aquilo. Quis deixar aquele lugar o mais depressa possível, e quis fazer algo para consertar aquela tragédia.

_ Vamos partir! – disse ele, esperando alguma reação de seus soldados, mas todos estavam calados, enquanto Hydor permanecia agarrado à sua preciosa lança. – Bom, eu estou indo embora para o forte! Quem quiser vir comigo, que me acompanhe agora, ou então que fique para trás! – e, dizendo estas palavras, Nailo selou seu cavalo, reuniu seu equipamento e partiu, apressado.

_ O sargento nos abandonou! Não é mais digno de ser servido! Vamos ficar aqui e partir pela manhã! Não há nada de perigoso na mata, e o corvo já está morto, não há motivo para partirmos agora, no meio da noite! – disse Kawaguchi, com firmeza.

_ E tenho certeza que ele não tinha ouvido nada! Acho que ele só queria pegar minha lança pra ele! – completou Lord.

E todos voltaram a dormir. Nailo, viajou mais algumas horas, até exaurir todas as forças de seu cavalo e ser forçado a parar e acampar. Na manhã seguinte, o grupo de soldados alcançou seu sargento, e passaram por ele, sem se importar com sua presença, deixando-o para trás tal qual ele havia feito antes com todos. Apenas Hydor decidiu ficar com Nailo, agarrou sua lança com todas as forças e bateu as pequeninas asas, deixando o cavalo de Kawaguchi.

Nailo e Hydor finalmente se entenderam, e o sargento se ofereceu para carregar a lança de Hydor em sua aljava nova que, por ser mágica, podia facilmente guardar um objeto daquele tamanho. Mas, Hydor recusou a oferta, dizendo que queria carregar a lança com suas próprias forças, para provar seu valor para Kuran. Então, para facilitar a tarefa do sprite, Nailo lhe emprestou a aljava mágica. Hydor guardou a lança dentro da aljava, os dois montaram no cavalo e partiram. Horas depois, passaram pelo grupo, que estava acampado numa clareira, descansando. Nailo os deixou novamente para trás e seguiu em frente junto com Hydor. E eles não voltaram a se encontrar novamente nos dias que se seguiram, somente quando já estavam de volta ao forte Rodick.

Era o dia 8 de Áurea, Nailo e Hydor foram os primeiros a chegar ao forte. Hydor levou a lança para Kuran, e entregou-lhe a arma como havia prometido. Kuran a recebeu com gratidão, e demonstrou orgulho pelo feito do pequenino sprite. Enquanto os dois conversavam dentro do pequeno bosque oculto atrás da taverna do forte, Nailo se reportava ao general, contando-lhe tudo que havia acontecido, da missão em Forte Novo, da história e da charada do ettin, das desavenças entre ele e seus soldados, da prisão de Atilat e tudo mais. O general ouviu tudo com atenção, e pediu a Nailo para que esperasse que os soldados retornassem e depois voltasse a falar com o general, junto com todos os soldados e o capitão Glorin.

Então, algumas horas depois, Akira, Lord e Kawaguchi atravessaram os portões de Forte Rodick e, conforme havia sido ordenado, foram até o General Wally Dold.

_ Pois bem, soldados! O sargento Nailo reclamou do comportamento de vocês durante a missão, e por isso estão aqui! Vamos fazer uma acariação, colocá-los frente a frente, e ouvir a versão de cada um sobre o que aconteceu em Forte Novo! Os que estiverem certos serão recompensados, e os que estiverem errados serão punidos, como dever ser feito! E a primeira lição que devem aprender com tudo isso, é respeitar a hierarquia militar! Se vocês, soldados, tiverem alguma queixa ou reclamação, façam-na ao seu oficial imediatamente superior, no caso, o sargento Nailo! E, quanto a você, sargento, seu relatório deveria ter sido passado não a mim, como você fez, mas sim ao seu superior, o capitão Glorin que aqui está! Lembrem-se disso no futuro! Agora, comecem a contar o que aconteceu! – disse o general, com seriedade.

Então Nailo começou a narrar os fatos detalhadamente. Contou minuciosamente cada detalhe da sua missão em Forte Novo, apesar de prometer resumir a história. Todos ouviam-no atentamente, até o momento em que ele descreveu a briga entre Akira e Kawaguchi, na casa da anciã da pequena vila. Os dois soldados interromperam o sargento, defendendo seus pontos de vista, e Glorin perguntou a cada um deles se a história contada era verdadeira. Cada um expôs sua visão dos fatos, e Lord era o que mais falava, e dizia que Kawaguchi não tivera intenção de ofender a velha, mas que o fizera, e que Akira não tivera intenção de ofender Kawaguchi, mas que o fizera. O pequeno halfling parecia querer ao mesmo tempo condenar e inocentar a todos.

E a conversa se prolongou por muito tempo, Nailo narrava os fatos à sua maneira, sempre acusando os soldados de desobediência e insubordinação. Os soldados se defendiam, acusando Nailo de abusar de sua autoridade. Nailo, por sua vez, justificava suas ações dizendo que tomava atitudes para preservar os soldados e para não ser culpado caso algo de ruim lhes acontecesse. E Glorin sempre lembrava Nailo dos dias em que lutaram juntos no castelo de Zulil, e do comportamento do ranger, por vezes mais indisciplinado até que o de seus soldados a ponto de expor ao perigo não só a vida de Nailo, mas a de todos do grupo. E Lord se intrometia a cada instante, desmentindo tanto Nailo quanto os demais, contando sua própria versão, por vezes distorcida, dos acontecimentos, dizendo que os outros haviam tomado atitudes sem intenções ruins, mas erradas, e dessa forma o halfling atirava a todos na fogueira e tentava inocentar apenas a si próprio.

Ocorre que o capitão Glorin foi ficando irritado com toda aquela discussão. Trocas de acusações, relatos contraditórios, as versões maliciosas de Lord, Kawaguchi que só respondia em seu sotaque tamuraniano “Hay!” para concordar com o que lhe era perguntado, Akira que se atrapalhava com as patentes, ora chamando Nailo de capitão, ora chamando Glorin de sargento, tudo isso deixava o anão de barbas brancas cada vez mais descontente com tudo aquilo.

Mas, a situação se agravou ainda mais depois que Kawaguchi, explicando o incidente com a anciã de Forte Novo, olhou para as barbas brancas do capitão e disse que ele também iria morrer em breve. Momentos depois, Nailo confessou que desejava roubar a lança de Hydor durante a noite, já na viagem de volta, apenas para escondê-la e fazer uma brincadeira, disse ele. E logo em seguida, contou sobre o incidente do corvo, e de como isso o deixou abalado, e mostrou o cadáver do animal, que guardava em sua mochila para, segundo ele, levá-lo à capital do reino e encontrar alguém para ressuscitá-lo, tal qual havia sido feito com Loand. Nailo mostrou o animal morto, e Glorin ficou ainda mais irritado. E então o capitão começou a falar, com palavras duras, advertindo a todos sobre suas falhas, e o anão parecia extremamente irritado, mais do que era de costume. E como se não bastasse tudo aquilo, Squall veio interrompê-los, procurando por Glorin, deixando-o ainda mais irado. E Nailo discordou das palavras de Glorin e discutiu com ele, e o sargento se exaltou e ofendeu seu capitão seriamente. E Glorin ergueu a voz, mas Nailo tentou falar ainda mais alto que o anão. E, percebendo que palavras não bastariam para fazer Nailo parar com aquela histeria, tirar-lhe o ar arrogante que possuía e fazê-lo reconhecer seus erros, ao invés de apenas enxergar os dos outros, Glorin se exaltou, gritando furiosamente, ordenando que Nailo se calasse. E o anão gritou para que os soldados que aguardavam no corredor entrassem e prendessem a todos. E os soldados invadiram a sala imediatamente, espantados com o berro dado por Glorin, e foram algemando um a um os soldados. E quando chegaram até Nailo, o ranger se levantou de sobressalto, como se fosse reagir, e nesse momento, Glorin segurava seu machado com ódio, e mantinha seus olhos baixos, e a arma e tudo ao redor dele emanava uma aura alva e fria, e nesse momento nem mesmo o general Wally Dold ousou dizer sequer uma palavra. E Nailo estendeu os braços na direção dos soldados, mandando que eles o prendessem, e assim foi feito. E em suas últimas palavras, Glorin ordenou aos soldados que levassem todos para a prisão do forte e que os deixassem lá por uma semana como forma de punição por tudo que acontecera.

março 26, 2007

Campanha A - Capítulo 262 – Mensagem dos deuses

Capítulo 262 Mensagem dos deuses

Nailo baixou sua cabeça novamente, seus olhos vertiam lágrimas aos cântaros, e ele não disse uma palavra sequer. Seus companheiros se apressavam para salvar Kawaguchi, e para se certificar de que o gigante estava realmente morto. Para ele, nada mais importava. Então, ele sentiu um roçar em sua perna, algo macio como os pêlos de seu amigo Relâmpago. Sentiu até mesmo o hálito quente de seu companheiro em sua perna, e até mesmo ouviu um latido. Imaginação, deve ter pensado ele, mas quando seus olhos se votaram para trás, Nailo viu Relâmpago em pé, diante dele, abanando seu rabo e latindo alegremente. Nailo olhou em seus olhos, e notou um brilho estranho neles. E o brilho aumentou e o ofuscou, até que ele não pode enxergar mais nada. Quem observava de longe, viu apenas uma luz alva muito forte envolvendo o corpo do sargento. Quando a luz se foi, Nailo não estava mais lá.

Ora, quando a visão de Nailo retornou, ele se viu em um lugar estranho. Era uma imensidão branca que o cercava por todos os lados, sem limites. Ele não sabia distinguir o que era chão e o que era céu, muito menos podia ver qual era a extensão de tudo aquilo. Estava sozinho naquele lugar esquisito, mas não se sentia mal, pois uma sensação de paz o invadia e o dominava por completo. Suas lágrimas secaram, e ele pode ver ao longe que alguém se aproximava.

Era uma figura bela, com corpo feminino, que vestia um longo vestido branco de seda. Sua cabeça, entretanto, não era de gente, mas sim um de cervo, com longos e belos chifres, e olhos profundos e penetrantes. Era Allihanna.

_ Olá Nailo! Nos encontramos novamente! Venho para lhe trazer um presente! Você provou mais uma vez ser amigo das criaturas que eu fiz, provou ter amor pelos meus animais queridos, e pelas plantas que eu tanto amo! Defendeu a vida de Relâmpago, mesmo arriscando a sua própria, e quase morreu por isso! Estou orgulhosa de você, e por isso lhe darei um presente! A partir deste dia, você será reconhecido como amigo dos animais, e como tal, será ouvido e compreendido por todos eles, e também será capaz de ouvir e compreender suas vozes! – disse a deusa calmamente. – Tudo que aconteceu foi apenas um teste! Relâmpago está em segurança! Eu assumi o lugar dele para testar o seu amor por seu amigo, e você passou no teste com louvor! Por isso lhe concederei este dom especial! – Allihanna deu uma pausa, e o coração de Nailo se encheu de alegria e esperança, ao saber que seu amigo estava bem. Então, Allihanna tornou-se séria e sombria, e ela continuou seu discurso. E as palavras que vieram em seguida, deixaram Nailo surpreso e temeroso. – Mas não estou aqui apenas para isso! Na verdade, eu apenas aproveitei a chance para lhe transmitir uma mensagem, conforme eu havia prometido à sua mãe, Glórien! Você e seus amigos, os cinco filhos de Glórien, escolhidos pelo destino tem um grande provação para enfrentar! No passado, vocês salvaram minha criança, Enola, por isso eu prometi a Glórien que lhes daria uma recompensa! A maçã mágica, que trouxe seu amigo Sam de volta à vida, foi uma parte da recompensa! A outra parte, foram as visões que vocês tiveram, e que permitiram-nos ver o futuro e se prevenir para ele! Bem, aquelas visões eram previsões do futuro feitas por Thyatis, o deus da profecia! Thyatis revelou o futuro que estava por vir, e para recompensá-los, eu os avisei desse futuro! Mas, as profecias de Thyatis não eram apenas aquelas que eu lhes revelei, pois o destino de vocês ainda lhes reserva grandes desafios! Por isso eu vim aqui hoje, para lhe avisar sobre o futuro, para que você avise aos seus amigos! Vocês passarão por grande provação, mas, não devem nunca perder sua fé e sua esperança! Confiem sempre uns nos outros, confiem sempre em si mesmos, e confiem sempre nos deuses! Tenham sempre fé e, se saírem vitoriosos, sua recompensa será grande! Cuide de seus irmãos elfos, e mantenham-se unidos, sempre, esse é o desejo de Glórien! Agora, é o momento de você retornar! Adeus, Nailo! – então Allihanna beijou suavemente a testa de Nailo e desfez-se em pleno ar, como bolhas de sabão flutuando ao redor do ranger. Nailo sentiu seus ferimentos sendo totalmente curados, e abriu rapidamente um frasco vazio, no qual guardava sua poção de cura, e depois fechou-o, armazenando em seu interior o ar daquele lugar sagrado. Então, o branco que o cercava tomou conta de seus olhos de forma ofuscante. Nailo perdeu a visão por um instante, e quando voltou a ver, estava novamente na floresta. Aos seus pés, estava uma cratera, cheia de sangue e pedaços da carne do Ettin. Ao seu lado, estava Relâmpago, são e salvo, sem nenhum ferimento ou lembrança do que tinha ocorrido. A metros dali, Kawaguchi, já recuperado, ameaçava um homem desconhecido e nu, com sua espada, mas, ao ver seu sargento de volta, guardou a arma, pedindo desculpas ao estranho homem.

Nilo ficou sabendo então o que acontecera. Após sua queda, o ettin foi tomado por um brilho sobrenatural, e seu corpo reduziu até se transformar naquele homem que eles viam agora. Aquela era a real aparência de Kyrnynn. O clérigo estava vivo, e de volta ao seu corpo verdadeiro. Mas, nem ele, nem os heróis compreendiam o que havia acontecido, então, coube a Restik explicar.

_ Agora eu me lembro de você, jovem! Quando chegou aqui, dois anos atrás, junto com seus amigos, de todos, você era o mais violento, o que tinha o maior desejo de massacrar Stondylus e quem quer que se colocasse em seu caminho! Com a desculpa de estar a serviço da justiça, você se tornou cruel e sanguinário, provocou muitas mortes, fez muitas criaturas sofrerem! Ao invés de apenas promover a justiça, você torturou, mutilou e provocou dores maiores do que as causadas pelos atos daqueles que você puniu! Em sua jornada, você se afastou do caminho de Khalmyr, e se aproximou do caminho de Keen, tornando-se mais um guerreiro do que um clérigo! Ao invés de promover a justiça e o bem, você espalhou vingança pelo mundo! Por isso Khalmyr o puniu, negando-lhe os poderes, e mostrando-lhe a sua porção maléfica! Assim, surgiu a segunda cabeça, Estrume, como você o chamava, ele nada mais era do que uma parte de você, que nem mesmo você sabia que possuía! Mas, depois que você finalmente tomou uma atitude, e renunciou à sua vida de chacinas, arrependendo-se de seus pecados, e até mesmo ofereceu sua vida para acabar com as mortes, Khalmyr reconheceu o seu arrependimento e o perdoou! Por isso você retornou ao que era! E, a partir de agora, sua missão será compensar o mundo pelos males que você fez, enquanto acreditava praticar o bem!

Restik falava calmamente e todos o ouviam com atenção. Quando terminou, Kyrnynn pediu perdão pelos atos cometidos por ele e Estrume, e agradeceu a todos por terem-no ajudado a reencontrar o seu caminho. Com tudo resolvido, os aldeões, o clérigo e os soldados retornaram para a vila de Forte Novo e foram descansar.

Na manhã seguinte, o 3º dia de Pace, o último mês do ano, Kyrnynn conduziu os heróis até o Forte Velho. Lá, mostrou-lhes o resultado da batalha contra Stondylus, toda a estrutura estava arruinada, além de existirem três túmulos, dos amigos do clérigo mortos no combate. Kyrnynn lhes presenteou com os itens que restavam no seu antigo esconderijo, e que pertenciam a seus amigos falecidos. “Eles iam querer que fosse assim!”, disse ele. Assim, Nailo recebeu de presente uma bela aljava mágica, com espaço para guardar grande quantidade de flechas e outras armas. Atilat ganhou um novo e belo par de botas, para combinar com suas roupas e ajudá-la a dse mover furtivamente, já que suas botas mágicas eram extremamente silenciosas. Kawaguchi recebeu uma poção mágica, que o tornaria um combatente mais poderoso e habilidoso. A Akira foi dado um amuleto mágico, que lhe concederia o poder de endurecer sua pele e resistir melhor aos ataques de seus inimigos. Lord recebeu uma espada mágica e a exibiu com orgulho aos amigos. Quanto ao pequeno Hydor, a ele foi dada uma lança mágica, muito grande para que ele pudesse manejar. Mesmo assim, ele se apegou à arma, dizendo que a levaria de presente para Kuran Namino, que aguardava no forte Rodick.

Retornaram para a vila. Malwick agrediu Kyrnynn com um soco no rosto ao saber de toda a sua história. Só depois Atilat revelou aos soldados que o pai de Malwick tinha sido morto por Estrume dias antes. Kyrnynn compreendeu a dor do rapaz, e não fez nada para impedir a agressão. Restik, que presenciara tudo, tinha certeza de que o clérigo tinha voltado para o lado do bem. Então, os soldados de Nailo se prepararam para retornar para forte Rodick, onde seus amigos os aguardavam. Kyrnynn foi convidado a se juntar a eles por Nailo, para ser aconselhado por Glorin e os outros capitães do forte, que poderiam, pensava ele, lhe mostrar o que deveria fazer para se redimir de seus pecados. Forte Novo retornava finalmente ao normal, graças à atuação de Nailo e seus seguidores, e eles podiam finalmente retornar para casa. Entretanto, uma sombra ainda pairava sobre o coração de Nailo, pois as palavras de Allihanna não lhe saíam da mente. A mensagem dos deuses o perturbava, e ele desejava estar com seus amigos o quanto antes, para lhes contar sobre aqueles estranhos acontecimentos. E, embora a dúvida rondasse sua mente, ele tinha confiança de que os dias que viriam seriam bons, e estava feliz por ter seu amigo Relâmpago ao seu lado, e por agora possuir um novo dom. Assim, Nailo sorriu, sussurrou um comando no ouvido de seu cavalo, e convocou seus soldados e Kyrnynn para partirem. E muito longe dali, uma elfa de cabelos púrpuros também sorria, ao saber que sua mensagem havia sido entregue a um de seus filhos. O dia prometido estava se aproximando, cada vez mais.