abril 16, 2007

Campanha A - Capítulo 271 – Presentes

Capítulo 271 Presentes

_ Pois bem, Lucano! Pelo que parece você finalmente conseguiu resgatar o artefato de Glórien na caverna, não é mesmo? – Laurelin Ramo de Carvalho pôs a mão no ombro de Lucano e sorriu, logo após os dois terem curado todos os feridos com suas magias. Os elfos negros eram apenas uma lembrança ruim que jamais seria esquecida, mas tudo estava em paz agora.

_ Não, Laurelin! Não encontrei artefato algum lá dentro, acho que falhei na missão! – lamentou Lucano.

_ Não meu jovem, você não falhou! Você conseguiu reaver um bem muito precioso para nossa deusa, e que estava perdido! VOCÊ! Lucano, você reencontrou sua fé e ela é agora maior do que antes! Sua missão foi cumprida! Agora Glórien está mais feliz, por tê-lo de volta como instrumento de seu poder e sua vontade, para o progresso e o bem de todos os elfos! – explicou o velho. – Bem, agora vamos retornar para minha casa! Vamos descansar um pouco e conversar, pois hoje foi um dia muito difícil para todos! E eu os convido a ficarem comigo pelo menos até amanhã, assim terão tempo para recuperarem as suas forças!

E todos acompanharam o velho elfo até sua morada sob a terra. O eremita lhes serviu uma saborosa refeição e todos aproveitaram o restante do dia para descansar. Laurelin conversou longo tempo com Lucano, dando-lhe conselhos e transmitindo a ele sua experiência. O jovem clérigo lhe contou tudo que tinha acontecido dentro da caverna, com grande emoção. Alejandro brincava com as crianças e as fazia sorrir como nunca. Ao final do dia, o pequeno Tallos já imitava o humano, dando cambalhotas e vestindo uma capa e uma máscara que ele próprio fez com um pedaço de pano velho. Já de noite, todos foram dormir tranqüilamente, tendo belos e agradáveis sonhos. Na manhã seguinte, o 21º dia de Áurea, todos se levantaram bem cedo e fizeram os preparativos para a viagem de volta a Forte Rodick. Enquanto os soldados colocavam os seus equipamentos nos cavalos, ajudados pelas crianças, Laurelin chamou Lucano para uma conversa particular no fundo da caverna. Os dois entraram no abrigo, sozinhos, e foram até a parte mais profunda do lugar, onde havia um enorme baú de madeira.

_ Lucano, eu quero lhe dar um presente! Quero que fique com isto! Este amuleto o ajudará em sua jornada, lhe dando maior vigor físico, para que você possa resistir melhor a doenças e ferimentos! É um amuleto mágico, guarde-o bem! – Laurelin falava ao mesmo tempo em que revirava o conteúdo do baú. Tirou de lá de dentro uma pequena caixa de madeira e a abriu. Havia um medalhão prateado, preso a uma corrente também prateada, e o medalhão era cunhado com a figura de um belo urso. Ramo de Carvalho entregou o medalhão a Lucano, que o pendurou no pescoço e agradeceu. Imediatamente, Lucano se sentiu mais forte, como se tivesse terminado de descansar por horas e tivesse energia para correr por quilômetros antes de se cansar.

_ Obrigado Laurelin! – disse o herói.

_ E também, quero que fique com isto! – Laurelin tirou do baú um comprido embrulho envolto num tecido antigo. Colocou o objeto nas mãos de Lucano e começou a desenrolar o pano lentamente, até revelar seu conteúdo. Era uma espada, uma espada de lâmina longa prateada, feita do fino e precioso metal chamado de mitral. Sua lâmina emitia um tênue brilho argentado e continha inscrições em élfico em toda a sua extensão, que traziam as palavras: Dililiümi Tmigailii. Próximo ao cabo havia um brasão, que pertencia ao seu criador, um falcão em chamas voando para o alto em grande velocidade. Seu cabo, todo prateado, possuía o formato de um falcão, sendo que a cabeça com o bico aberto seguravam a lâmina, e as asas abertas do falcão formavam a guarda da espada. Já as pernas do falcão formam saliências que se entrelaçam ao redor do cabo, culminando em duas garras robustas de falcão que seguravam uma majestosa pedra da lua na extremidade do cabo.

_ Esta é Dililiümi Tmigailii, a Caçadora Prateada! Esta espada foi forjada há muito tempo em Lenórienn, por um famoso ferreiro chamado Lennon Auraniel! Ele criou esta espada ainda no tempo em que os elfo travavam a infinita guerra contra os robgoblins, e é a caçadora dos inimigos dos elfos! Esta espada já participou de muitas batalhas, e venceu muitos goblinóides para orgulho de nossa deusa! Quando a guerra terminou, e nosso reino foi desgraçadamente invadido pelos malditos goblinóides, esta espada me foi passada por um grande guerreiro de nosso povo! E agora, eu a passo a você, Lucano! Mas esse não é um presente meu, como você pode estar pensando! É um presente de nossa deusa, de Glórien! A mãe de todos os elfos falou comigo em sonho, e me pediu que eu desse-lhe esta espada! Cuide bem dela, meu amigo, pois ela é uma espada muito preciosa, e ela lhe ajudará em seu caminho! Agora vá, pois seus amigos o esperam, e seu destino o aguarda! – Laurelin completou seu discurso, e deu um forte abraço em Lucano. O sargento se despediu do ancião, emocionado, e partiu. Lucano e seus soldados deram adeus a Laurelin Ramo de Carvalho e a seus adoráveis netos, e, cinco dias após sua partida, eles entraram novamente no Forte Rodick. Era o 25º dia de Áurea, e essa era a última semana do ano de 1397.

Campanha A - Capítulo 270 – Elfos negros

Capítulo 270 Elfos negros

Então, todos viram um vulto negro que descia pela encosta rochosa, sobre a entrada da caverna. E antes que pudessem detê-lo, o vulto desceu veloz e deu um salto mortal em direção ao solo. E virou-se para todos e disse “Olê!”, e entrou correndo na caverna. Era Alejandro. Mas, o espadachim encontrou Lucano e as crianças, que retornavam do fundo da caverna, alegres e tranqüilos, e soube que estava tudo bem. Então ele saiu do túnel, e seus companheiros já o cercavam para tirar satisfações sobre seu sumiço e seu reaparecimento repentino. E Lucano chegou com as crianças, e Laurelin o saudou, assim como os soldados.

_ Pelo que eu vejo você conseguiu passar no teste! – disse o ancião.

_ Sim! - Lucano sorriu.

E então, um vento gélido soprou veloz entre as árvores, e o ventou vinha carregado de maus pressentimentos, e todos puderam perceber isso. E junto com o vento veio uma nuvem negra como a noite, que encobriu o sol brilhante num instante. E todos sentiram temor, mas foi Laurelin quem o expressou na forma de palavras.

_ Bem, Lucano, você passou no primeiro teste! Espero que consiga passar no segundo também! A hora se aproxima! E que Glórien tenha piedade de todos nós! – disse o velho elfo, e suas palavras eram carregadas de pavor.

Então, o céu tornou-se totalmente negro, e o manto da escuridão se abateu sobre a terra, e todos ficaram na penumbra. E do meio da mata escura surgiram quatro vultos igualmente negros, de aparência e de coração. E esses vultos chegaram ligeiros à clareira e cercaram todo o grupo, e sua aparência foi revelada. Eram elfos. Mas esses elfos eram diferentes de Lucano, Laurelin e as crianças. Tinham um ar de nobreza e eram distintos, vestidos com roupas nobres, de ótima qualidade. E tinham cabelos escuros como a nuvem que encobria o céu, e seus olhos , também escuros, mostravam ódio e amargura. E sua pele era negra, como se fossem sombras, mas eram de carne como qualquer um ali. E a cor de sua pele não se devia a sua linhagem, ou a algum fator ambiental o mágico, era um presente de Tenebra, a deusa das trevas, para identificar aqueles que decidiram por livre e espontânea vontade seguir seus ensinamentos. Era o que diferenciava um filho de Glórien daqueles que, por rancor pela perda dos amigos e parentes na queda do reino élfico de Lenórienn, haviam renegado sua deusa e dedicado sua devoção a Tenebra. Era a marca que os identificava por aquilo que eles haviam se tornado, os elfos negros. Elfos cujos corações estavam na escuridão, que culpavam Glórien por sua tragédia, e que haviam sucumbido ao ódio e a dor e se tornado criaturas das trevas. E dentre os quatro que se apresentaram, um despertava mais atenção e medo. Era um elfo negro de grande estatura e cabelos longos, e que vestia roupas negras bordadas com fios de ouro. E trazia uma enorme espada em suas costas, que emanava uma aura sinistra. E em suas mãos, assim como nas dos outros três, havia estranhas armas, lâminas que formavam um arco afiado que circundavam as mãos, e cujas extremidades eram presas nas pontas do cabo segurado pelas mãos negras. E essas armas eram letais, e chamadas de ajis, pelos elfos negros. E esse elfo se aproximou ameaçadoramente do grupo, e quem o olhava sentia um calafrio percorrendo a espinha. E Laurelin rapidamente mandou que as crianças entrassem na caverna e ficou diante da entrada, protegendo-a dos elfos negros. E o que parecia ser o líder deles começou a falar.

_ Finalmente eu o encontrei, velho! Agora você conhecerá o poder de minha fúria! – gritou o líder dos elfos negros.

_ Não Berforan! Você não vai fazer nada, pois o poder de Glórien me protege! – respondeu Ramo de Carvalho.

_ Ora, Glórien não protege ninguém! Não o fez quando mais deveria, e agora que ela está fraca o faz menos ainda! Vocês todos serão testemunhas de que o poder dela não existe mais! – e o elfo negro gargalhou e comandou, com a cabeça, os seus soldados, e eles prepararam suas armas para matar.

E os soldados de Lucano agiram com mais rapidez, ou talvez maior imprudência, e atacaram primeiro. O machado de Lycan se chocou contra o peito de Berforan, e a armadura resistiu ao impacto e apenas um ferimento superficial foi feito na pele escura do elfo negro. E Wood arremessou uma adaga no mesmo alvo, sem desconfiar do tamanho da sua tolice, e errou, pois a arma foi rebatida pela aji brilhante facilmente. E o goblin se escondeu atrás de uma árvore, mas de nada adiantou sua estratégia.

_ Saia de trás dessa árvore, seu goblin imundo! Eu estou vendo-o claramente! – gritou o elfo caído.

E depois foi a vez de Alejandro. Deu uma série de saltos e cambalhotas para chegar ao lado do inimigo de surpresa, mas seu florete sequer chegou a tocar o adversário, pois ele se esquivou com desprezo da arma do mascarado. E, impressionado com o inimigo, Lucano desejou saber quem ele era.

_ Ele é Berforan, o Alma Negra, líder de todos os elfos negros! Ele já foi no passado um Espada de Glórien, era o líder de todos eles! Mas, após a queda de Lenórienn, ele culpou nossa deusa pela desgraça ocorrida com os elfos e se voltou contra ela! – explicou Laurelin.

E então foi a vez dos elfos negros atacarem. Berforan com suas duas ajis golpeou quatro vezes o corpo de Alejandro. E o espadachim foi retalhado e seu corpo desabou no chão já quase sem vida. Então, a única mulher que havia no grupo de Berforan atacou Lycan pelas costas. E suas ajis rasgaram-no com violência, e o guerreiro sentiu que sua vida se esvaia e tentou recuar. Wood tentou acertar novamente os inimigos com suas facas, mas isso só os deixava mais irritados.

Então, Arcany atacou com sua magia, e atingiu um projétil mágico na mulher que ameaçava Lycan, e ela se enfureceu.

_ Matem o mago! – gritou ela, e seus outros dois companheiros miraram suas armas no feiticeiro, mas Berforan os impediu.

_ Entrem na caverna! Há crianças lá! Matem todas! – ordenou o líder doa elfos negros. E Lucano e Laurelin tentavam impedir o avanço dos inimigos sem lutar contra eles, pois, apesar de toda sua maldade, ainda eram elfos.

Então, Berforan segurou as duas ajis com apenas uma das mãos, e com a mão direita sacou a espada que estava em suas costas, e ela tinha uma aura negra de trevas.

_ Sinta o poder de Diamante das Trevas! – gritou Berforan. E enterrou vários centímetros da lâmina maldita no ventre de Lycan. O guerreiro empalideceu e caiu, à beira da morte. – Alevandra! Cuide do mago! – ordenou ele.

E Alevandra, a elfa negra, correu até Arcany e abriu seu pescoço com a lâmina curvada de sua aji. E o feiticeiro foi o terceiro a tombar em combate. E os elfos negros tentaram atacar Lucano, mas se detiveram diante dele ao ver seu símbolo sagrado pendurado em seu pescoço. E o amaldiçoaram, dizendo “outro maldito clérigo!”. E contra ele nada fizeram.

_ Lucano! O poder de Glórien nos protege! Eles não podem fazer nada contra os servos da deusa! Use seu poder! – gritou o ancião.

Mas Berforan se aproximou dele, e Laurelin não conseguiu detê-lo. Wood saiu de seu esconderijo e o atacou, mas Diamante das Trevas entrou em seu peito, e o goblin foi o quarto a ser vencido. E Lucano invocou o nome de Glórien e o poder da deusa dos elfos fluiu novamente pelo seu corpo, e ele conseguiu conter um dos inimigos, tirando dele toda a raiva e acalmando seu coração. E então Berforan disse.

_ Malditos servos de Glórien! Posso não tocá-los, mas ao menos ceifarei as vidas inúteis desses humanos e a desse goblin asqueroso! E aquelas crianças também pagaram, pois os devotos da traidora da raça élfica devem ser punidos tanto quanto ela!

E Berforan avançou em direção da entrada da caverna, onde Lucano tentava deter os inimigos usando seu corpo como escudo. E então Laurelin gritou o nome de sua deusa e suas preces foram atendidas. Um círculo de luz mágica se formou ao redor do ancião e se expandiu, até envolver os soldados caídos e os elfos negros. E Berforan e seus comandados, que tinha os corações negros de maldade, não puderam suportar o poder do círculo mágico e se afastaram.

_ Berforan! Hoje nenhuma vida será tirada! Nem mais uma gota de sangue será derramada nesses campos! Em nome de Glórien eu lhe ordeno que vá embora daqui, imediatamente! – gritava Laurelin Ramo de Carvalho, ostentando um amuleto de madeira com o símbolo de sua deusa entalhado.

_ Velho maldito! Eu irei embora! Mas não pense que acabou! Ainda nos encontraremos de novo algum dia! E quando esse dia chegar, não conseguirá mais escapar! – respondeu Berforan com ódio. E os elfos negros retornaram para a mata em saltos ligeiros e desapareceram tão furtivos quanto haviam chegado. E o vento soprou mais uma vez, e a nuvem negra foi levada embora. E o sol voltou a brilha novamente. E Lucano agradeceu a Glórien por estarem todos vivos e por ter sido aceito novamente como um de seus servos. E jurou nunca mais desonrar o seu voto para com a deusa.

Campanha A - Capítulo 269 – A provação

Capítulo 269 A provação

Enquanto Lucano e as crianças adentravam na caverna, Laurelin e os soldados aguardavam do lado de fora, sentados em pedras desgastadas pelo tempo que se espalhavam pelo chão. Wood Croft, desconfiado como sempre, subiu numa árvore, e pôs-se a fitar o horizonte, ficando de sentinela, à espreita de qualquer perigo. Mal desconfiava ele que Alejandro não tinha ido realmente embora como havia dito. O espadachim seguira o grupo as escondidas e agora os observava, oculto entre as árvores, do alto do planalto. A intenção do mascarado era descer pela encosta rochosa do paredão e entrar na caverna para ajudar Lucano, surpreendendo a todos, antes que pudessem fazer qualquer coisa. Assim, ele foi se aproximando da entrada da caverna lentamente, tomando o cuidado para não ser avistado por seus companheiros.

Enquanto isso, Lucano e as crianças caminhavam sob a terra. Andavam pelo túnel largo e alto, cuja extensão se perdi na escuridão. As paredes eram úmidas e cobertas de um tipo de musgo esverdeado, e por todo lado havia grandes insetos e vermes rastejando. Finalmente, após vários minutos de caminhada, chegaram ao fim da caverna, e ela terminava abruptamente, numa parede irregular de rocha bruta. Não havia passagens ao redor, nem mesmo um pequeno buraco ou rachadura por onde pudessem atravessar. Pela experiência que possuía, Lucano concluiu que deveria haver ali alguma passagem oculta, e lembrou dos seus dias de aventura no Dente de Pedra, e das muitas passagens secretas que existiam na mina de Durgedin. E começou a tatear as paredes e o chão, e só não fez o mesmo com o teto porque ele se elevava quase três metros acima de sua cabeça. As crianças repetiam os gestos de Lucano, pois eram astutas e logo entenderam o pensamento do clérigo. E procuraram por minutos, até desistirem da busca por nada acharem. Então, quando tudo parecia perdido e eles já pensavam em retornar, o chão brilhou e se abriu sob seus pés num enorme buraco retangular de quase dez metros de lado.

Despencaram então num fosso gigantesco e profundo. Não conseguiam ver suas paredes pois estava escuro e a largura do fosso era muito maior do que seus olhos alcançavam. Muito menos podiam ver o fundo, já que ele parecia nem existir. E caíram por quase um minuto, e então um forte vento subiu vindo das profundezas e com sua força jogou todas as crianças e Lucano para longe umas das outras aos rodopios. E o vento continuava soprando forte para cima, e era difícil até mesmo se mover um simples dedo. E Lunara foi se afastando do grupo cada vez mais, carregada pelo vento, e algo brilhou na escuridão, muito abaixo do grupo. Era um patamar de pedras pontiagudas, suspenso na escuridão, do qual a menina se aproximava perigosamente. Lunara gritou em desespero, e sua morte estava próxima, pois seria empalada pelas enormes estalagmites assim que se chocasse naquelas rochas. Lucano tentou alcançá-la, mas era impedido pelo vento que o mantinha distante da menina. E buscou todos os meios possíveis para salvá-la, mas isso parecia uma tarefa impossível. Lunara começou a chorar, entrando em pânico, e todas as outras crianças começaram a gritar. E Lucano se lembrou das palavras de Laurelin, e decidiu confiar na sua fé, na sua deusa. Orou a Glórien, perguntando porque a menina tinha de passar por aquilo, e ofereceu sua vida para ser tirada no lugar da dela, e pediu que a deusa lhe orientasse. Então, Lucano teve uma visão, e em sua visão viu todas as crianças que o cercavam, e depois viu uma escada que chegava até perto de Lunara. E quando despertou da visão, o clérigo soube o que fazer.

_ Crianças! Agarrem-se umas as outras, segurando-se pelos pés! Um agarra as pernas do outro, rápido! – gritou Lucano, confiante.

E todas as crianças obedeceram, e formaram uma ponte com seus corpos, e Lucano rastejou por cima da ponte até seu extremo, e Túrin agarrou os pés de Lucano e ele se esticou e conseguiu alcançar Lunara a tempo de salvá-la da morte. Ocorre que no momento em que suas mãos tocaram a menina, a violência do vento aumentou drasticamente, arrancando pedaços das rochas que agora voavam para cima como flechas em busca de um alvo. Lucano abraçou Lunara, e virou-se de barriga para cima, servindo de proteção para a menina. Porém, no instante em que ele se virava, uma das lascas que pedra, que voavam ligeiras como andorinhas, atingiu de raspão o seu olho esquerdo. E o olho de Lucano foi rasgado e seu sangue se espalhou junto com o vento e o lado esquerdo de seu corpo agora estava nas trevas para sempre.

E com o olho que restava, Lucano descortinou o horizonte abaixo de seus pés, e viu que se aproximavam finalmente do fim do poço. Havia paredes de pedra lisa, que formava um túnel muito abaixo dali. E o clérigo ordenou aos garotos que não se soltassem, e colocou-se em primeiro para que, assim que encontrassem o chão, ele fosse o primeiro a morrer, para que os restos de seu corpo servissem para amortecer a queda das crianças. Mas, ao invés de bater no chão duro e ser esmagado, Lucano e as crianças caíram em uma rampa suavemente. O túnel era extremamente liso, e o grupo tocou a superfície da parede levemente, e a parede era em forma de um longo arco, de forma que após alguns instantes, eles se deslocavam na horizontal e não mais na vertical. E estranhamente, ninguém se arranhou naquela parede de pedra, nem parecia haver atrito entre seus corpos e a rocha, e Lucano agradeceu a sua deusa por aquela bênção.

E no final o túnel se estreitou, e um brilho púrpura surgiu à frente deles. E o túnel terminou repentinamente e eles voltaram a cair. Seus corpos mergulharam na água fria, e, enquanto caiam, Lucano gritou para não se soltarem, e todos mergulharam num lago, agarrados uns aos outros. Mesmo com o peso de sua armadura, Lucano reuniu forças para nadar até a margem do lago, arrastando todas as crianças com ele, e todos foram salvos.

Estavam agora em um lago subterrâneo muito grande, cercado por paredes de rocha em toda sua extensão. Entre a rocha e a água existia um estreito piso de pedra, pelo qual todos podiam caminhar. E no alto, na junção das paredes com o teto abobadado coberto de estalactites, havia fungos violetas que brilhavam e iluminavam a gruta toda. Aquele lugar lembrava a morada de Escamas da Noite, e Lucano rezou para que não tivesse alguém como a dragonesa ali.

Começaram a caminhar ao redor do lago, indo rumo a um túnel de saída a alguns metros de onde estavam. Lucano mandou as crianças ficarem encostadas na parede enquanto andavam e, a cada metro percorrido, sentiam um declive no solo, que se acentuava cada vez mais. E a água do lago formava uma correnteza, cada vez mais rápida, que seguia até um túnel submerso e desaparecia sob a rocha. Então, a poucos metros da saída, o piso cedeu atrás do grupo, logo após sua passagem, e Tallos foi tragado pelas águas turbulentas, e arrastado na direção do sumidouro logo à frente. Lucano correu para tentar pegar o garoto, e pensou em saltar na água para salvá-lo mas, percebeu que seria inútil e os dois seriam engolidos pela terra e morreriam. Mais à frente ele viu uma estalagmite no chão, na qual podia se segurar e agarrar Tallos e trazê-lo para a margem e ele correu para lá. Mas, quando se aproximou do local, uma enorme aranha desceu do teto, presa por sua teia viscosa, e ficou entre Lucano e a estalagmite. Lucano tinha suas armas e poderia acabar com o inseto facilmente, mas as outras crianças que vinham atrás poderiam ficar feridas, ou cair na água com medo do monstro. Além disso, não havia mais tempo, ele precisava agir rapidamente, ou então Tallos morreria afogado. Então, ele ordenou que Túrin pegasse sua espada para se defender da aranha, e se atirou no chão, sem se importar com o monstro. Agarrou a saliência de pedra com força e saltou na água, e puxou Tallos pela camisa, salvando o menino da morte. Lucano agarrou a estalagmite com força e puxou ele e o garoto para a margem e, quando ele saiu da água agitada, a aranha saltou em suas costas e o mordeu. E Túrin estava paralisado, e Lucano nada pode fazer, pois se soltasse um dos braços para lutar, ou Tallos ou os dois seriam levados pela correnteza. Lucano resistiu à dor e saiu da água com Tallos, sentindo suas forças serem levadas embora pela ação do veneno da criatura. Então, quando os dois estavam fora da ação das águas, Tallos pegou sua adaga e cravou a lâmina no centro da cabeça da aranha, e ela caiu no chão, morta. Lucano e Tallos se levantaram, e o grupo finalmente conseguiu sair da gruta do lago. E o clérigo caminhava com pesar e dor, quase sem forças.

Entraram em um túnel estreito, que mais parecia uma fenda natural aberta por algum tremor de terra antigo. E em determinado ponto, o túnel se estreitou tanto, que só era possível passar uma pessoa de cada vez, espremendo-se entre as paredes. E eles continuaram mesmo assim, já que não havia caminho de volta. E mais à frente, encontraram um trecho da fenda coberta de saliências pontiagudas como lanças nas paredes. Lucano ia à frente, andando de lado, e não tinha escolha precisava seguir em frente, e sabia que seu corpo seria todo rasgado pelas rochas. Mas ele preferia ser o único ferido naquele lugar, então avançou. E as lascas de pedra penetraram em sua armadura, e rasgaram sua carne, e à medida que Lucano avançava, as pedras penetravam em seu corpo, causando a maior dor que ele já sentira. E as lascas se quebravam e se alojavam em seu corpo, e quando ele terminou a travessia, e chegou a uma porção mais larga do túnel, o caminho atrás dele estava livre de perigos para as crianças, e todos passaram sem sofrer qualquer ferimento.

Continuaram mais alguns metros, então de repente, o chão se abriu atrás de Lucano e engoliu os três garotos que vinham por último, Tallos, Loran e Keleron. O piso se fechou logo em seguida e não voltou a se abrir de forma alguma tentada por Lucano. Entretanto, apesar do susto, os garotos estavam bem, em um túnel que corria paralelo ao túnel onde Lucano estava, exatamente abaixo dele. E eles prosseguiram separados em dois grupos, sempre se comunicando pelo som de suas vozes e passos.

Muitos metros depois, o túnel inferior se afastou para a direita e se elevou, até ficar lado a lado do outro túnel, e os dois grupos agora eram separados por uma parede de rocha. O grupo de Lucano estava em uma câmara ampla e iluminada por fungos roxos, e os garotos do outro túnel viram a luz dos fungos em um buraco na parede, e foram até ele. E Tallos colocou sua adaga no furo, para que Lucano pudesse encontrá-los, mas quando foi recolher a arma, ela esbarrou em uma alavanca de pedra e a acionou. E duas paredes de rocha espessa fecharam o caminho à frente e atrás de Tallos, Loran e Keleron. E o teto começou a descer rapidamente para esmagá-los, e eles gritaram em pânico. Lucano olhou no buraco, procurando a alavanca para desativar a armadilha mortal, e a encontrou no fundo da abertura. E sobre ela, ele viu uma mensagem escrita, entalhada na pedra, que dizia: “Se desejas acionar a chave, deverás pagar o alto preço”. Mas Lucano não se preocupou com qual seria o preço a pagar, queria apenas salvar os garoto, e puxou a alavanca com força. E uma lâmina dentro do buraco decepou seu braço num único golpe nesse momento, e Lucano caiu para trás, com apenas metade do membro e sangrando abundantemente. Porém, o sacrifício deu resultado e o teto parou de descer e recuou. E a parede onde ficava o furo se abriu, revelando-se uma porta secreta, e todos voltaram a se unir. Lucano enfaixou seu braço com a ajuda dos meninos e estancou o sangue, e todos seguiram adiante.

Chegaram então a uma câmara muito grande e alta que tinha paredes esculpidas com esmero por mãos habilidosas e tinha um piso liso e limpo. E aquele lugar se assemelhava a um salão de palácio, grandioso e belo. Fungos davam brilho ao lugar com sua luminescência púrpura, e um solitário obelisco de pedra no centro do salão era o único objeto naquela imensidão. Muito ao fundo, havia um túnel de saída cuja extensão desaparecia da visão fazendo uma curva pra esquerda. Todos se aproximaram do centro e Lucano leu as inscrições que havia no obelisco. Elas estavam esculpidas em baixo relevo, e usavam o idioma dos elfos para dizer “Somente uma força de natureza oposta à da horrenda criatura poderá destruí-la”. E ninguém entendeu do que se tratava aquele aviso, até que ouviram passos, que vinham de mais adiante, da saída da câmara. E o túnel por onde tinham chegado se fechou com uma parede de pedra, da única saída surgiu o inimigo. E era uma criatura morta-viva, de corpo pútrido que exalava o cheiro acumulado de centenas de anos de apodrecimento. E a criatura se movia com leveza, diferente dos zumbis que Lucano já tinha visto. E ela falava e sorria, demonstrando grande inteligência. E emanava uma aura mágica que podia ser sentida até mesmo pelas crianças. E Lucano entendeu que era um lich.

E o lich se aproximou calmamente, e sua aparência era a mais horrenda que eles poderiam imaginar em suas mentes. E era tão horrível que o simples ato de olhar para ele já era suficiente para tirar as forças e a esperança daquele que o confrontasse. Somente a aparência horripilante daquele monstro já era suficiente para se igualar a qualquer poder mágico que Lucano tivesse visto em sua vida.

O monstro chegou até onde eles estavam. Lucano pos as crianças para trás de si e começou o combate. Sua espada golpeava o corpo apodrecido do lich, mas não lhe causava dano algum. Então, a criatura jogou o clérigo longe com um único golpe, e atacou as crianças. E nesse momento, Lucano questionou Glórien novamente, e perguntou por que aquilo estava acontecendo. O monstro agarrou Lunara com sua mão cadavérica, a menina gritou, chorou e desmaiou, e foi melhor assim. Ergueu-a com uma mão, e com a outra passou a percorrer seu corpinho angelical com a lâmina de uma foice negra que possuía. E Lucano se lançou contra ele, e combateu com sua espada. E Tallos tentou ajudá-lo com sua adaga. Mas cada golpe era ignorado pelo monstro, e ele gargalhava enquanto sua lâmina começava a penetrar lentamente no pescoço da menina. E bastou um olhar para que Tallos desmaiasse de pavor diante da horrenda criatura. E a armadura de Lucano foi rasgada como papel pela foice do monstro, e seu outro braço foi arrancado num golpe só.

Loran correu até o final do salão, para procurar uma saída ou alguém que pudesse ajudá-los, mas o túnel de saída terminava na rocha sólida e ele não entendeu como o monstro tinha entrado na câmara. E Lucano, sem os braços e com o corpo todo ferido e envenenado, testemunhava com pavor e tristeza a tortura de Lunara. O lich rasgou a roupa da menina com a foice, e começou a lamber suas pernas com sua língua asquerosa e cheia de pequenas garras que se moviam como se tivessem vida própria. E seu órgão espinhento e gosmento foi subindo pelas pernas da jovem até chegar á região púbica. E, a língua percorreu o contorno da vagina da inocente menina, e o lich inspirou fundo, sorriu e falou em voz alta “Faz muito tempo que não devoro uma virgem!”. E Lucano se desesperou, e antes que a língua penetrasse a criança, ele novamente pediu a Glórien que o iluminasse. E decidido a dar a vida para salvar Lunara, ele correu na direção do lich, e arremessou seu corpo contra ele. E novamente o monstro o golpeou com a foice, e Lucano foi arremessado longe. E dessa vez, além da armadura, sua mochila se rasgou, e um grande livro voou no ar e caiu próximo a Lucano, aberto. Era seu grimório. Então Lucano entrou num transe, e teve uma visão. E em sua visão, ele viu um jardim florido de enorme beleza que lembrava o lugar onde tinha se despedido de Enola e Silfo. E ele abriu o olho e não compreendia o que devia fazer. Então, no momento final, segundos antes do lich macular a pureza de Lunara, o clérigo se lembrou da inscrição no obelisco “...força de natureza oposta a da horrenda criatura...”. E ele lembrou da visão do jardim florido e olhou para o lich, e percebeu enfim que o jardim era o oposto do horrível monstro. E, olhando para seu grimório de mago com apenas poucas páginas preenchidas com o auxílio do amigo Anix, ele viu uma magia que era muito famosa em todo reinado, e cujo nome lhe havia sido revelado muito tempo atrás por Sam Rael, nos raros momentos de paz que eles tinha, nos quais o bardo tocava e cantava para eles, e lhes contava as lendas do mundo em que viviam. E o nome da magia era A flor perene de milady A. E Lucano, sem hesitar mais, se concentrou e buscou a magia em sua mente. E pronunciou as palavras mágicas corretas, e fez os gestos necessários, mesmo não possuindo mais mãos, e soube que sua magia dera certo quando viu um singelo gerânio brotar no ombro direito do lich. E o monstro olhou para a flor e debochou do poder de Lucano, e arrancou a flor com a mão e a esmagou. E uma nova flor brotou no lugar, e o monstro a arrancou também. E depois brotaram duas, e, irritado, o lich jogou Lunara no chão e arrancou as flores com raiva. E então nasceram três, quatro, cinco flores, e seu número foi aumentando rapidamente, sem que o monstro desse conta de arrancá-las. E o corpo pútrido da criatura foi coberto de flores, e ele enrijeceu e se tornou cinza, até se transformar numa estátua de pedra. E as flores o cobriram por completo, até que a horrenda aparência do monstro era apenas uma lembrança amarga.

Lucano agradeceu novamente a Glórien, e os garotos o ajudaram a se levantar. Keleron cobriu o corpo de Lunara com sua camisa, e Lucano a carregou com o que restava de seus braços. Tallos, ainda atordoado, subiu nos ombros de Lucano para também ser carregado. Já que não podia mais lutar, aquilo era o mínimo que ele poderia fazer por aquelas crianças. Lucano deixou Túrin, o mais velho, e Loran, o mais forte do grupo, responsáveis pela segurança de todos, e deixou suas armas sob os cuidados dos dois. E continuaram caminhando, até atravessarem o salão e o túnel que conduzia para além dele. E onde antes Loran tinha visto um túnel sem saída, agora existia uma passagem que conduzia por mais um túnel longo e escuro.

E o túnel terminou em uma câmara gigantesca, cuja extensão não podia ser vista ou deduzida. E da escuridão brotou o som de passos rastejantes e gemidos agoniantes. E, quando perceberam do que se tratava aquele som, estavam todos cercados. Vultos se aproximaram deles, caminhando com dificuldade. E quando estavam próximos, todos puderam ver que se tratava de uma horda gigantesca de zumbis. Os mortos-vivos os cercaram, e eles não tinham mais para onde ir. E da direita vinha uma luz, que eles identificaram como uma saída, que agora era inalcançável, bloqueada por dezenas de mortos que se acotovelavam. Lucano tentou continuar andando, e percebeu que os monstros os acompanhavam, sem, no entanto atacar, como se esperassem alguma coisa acontecer. Então, à frente deles, os zumbis se afastaram, e abriram uma passagem. Lucano tentou correr para a passagem, mas os monstros o acompanhavam e o cercavam. E ele notou que os monstros tinham suas atenções voltadas apenas para ele, sem se importar com as crianças. Então ele colocou Lunara e Tallos no chão e se despediu deles com lágrimas. E pediu para que corressem para a luz e salvassem suas vidas. E Lucano correu, atravessando a passagem aberta pelos zumbis, e os monstros o seguiram e deixaram o caminho livre para as crianças escaparem. E com o olho que restava, Lucano viu quando as crianças desapareceram na após a luz e soube que tinha conseguido salvá-las, ao menos por enquanto. E, enquanto ele fugia e atraia os monstros para longe das crianças, ouviu passos vindos da direção para a qual ele corria. E entendeu que os monstros tinham aberto passagem para a chegada de seu mestre, e não para sua fuga. E lucano olhou para frente, e seu único olho viu uma pessoa vestida de branco, carregando uma tocha e um cajado. E, quando estava bem próximo, Lucano o reconheceu. Era Zulil!

_ Finalmente eu o peguei! Seu maldito! Você será o primeiro! Vou matá-lo e fazê-lo sofrer muito! E depois me vingarei de seus amigos também! – disse Zulil com a voz cheia de ódio e arrogância. Os zumbis fizeram um grande círculo ao redor dos dois e dos dedos de Zulil saíram raios de luz que atingiram o corpo de Lucano. E o clérigo mais uma vez foi ferido, seu maxilar foi destruído, e seu joelho estava inutilizado. Mas ele não revidou.

_ E então, seu maldito! Não vai fazer nada? Não vai reagir? Diga alguma coisa! – e Lucano permanecia calado. – Ah! Já sei! Você não tem mais poderes! Por isso está tão calado! Aquela vagabunda o abandonou, é? Eu avisei que ela não prestava! Agora você vai sofrer as conseqüências! – E Zulil disparou sua magia novamente, e depois golpeou o joelho de Lucano com seu bastão, arrancando-lhe a rótula e jogando-o no chão. Lucano sentiu vontade de saltar em Zulil e tentar mordê-lo. Mas não conseguia fazer isso, e se entregou. E Zulil continuava a provocar. – Vamos lá! Reaja! Diga alguma coisa, seu clérigo das ratazanas! Já sei o que vou fazer! Vou matá-lo lentamente, tirando-lhe um a um os seus sentidos! E começarei pela visão, arrancando esse olho cheio de fúria! – e com uma adaga Zulil arrancou o olho de Lucano e o clérigo ficou perdido nas trevas. – Ainda não reage? Bem, vou destruir o seu tato! – e Zulil golpeou os braços, as pernas e todo o corpo de Lucano com seu cajado, e a única coisa que o clérigo sentia agora era dor. – Ainda assim não reage? Cadê a sua coragem, seu verme? Não vai reagir? Então lhe privarei do olfato! – e Zulil quebrou o nariz de Lucano com o bastão, e o clérigo quase sufocou com o próprio sangue. E como Lucano permanecia sem reação, embora desejasse matar o inimigo, Zulil continuou com sua tortura. – Bem, já que você não quer falar, não precisará mais da língua! – e com a adaga, Zulil cortou a língua de Lucano, e ele jamais sentiria o gosto de qualquer coisa, e tampouco poderia falar. – Bem, agora vou terminar o serviço! Vou cravar minhas adagas em seus ouvidos, e você não ficará apenas surdo, mas morrerá, e minha vingança estará completa! – e Lucano sentiu que era o fim. E, entregue à mercê de Zulil, ele se conformou com sua sina e seu coração se esvaziou, deixando sair todo o ódio que ele possuía. E então, quando tudo parecia perdido, ele se lembrou das palavras de Laurelin, e lembrou que deveria seguir o desejo de Glórien até o fim, e que deveria continuar a ter fé. Então, juntou o que lhe restava de forças e abriu a boca para pronunciar suas últimas palavras, num tom quase incompreensível, pela dor, pelo estado lastimável de sua boca, e pelo sangue que dela transbordava.

_ Apesar de tudo, você ainda é um elfo! Ainda assim é meu irmão! – disse ele.

Então Lucano sentiu seu corpo ser agarrado pelas mãos de Zulil e suspenso no ar. E sentiu que o mago o segurou como se o abraçasse. E Lucano abriu seus olhos cegos e viu que estava não nos braços de Zulil, mas sim nos braços de Glórien, e a deusa em prantos dizia: “Seja bem vindo de volta, meu filho! O seu verdadeiro teste começa agora!”. E tendo dito essas palavras, a deusa beijou-lhe a testa carinhosamente e desapareceu, envolta numa luz ofuscante. E quando Lucano abriu novamente os olhos, viu que estava de volta ao início da caverna, exatamente no lugar onde ele e as crianças tinham despencado da primeira vez. E todas as crianças estavam ali, reunidas com ele, sãs e salvas. E o corpo de Lucano estava inteiro, sem nenhum arranhão, como se tudo aquilo que acontecera tivesse sido apenas um sonho. E Lucano sentiu sua deusa mais próxima, e sorriu feliz, e abraçou as crianças, e juntos eles se dirigiram para a saída da caverna.

Campanha A - Capítulo 268 – A missão de Lucano

Capítulo 268 A missão de Lucano

Laurelin era um elfo de idade bastante avançada, até mesmo para os padrões dos filhos de Glórien. Seu corpo arqueado e cansado, e seu rosto e mãos enrugados, eram como um disfarce para ocultar todo o poder que aquele ancião possuía. Caminhava vagarosamente, não por dificuldade de andar, mas sim por não ter pressa de chegar ao seu destino. Ao seu lado iam as crianças, saltitantes e eufóricas, brincando e cantarolando. Vez ou outra faziam silêncio, como se algo na selva os incomodasse. Olhavam ao redor como se procurassem por algo e aguçavam seus ouvidos. E então voltavam a brincar ao perceber que não havia perigo próximo.

Após alguns minutos de caminhada, chegaram à entrada de uma caverna, cercada por colinas baixas. Laurelin entrou e convidou os soldados gentilmente. Atravessaram uma túnel iluminado por velas rudimentares e, enquanto percorriam-no, os garotos ficaram curiosos quando viram o chicote na cintura de Alejandro. O mascarado fez a arma estalar perto das crianças, deixando-as ao mesmo tempo assustadas e entusiasmadas, e convidou todas para irem para fora brincar com o chicote e seu cavalo, Tornado.

Laurelin colocou um caldeirão para aquecer em uma fogueira o fundo da caverna. Ao redor, havia várias camas de madeira e palha, e no centro uma mesa grande e firme, em torno da qual todos se sentaram. E, enquanto um delicioso aroma da comida preparada pelo ancião se espalhava pelo ar, Lucano contou a sua sina. Contou de quando conheceu Glorin, e de sua missão em Carvalho Quebrado e do castelo assombrado pelos mortos-vivos. E contou de Zulil, e da batalha que haviam tido no topo do castelo. E Laurelin fez um olhar de desaprovação quando soube que Zulil era um elfo. Lucano concluiu sua história contando sobre seus dias no forte e sobre o incidente com a flecha disparada por Arcany. E então foi a vez de Laurelin falar.

_ Meu jovem, pelo que posso perceber, Glórien está muito triste com o uso que você fez dos poderes concedidos por ela a você! Glórien nos dá o poder para que façamos o bem para seus filhos, para que todos possam progredir juntos! Esse poder deve ser usado para promover a união e o bem estar dos elfos, não para a discórdia e a desgraça! Por isso Glórien chora! E ela lhe negará o acesso a esses poderes até que você compreenda a sua missão! Mas, nunca duvide do amor dela por você ou por seus amigos! Tenha certeza de que ela ainda assim o está protegendo, e por isso você deve sempre confiar em sua fé, e jamais duvidar dela! – o elfo falava com seriedade e em voz alta, para que todos pudessem ouvi-lo. Depois deu uma longa pausa e esboçou um sorriso afável, falando desta vez em tom mais brando. – Orarei a nossa mãe, para que ela ilumine minha mente e me mostre o que deve ser feito! Por hora é melhor que vocês comam bem e descansem de sua viagem! Pela manhã conversaremos mais e, se Glórien assim permitir, saberemos qual será o seu destino!

_ Essa deusa de vocês é uma fraca tola! O outro elfo é que deveria ser punido! Ela não sabe o que faz! Por isso que eu prefiro minha deusa! – disse Lycan, em tom de deboche, antes de dar uma gargalhada e se espreguiçar na cadeira.

_ Ora! Não diga bobagens, jovem! Você não sabe o que está falando! Não conhece as motivações dos deuses, então não deve blasfemar dessa forma! - respondeu Laurelin, com rudeza.

_ Ainda assim Valkaria é uma deusa melhor que a sua! – retrucou o guerreiro.

_ Valkaria? Nunca ouvi falar? Quem é? – perguntou o ancião, dando as costas para Lycan e deixando-o desconcertado. Percebendo que travaria um inútil disputa teológica, Lycan se deu por vencido e se calou.

Então Laurelin chamou Alejandro e seus netos para se juntarem para o jantar. As crianças se divertiam do lado de fora da caverna, brincando com o chicote e passeando sobre o lombo de Tornado. E dentre todos, Tallos era o mais habilidoso com o chicote, e despertou a simpatia de Alejandro, que via no garoto um pouco de si mesmo. Todos entraram na caverna correndo, e o ancião revelou em voz baixa aos heróis que os pais das crianças haviam morrido, vítimas de ataques de orcs, tempos atrás. E o espadachim mascarado apiedou-se ainda mais de Tallos, já o considerando quase como um discípulo.

Laurelin serviu uma saborosa sopa de legumes e raízes, acompanhada de pão e frutas. E Lucano dividiu com ele seu vinho, e todos passaram momentos agradáveis antes das provações que viriam. E finalmente foram dormir. Os heróis espalharam seus sacos de dormir pelo chão da caverna, e todas as crianças levaram seus colchões de palha para perto do leito de Alejandro. E dormiram um sono tranqüilo, sem desconfiar das trapaças e traições que eram tramadas na noite.

Ocorre que Wood Croft, inconformado com a punição que recebera por agredir Túrin, o mais velho dos garotos, desejava vingar-se de Lucano e Alejandro. E, enquanto todos dormiam profundamente, ele se levantou sorrateiramente e foi silencioso como uma serpente até o equipamento de Alejandro. Pegou o chicote com o qual havia sido ameaçado, e cortou-o em vários pedaços. E os pedaços ele colocou embaixo das cobertas de Tallos, para incriminá-lo.

Raiou então o 20º dia de Áurea. Era uma manhã quente, e o sol brilhava solitário no céu, sem a companhia de qualquer nuvem que fosse. Os heróis se levantaram cedo e, ao procurar por Laurelin, não o encontraram. Ficaram apreensivos, temendo que algo de ruim pudesse ter acontecido ao ancião, e prepararam suas armas para lutar. No entanto, ao procurar por seu chicote, Alejandro descobriu que ele havia desaparecido.

Imediatamente Alejandro acusou Wood de tê-lo roubado. Acusava-o de querer se vingar por causa do pontapé que recebera do espadachim. Wood, entretanto, permanecia calmo, defendendo-se das acusações como se não soubesse de nada. Lucano também saiu em sua defesa, dizendo para que Alejandro não acusasse sem ter provas contra o goblin. Então as crianças acordaram, e a primeira a despertar foi Lunara, a única menina entre eles, e o último a acordar foi Tallos. E quando ele se levantou os pedaços do chicote surgiram espalhados no meio de sua cama. Alejandro ficou cheio de cólera, mas decidiu não discutir mais. Pegou seu equipamento e os pedaços do chicote e saiu, dizendo que voltaria para o forte sozinho. Lucano tentou impedi-lo, mas havia algo mais importante a fazer, encontrar Laurelin. Então Alejandro abandonou o grupo e desapareceu na mata com seu cavalo.

Pouco depois, os outros soldados saíram da caverna guiados pelo seu sargento. E encontraram Laurelin sentado à sombra de uma árvore, meditando. Lucano se aproximou, sem fazer barulho para não interromper a concentração do ancião, e ficou observando-o. Então, Laurelin abriu sutilmente um dos olhos e falou com ele.

_ Bom dia! Não gostaria de se juntar a mim e orar a nossa deusa?

E Lucano aceitou o convite, sentou-se ao lado de Ramo de Carvalho e pôs-se a rezar. Pediu a Glórien que lhe desse uma nova oportunidade, uma chance de se redimir e receber novamente sua graça. E foi atendido.

Depois de algum tempo, Laurelin se levantou, sereno, e retornou para sua caverna. Lucano se juntou a ele e a todos os outros que aguardavam lá dentro. Enquanto faziam um rápido desjejum com frutas colhidas na mata por Lycan e pelas crianças, o velho elfo revelou a sina do jovem clérigo.

_ Eu orei a Glórien e ela me mostrou uma visão! E nessa visão eu vi seu destino Lucano! Nossa mãe lhe dará uma segunda chance! Você terá que passar numa prova para mostrar seu valor, e não poderá receber ajuda de ninguém! Você deverá ir a uma caverna que fica próxima daqui e entrar nela sem seus soldados! E lá dentro você deverá buscar um artefato que é sagrado para nossa deusa! E se você conseguir resgatar esse artefato, terá sua redenção!

Todos prestavam atenção nas palavras do velho elfo, e entenderam e aceitaram o que elas significavam. E depois de comerem, todos partiram juntos, rumo ao oeste, guiados por Ramo de Carvalho. E andaram por quase uma hora inteira, até chegarem a uma clareira no meio da floresta. Viram o sol pela primeira vez naquela manhã, e pelo seu brilho intenso, parecia que Azgher prestava atenção especial naquele pequeno grupo de mortais. E assim como os demais membros do panteão, o deus sol de fato observava os passos do jovem clérigo rumo ao seu destino, exatamente como dissera Allihanna, na sua aparição sob a forma de cervo branco no bosque onde Enola e Silfo tinham encontrado sua morada.

Atrás deles estava a mata de Bosque Escuro, que fechava também seus flancos a vários metros de distância. À frente, estava um enorme paredão de rocha, que se elevava vinte metros acima do solo e se abria num planalto arborizado. E exatamente no centro do paredão, havia uma enorme caverna natural, que se estendia rocha adentro indefinidamente, até que os raios de sol não pudessem mais alcançar sua porção mais profunda e a escuridão imperasse por todos os lados.

_ É aqui que nos separamos, Lucano! Você deve entrar nessa caverna e resgatar o artefato de Glórien sem nossa ajuda! Mas, lembre-se! Glórien estará olhando por você! Jamais duvide de sua fé, jamais duvide do mor dela por você! Tenha sempre fé em sua deusa e em você mesmo! E lembre-se também que você estará sendo testado! Não se esqueça dos ensinamentos de Glórien, lembre-se de seu dever como clérigo, que é ajudar todos os elfos com o poder concedido por nossa mãe! Lembre-se sempre disso e, se Glórien assim permitir, nos encontraremos aqui quando você retornar! – disse Laurelin, antes de dar um amigável aperto de mão em Lucano.

E Lucano tomou fôlego e coragem, e lembrou das palavras que o velho acabara de dizer, e entrou na caverna. Antes, porém, entregou a Wood uma bolsa que continha todo o tesouro que ele tinha juntado até aquele momento, e pediu ao goblin que entregasse a Legolas e a seus amigos, caso ele não voltasse com vida, para que eles dividissem entre si. Lucano entrou na caverna, e, pouco depois, Laurelin mandou que as crianças fossem junto com ele, para espanto de todos. E quando Túrin preparou seu arco para proteger seus irmãos e primos na escuridão, o sábio avô ordenou que deixassem suas armas, pois não precisariam delas. Mas, Tallos tinha um espírito indomável, e escondeu uma faca sob a manga de sua camisa, e todos entraram na caverna e se juntaram a Lucano em sua jornada.

Campanha A - Capítulo 267 – Laurelin Ramo de Carvalho

Capítulo 267 Laurelin Ramo de Carvalho

A noite cobriu rapidamente o mundo com seu manto de trevas. Apenas a luz da tocha nas mãos de Arcany clareava a mata escura. Nenhuma estrela podia ser vista, nem a luz da lua atravessava a densa folhagem que se elevava ao céu. Tudo era silêncio e escuridão ao redor dos jovens soldados. E o silêncio foi quebrado por um estalo, pois na escuridão alguém espreitava. E os heróis pegaram suas armas, esperando que algum outro monstro saltasse das trevas e os atacasse. E o que veio foi uma chuva de flechas afiadas, que cortou o ar sem no entanto ferir qualquer um dos presentes.

_ Parados ai! Soltem suas armas! – gritou uma voz acriançada.

_ Quem está ai! Apareça! – retrucou Lycan

_ Não atirem! Não queremos lhes fazer mal! Estamos em missão de paz! – gritou Lucano.

_ Sim! Não somos inimigos! Somos do exército de Tollon! Não vamos atacar vocês! – completou Alejandro.

_ Calem-se! Soltem suas armas no chão, ou vamos disparar novamente! – exigiu a voz na floresta. E todos os soldados, desejando evitar um combate desnecessário, jogaram suas armas no chão. Alejandro, entretanto, manteve seu florete embainhado, enquanto que Lycan segurava o machado com os pés, pronto para levantá-lo de súbito, caso precisasse lutar. – Agora dêem três passos para frente, ou nós atiraremos!

Todos andaram como ordenado, e Lycan arrastou seu machado junto, mantendo-o sempre pronto para ser utilizado. Alejandro tentava ainda convencer os desconhecidos inimigos de que não queriam lhes fazer mal, mas coube a Lucano conseguir uma chance de dialogar. Lembrando das palavras do capitão Glorin, Lucano tomou o broche de madeira em sua mão, erguendo-o sobre a cabeça, e disse que precisava falar com Laurelin Ramo de Carvalho, e disse também que Mão Gelada o havia enviado até ali. E então, várias vozes, todas pueris, foram ouvidas entre as árvores.

_ Ele quer falar com o vovô! – disse uma das vozes.

_ Fique quieto! Ele está mentindo! – discordou outra.

_ Calem-se já! Fiquem quietos! – retrucou uma terceira.

_ Vamos atirar neles! – sugeriu a segunda voz.

_ Quietos! Parem com isso! – ralhou novamente a terceira voz, que era a que se apresentara desde o início.

Então, fez-se um breve silêncio na mata, e apenas o ruído de passos podia ser ouvido. E um jovem elfo, que deixava a infância para tornar-se adulto em breve, surgiu do meio das árvores, protegido por uma camuflagem de folhas e ramos que cobriam suas vestimentas. E seu nome era Túrin, e tinha cabelos escuros como a noite e olhos da cor dos troncos de carvalho que o cercavam. Armado de uma faca de lâmina de pedra e um arco curto, Túrin se aproximou do grupo de aventureiros, e exigiu que se explicassem, que dissessem o motivo de estarem ali em seu território. Os soldados lhe explicaram sobre a sina de Lucano, mas parecia que eram informações demais para que o jovem elfo compreendesse e aceitasse as explicações. E Lucano simplificou, dizendo que Glorin, o Mão Gelada, o havia mandado até ali para visitar Laurelin Ramo de Carvalho, e lhe mostrou novamente o broche. Mas, como mesmo assim ele se mostrava irredutível e pouco disposto a aceitar a presença dos soldados em sua floresta, Alejandro o advertiu e disse-lhe para cooperar sem receio, pois se eles tivessem intenção de lhe fazer mal, Túrin e seus companheiros ocultos já estariam mortos há tempos.

E Túrin tentou rir e zombar, mas Alejandro sacou velozmente seu florete, parando a lâmina a poucos milímetros da garganta do rapaz. E Túrin, assustado e surpreso, soltou sua faca e se rendeu. Lycan ergueu novamente seu machado, e gritou uma ordem para que todos os outros saíssem de seus esconderijos. E, surgiram mais oito crianças élficas, com seus pequenos arcos apontados para o grupo. Lycan gritou e a espada de Alejandro fez com que Túrin obedecesse, e ele ordenou aos outros garotos que baixassem suas armas. Então, Wood Croft aproveitou o momento para se fazer de valente, e ousou erguer sua mão pequenina e suja contra o garoto. Mas Lycan o ameaçou com o machado, e Alejandro lhe deu um chute, afastando-o de Túrin. E depois disso o mascarado baixou a arma e entregou o florete para o pequeno elfo, e Túrin finalmente percebeu que não eram pessoas más. Devolveu a arma para o humano e recolheu sua faca do chão. Depois, pediu que todos o aguardassem por alguns instantes, e desapareceu na mata escura.

Lucano então puniu Wood por ter agredido o rapaz, ordenando-lhe que fizesse várias flexões de braço como castigo. Mas, o pequeno trapaceiro, como qualquer devoto de Hynnin, fingia estar cansado e desistia na metade do exercício. Então, Alejandro o ameaçou com o chicote, e ele não teve escolha, senão terminar seu castigo, enquanto jurava para si mesmo que teria sua vingança contra os dois.

Ocorre que enquanto o goblin era punido, Túrin teve tempo suficiente para encontrar o que buscava e retornar. E ele ressurgiu da mata tenebrosa, acompanhado de um velho elfo, que vestia um manto pardo e se apoiava num longo cajado.

_ Eu sou Laurelin Ramo de Carvalho! Vocês estavam me procurando? – disse o velho quase num sussurro.

_ Eu sou Lucano! Glorin Mão Gelada me enviou até você, Laurelin! Venho em momento de dificuldade, pedir a sua ajuda! – respondeu Lucano, mostrando o broche de seu capitão.

_ Você conhece Mão Gelada? É amigo dele?

_ Sim! Ele é capitão no exército e eu sou subordinado a ele!

_ Então, venham todos comigo! Sejam bem vindos ao Bosque Escuro! – E Laurelin os saudou e os convidou para sua morada.