abril 17, 2007

Campanha A - Capítulo 272 – Confusões no forte

Capítulo 272 Confusões no forte

Lucano dispensou seus soldados e foi ao encontro de Glorin. Devolveu-lhe o broche de folha de carvalho e relatou tudo que tinha acontecido. Acrescentou ao relato que Alejandro e Wood tinham se portado mal durante a viagem, contando da insubordinação de Wood, da agressão que ele fez aos netos de Laurelin e da briga que tivera com Alejandro. Contou também da deserção do guerreiro mascarado após o incidente do chicote na caverna de Laurelin. Glorin ouviu toda a história com displicência, como se sua mente estivesse em outro lugar, parecia distraído, distante. Apenas disse a Lucano que queria conversar com os dois soldados assim que possível, e suas palavras eram carregadas de insatisfação, pois ele talvez estivesse prevendo uma nova discussão, como a que ocorrera quando Nailo retornou de sua missão. Então, Lucano mostrou a Glorin sua nova espada e o amuleto que recebera de presente de Laurelin. O anão olhou os objetos sem interesse algum. Disse apenas que, apesar de ser um elfo, Laurelin tinha um bom coração, e por isso dera os presentes a Lucano.

_ Mas, capitão! Somente o broche foi presente de Laurelin! A espada não foi presente dele, mas sim de Glórien! – explicou Lucano, tentando conter o orgulho que sentia.

_ Ah! Tá certo, entendi! Mas quem é essa tal de Glórien? Namorada nova do Laurelin? – perguntou o capitão, como se nunca tivesse ouvido aquele nome que Lucano venerava.

_ Não capitão! Glórien é a deusa dos elfos anões! Digo, é a deusa dos elfos! Anões....pfftt! – Lucano sentiu-se ofendido com o descaso do anão e gritou descontroladamente, tropeçando nas próprias palavras. Então, lembrou que aquele na sua frente era seu capitão, e se preparou para a reação explosiva que viria a seguir.

_ Ah! Tá! É verdade! Tinha esquecido! Bom, vamos achar aqueles soldados encrenqueiros e resolver a situação! – Glorin permanecia pacato, mesmo após os berros do elfo e seu deboche para com a raça dos anões. Parecia distraído, pensativo, e Lucano achou isso estranho.

O clérigo permaneceu parado, enquanto o anão se afastava sem nem se dar conta de sua ausência, e assim, os dois se separaram. Enquanto isso, não muito longe dali, Wood Croft reencontrava seu mestre e tutor, o capitão Todd Flathead.

_ Licença, capitão! Acabo de chegar da missão com o sargento Lucano! Tenho uma coisinha pra mostrar pro senhor! – disse o goblin mais jovem ao entrar no alojamento de seu mestre.

_ O que é? Mostre logo, porque eu estou ocupado, Wood! – respondeu o capitão. E realmente parecia ocupado, já que havia se demorado a atender à porta, e Wood ouvira o ruído de coisas sendo guardadas às pressas assim que batera à porta.

_ Bem, é o seguinte! Olha o que eu consegui! – respondeu o goblin, despejando uma bolsa de moedas de ouro sobre a cama do capitão.

_ Nossa, quantas moedas, Wood! Onde conseguiu isso? Matou algum monstro por ai, ou foi em alguma masmorra cheia de tesouros? – indagou Todd Flathead, admirado.

_ Bem, não foi bem assim, capitão! Na verdade, quando estávamos fora, o sargento Lucano, aquele elfo orelhudo, ia entrar sozinho numa caverna, e ele me entregou essa bolsa! Disse que tinha três mil tibares de ouro ai, e me pediu para entregar pros amigos dele, pra que eles dividissem as moedas entre eles, caso o sargento não voltasse vivo da caverna! Bom, só que ele voltou vivo, e não pediu as moedas de volta, e nem disse o que fazer com elas, se ele voltasse vivo! Então eu vi esse monte de moedas esquecidas e não resisti à tentação! O senhor sabe bem como é isso, não é? Ai eu peguei e trouxe aqui, pra gente dividir, capitão! – explicou Wood.

_ Ah, entendi! Você roubou isso dele, então! Venha até aqui, seu ladrãozinho miserável! Eu vou te ensinar uma lição! Você vai aprender a jamais roubar um companheiro de grupo na sua vida! Seu vermezinho imprestável! – Todd ralhou e avançou sobre o ladino. Wood ainda tentou fugir, em vão, pois a adaga de Todd chegou ao seu pescoço mais rápido do que suas mãos na direção da porta.

Os dois saíram para o pátio do forte, onde Flathead chamou os soldados que estavam mais próximos, e ordenou que prendessem Wood e o levassem para uma cela. Entre esses soldados, estava Alejandro, que, ao descobrir o motivo da prisão de Wood, lembrou-se do seu chicote.

_ Desgraçado! Então você aprontou de novo! Tinha certeza que você tinha pegado meu chicote! Seu filho de uma cadela! – Alejandro gritou, acusando o goblin, enquanto ajudava a prendê-lo e o chutava com raiva.

Assim, Wood foi levado até a prisão do forte, e trancafiado numa cela escura, enquanto implorava por misericórdia ao seu mestre. Todd, por sua vez, ordenou que o deixassem preso até segunda ordem, para aprender a não roubar companheiros de grupo, e foi embora. Recolheu todas as moedas e as colocou de volta na bolsa. Então, foi ao encontro de Glorin.

Nesse momento, Glorin conversava com Legolas, enquanto esperava por Lucano. Legolas avisava ao seu capitão que havia pedido alguns dias de dispensa no fim do ano para visitar sua esposa. Glorin, irritou-se ao ver outra vez a hierarquia sendo quebrada, e advertiu Legolas para que se reportasse diretamente a ele para qualquer coisa. Então, Anix apareceu, para atormentar ainda mais o anão.

_ Capitão, quando o senhor corta a barba, o que costuma usar como ferramenta? – perguntou inocentemente o mago.

_ Hunf! Legolas, tire-o daqui! – o anão bufou, irado, enquanto apertava firme o machado entre seus dedos.

_ Mas capitão, só quero saber que ferramenta o senhor usa, porque eu inventei um dispositivo aqui que pode... – Anix continuou insistindo, mas foi interrompido pelo capitão.

_ Legolas! Tire esse imbecil da minha frente! Depois eu converso com o general pra você! Mas agora, tira logo esse idiota de perto de mim! – ordenou o anão, já quase gritando.

_ Tá bom! Vem Anix, vamos embora daqui, antes que seja tarde demais! – Legolas puxou seu amigo mago e o levou para longe de Glorin. Sem entender o que havia se passado, Anix mostrou a Legolas o que havia criado. Era uma lâmina, extremamente afiada, que ele havia prendido a um cabo curto. A lâmina era curva e, segundo ele, se ajustava à curvatura do rosto, para raspar a barba com precisão. Anix a chamava de lâmina de barbear.

_ Venha Legolas! Vou lhe mostrar meu novo invento! Fiz uma carroça em miniatura, pra gente se divertir um pouco! – disse Anix, puxando o colega em direção ao laboratório do forte.

Glorin continuou andando a esmo pelo forte, como se estivesse perdido. Foi quando encontrou Squall.

_ Capitão! Não se esqueça! O final do ano já está chegando! Lembre que quando estávamos no castelo o senhor prometeu que iria me enfrentar num duelo! Eu quero desafiar o senhor, pra testar minhas forças, e mostrar que também sou forte! Mais forte que o senhor até! E eu quero lutar sem regras! Vai valer tudo, o senhor pode usar qualquer ataque e eu também! Só que vamos começar distante um do outro! – falava Squall, empolgado.

_ Ai não! Mais um! Tá bom! Quer lutar, então vamos lá! Moleque folgado, quer ficar de longe só mandando magias em mim! Tudo bem, então! Vamos acabar logo com isso! Prepare-se, eu vou contar até dez, pra você se afastar! Um...dois...três...

_ Calma capitão, não á agora não, a luta é pra ser no último dia do ano... – Squall ficou desesperado. A contagem de Glorin já chegava a sete.

_ Parece que você está tendo um dia cheio hoje, não é meu amigo? – era Seelan, que acabava de chegar.

_ Ai não, outro! – resmungou Glorin.

_ Ora, não seja rabugento, meu amigo! Eu sei porque você está assim! Está chegando a data, não é? Já faz três anos! Mas, não deve desanimar, amigo! Tudo ficará bem! – disse o mago, pousando a mão sobre o ombro do anão. – Squall, não vai haver luta! Glorin não costuma lutar no fim do ano!

Seelan estava quase resolvendo tudo, quando foi interrompendo. Ao lado deles passaram Legolas e Anix, dentro de um grande caixote com rodas, que se deslocava velozmente pelo chão do forte. Os dois passaram rápido por eles e foram em direção à horta do forte, gritando como loucos e sorrindo como crianças. Ao vê-los, Seelan correu atrás deles, querendo também dar uma volta no brinquedo de Anix.

_ Bom, se o senhor não luta no fim do ano, então vamos lutar hoje! Hoje á noite! Eu o desafio, capitão!

_ Squall, deixa disso! A gente só vai se machucar à toa!

_ Ora, vamos lá! Se o senhor ganhar, eu lhe pago um mês de cerveja grátis!

_ Bem, acho que eu estou precisando tomar algumas cervejas extras nesses dias mesmo!

_ E se o senhor perder, o que me dá? Que tal esse anel? Ou esse broche!

_ Ah! Não me enche, garoto! Eu vou embora daqui! E se você algum dia me derrotar, eu te darei meu broche!­ – Glorin começou a se afastar, já cansado de toda aquela ladainha. Squall tentou segui-lo, mas foi detido por Seelan.

_ Deixe-o, Squall! – a voz do elfo não tinha mais o tom infantil e afeminado de sempre. Era séria, austera. – Glorin não está bem nesses dias! Faz três anos que alguém muito importante pra ele morreu!

_ Quem Seelan? – perguntou o feiticeiro.

_ A companheira dele! Três anos atrás, estávamos em uma missão nas Montanhas Uivantes! Glorin, se você não sabe, foi um dos servos de Belugha, a grande rainha dos dragões brancos, uma dragonesa muito poderosa que vive naquelas montanhas e as governa! Lá ele conheceu uma anã, por quem se apaixonou! Um dia, enquanto explorávamos uma masmorra, como qualquer grupo de aventureiros, ela se afastou do grupo! Quando Glorin a encontrou, ela estava morta! Tinha sido assassinada! Quando chegamos, encontramos Glorin com ela nos braços! E, acredite, esse anão duro como uma rocha que você conhece, estava em frangalhos! Glorin não viu quem a matou e não conhece o rosto do assassino! Só o que ele sabe, é que foi um elfo quem fez isso a ela! Justamente por isso ele tem tanto mágoa dos elfos! Ele não confia em nenhum deles mais, pois não sabe quem foi o elfo que matou sua amada!

_ Nossa, por isso ele está tão estranho nesses dias! Não é Seelan?

_ Sim! Nesses dias ele costuma se isolar de todos, e chorar suas mágoas sozinho! Ele se culpa pelo que aconteceu a ela, acha que foi culpa dele, por tê-la deixa se afastar dele! Mas, o pior de tudo, é que Lars não pode trazê-la de volta! Nenhum tipo de ressurreição foi capaz de fazê-la retornar! E ninguém sabe o porquê! Agora, se quer um conselho, deixe-o afogar suas mágoas com cerveja, será melhor assim!

_ Está bem, Seelan!

Squall e Seelan se despediram e foram cuidar de seus afazeres. Squall encontrou seus amigos retornando da horta semi destruída pelo carrinho de Anix. Legolas ainda tinha alguns pedaços de alface presos ao cabelo. Os três pegaram o veículo e foram se divertir mais um pouco com ele. Perto dali, Glorin encontrava mais aborrecimentos.

_ Glorin! Isto pertence a um dos seus amiguinhos! É do Lucano! O Wood tinha roubado! Quer fazer o favor de devolver? – era Todd Flathead, em suas mãos estava a bolsa com as moedas de Lucano.

_ Tá bom! Deixe comigo! – respondeu o anão, secamente.

_ E como você está? – perguntou o goblin.

_ Hunf! Não me enche! Dá essa bolsa logo! – Glorin bufou, aborrecido, tomou o saco de dinheiro das mãos de Wood e foi embora.

Pouco tempo depois, ele encontrou Lucano e entregou-lhe o dinheiro roubado. Lucano então lembrou do que tinha acontecido, e tentou inocentar Wood Croft, dizendo que ele estava tomando conta das moedas a seu pedido. Glorin, cansado de tanta confusão com os soldados, resolveu tirar tudo a limpo. Junto com Lucano, foi ao encontro de Todd Flathead. No caminho, encontrou com Alejandro, e ordenou que os acompanhasse, para dar explicações sobre sua deserção e para servir de testemunha sobre no caso de Wood.

Todd explicou como a bolsa de moedas tinha ido parar em suas mãos, e contou quais eram as intenções de Wood Croft. Alejandro contou o que tinha acontecido com seu chicote e acusou Wood de tê-lo destruído de propósito. Então, Glorin decidiu que Wood deveria permanecer em detenção, para ser punido por ter tentado roubar Lucano. A Alejandro o anão deu apenas uma advertência verbal, ordenando que ele nunca mais abandonasse seu grupo, para própria segurança. Depois mandou o espadachim ir até o depósito do forte e pegar um chicote novo e esquecer o assunto, a menos que ele tivesse como provar que Wood era realmente o culpado. Glorin os convocou para deixarem Todd em paz e, quando o goblin foi se despedir deles, algo misterioso aconteceu. Dililiümi, a espada de Lucano, começou a trepidar e a vibrar, parecia que iria saltar de sua bainha para atacar, para atacar Todd. Então, Lucano lembrou das palavras de Laurelin Ramo de Carvalho, de que a espada tinha sido forjada para caçar e exterminar os inimigos dos elfos, entre eles os goblins, e Todd era um goblin. Lucano explicou a todos o que se passava, enquanto tentava manter a espada dentro de sua bainha, e deixou o quarto rapidamente, antes que a situação piorasse ainda mais.

Os três deixaram o alojamento do goblin, e Glorin achou que enfim fosse ter paz naquele dia. Deixou o soldado e o sargento para trás, e foi até a taverna do forte. Lucano foi ao encontro de seus amigos, para lhes contar tudo que tinha passado nos últimos dias, e Alejandro foi buscar seu chicote novo. Mas, ao contrário do que imaginava o anão, as confusões daquele dia estavam longe de terminar, pois Alejandro, de posse de sua nova arma, foi até a prisão de forte Rodick, para infernizar a vida do prisioneiro que ele mais detestava, Wood Croft. Assim, o jovem mascarado passou a estalar seu chicote próximo ao goblin cativo, durante grande parte do dia e teve, enfim, sua vingança.

abril 16, 2007

Dililïümi tmigailïi, a caçadora prateada


Dililïümi – A caçadora prateada

Essa espada foi construída mais de uma centena de anos atrás por um grande ferreiro elfo chamado Lennon Auraniel, ainda durante a infinita guerra dos elfos contra os hobgoblins, justamente para fortalecer o exército de Lenórienn no combate a essas criaturas.
Aparência: espada de lâmina longa prateada (mitral), lâmina de dois gumes. Lâmina contém inscrições em élfico com o seu nome dililïümi tmigailïi (caçadora prateada). Próximo ao cabo fica o brasão de seu criador, um falcão em chamas voando para o alto. O cabo é todo prateado e possui o formato de um falcão, sendo que a cabeça com o bico aberto seguram a lâmina, as asas abertas são a guarda da espada e as pernas formam saliências que se entrelaçam ao redor do cabo, culminando em duas garras de falcão que seguram uma pedra da lua.

Campanha A - Capítulo 271 – Presentes

Capítulo 271 Presentes

_ Pois bem, Lucano! Pelo que parece você finalmente conseguiu resgatar o artefato de Glórien na caverna, não é mesmo? – Laurelin Ramo de Carvalho pôs a mão no ombro de Lucano e sorriu, logo após os dois terem curado todos os feridos com suas magias. Os elfos negros eram apenas uma lembrança ruim que jamais seria esquecida, mas tudo estava em paz agora.

_ Não, Laurelin! Não encontrei artefato algum lá dentro, acho que falhei na missão! – lamentou Lucano.

_ Não meu jovem, você não falhou! Você conseguiu reaver um bem muito precioso para nossa deusa, e que estava perdido! VOCÊ! Lucano, você reencontrou sua fé e ela é agora maior do que antes! Sua missão foi cumprida! Agora Glórien está mais feliz, por tê-lo de volta como instrumento de seu poder e sua vontade, para o progresso e o bem de todos os elfos! – explicou o velho. – Bem, agora vamos retornar para minha casa! Vamos descansar um pouco e conversar, pois hoje foi um dia muito difícil para todos! E eu os convido a ficarem comigo pelo menos até amanhã, assim terão tempo para recuperarem as suas forças!

E todos acompanharam o velho elfo até sua morada sob a terra. O eremita lhes serviu uma saborosa refeição e todos aproveitaram o restante do dia para descansar. Laurelin conversou longo tempo com Lucano, dando-lhe conselhos e transmitindo a ele sua experiência. O jovem clérigo lhe contou tudo que tinha acontecido dentro da caverna, com grande emoção. Alejandro brincava com as crianças e as fazia sorrir como nunca. Ao final do dia, o pequeno Tallos já imitava o humano, dando cambalhotas e vestindo uma capa e uma máscara que ele próprio fez com um pedaço de pano velho. Já de noite, todos foram dormir tranqüilamente, tendo belos e agradáveis sonhos. Na manhã seguinte, o 21º dia de Áurea, todos se levantaram bem cedo e fizeram os preparativos para a viagem de volta a Forte Rodick. Enquanto os soldados colocavam os seus equipamentos nos cavalos, ajudados pelas crianças, Laurelin chamou Lucano para uma conversa particular no fundo da caverna. Os dois entraram no abrigo, sozinhos, e foram até a parte mais profunda do lugar, onde havia um enorme baú de madeira.

_ Lucano, eu quero lhe dar um presente! Quero que fique com isto! Este amuleto o ajudará em sua jornada, lhe dando maior vigor físico, para que você possa resistir melhor a doenças e ferimentos! É um amuleto mágico, guarde-o bem! – Laurelin falava ao mesmo tempo em que revirava o conteúdo do baú. Tirou de lá de dentro uma pequena caixa de madeira e a abriu. Havia um medalhão prateado, preso a uma corrente também prateada, e o medalhão era cunhado com a figura de um belo urso. Ramo de Carvalho entregou o medalhão a Lucano, que o pendurou no pescoço e agradeceu. Imediatamente, Lucano se sentiu mais forte, como se tivesse terminado de descansar por horas e tivesse energia para correr por quilômetros antes de se cansar.

_ Obrigado Laurelin! – disse o herói.

_ E também, quero que fique com isto! – Laurelin tirou do baú um comprido embrulho envolto num tecido antigo. Colocou o objeto nas mãos de Lucano e começou a desenrolar o pano lentamente, até revelar seu conteúdo. Era uma espada, uma espada de lâmina longa prateada, feita do fino e precioso metal chamado de mitral. Sua lâmina emitia um tênue brilho argentado e continha inscrições em élfico em toda a sua extensão, que traziam as palavras: Dililiümi Tmigailii. Próximo ao cabo havia um brasão, que pertencia ao seu criador, um falcão em chamas voando para o alto em grande velocidade. Seu cabo, todo prateado, possuía o formato de um falcão, sendo que a cabeça com o bico aberto seguravam a lâmina, e as asas abertas do falcão formavam a guarda da espada. Já as pernas do falcão formam saliências que se entrelaçam ao redor do cabo, culminando em duas garras robustas de falcão que seguravam uma majestosa pedra da lua na extremidade do cabo.

_ Esta é Dililiümi Tmigailii, a Caçadora Prateada! Esta espada foi forjada há muito tempo em Lenórienn, por um famoso ferreiro chamado Lennon Auraniel! Ele criou esta espada ainda no tempo em que os elfo travavam a infinita guerra contra os robgoblins, e é a caçadora dos inimigos dos elfos! Esta espada já participou de muitas batalhas, e venceu muitos goblinóides para orgulho de nossa deusa! Quando a guerra terminou, e nosso reino foi desgraçadamente invadido pelos malditos goblinóides, esta espada me foi passada por um grande guerreiro de nosso povo! E agora, eu a passo a você, Lucano! Mas esse não é um presente meu, como você pode estar pensando! É um presente de nossa deusa, de Glórien! A mãe de todos os elfos falou comigo em sonho, e me pediu que eu desse-lhe esta espada! Cuide bem dela, meu amigo, pois ela é uma espada muito preciosa, e ela lhe ajudará em seu caminho! Agora vá, pois seus amigos o esperam, e seu destino o aguarda! – Laurelin completou seu discurso, e deu um forte abraço em Lucano. O sargento se despediu do ancião, emocionado, e partiu. Lucano e seus soldados deram adeus a Laurelin Ramo de Carvalho e a seus adoráveis netos, e, cinco dias após sua partida, eles entraram novamente no Forte Rodick. Era o 25º dia de Áurea, e essa era a última semana do ano de 1397.

Campanha A - Capítulo 270 – Elfos negros

Capítulo 270 Elfos negros

Então, todos viram um vulto negro que descia pela encosta rochosa, sobre a entrada da caverna. E antes que pudessem detê-lo, o vulto desceu veloz e deu um salto mortal em direção ao solo. E virou-se para todos e disse “Olê!”, e entrou correndo na caverna. Era Alejandro. Mas, o espadachim encontrou Lucano e as crianças, que retornavam do fundo da caverna, alegres e tranqüilos, e soube que estava tudo bem. Então ele saiu do túnel, e seus companheiros já o cercavam para tirar satisfações sobre seu sumiço e seu reaparecimento repentino. E Lucano chegou com as crianças, e Laurelin o saudou, assim como os soldados.

_ Pelo que eu vejo você conseguiu passar no teste! – disse o ancião.

_ Sim! - Lucano sorriu.

E então, um vento gélido soprou veloz entre as árvores, e o ventou vinha carregado de maus pressentimentos, e todos puderam perceber isso. E junto com o vento veio uma nuvem negra como a noite, que encobriu o sol brilhante num instante. E todos sentiram temor, mas foi Laurelin quem o expressou na forma de palavras.

_ Bem, Lucano, você passou no primeiro teste! Espero que consiga passar no segundo também! A hora se aproxima! E que Glórien tenha piedade de todos nós! – disse o velho elfo, e suas palavras eram carregadas de pavor.

Então, o céu tornou-se totalmente negro, e o manto da escuridão se abateu sobre a terra, e todos ficaram na penumbra. E do meio da mata escura surgiram quatro vultos igualmente negros, de aparência e de coração. E esses vultos chegaram ligeiros à clareira e cercaram todo o grupo, e sua aparência foi revelada. Eram elfos. Mas esses elfos eram diferentes de Lucano, Laurelin e as crianças. Tinham um ar de nobreza e eram distintos, vestidos com roupas nobres, de ótima qualidade. E tinham cabelos escuros como a nuvem que encobria o céu, e seus olhos , também escuros, mostravam ódio e amargura. E sua pele era negra, como se fossem sombras, mas eram de carne como qualquer um ali. E a cor de sua pele não se devia a sua linhagem, ou a algum fator ambiental o mágico, era um presente de Tenebra, a deusa das trevas, para identificar aqueles que decidiram por livre e espontânea vontade seguir seus ensinamentos. Era o que diferenciava um filho de Glórien daqueles que, por rancor pela perda dos amigos e parentes na queda do reino élfico de Lenórienn, haviam renegado sua deusa e dedicado sua devoção a Tenebra. Era a marca que os identificava por aquilo que eles haviam se tornado, os elfos negros. Elfos cujos corações estavam na escuridão, que culpavam Glórien por sua tragédia, e que haviam sucumbido ao ódio e a dor e se tornado criaturas das trevas. E dentre os quatro que se apresentaram, um despertava mais atenção e medo. Era um elfo negro de grande estatura e cabelos longos, e que vestia roupas negras bordadas com fios de ouro. E trazia uma enorme espada em suas costas, que emanava uma aura sinistra. E em suas mãos, assim como nas dos outros três, havia estranhas armas, lâminas que formavam um arco afiado que circundavam as mãos, e cujas extremidades eram presas nas pontas do cabo segurado pelas mãos negras. E essas armas eram letais, e chamadas de ajis, pelos elfos negros. E esse elfo se aproximou ameaçadoramente do grupo, e quem o olhava sentia um calafrio percorrendo a espinha. E Laurelin rapidamente mandou que as crianças entrassem na caverna e ficou diante da entrada, protegendo-a dos elfos negros. E o que parecia ser o líder deles começou a falar.

_ Finalmente eu o encontrei, velho! Agora você conhecerá o poder de minha fúria! – gritou o líder dos elfos negros.

_ Não Berforan! Você não vai fazer nada, pois o poder de Glórien me protege! – respondeu Ramo de Carvalho.

_ Ora, Glórien não protege ninguém! Não o fez quando mais deveria, e agora que ela está fraca o faz menos ainda! Vocês todos serão testemunhas de que o poder dela não existe mais! – e o elfo negro gargalhou e comandou, com a cabeça, os seus soldados, e eles prepararam suas armas para matar.

E os soldados de Lucano agiram com mais rapidez, ou talvez maior imprudência, e atacaram primeiro. O machado de Lycan se chocou contra o peito de Berforan, e a armadura resistiu ao impacto e apenas um ferimento superficial foi feito na pele escura do elfo negro. E Wood arremessou uma adaga no mesmo alvo, sem desconfiar do tamanho da sua tolice, e errou, pois a arma foi rebatida pela aji brilhante facilmente. E o goblin se escondeu atrás de uma árvore, mas de nada adiantou sua estratégia.

_ Saia de trás dessa árvore, seu goblin imundo! Eu estou vendo-o claramente! – gritou o elfo caído.

E depois foi a vez de Alejandro. Deu uma série de saltos e cambalhotas para chegar ao lado do inimigo de surpresa, mas seu florete sequer chegou a tocar o adversário, pois ele se esquivou com desprezo da arma do mascarado. E, impressionado com o inimigo, Lucano desejou saber quem ele era.

_ Ele é Berforan, o Alma Negra, líder de todos os elfos negros! Ele já foi no passado um Espada de Glórien, era o líder de todos eles! Mas, após a queda de Lenórienn, ele culpou nossa deusa pela desgraça ocorrida com os elfos e se voltou contra ela! – explicou Laurelin.

E então foi a vez dos elfos negros atacarem. Berforan com suas duas ajis golpeou quatro vezes o corpo de Alejandro. E o espadachim foi retalhado e seu corpo desabou no chão já quase sem vida. Então, a única mulher que havia no grupo de Berforan atacou Lycan pelas costas. E suas ajis rasgaram-no com violência, e o guerreiro sentiu que sua vida se esvaia e tentou recuar. Wood tentou acertar novamente os inimigos com suas facas, mas isso só os deixava mais irritados.

Então, Arcany atacou com sua magia, e atingiu um projétil mágico na mulher que ameaçava Lycan, e ela se enfureceu.

_ Matem o mago! – gritou ela, e seus outros dois companheiros miraram suas armas no feiticeiro, mas Berforan os impediu.

_ Entrem na caverna! Há crianças lá! Matem todas! – ordenou o líder doa elfos negros. E Lucano e Laurelin tentavam impedir o avanço dos inimigos sem lutar contra eles, pois, apesar de toda sua maldade, ainda eram elfos.

Então, Berforan segurou as duas ajis com apenas uma das mãos, e com a mão direita sacou a espada que estava em suas costas, e ela tinha uma aura negra de trevas.

_ Sinta o poder de Diamante das Trevas! – gritou Berforan. E enterrou vários centímetros da lâmina maldita no ventre de Lycan. O guerreiro empalideceu e caiu, à beira da morte. – Alevandra! Cuide do mago! – ordenou ele.

E Alevandra, a elfa negra, correu até Arcany e abriu seu pescoço com a lâmina curvada de sua aji. E o feiticeiro foi o terceiro a tombar em combate. E os elfos negros tentaram atacar Lucano, mas se detiveram diante dele ao ver seu símbolo sagrado pendurado em seu pescoço. E o amaldiçoaram, dizendo “outro maldito clérigo!”. E contra ele nada fizeram.

_ Lucano! O poder de Glórien nos protege! Eles não podem fazer nada contra os servos da deusa! Use seu poder! – gritou o ancião.

Mas Berforan se aproximou dele, e Laurelin não conseguiu detê-lo. Wood saiu de seu esconderijo e o atacou, mas Diamante das Trevas entrou em seu peito, e o goblin foi o quarto a ser vencido. E Lucano invocou o nome de Glórien e o poder da deusa dos elfos fluiu novamente pelo seu corpo, e ele conseguiu conter um dos inimigos, tirando dele toda a raiva e acalmando seu coração. E então Berforan disse.

_ Malditos servos de Glórien! Posso não tocá-los, mas ao menos ceifarei as vidas inúteis desses humanos e a desse goblin asqueroso! E aquelas crianças também pagaram, pois os devotos da traidora da raça élfica devem ser punidos tanto quanto ela!

E Berforan avançou em direção da entrada da caverna, onde Lucano tentava deter os inimigos usando seu corpo como escudo. E então Laurelin gritou o nome de sua deusa e suas preces foram atendidas. Um círculo de luz mágica se formou ao redor do ancião e se expandiu, até envolver os soldados caídos e os elfos negros. E Berforan e seus comandados, que tinha os corações negros de maldade, não puderam suportar o poder do círculo mágico e se afastaram.

_ Berforan! Hoje nenhuma vida será tirada! Nem mais uma gota de sangue será derramada nesses campos! Em nome de Glórien eu lhe ordeno que vá embora daqui, imediatamente! – gritava Laurelin Ramo de Carvalho, ostentando um amuleto de madeira com o símbolo de sua deusa entalhado.

_ Velho maldito! Eu irei embora! Mas não pense que acabou! Ainda nos encontraremos de novo algum dia! E quando esse dia chegar, não conseguirá mais escapar! – respondeu Berforan com ódio. E os elfos negros retornaram para a mata em saltos ligeiros e desapareceram tão furtivos quanto haviam chegado. E o vento soprou mais uma vez, e a nuvem negra foi levada embora. E o sol voltou a brilha novamente. E Lucano agradeceu a Glórien por estarem todos vivos e por ter sido aceito novamente como um de seus servos. E jurou nunca mais desonrar o seu voto para com a deusa.

Campanha A - Capítulo 269 – A provação

Capítulo 269 A provação

Enquanto Lucano e as crianças adentravam na caverna, Laurelin e os soldados aguardavam do lado de fora, sentados em pedras desgastadas pelo tempo que se espalhavam pelo chão. Wood Croft, desconfiado como sempre, subiu numa árvore, e pôs-se a fitar o horizonte, ficando de sentinela, à espreita de qualquer perigo. Mal desconfiava ele que Alejandro não tinha ido realmente embora como havia dito. O espadachim seguira o grupo as escondidas e agora os observava, oculto entre as árvores, do alto do planalto. A intenção do mascarado era descer pela encosta rochosa do paredão e entrar na caverna para ajudar Lucano, surpreendendo a todos, antes que pudessem fazer qualquer coisa. Assim, ele foi se aproximando da entrada da caverna lentamente, tomando o cuidado para não ser avistado por seus companheiros.

Enquanto isso, Lucano e as crianças caminhavam sob a terra. Andavam pelo túnel largo e alto, cuja extensão se perdi na escuridão. As paredes eram úmidas e cobertas de um tipo de musgo esverdeado, e por todo lado havia grandes insetos e vermes rastejando. Finalmente, após vários minutos de caminhada, chegaram ao fim da caverna, e ela terminava abruptamente, numa parede irregular de rocha bruta. Não havia passagens ao redor, nem mesmo um pequeno buraco ou rachadura por onde pudessem atravessar. Pela experiência que possuía, Lucano concluiu que deveria haver ali alguma passagem oculta, e lembrou dos seus dias de aventura no Dente de Pedra, e das muitas passagens secretas que existiam na mina de Durgedin. E começou a tatear as paredes e o chão, e só não fez o mesmo com o teto porque ele se elevava quase três metros acima de sua cabeça. As crianças repetiam os gestos de Lucano, pois eram astutas e logo entenderam o pensamento do clérigo. E procuraram por minutos, até desistirem da busca por nada acharem. Então, quando tudo parecia perdido e eles já pensavam em retornar, o chão brilhou e se abriu sob seus pés num enorme buraco retangular de quase dez metros de lado.

Despencaram então num fosso gigantesco e profundo. Não conseguiam ver suas paredes pois estava escuro e a largura do fosso era muito maior do que seus olhos alcançavam. Muito menos podiam ver o fundo, já que ele parecia nem existir. E caíram por quase um minuto, e então um forte vento subiu vindo das profundezas e com sua força jogou todas as crianças e Lucano para longe umas das outras aos rodopios. E o vento continuava soprando forte para cima, e era difícil até mesmo se mover um simples dedo. E Lunara foi se afastando do grupo cada vez mais, carregada pelo vento, e algo brilhou na escuridão, muito abaixo do grupo. Era um patamar de pedras pontiagudas, suspenso na escuridão, do qual a menina se aproximava perigosamente. Lunara gritou em desespero, e sua morte estava próxima, pois seria empalada pelas enormes estalagmites assim que se chocasse naquelas rochas. Lucano tentou alcançá-la, mas era impedido pelo vento que o mantinha distante da menina. E buscou todos os meios possíveis para salvá-la, mas isso parecia uma tarefa impossível. Lunara começou a chorar, entrando em pânico, e todas as outras crianças começaram a gritar. E Lucano se lembrou das palavras de Laurelin, e decidiu confiar na sua fé, na sua deusa. Orou a Glórien, perguntando porque a menina tinha de passar por aquilo, e ofereceu sua vida para ser tirada no lugar da dela, e pediu que a deusa lhe orientasse. Então, Lucano teve uma visão, e em sua visão viu todas as crianças que o cercavam, e depois viu uma escada que chegava até perto de Lunara. E quando despertou da visão, o clérigo soube o que fazer.

_ Crianças! Agarrem-se umas as outras, segurando-se pelos pés! Um agarra as pernas do outro, rápido! – gritou Lucano, confiante.

E todas as crianças obedeceram, e formaram uma ponte com seus corpos, e Lucano rastejou por cima da ponte até seu extremo, e Túrin agarrou os pés de Lucano e ele se esticou e conseguiu alcançar Lunara a tempo de salvá-la da morte. Ocorre que no momento em que suas mãos tocaram a menina, a violência do vento aumentou drasticamente, arrancando pedaços das rochas que agora voavam para cima como flechas em busca de um alvo. Lucano abraçou Lunara, e virou-se de barriga para cima, servindo de proteção para a menina. Porém, no instante em que ele se virava, uma das lascas que pedra, que voavam ligeiras como andorinhas, atingiu de raspão o seu olho esquerdo. E o olho de Lucano foi rasgado e seu sangue se espalhou junto com o vento e o lado esquerdo de seu corpo agora estava nas trevas para sempre.

E com o olho que restava, Lucano descortinou o horizonte abaixo de seus pés, e viu que se aproximavam finalmente do fim do poço. Havia paredes de pedra lisa, que formava um túnel muito abaixo dali. E o clérigo ordenou aos garotos que não se soltassem, e colocou-se em primeiro para que, assim que encontrassem o chão, ele fosse o primeiro a morrer, para que os restos de seu corpo servissem para amortecer a queda das crianças. Mas, ao invés de bater no chão duro e ser esmagado, Lucano e as crianças caíram em uma rampa suavemente. O túnel era extremamente liso, e o grupo tocou a superfície da parede levemente, e a parede era em forma de um longo arco, de forma que após alguns instantes, eles se deslocavam na horizontal e não mais na vertical. E estranhamente, ninguém se arranhou naquela parede de pedra, nem parecia haver atrito entre seus corpos e a rocha, e Lucano agradeceu a sua deusa por aquela bênção.

E no final o túnel se estreitou, e um brilho púrpura surgiu à frente deles. E o túnel terminou repentinamente e eles voltaram a cair. Seus corpos mergulharam na água fria, e, enquanto caiam, Lucano gritou para não se soltarem, e todos mergulharam num lago, agarrados uns aos outros. Mesmo com o peso de sua armadura, Lucano reuniu forças para nadar até a margem do lago, arrastando todas as crianças com ele, e todos foram salvos.

Estavam agora em um lago subterrâneo muito grande, cercado por paredes de rocha em toda sua extensão. Entre a rocha e a água existia um estreito piso de pedra, pelo qual todos podiam caminhar. E no alto, na junção das paredes com o teto abobadado coberto de estalactites, havia fungos violetas que brilhavam e iluminavam a gruta toda. Aquele lugar lembrava a morada de Escamas da Noite, e Lucano rezou para que não tivesse alguém como a dragonesa ali.

Começaram a caminhar ao redor do lago, indo rumo a um túnel de saída a alguns metros de onde estavam. Lucano mandou as crianças ficarem encostadas na parede enquanto andavam e, a cada metro percorrido, sentiam um declive no solo, que se acentuava cada vez mais. E a água do lago formava uma correnteza, cada vez mais rápida, que seguia até um túnel submerso e desaparecia sob a rocha. Então, a poucos metros da saída, o piso cedeu atrás do grupo, logo após sua passagem, e Tallos foi tragado pelas águas turbulentas, e arrastado na direção do sumidouro logo à frente. Lucano correu para tentar pegar o garoto, e pensou em saltar na água para salvá-lo mas, percebeu que seria inútil e os dois seriam engolidos pela terra e morreriam. Mais à frente ele viu uma estalagmite no chão, na qual podia se segurar e agarrar Tallos e trazê-lo para a margem e ele correu para lá. Mas, quando se aproximou do local, uma enorme aranha desceu do teto, presa por sua teia viscosa, e ficou entre Lucano e a estalagmite. Lucano tinha suas armas e poderia acabar com o inseto facilmente, mas as outras crianças que vinham atrás poderiam ficar feridas, ou cair na água com medo do monstro. Além disso, não havia mais tempo, ele precisava agir rapidamente, ou então Tallos morreria afogado. Então, ele ordenou que Túrin pegasse sua espada para se defender da aranha, e se atirou no chão, sem se importar com o monstro. Agarrou a saliência de pedra com força e saltou na água, e puxou Tallos pela camisa, salvando o menino da morte. Lucano agarrou a estalagmite com força e puxou ele e o garoto para a margem e, quando ele saiu da água agitada, a aranha saltou em suas costas e o mordeu. E Túrin estava paralisado, e Lucano nada pode fazer, pois se soltasse um dos braços para lutar, ou Tallos ou os dois seriam levados pela correnteza. Lucano resistiu à dor e saiu da água com Tallos, sentindo suas forças serem levadas embora pela ação do veneno da criatura. Então, quando os dois estavam fora da ação das águas, Tallos pegou sua adaga e cravou a lâmina no centro da cabeça da aranha, e ela caiu no chão, morta. Lucano e Tallos se levantaram, e o grupo finalmente conseguiu sair da gruta do lago. E o clérigo caminhava com pesar e dor, quase sem forças.

Entraram em um túnel estreito, que mais parecia uma fenda natural aberta por algum tremor de terra antigo. E em determinado ponto, o túnel se estreitou tanto, que só era possível passar uma pessoa de cada vez, espremendo-se entre as paredes. E eles continuaram mesmo assim, já que não havia caminho de volta. E mais à frente, encontraram um trecho da fenda coberta de saliências pontiagudas como lanças nas paredes. Lucano ia à frente, andando de lado, e não tinha escolha precisava seguir em frente, e sabia que seu corpo seria todo rasgado pelas rochas. Mas ele preferia ser o único ferido naquele lugar, então avançou. E as lascas de pedra penetraram em sua armadura, e rasgaram sua carne, e à medida que Lucano avançava, as pedras penetravam em seu corpo, causando a maior dor que ele já sentira. E as lascas se quebravam e se alojavam em seu corpo, e quando ele terminou a travessia, e chegou a uma porção mais larga do túnel, o caminho atrás dele estava livre de perigos para as crianças, e todos passaram sem sofrer qualquer ferimento.

Continuaram mais alguns metros, então de repente, o chão se abriu atrás de Lucano e engoliu os três garotos que vinham por último, Tallos, Loran e Keleron. O piso se fechou logo em seguida e não voltou a se abrir de forma alguma tentada por Lucano. Entretanto, apesar do susto, os garotos estavam bem, em um túnel que corria paralelo ao túnel onde Lucano estava, exatamente abaixo dele. E eles prosseguiram separados em dois grupos, sempre se comunicando pelo som de suas vozes e passos.

Muitos metros depois, o túnel inferior se afastou para a direita e se elevou, até ficar lado a lado do outro túnel, e os dois grupos agora eram separados por uma parede de rocha. O grupo de Lucano estava em uma câmara ampla e iluminada por fungos roxos, e os garotos do outro túnel viram a luz dos fungos em um buraco na parede, e foram até ele. E Tallos colocou sua adaga no furo, para que Lucano pudesse encontrá-los, mas quando foi recolher a arma, ela esbarrou em uma alavanca de pedra e a acionou. E duas paredes de rocha espessa fecharam o caminho à frente e atrás de Tallos, Loran e Keleron. E o teto começou a descer rapidamente para esmagá-los, e eles gritaram em pânico. Lucano olhou no buraco, procurando a alavanca para desativar a armadilha mortal, e a encontrou no fundo da abertura. E sobre ela, ele viu uma mensagem escrita, entalhada na pedra, que dizia: “Se desejas acionar a chave, deverás pagar o alto preço”. Mas Lucano não se preocupou com qual seria o preço a pagar, queria apenas salvar os garoto, e puxou a alavanca com força. E uma lâmina dentro do buraco decepou seu braço num único golpe nesse momento, e Lucano caiu para trás, com apenas metade do membro e sangrando abundantemente. Porém, o sacrifício deu resultado e o teto parou de descer e recuou. E a parede onde ficava o furo se abriu, revelando-se uma porta secreta, e todos voltaram a se unir. Lucano enfaixou seu braço com a ajuda dos meninos e estancou o sangue, e todos seguiram adiante.

Chegaram então a uma câmara muito grande e alta que tinha paredes esculpidas com esmero por mãos habilidosas e tinha um piso liso e limpo. E aquele lugar se assemelhava a um salão de palácio, grandioso e belo. Fungos davam brilho ao lugar com sua luminescência púrpura, e um solitário obelisco de pedra no centro do salão era o único objeto naquela imensidão. Muito ao fundo, havia um túnel de saída cuja extensão desaparecia da visão fazendo uma curva pra esquerda. Todos se aproximaram do centro e Lucano leu as inscrições que havia no obelisco. Elas estavam esculpidas em baixo relevo, e usavam o idioma dos elfos para dizer “Somente uma força de natureza oposta à da horrenda criatura poderá destruí-la”. E ninguém entendeu do que se tratava aquele aviso, até que ouviram passos, que vinham de mais adiante, da saída da câmara. E o túnel por onde tinham chegado se fechou com uma parede de pedra, da única saída surgiu o inimigo. E era uma criatura morta-viva, de corpo pútrido que exalava o cheiro acumulado de centenas de anos de apodrecimento. E a criatura se movia com leveza, diferente dos zumbis que Lucano já tinha visto. E ela falava e sorria, demonstrando grande inteligência. E emanava uma aura mágica que podia ser sentida até mesmo pelas crianças. E Lucano entendeu que era um lich.

E o lich se aproximou calmamente, e sua aparência era a mais horrenda que eles poderiam imaginar em suas mentes. E era tão horrível que o simples ato de olhar para ele já era suficiente para tirar as forças e a esperança daquele que o confrontasse. Somente a aparência horripilante daquele monstro já era suficiente para se igualar a qualquer poder mágico que Lucano tivesse visto em sua vida.

O monstro chegou até onde eles estavam. Lucano pos as crianças para trás de si e começou o combate. Sua espada golpeava o corpo apodrecido do lich, mas não lhe causava dano algum. Então, a criatura jogou o clérigo longe com um único golpe, e atacou as crianças. E nesse momento, Lucano questionou Glórien novamente, e perguntou por que aquilo estava acontecendo. O monstro agarrou Lunara com sua mão cadavérica, a menina gritou, chorou e desmaiou, e foi melhor assim. Ergueu-a com uma mão, e com a outra passou a percorrer seu corpinho angelical com a lâmina de uma foice negra que possuía. E Lucano se lançou contra ele, e combateu com sua espada. E Tallos tentou ajudá-lo com sua adaga. Mas cada golpe era ignorado pelo monstro, e ele gargalhava enquanto sua lâmina começava a penetrar lentamente no pescoço da menina. E bastou um olhar para que Tallos desmaiasse de pavor diante da horrenda criatura. E a armadura de Lucano foi rasgada como papel pela foice do monstro, e seu outro braço foi arrancado num golpe só.

Loran correu até o final do salão, para procurar uma saída ou alguém que pudesse ajudá-los, mas o túnel de saída terminava na rocha sólida e ele não entendeu como o monstro tinha entrado na câmara. E Lucano, sem os braços e com o corpo todo ferido e envenenado, testemunhava com pavor e tristeza a tortura de Lunara. O lich rasgou a roupa da menina com a foice, e começou a lamber suas pernas com sua língua asquerosa e cheia de pequenas garras que se moviam como se tivessem vida própria. E seu órgão espinhento e gosmento foi subindo pelas pernas da jovem até chegar á região púbica. E, a língua percorreu o contorno da vagina da inocente menina, e o lich inspirou fundo, sorriu e falou em voz alta “Faz muito tempo que não devoro uma virgem!”. E Lucano se desesperou, e antes que a língua penetrasse a criança, ele novamente pediu a Glórien que o iluminasse. E decidido a dar a vida para salvar Lunara, ele correu na direção do lich, e arremessou seu corpo contra ele. E novamente o monstro o golpeou com a foice, e Lucano foi arremessado longe. E dessa vez, além da armadura, sua mochila se rasgou, e um grande livro voou no ar e caiu próximo a Lucano, aberto. Era seu grimório. Então Lucano entrou num transe, e teve uma visão. E em sua visão, ele viu um jardim florido de enorme beleza que lembrava o lugar onde tinha se despedido de Enola e Silfo. E ele abriu o olho e não compreendia o que devia fazer. Então, no momento final, segundos antes do lich macular a pureza de Lunara, o clérigo se lembrou da inscrição no obelisco “...força de natureza oposta a da horrenda criatura...”. E ele lembrou da visão do jardim florido e olhou para o lich, e percebeu enfim que o jardim era o oposto do horrível monstro. E, olhando para seu grimório de mago com apenas poucas páginas preenchidas com o auxílio do amigo Anix, ele viu uma magia que era muito famosa em todo reinado, e cujo nome lhe havia sido revelado muito tempo atrás por Sam Rael, nos raros momentos de paz que eles tinha, nos quais o bardo tocava e cantava para eles, e lhes contava as lendas do mundo em que viviam. E o nome da magia era A flor perene de milady A. E Lucano, sem hesitar mais, se concentrou e buscou a magia em sua mente. E pronunciou as palavras mágicas corretas, e fez os gestos necessários, mesmo não possuindo mais mãos, e soube que sua magia dera certo quando viu um singelo gerânio brotar no ombro direito do lich. E o monstro olhou para a flor e debochou do poder de Lucano, e arrancou a flor com a mão e a esmagou. E uma nova flor brotou no lugar, e o monstro a arrancou também. E depois brotaram duas, e, irritado, o lich jogou Lunara no chão e arrancou as flores com raiva. E então nasceram três, quatro, cinco flores, e seu número foi aumentando rapidamente, sem que o monstro desse conta de arrancá-las. E o corpo pútrido da criatura foi coberto de flores, e ele enrijeceu e se tornou cinza, até se transformar numa estátua de pedra. E as flores o cobriram por completo, até que a horrenda aparência do monstro era apenas uma lembrança amarga.

Lucano agradeceu novamente a Glórien, e os garotos o ajudaram a se levantar. Keleron cobriu o corpo de Lunara com sua camisa, e Lucano a carregou com o que restava de seus braços. Tallos, ainda atordoado, subiu nos ombros de Lucano para também ser carregado. Já que não podia mais lutar, aquilo era o mínimo que ele poderia fazer por aquelas crianças. Lucano deixou Túrin, o mais velho, e Loran, o mais forte do grupo, responsáveis pela segurança de todos, e deixou suas armas sob os cuidados dos dois. E continuaram caminhando, até atravessarem o salão e o túnel que conduzia para além dele. E onde antes Loran tinha visto um túnel sem saída, agora existia uma passagem que conduzia por mais um túnel longo e escuro.

E o túnel terminou em uma câmara gigantesca, cuja extensão não podia ser vista ou deduzida. E da escuridão brotou o som de passos rastejantes e gemidos agoniantes. E, quando perceberam do que se tratava aquele som, estavam todos cercados. Vultos se aproximaram deles, caminhando com dificuldade. E quando estavam próximos, todos puderam ver que se tratava de uma horda gigantesca de zumbis. Os mortos-vivos os cercaram, e eles não tinham mais para onde ir. E da direita vinha uma luz, que eles identificaram como uma saída, que agora era inalcançável, bloqueada por dezenas de mortos que se acotovelavam. Lucano tentou continuar andando, e percebeu que os monstros os acompanhavam, sem, no entanto atacar, como se esperassem alguma coisa acontecer. Então, à frente deles, os zumbis se afastaram, e abriram uma passagem. Lucano tentou correr para a passagem, mas os monstros o acompanhavam e o cercavam. E ele notou que os monstros tinham suas atenções voltadas apenas para ele, sem se importar com as crianças. Então ele colocou Lunara e Tallos no chão e se despediu deles com lágrimas. E pediu para que corressem para a luz e salvassem suas vidas. E Lucano correu, atravessando a passagem aberta pelos zumbis, e os monstros o seguiram e deixaram o caminho livre para as crianças escaparem. E com o olho que restava, Lucano viu quando as crianças desapareceram na após a luz e soube que tinha conseguido salvá-las, ao menos por enquanto. E, enquanto ele fugia e atraia os monstros para longe das crianças, ouviu passos vindos da direção para a qual ele corria. E entendeu que os monstros tinham aberto passagem para a chegada de seu mestre, e não para sua fuga. E lucano olhou para frente, e seu único olho viu uma pessoa vestida de branco, carregando uma tocha e um cajado. E, quando estava bem próximo, Lucano o reconheceu. Era Zulil!

_ Finalmente eu o peguei! Seu maldito! Você será o primeiro! Vou matá-lo e fazê-lo sofrer muito! E depois me vingarei de seus amigos também! – disse Zulil com a voz cheia de ódio e arrogância. Os zumbis fizeram um grande círculo ao redor dos dois e dos dedos de Zulil saíram raios de luz que atingiram o corpo de Lucano. E o clérigo mais uma vez foi ferido, seu maxilar foi destruído, e seu joelho estava inutilizado. Mas ele não revidou.

_ E então, seu maldito! Não vai fazer nada? Não vai reagir? Diga alguma coisa! – e Lucano permanecia calado. – Ah! Já sei! Você não tem mais poderes! Por isso está tão calado! Aquela vagabunda o abandonou, é? Eu avisei que ela não prestava! Agora você vai sofrer as conseqüências! – E Zulil disparou sua magia novamente, e depois golpeou o joelho de Lucano com seu bastão, arrancando-lhe a rótula e jogando-o no chão. Lucano sentiu vontade de saltar em Zulil e tentar mordê-lo. Mas não conseguia fazer isso, e se entregou. E Zulil continuava a provocar. – Vamos lá! Reaja! Diga alguma coisa, seu clérigo das ratazanas! Já sei o que vou fazer! Vou matá-lo lentamente, tirando-lhe um a um os seus sentidos! E começarei pela visão, arrancando esse olho cheio de fúria! – e com uma adaga Zulil arrancou o olho de Lucano e o clérigo ficou perdido nas trevas. – Ainda não reage? Bem, vou destruir o seu tato! – e Zulil golpeou os braços, as pernas e todo o corpo de Lucano com seu cajado, e a única coisa que o clérigo sentia agora era dor. – Ainda assim não reage? Cadê a sua coragem, seu verme? Não vai reagir? Então lhe privarei do olfato! – e Zulil quebrou o nariz de Lucano com o bastão, e o clérigo quase sufocou com o próprio sangue. E como Lucano permanecia sem reação, embora desejasse matar o inimigo, Zulil continuou com sua tortura. – Bem, já que você não quer falar, não precisará mais da língua! – e com a adaga, Zulil cortou a língua de Lucano, e ele jamais sentiria o gosto de qualquer coisa, e tampouco poderia falar. – Bem, agora vou terminar o serviço! Vou cravar minhas adagas em seus ouvidos, e você não ficará apenas surdo, mas morrerá, e minha vingança estará completa! – e Lucano sentiu que era o fim. E, entregue à mercê de Zulil, ele se conformou com sua sina e seu coração se esvaziou, deixando sair todo o ódio que ele possuía. E então, quando tudo parecia perdido, ele se lembrou das palavras de Laurelin, e lembrou que deveria seguir o desejo de Glórien até o fim, e que deveria continuar a ter fé. Então, juntou o que lhe restava de forças e abriu a boca para pronunciar suas últimas palavras, num tom quase incompreensível, pela dor, pelo estado lastimável de sua boca, e pelo sangue que dela transbordava.

_ Apesar de tudo, você ainda é um elfo! Ainda assim é meu irmão! – disse ele.

Então Lucano sentiu seu corpo ser agarrado pelas mãos de Zulil e suspenso no ar. E sentiu que o mago o segurou como se o abraçasse. E Lucano abriu seus olhos cegos e viu que estava não nos braços de Zulil, mas sim nos braços de Glórien, e a deusa em prantos dizia: “Seja bem vindo de volta, meu filho! O seu verdadeiro teste começa agora!”. E tendo dito essas palavras, a deusa beijou-lhe a testa carinhosamente e desapareceu, envolta numa luz ofuscante. E quando Lucano abriu novamente os olhos, viu que estava de volta ao início da caverna, exatamente no lugar onde ele e as crianças tinham despencado da primeira vez. E todas as crianças estavam ali, reunidas com ele, sãs e salvas. E o corpo de Lucano estava inteiro, sem nenhum arranhão, como se tudo aquilo que acontecera tivesse sido apenas um sonho. E Lucano sentiu sua deusa mais próxima, e sorriu feliz, e abraçou as crianças, e juntos eles se dirigiram para a saída da caverna.