março 03, 2008

Capítulo 305 – Armadilha de Troll

Por mais algumas centenas de metros eles avançaram floresta adentro, seguindo os invisíveis rastros que somente Nailo era capaz de detectar e compreender. Num local onde a vegetação se abria num pequeno vazio oval, ouviram um chamado, uma voz firme que vinha do alto.

_ Ei vocês! Ajudem-me aqui! Depressa! – era uma voz feminina, mas de tom rude que mais exigia do que pedia por auxílio. Todos se voltaram para cima, e puderam ver uma elfa jovem pendurada de cabeça para baixo com uma das pernas presa a uma corda que subia ruma às copas das árvores. – Parem de ficar ai só olhando. Tirem-me logo daqui! – gritou novamente. Seu corpo balançou para um lado, exibindo suas formas. Era um corpo belo, bem esculpido e bem cuidado, metido em uma armadura de escamas metálicas que se moldava com graça a cada curva do corpo. Uma vasta cabeleira cor de mel esvoaçava a cada movimento de sua dona.

_ É a minha irmã. Uma chata. – sussurrou Lucano para seus companheiros.

_ Eu ouvi isso, seu idiota! – berrou a elfa.

Legolas bufou, irritado, e preparou seu arco. Orion se posicionou sob a irmã de Lucano com os braços preparados para pegá-la.

_ Esperem! – gritou Seelan. Gesticulou com os dedos e murmurou palavras arcanas. Seus olhos emitiram um brilho suave, quase imperceptível. – Agora sim, Legolas. Pode cortar a corda.

A flecha zuniu no ar, gotejando flocos de neve e cristais de gelo. A corda se partiu e a jovem caiu, suavemente. Desceu como uma pluma que, solta, flutuasse com graça nas correntes de ar, ziguezagueando de um lado para outro até pousar delicadamente nos fortes braços de Orion. Seelan suspirou alto e sorriu para o guerreiro.

_ Ponha-me no chão, seu abusado! – a jovem saltou dos braços do guerreiro, quase o agredindo. Conferiu uma espada em uma bainha que pendia do cinto e gritou ordens para o grupo. – Vamos logo! Não fiquem parados ai! Temos que encontrar logo os trolls e resgatar as crianças!

_ Já sabemos disso e já estaríamos nos calcanhares deles se não tivéssemos tido que perder tempo para ajudar alguém sem educação e muito mal agradecida. Antes de qualquer coisa, diga-nos o seu nome. – disse Anix, com rispidez.

_ O nome dela é Luise, é minha irmã. – respondeu Lucano.

_ Eu posso falar por mim mesma, sua besta. E até que enfim você retornou para cuidar de sua mulher, seu maricas. Eu sou Luise, como você já sabe. E vocês, seus inúteis, quem são?

_ Inútil não! Olha como fala comigo, tenha mais respeito! Meu nome é Anix e esses são meus amigos, Nailo, Legolas e meu irmão Squall. Aquele é Orion e esse é Seelan, nosso capitão!

_ Grande porcaria! - debochou Luise.

_ Ah é?! Grande porcaria é você que caiu nessa droga de armadilha de troll. Só os idiotas caem nesse tipo de armadilha! – retrucou Anix.

_ Bem...eu...é....ora, vamos parar de perder tempo aqui! Temos crianças a salvar, vamos parar com essa conversa toda e vamos agir! – o rosto da elfa ficou ligeiramente corado, ela gaguejou por um momento, mas logo depois voltou a gritar. Todos sorriram como se tivessem vencido uma batalha.

Luise parecia odiar tudo e todos, ou quase. Apenas seu pai escapava de sua fúria, e de ser retalhado por sua grosseria. Squall tentou acalmá-la, usando Cloud para tentar sensibilizá-la mas, ela se assustou com o pássaro e quase o atacou. Legolas tentou intimidá-la, usando seu falso título de general e a ajuda de Seelan, mas também não teve sucesso. Seelan usou toda sua diplomacia e seu ar de nobreza, adquirido no convívio com Vectorius, mas apenas teve sua masculinidade questionada. Apenas Nailo pareceu ganhar, senão respeito, ao menos a indiferença da jovem. Desistindo de tentar torná-la menos desagradável, ou pelo menos fazê-la retornar para a vila, o grupo seguiu adiante, com uma nova e indesejada integrante.

Pouco mais à frente, Nailo parou para decifrar os rastros deixados pelos trolls. Todos, em especial o senhor Anakin, prestavam atenção ao trabalho do rastreador. Anix, na retaguarda do grupo, afastou-se dos demais enquanto esperava. Enquanto caminhava, pisou em algo, um galho talvez, que estalou e se partiu. E num piscar de olhos, sua perna esquerda foi laçada e seu corpo puxado para o alto. Era outra armadilha, dessa vez era Anix quem estava pendurado de cabeça para baixo.

_ Ajudem-me! – gritou Anix. Squall correu para ajudar o irmão, ficando sob ele com os braços abertos. Legolas cortou a corda com um disparo de seu arco e o mago despencou sobre o irmão. Ambos se levantaram, limpando-se e levemente atordoados. Luise se aproximou lentamente, como uma serpente preparando o bote.

_ Sabe, - disse ela rindo ao mago – até que você fala alguma coisa que preste de vez em quando. Os idiotas sempre caem nessas armadilhas ridículas. Quero só ver qual de vocês será o próximo.

_ Cala essa boca, sua vaca! Ou eu vou explodi-la em pedaços! – disse Anix enfurecido.

_ Quietos! Parem com isso já! – disse Nailo. – Já sei pra que lado os trolls foram. Sigam-me! – A discussão terminou e todos seguiram adiante.

fevereiro 14, 2008

Capítulo 304 – Vinhas assassinas

Pai e filho se abraçaram com emoção, havia vários meses que eles não se viam e não se falavam, desde que Lucano tinha deixado a vila e rumado para Malpetrim. Lucano apresentou Anakin, seu pai, aos companheiros de jornada. Pouco depois chegaram duas elfas, uma metida em um vestido vinho, longo e esvoaçante, adornado com runas prateadas e tinha cabelos negros e olhos verdes e profundos. A outra trajava vestes simples de camponesa, um vestido marrom e branco feito de algodão, seu cabelo era ruivo, amarrado numa longa trança e seus olhos eram verde esmeralda.

_ Mãe! Aíno! – bradou Lucano com emoção. Correu e abraçou a primeira, com a mesma intensidade que tinha abraçado o pai. A segunda ele tomou nos braços, ela já em pranto, e a beijou calorosamente.

_ Amigos! Quero que conheçam minha mãe, Cassandra, e minha esposa, Aíno! – disse Lucano.

Cada um dos heróis cumprimentou a família do amigo com cortesia. Estavam surpresos, especialmente com Aíno, a esposa de Lucano, a qual era de uma beleza inesperada por todos. Pouco conversaram, porém, apesar de haver muito a ser contato, pois tinham urgência em encontrar o paradeiro das crianças e salvá-las, se isso ainda fosse possível. Lucano pediu a Aíno que retornasse para casa e cuidasse de Enola, Darin e Liodriel, que estavam em sua casa, e a todos os outros aldeões foi pedido que retornassem para suas casas e aguardassem em vigilância até que eles retornassem.

As pessoas retornavam para a vila, preocupadas e insatisfeitas, mas sabiam que eram todas pessoas simples, meros agricultores, e que nada poderiam fazer de melhor a não ser confiar nos oficiais do exército de Tollon que ali estavam. Tinham como consolo o fato de que Lucano, um morador do local, estava entre eles, o que lhes dava maior confiança no grupo que assumira a missão de resgatar as crianças. Também tinham fé em Anakin, que os acompanharia e os guiaria na missão.

O pai de Lucano era, sob muitos aspectos, parecido com Nailo. Trajava uma couraça de peles grossas para proteger seu corpo e levava duas espadas presas à cintura por um cinturão de couro. Um pequeno macaco, o qual ele tratava como a um irmão, desceu de uma das árvores e veio pousar em seu ombro, onde permaneceu toda a jornada. Os dois, elfo e macaco, pareciam de fato irmãos, assim como Nailo agia em relação a Relâmpago e antes dele a Smeágol. Anakin guiou o grupo até o local onde as crianças tinham sido capturadas, onde agora só restavam pegadas de trolls e restos de um piquenique destruído.

_ Aqui está o rastro dos trolls – disse Anakin. – Está muito apagado e confuso por causa da chuva desses dias. Será difícil segui-lo assim. Creio que teremos que contar com a sorte.

_ Felizmente não será necessário, senhor! – respondeu Nailo. – Eu consigo ver claramente por onde eles foram. Os rastros seguem para o oeste, depois de uns cinco metros viram ao sul onde o musgo na casca daquela árvore foi removido por uma mão enorme. Há marcas de pés pequenos ali e galhos quebrados na altura de aproximadamente um metro. Uma das crianças deve ter escapado e corrido dos trolls, mas foi perseguida. Eles tentaram capturá-la a todo custo, e suas mãos gigantescas arrancaram vários galhos quando tentavam agarrá-la. Infelizmente conseguiram. Posso ver o final dos rastros da perseguição daqui.

_ Que bom! – sorriu o elfo. – Fico feliz em saber que tenho um rastreador melhor do que eu mesmo ao meu lado nesse momento! Agora, com sua orientação, posso enxergar os rastros também, e sei que sua análise está correta. Há esperanças de salvar as crianças.

_ Mas, senhor! Por que demoraram tanto para tomar providências? – perguntou Anix.

_ Bem, os pais das crianças perceberam sua ausência só há pouco. Um pai acreditava que seu filho estava na casa de outro garoto. E os pais deste achavam que ele estava na casa do primeiro. Assim foi com todas as famílias, até que descobriram que as crianças não estavam em casa alguma e se lembraram dos Trolls. – respondeu Anakin.

_ Bem, eu acho estranho esses trolls atacarem assim, desta forma. Parece que eles atacaram em bando e com um plano preparado em mente. Isso não me cheira bem. – continuou o mago.

_ Bem, eu também acho estranho. Temo que eles possam estar sendo comandados por alguém. Alguém inteligente e cruel, e que ordenou que as crianças fossem capturadas com vida por algum motivo sinistro. É o que parece, já que segundo o senhor Nailo, uma das crianças ainda conseguiu tentar fugir.

_Sim, e não há marcas de sangue também, por um longo trecho pelo menos. E nem cheiro dele, como Relâmpago me disse agora. Talvez as crianças ainda estejam com vida. Vamos nos apressar! – disse Nailo.

O grupo se colocou em fila yudeniana, rigorosamente um atrás do outro com a mesma disciplina que era comum no reino de Yuden, e avançou pela floresta. As árvores de Greenaria tentavam barrar o avanço deles com seus muitos cipós, galhos retorcidos e folhagem vasta. Mas, a habilidade de Nailo, aliada ao conhecimento do local possuído por Anakin, era ainda mais eficiente que as barreiras impostas pela natureza, e ele conseguia conduzir seu grupo de forma veloz pela selva.

A mata se adensava mais à medida que avançavam. Em certos momentos, a luz do sol era apenas uma doce lembrança, impedida de atravessar a folhagem espessa e chegar ao chão. Mesmo sem o sol, o ambiente era abafado e havia muita umidade no ar tornando possível vem em certos momentos uma fina névoa de vapor d’água serpenteando entre a vegetação.

Subitamente, em uma da várias paradas onde Nailo se abaixava para observar os rastros e decidir a direção a tomar, Lucano agiu de forma inesperada.

_ Pare com isso, Legolas!­ – gritou ele, olhando para trás.

_ Parar com o que? Eu não fiz nada! – espantou-se o arqueiro.

_ Você passou a mão em minha bunda, eu senti! Não faça isso de novo! – Lucano se voltou novamente para frente, então, de repente gritou outra vez. – Já mandei você parar!

_ Eu já disse que não estou fazendo nada! – vociferou Legolas.

_ Ai! Passaram a mão em mim também! Quem foi? – dessa vez era Anix, no fim da fila. Todos olharam confusos uns para os outros, tentando entender o que acontecia. Nailo olhou ao redor, Relâmpago farejou o ar e começou a rosnar, mas os dois não tiveram tempo de avisar do perigo. Subitamente, um cipó rastejou pelo chão, enrolou-se na perna de Anix e puxou-o com violência, atirando-o ao chão. Ao mesmo tempo, Vários outros ramos vieram das árvores, agitando-se como serpentes e golpeando os aventureiros como chicotes.

_ Cuidado! – gritou Nailo. – São vinhas assassinas!

Mal o aviso fora dado e as vinhas já tinham conquistado grande vantagem na luta. Squall, Anix, Lucano e Orion foram golpeados com extrema força pelos ramos animados. Seus galhos os atingiram como clavas e rapidamente se enrolaram em seus corpos, imobilizando-os e esmagando-os com força impressionante. Até mesmo Cloud fora capturado no abraço mortal das vinhas e Anix já quase não tinha ar em seus pulmões para se manter consciente.

Legolas sacou a espada e correu até o amigo caído, golpeando com sua lâmina para tentar libertá-lo. Nailo as combatia com suas espadas, impedindo que se aproximassem dele e de Relâmpago, enquanto que Seelan levantou vôo magicamente e subiu até perto das copas das altas árvores, ficando fora do alcance do inimigo. Anakin tentava ajudar seu filho, cortando os ramos com suas espadas.

As plantas eram resistentes além do normal, e atacavam de vários pontos e muitas vezes por segundo. Orion conseguiu se libertar, mas logo depois foi capturado novamente em outro abraço esmagador. Anix sofria e não conseguia sequer respirar. Squall tentava concentrar sua mente, apesar da dor, para evocar seus feitiços e com isso inverter a situação do combate.

A ajuda veio do alto, quando Seelan lançou uma magia atrás de Squall e Anix. Chamas se espalharam pela mata numa onda explosiva e brilhante como o próprio sol. Os ramos se agitavam com espasmos de dor e finalmente afrouxaram o laço ao redor das presas, pendendo inertes no chão.

Anix e Squall revidaram com uma bola de fogo e um círculo de chamas que se expandiu ao redor de Squall pelo chão. Nailo gritava, furioso, ordenando que parassem de ferir as árvores com suas chamas mágicas. Do alto, Seelan pediu desculpas e iniciou a conjuração de um outro feitiço diferente.

Os ramos continuavam atacando e parecia que as chamas tinham tido pouco efeito sobre eles. Relâmpago foi atingido e aprisionado, mas Nailo o libertou com suas espadas. E se as chamas pareciam pouco efetivas, as faíscas elétricas das espadas do ranger eram totalmente inofensivas contra as vinhas.

Orion, já liberto, se juntou a Anakin para ajudar Lucano. Sua espada golpeou uma das vinhas, decepando-a e Nailo viu um tronco fino tombar atrás de uma árvore. Ao guerreiro se juntaram Legolas e Anix, o último sendo atacado de surpresa enquanto se movia na direção do amigo amarrado. Nailo veio em seguida, após livrar o lobo do perigo, e com golpes precisos e potentes, libertou o amigo. O último ramo parou finalmente de se mexer e o perigo terminara ao menos por enquanto. Então do alto desceu uma criatura de do tamanho de um humano, mas cujo corpo era formado apenas por chamas. Era um elemental do fogo.

_ Ataque as vinhas assassinas! – gritou Seelan.

_ Não há nada aqui para ser atacado – respondeu a criatura do fogo no mesmo idioma do mago que o evocara.

_ Sério? – o mago parecia surpreso. – Então deixa pra lá! Pode retornar, e obrigado assim mesmo!

O elemental curvou seu corpo como que em reverência e desapareceu através de um portal. Seelan retornou ao chão e encontrou a batalha já vencida. Nailo estava no local atingido pelas chamas do capitão e de Anix. Parecia conversar com as plantas.

_ Uma magia de crescimento seria de boa ajuda agora para curá-las! – sugeriu Anakin.

_ Sério?! Então deixe comigo! Obrigado por dizer isso. – respondeu Nailo. E, usando o poder concedido por Allihanna, Nailo fez com que as plantas crescessem em velocidade espantosa. A magia da natureza as envolvia e curava, fechando feridas e cicatrizando queimaduras à medida que elas aumentavam de tamanho. – Vamos em frente! – continuou Nailo. – Estamos no caminho certo. As árvores me disseram que os trolls passaram por aqui com as crianças. E elas estavam vivas!

Todos se alegraram com a notícia. Lucano curou seus corpos feridos com o poder de Glórienn e eles seguiram adiante.

fevereiro 12, 2008

Capítulo 303 – Vila atacada

_ Bem, Lucano. Já chegamos, mas nem sinal de sua vila. Onde ela está? – perguntou Seelan.

_ Espero que não longe daqui. É uma vila pequena, não mais que umas cem casas. Tem um rio que corre no lado leste da cidade. –respondeu o clérigo.

Squall não perdeu tempo e pegou em sua mochila um pergaminho mágico. Subiu aos céus, seguido de Anix e Legolas, montados na vassoura voadora. Do alto, puderam ver o que a Greenaria não permitia do solo. Lá estava o vilarejo de Blastoise, um povoado agrícola cravado no meio da floresta. A oeste e ao sul, a cidade era cercada por mata fechada de árvores centenárias. A norte uma fenda profunda na terra separava o vilarejo da selva e a leste um rio largo de águas turbulentas que vinham de uma cascata próxima à vila, corria rápido em direção ao sul.

_ Estou vendo a vila! –gritou Squall. – Está a norte daqui, uns quinhentos metros aproximadamente.

_ Bem, Nailo, agora é com você. Guie-nos até lá. – pediu Seelan.

Com a ajuda de Relâmpago, Nailo conduziu o grupo por entre a selva abafada e úmida, sempre escolhendo os caminhos menos difíceis. Legolas puxava Rassufel, que carregava Liodriel em sua sela. Anix e Enola iam à frente, voando na vassoura mágica, acompanhados de Squall. Os demais caminhavam com pouca dificuldade graças à habilidade de Nailo em guiá-los. Em poucos minutos já era possível ouvir o som do rio rugindo à direita do grupo. Seguiram o som e chegaram a uma trilha larga que separava a mata de um penhasco em cujo fundo corria o rio.

_ É aqui mesmo! – exclamou Lucano. – Essa e a estrada de entrada para a vila.

O grupo pode andar com maior velocidade, Legolas montou em seu cavalo e seguiu na frente, Anix e Squall já voavam por sobre a vila.

_ Lucano! Costuma haver trolls ou ogros aqui em sua vila? Vocês têm algum tipo de relação com esse tipo de criaturas? – perguntou Nailo.

_ Claro que não! Você sabe melhor que eu que esses monstros são selvagens e que não se pode dialogar com eles. E felizmente, graças à vigilância dos rangers e druidas daqui, essas criaturas raramente se aproximam da vila.

_ É, era o que eu imaginava e temia. Eu encontrei algumas marcas na floresta, pegadas enormes e galhos quebrados. Um bando de trolls ou ogros passou por aqui uns dois dias atrás. As marcas estão meio apagadas porque andou chovendo nesse tempo, mas tenho certeza de que eles foram em direção da vila.

_ Não! Minha mulher! – Lucano saiu correndo tomado pelo desespero. Em pouco tempo quase alcançou o cavalo de Legolas. Na entrada da vila notaram sinais de destruição, casas e carroças quebradas, sinais de luta em vários pontos.

Tudo estava deserto no lugar. Não havia pessoas em lugar algum e algumas casas estavam com suas portas abertas, como se tivessem sido abandonadas às pressas. Legolas preparou sua espada e entrou na vila, seguido por Lucano e pelos outros que vinham mais atrás, em busca de alguém vivo. No alto, Anix e Squall circulavam o local, também em busca de moradores.

Encontraram algumas ruas ao norte um homem que corria de casa em casa, fechando portas e janelas que estivessem abertas. O suor corria-lhe pelo rosto em abundância e sua expressão era de cansaço.

_ Ei, homem! – gritou Legolas. – O que está acontecendo aqui? Onde estão as pessoas da vila?

_ Que...quem é você? – gaguejou o aldeão.

_ Sou o general Legolas! Diga-me o que está acontecendo aqui, e se precisam de ajuda!

_ Você é do exército? Pelos deuses, veio em boa hora! Trolls atacaram a vila, e levaram algumas crianças com eles. Todos foram persegui-los na mata. Eu fiquei aqui com alguns outros para tomar conta do vilarejo.

_ Trolls? Pra que lado eles foram? – gritou Legolas. Lucano e os outros tinham acabado de chegar nesse momento.

_ Foram para o oeste, general. Por favor, nos ajude senhor. – respondeu o homem.

_ Liodriel, fique aqui. É mais seguro.

_ Venha até minha casa, você estará em segurança lá. Darin e Enola também poderão nos esperar em segurança lá. – disse Lucano. Levou as mulheres para um sobrado não distante dali. Silfo ficou para protegê-las.

_ Você, rapaz. Vigie tudo aqui e se vir algo estranho nos avise. – ordenou Legolas.

_ Certo general!

_ Soldados, venham comigo!

Todos correram, junto com Legolas para a direção oeste, Legolas e Lucano explicavam o pouco que sabiam da situação.

_ E, que história é essa de general, senhor Legolas? – indagou Seelan.

_ Por favor Seelan, me ajude. Só dessa vez. É só uma mentirinha à toa, não vai causar mal algum.

_ Não estou gostando muito dessa história não. Mas, está bem. Vou deixar você brincar de general por hoje. Mas, você vai ficar me devendo um favor por isso. – respondeu o capitão, lançando um olhar cheio de malícia para Legolas. Depois, se dirigiu aos outros e começou a gritar. – Muito bem soldados! Acelerem o passo e obedeçam ao general Legolas! Um, dois, um dois!

Mesmo sem compreender ou concordar, todos correram mais rápido. Em pouco tempo estavam novamente dentro da floresta Greenaria, seguindo as dezenas de pegadas deixadas pelos aldeões. Nailo os guiou novamente e logo encontraram os moradores, todos armados de pás, enxadas e tochas, espalhados em vários pontos da mata em busca dos trolls inimigos.

_ Atenção todos vocês! Eu sou o general Legolas e estou aqui para ajudá-los. Reúnam-se todos aqui para me explicarem com detalhes o que está acontecendo. – gritou o arqueiro. Todos os seus companheiros, com exceção de Seelan fizeram caretas de espanto e descontentamento.

Os moradores aos poucos se aglomeraram ao redor do grupo. Todos eram pessoas simples que tiravam da terra o seu sustento, mas um deles, um homem obeso e calvo, de bigode castanho bem talhado na forma de um pequeno quadrado sob o nariz, aparentava ter mais astúcia que os demais e ser algum tipo de líder.

_ General?! – espantou-se o homem. – Você é mesmo do exército? Não tem nem uniforme ou estandarte!

_ Sou general sim, do exército de Tollon, homem! Agora deixe de enrolação.

_ Exército de Tollon?! Mas você está mesmo longe de casa! Não consigo entender como alguém do exército de Tollon veio para aqui tão longe. Aliás, nem sabia que Tollon tinha exército.

_ Tem sim, homem! E é um dos mais poderosos, Yuden já provou a força de nosso exército. Agora deixe de conversa mole e me conte logo o que está acontecendo aqui.

_ Sim, isso mesmo! Pare de enrolar e explique melhor a situação. Nós estamos aqui pra ajudar, portanto coopere com o general! – era Seelan. Os demais heróis começaram a cochichar entre si.

_ Seelan. Que negócio é esse de general? O Legolas não pode ficar falando desse jeito. – interveio Anix.

_ Cale-se soldado! – gritou Seelan. – Isso não é jeito de falar como general. Pague trinta flexões de braço!

_ Não vou fazer isso não. Ele... – Anix começou, mas foi logo interrompido.

_ Cale-se! Vai fazer sim, soldado. E eu, como seu superior, estou lhe ordenando, portanto, você vai obedecer! – Seelan encarou Anix com firmeza e depois sorriu de forma provocativa. Sabendo que não poderia vencer aquela discussão, Anix começou a contar suas flexões.

Os aldeões começaram a contar o que tinham acontecido. Dois dias antes, um grupo de Trolls tinha atacado a vila pelo sul, depredando e destruindo hortas e casas. Reunidos, os moradores conseguiram expulsar todos eles. Entretanto, um grupo de crianças tinha saído para fazer um piquenique no bosque naquele mesmo dia e não haviam retornado ainda. Os moradores lembraram então do ataque dos trolls e relacionaram as duas coisas, supondo que as crianças estavam agora em sério perigo. Assim, todos procuravam na mata.

Um dos moradores, um caçador, tinha seguido o rastro das crianças e encontrado o local do piquenique. Todas as cestas de comida e brinquedos haviam sido esmagados por pegadas enormes, pegadas dos trolls, que seguiam para a floresta em um rastro difuso e difícil de identificar devido a uma chuva caída no dia do ataque à vila.

O caçador tentava agora rastrear a trilha apagada pela chuva, com muita dificuldade. Ele foi chamado e junto com alguns outros acompanhantes, se reuniu ao restante dos aldeões.

_ Lucano? – disse ele, espantado, ao chegar.

_ Pai!!! – respondeu o clérigo, emocionado.

fevereiro 11, 2008

Capítulo 302 – Celeiro de Arton

_ Senhor Ragnarok, senhora Valkyria, foi um prazer conhecê-los! Você também, Rael. Até algum dia amigos! – Seelan e os demais se despediram dos pais e do amigo de Anix e Squall. O capitão entregou-lhes um pergaminho mágico para que pudessem se teletransportar de volta para casa.

_ Bem, agora vamos para a Sambúrdia, conhecer a casa de Lucano – anunciou o mago.

_ Seelan! Deixa eu ajudar no teletransporte. Prometo que irei me comportar, me dá uma segunda chance, vai! – pediu Squall.

_ Tudo bem, você e o Anix terão que ajudar dessa vez. Mas nem tentem aprontar outra gracinha, pois desta vez os pergaminhos tem apenas uma magia. Se fizer outra das suas, Squall, não terá como voltar! – Seelan entregou um pergaminho a Squall e outro a Anix, olhando-os com frieza.

_ É, eles ganham uma segunda chance. Eu fiz uma coisinha de nada e até agora não tive chance alguma, continuo como cabo! – protestou Nailo. Seelan ignorou-o.

_ Pensando bem, - comentou Seelan – tenho uma idéia melhor. Devolvam-me esses pergaminhos já. Isso vai me custar muito dinheiro, mas vai nos poupar problemas. Não sabemos onde fica a casa de Lucano e além disso eu sinto que devo guardar esses pergaminhos para mais tarde. – O mago recolheu os papiros mágicos e os enrolou novamente. Dobrou a ponta de cada um deles, como se os marcasse, e os guardou. Pegou outro pergaminho e começou a lê-lo em voz alta.

Diante de todos um enorme portal mágico se formou. Além dele era possível ver uma vasta e antiga floresta, tomada por árvores gigantescas.

_ Entrem! – disse Seelan, concentrado. Os heróis começaram a atravessar o portal ainda receosos.

_ Ah! Squall! Quando você voltar para casa, nós iremos ter uma boa conversa! – exclamou Ragnarok, ainda com a imagem da noite anterior em sua mente. Sua esposa baixou a cabeça com pesar.

_ Não consigo ouvir, pai! Depois a gente conversa! – Squall saltou rapidamente através do portal, fingindo não ouvir as palavras do pai. Os dois últimos a atravessarem foram Orion e Seelan, quando a passagem já começava a se fechar.

_ Vamos Orion, rápido, vai fechar! – gritou Seelan, batendo a palma da mão nas nádegas de Orion, e saltando através da passagem mágica. Irritado e envergonhado, o guerreiro finalmente atingiu o outro lado e o portal se fechou. Restavam apenas Vectora e a multidão.

_ Bem, eles partiram novamente – suspirou Valkyria.

_ Pois é. Nossos filhos cresceram­ – concordou Ragnarok.

_ Mas eles ainda têm muito a crescer para enfrentarem os desafios que estão por vir. – a voz de Rael soou de forma estranha, grave e alta, e parecia emitir um tipo de eco, como se não saísse de sua boca, mas de algum lugar distante.

_ O que você disse, Rael?

_ Hã?! Eu?! Eu não falei nada senhor Ragnarok – a voz do clérigo voltara ao normal.

_ Bom, deixa pra lá! Vamos voltar para casa. Precisamos ter uma conversa com a Deedlit, e prepará-la para o pior, pois nosso Squall já não é mais o mesmo de antes. Aquele jovem apaixonado (e fiel) parece não existir mais. Acho que ela terá que encontrar outro namorado. – lamentou o mago. Os olhos de Rael brilharam.

_ Ela encontrará alguém que cuide dela, tenho certeza. Deedlit merece isso. – disse o clérigo.

_ Sim, no final essas coisas sempre se resolvem. Venham, meus queridos, vamos aproveitar um pouco mais o esplendor dessa cidade antes de voltarmos pra casa.­ – E dizendo isso, lady Valkyria envolveu os dois num abraço materno e todos juntos retornaram para as ruas tumultuadas de Vectora.

· · · · · ·

_ Onde estamos?

_ Em Sambúrdia, oras! Essa é a floresta Greenaria. Sam já nos falou dela várias vezes. Ele é desse reino, não se lembram? – respondeu Nailo a Anix. Parecia conhecer bem o local, apesar de nunca ter colocado os pés naquela mata.

_ Sim, isso mesmo, Nailo. Estamos na Sambúrdia, o Celeiro de Arton. Um reino rico e próspero, cheio de fazendas e densas florestas por todos os lados. – respondeu Seelan.

De fato aquele reino era exatamente o que o mago dissera, o Celeiro de Arton. No passado, quase todo o território da Sambúrdia era tomado por uma profunda e exuberante floresta, nascida muitas eras antes. De terra extremamente fértil o local se tornou morada de agricultores que prosperaram formando uma das nações mais ricas do Reinado. Passados muitos anos após a colonização, as florestas passaram a dividir espaço com plantações e criação de animais, atividades devidamente reguladas por druidas e rangers de Allihanna, garantindo assim o equilíbrio entre a natureza e as comunidades do reino.

_ Ah! Ali está! Olhem para a direita! – disse Seelan. Todos olharam e com espanto viram um enorme buraco, uma cratera gigantesca de mais de mil metros de diâmetro e de profundidade desconhecida. – Olhem esse buraco – continuou ele. – Não é magnífico? Sabem o que ele é?

_ Eu acho que sei, Seelan. Esse é o buraco de onde saiu Vectora, não é mesmo?

_ Sim, Nailo. Exatamente. Muitos anos atrás, Vectorius fez uma montanha inteira levitar, arrancando-a do chão. Depois ele a virou de cabeça pra baixo, cortou e aplainou sua base e sobre ela construiu sua cidade voadora. Apenas esse buraco restou aqui, como uma lembrança, uma marca de que por aqui passou Vectorius.

_ Nossa, ele é realmente poderoso! – era Anix, admirado.

_ Sim, muito. Mas poder não é tudo nesse mundo. Sabedoria também é importante, especialmente quando se usa grandes poderes. Observem aquele esquilo ali. – Seelan apontou para o pequeno mamífero que espreitava ao redor da cratera e arremessou uma pedra em sua direção. O animal correu e saltou para o buraco, flutuando em seguida em direção às árvores que circundavam o buraco a vários metros de distância. O animal voara como que por mágica.

_ Viram o esquilo voando? Isso foi uma conseqüência das poderosas magias que foram usadas nesse lugar. E é pelo mesmo motivo que ao redor do buraco existe uma larga faixa sem árvores ou qualquer tipo de planta. Lembrem-se, quando forem usar magias poderosas, tomem muito cuidado com suas conseqüências. – Seelan discursava como um professor ou um pai dedicado. Depois de adverti-los, voltou-se para Lucano. – Bem, Lucano. Agora que temos um ponto de referência dentro de Sambúrdia, diga-nos em qual direção e a qual distância está sua casa.

_ Bem, meu vilarejo fica a uns quinhentos quilômetros daqui, na direção noroeste, quase na fronteira com Trebuck e Pondsmânia. – respondeu o clérigo.

_ Está certo! Vamos embora, então. – e Seelan abriu um novo portal mágico para que todos passassem. Anix jogava pequenas pedras dentro do fosso de Vectora, na esperança de vê-las voando como o esquilo, mas nada acontecia. Todos atravessaram o portal, cruzando em uma fração de segundo quase a metade do reino. A milhas dali, após cruzar a abertura mágica no tecido do tempo e do espaço, o grupo de heróis ressurgiu, novamente em meio às árvores ancestrais da floresta Greenaria.

janeiro 24, 2008

Capítulo 301 – Jantar com o arquimago

Capítulo 301 Jantar com o arquimago

_ Soldado! Avise o mestre Vectorius que Seelan e seus amigos estão aqui para visitá-lo! – pediu o capitão. Um dos homens que vigiavam a entrada do palácio pediu licença e entrou na construção, voltando minutos depois.

_ Por favor, senhores. O mestre Vectorius irá recebê-los, me acompanhem.

O soldado os guiou pelo interior do castelo, uma magnífica obra de engenharia, e de feitiçaria. Paredes de mármore polido refletiam as imagens dos convidados como se fossem espelhos. Da mesma forma, o chão era igualmente belo e limpo, sendo possível encontrar um único grão de poeira, se ele existisse, no piso do castelo. Caminhavam deslumbrados por um corredor de proporções assustadoras, eram mais de 6 metros de uma parede à outra e o teto alcançava fácil os oito metros de altura. Pinturas, afrescos, esculturas e outras obras de arte magníficas decoravam os corredores gigantescos.

Chegaram a um salão ainda mais majestoso. Ultrapassava os trinta metros de largura e comprimento, e devia ter uns vinte metros de altura. No alto, suspenso por magia, havia um enorme lustre, do tamanho de uma sala, que iluminava o ambiente com luzes mágicas de cor suave. Ao fundo, havia uma escadaria de incontáveis degraus largos, que subia em forma de caracol até algum andar acima. Seus degraus não eram presos a paredes ou pilares, flutuavam magicamente a uma distância fixa uns dos outros, deixando mais do que claro que o senhor daquele palácio era de fato um dos maiores magos do mundo.

O soldado fez uma mesura e se despediu, pedindo que seguissem para a escada. Seelan avançou pelo salão, logo seguido pelos demais, e começou a subir a longa escadaria. Logo nos primeiros degraus da subida, uma voz firme e ao mesmo tempo serena preencheu o lugar todo.

_ Há quanto tempo não o vejo. Seja bem vindo, Seelan, meu antigo discípulo. – no alto da escada, um homem de aparência imponente, metido em robes luxuosos, observava os visitantes. Era Vectorius.

O arquimago recebeu o grupo com cordialidade e frieza. Cumprimentou um por um com gentileza e educação, mas sem um sorriso sequer. Vectorius tinha um semblante sério, seu olhar era penetrante e ele falava com a firmeza de um general que se dirigia às suas tropas, sem, entretanto, se exaltar ou elevar o tom da voz. Era todo disciplina, em seus cabelos perfeitamente alinhados, robes cuidadosamente colocados sobre seu corpo combinando cores e cortes, em sua voz sempre no mesmo tom de ausência de sentimentos, e em sua fala mansa e meticulosa de palavras calculadas uma a uma.

Um bater de palmas de Vectorius fez surgir um servo que sob suas ordens levou relâmpago para ser alimentado e tratado. Nailo não ficou satisfeito em ter de se separar de seu amigo, mas consentiu, ainda que a contra gosto. Então, guiados pelo admirável anfitrião, os heróis subiram o restante da escadaria mágica e chegaram à sala de jantar.

Aliás, sala de jantar era apenas um nome formal para aquele pedaço do castelo. A tal “sala” devia ser tão grande quanto a recém construída casa de Legolas. Nela não havia outros móveis além de uma mesa tão comprida quando uma dezena de cavalos em fila e tão larga quanto uma cama de casal. Era coberta por toalhas bordadas com maravilhosos fios de ouro que se trançavam para formar formas geométricas e desenhos de flores e animais. Sobre ela estava a comida, apenas os petiscos segundo Seelan. Eram dezenas de pratos contendo todo tipo de guloseima jamais sonhado pelos aventureiros. Canapés, torradas, biscoitos e todo tipo de iguaria, suficiente para alimentar um pequeno batalhão, havia ali. Enquanto degustava, Seelan conversava com seu antigo mestre animadamente. Seus amigos se esbaldavam.

_ Nossa, é caviar de Esturjão do Rio dos Deuses? Maravilhoso! Há tempos não comia isso. E então, como estão as coisas, Vec!­ – disse Seelan com entusiasmo. Vectorius pareceu erguer uma sobrancelha em desaprovação.

_ Vec?! Tenha mais respeito, afinal, fui seu mestre. Bem, as coisas vão bem. Os negócios prosperam e a cidade passa por cada vez mais lugares. Já são vários os mundos além de Arton que nós visitamos. E você Seelan? O que tem feito? – respondeu Vectorius sem alterar o tom da voz.

_ Bem, muitas coisas. Até entrei para o exército, em Tollon. Esses rapazes são todos meus subordinados. – continuou Seelan.

A conversa prosseguiu com mestre e aprendiz narrando os feitos do tempo em que estiveram separados. Vectorius falava pouco, apenas perguntava vez ou outra alguma coisa a Seelan, e observava com certo desagrado os modos ingênuos e atrapalhados dos demais. Squall e Silfo eram os que davam maior trabalho, constrangendo todo o grupo por estarem totalmente desacostumados àquele requinte. Todos os outros tinham maior astúcia e sempre observavam Seelan antes de pegar um talher, cortar um petisco ou levar algo à boca, repetindo os gestos do capitão.

Mais um bater de palmas do arquimago fez com que várias servas entrassem no gigantesco salão trazendo bebidas. Eram jarros de vinho tinto e branco e de cerveja clara e escura, oferecendo opções para todos os gostos, ou quase.

_ Não tem rum? – perguntou Legolas ao ser servido por uma das mulheres, todas jovens e de bela aparência.

_ Samantha! Traga rum para o cavalheiro! - disse Vectorius para a moça. - Alguém mais gostaria de algo exótico? - depois se dirigindo aos convidados. Darin ergueu uma mão, insegura.

_ Eu, senhor Vectorius. Onde fica a latrina? – perguntou a elfa.

_ Stephens, por favor, conduza a senhorita até o toalete! – ordenou o arquimago. Alguém que o conhecesse muito teria dito que ele esboçou um sorriso.

Nailo e Darin se retiraram, seguindo o servo até o banheiro. Legolas fez outro pedido.

_ Vectorius. Eu sei que você é um homem rico e cheio de poderes, portanto deve ter alguns outros vinhos diferentes em seu castelo. Será que eu poderia prová-los? – perguntou o arqueiro. Seelan prendeu a respiração.

_ Claro. Endora, Samantha, providenciem uma degustação de vinhos. – Vectorius parecia irritado, mas atendeu ao pedido do elfo.

Os servos se retiraram, levaram também Cloud e Heart para serem tratados junto com Relâmpago. Logo em seguida, retornaram trazendo diversos jarros com variados tipos de vinho para serem degustados.

Enquanto isso, no banheiro, Nailo se espantava com as maravilhas tecnológicas e mágicas que existiam naquele castelo. Com muito custo, descobriu que devia urinar na enorme peça de porcelana onde, oculta por uma tampa de madeira nobre, havia uma poça d’água. Surpreendeu-se ao descobrir que com o fechar da tampa a água suja era trocada por água limpa através de diversos furos pequenos que se ocultavam nas reentrâncias da peça. Não entendeu, no entanto, para que servia a outra bacia de cerâmica de onde esguichava um jato de água após se girar uma peça circular de metal. Intrigado com tudo aquilo, deixou o local, passando a vez para sua noiva.

Darin entrou finalmente no banheiro, maravilhada com todo o luxo e requinte e quase explodindo por ter tido que esperar pela saída no noivo. Nailo a aguardava do lado de fora, encostado na porta, quando ouviu um rugido fraco lá dentro. O rugido foi seguido por um grito da mulher.

Sem hesitar, ele arrombou a porta com um chute e invadiu o banheiro, encontrou Darin, em pé, diante da bacia de urinar. Estava sorrindo.

_ Amor, você viu isso? É lindo, eu quero um desses na nossa casa... – Darin matraqueava sem parar enquanto Nailo já imaginava seus preciosos tibares voando pela janela. Ela ainda o ensinou o funcionamento da outra bacia com o esguicho de água e de uma outra enorme onde cabia uma pessoa inteira. Tudo parecia muito natural para ela.

Na saída, encontraram o servo que os conduzira até ali. O homem examinava, intrigado, a tranca destruída da porta. Nailo tranqüilizou-o, dizendo que estava tudo bem com eles. Pelo homem Darin descobriu os nomes dos objetos que desejava comprar, o vaso sanitário e o bidê. Retornou apressada para a sala de jantar, arrastando o noivo pelo braço, repleta de ansiedade e desejo de contar às amigas o que descobrira. E naquela noite não voltaram a ver o homem que os levara ao toalete.

Todos reunidos novamente, o jantar foi finalmente servido. Diversos pratos com iguarias nunca imaginadas pelos heróis, junto com montes de talheres e pratos e copos diferentes. Servos trouxeram bacias de metal cheias d’água e as ofereceram aos convidados. Legolas encheu um copo, agradecendo ao homem, enquanto Silfo entornava toda a água de sua bacia sem cerimônia, aplacando sua sede. Seelan lavava as mãos na água com a face tomada de rubor pelo vexame causado por seus amigos. Tardiamente, todos os outros, à exceção de Silfo, imitaram o gesto do mago.

Durante o jantar conversavam. Nailo começou a contar ao arquimago as aventuras de seu grupo e foi logo ajudado por todos. Vectorius mostrou grande interesse na história, especialmente no colosso de pedra construído por Teztal e no encontro que tiveram com o lendário Tarrasque. Squall, tentando se exibir e mostrar superioridade (já revelando traços da personalidade dracônica que invadia sua existência élfica), fez um desenho do monstro e exibiu-o com orgulho dizendo que nem Vectorius seria capaz de derrotar aquele monstro. O mago reconheceu o poder colossal da criatura, mas em momento algum concordou com a opinião do feiticeiro.

A narrativa continuou, contaram do encontro com Sam, da chegada a Darkwood e do rapto de Liodriel. Squall usou magia para fazer chegar até si uma garrafa de vinho, encheu sua taça, trocou a cor da bebida e ergueu novamente a garrafa com mágica, oferecendo-a de modo desafiador a Vectorius. O anfitrião agradeceu dizendo que ele mesmo se serviria, estalou os dedos e o líquido desapareceu de dentro da garrafa e surgiu na sua taça. No relato, os heróis já entravam em Khundrukar e já testemunhavam com pesar a morte de Loand. A saga nos salões do esplendor foi narrada até o fim, os servos já recolhiam os pratos dos convidados satisfeitos quando Legolas e Liodriel finalmente se beijavam nas profundezas da mina de Durgedin.

_ Já ouvi essa estória – comentou um dos serventes. – É a balada da Forja da Fúria. Muito bonita.

O homem ia saindo após recolher pratos e talheres quando foi detido quase com violência.

_ Volte aqui! O que você disse? – era Anix.

_ Disse que já ouviu essa canção, senhor. É a Balada da Forja da Fúria e eu gosto muito dela.

_ E onde você ouviu essa balada? Quem te contou? Em que lugar? Como era essa pessoa? – as perguntas choviam sobre o homem, feito setas.

_ Bem, em uma taverna aqui na cidade, na Ogro Selvagem, foi um bardo que costuma tocar lá quem cantou a balada numa noite em que eu estava de folga. – gaguejou o rapaz. Havia medo e espanto em seu rosto.

_ E qual era o nome desse bardo? Por acaso não era um bardo com alaúde e chapéu de três pontas? – era Nailo.

_ Não, ele não usava chapéu. E seu nome era, se bem me lembro, James Sulivan.

_ Pode nos levar até lá? – desta vez era Legolas.

_ Sim, eu os levarei senhores. Se desejarem hoje mesmo, após o jantar.

Estava decidido. Após o jantar todos iriam à tal taverna conversar com o bardo e, quem sabe, encontrar uma pista do amigo Sam, talvez até ele mesmo em pessoa.

Após a refeição, Vectorius levou todos para conhecerem o palácio. Andaram por incontáveis corredores e salas, a própria morada do arquimago era quase uma cidade. Terminaram o passeio no topo de uma das torres que se elevavam sobre a cidade. Da sacada podiam vislumbrar todo o comércio pulsante da metrópole voadora, o horizonte se descortinava, cidades podiam ser vistas ao longe, brilhando na noite como chamas de velas distantes. O mar era algo próximo, suas águas escuras banhando a costa artoniana eram um espetáculo ainda mais belo visto do alto. A história dos aventureiros terminou de ser contada por Nailo. Uma breve pausa. Depois, o arquimago falou sobre sua cidade de forma orgulhosa, apontando seus bairros, contanto suas histórias, suas peculiaridades.

Todos se distraíam olhando a cidade, a paisagem. Squall aproveitou e se afastou do grupo. Em segredo e em silêncio, retirou de sua roupa um dos pergaminhos mágicos que ele havia pegado na bolsa de Deedlit e que nunca havia devolvido. Era um pergaminho de vôo. Furtivo, conjurou a magia sobre si, escondeu o papel já vazio e foi sentar-se no parapeito da torre.

_ Squall, desça daí, você pode cair! – advertiu Anix, preocupado e envergonhado com os modos do irmão.

_ Não se preocupe, não tem perigo! – respondeu Squall com arrogância. Fingiu perder o equilíbrio e atirou-se para fora da torre, fingindo desespero.

_ Squall!!! – Anix gritou, assustado, e pulou atrás do irmão.

Seelan se esticou até o parapeito, onde evocou um encantamento sobre os dois que despencavam. Squall e Anix começaram a cair lentamente, como plumas soltas ao vento. Seelan soltou um lamento de desgosto. Vectorius apenas observava.

Súbito, Squall agarrou o irmão e alçou vôo, rindo de todos. Deixou Anix em segurança na sacada e retomou seu passeio aéreo, se exibindo com rodopios e zombaria.

Squall voava. Seelan olhava cheio de frustração enquanto Anix estava irritado. Nailo e os demais olhavam com desprezo e Legolas encostou-se em um canto, farto daquela futilidade. Vectorius tinha o olhar distante, mirado no céu de sua cidade.

_ Elfo do céu! – exclamou o arquimago como se um pensamento lhe escapasse pelos lábios.

Todos olharam para o alto, e viram um elfo alado que voejava com suas asas emplumadas sobre o céu de Vectora. Squall foi até ele.

_ Ah não, lá vai meu irmão aprontar outra das suas! – suspirou Anix.

Todos ficaram observando do chão da torre. Squall e o outro elfo eram meros pontos distantes no firmamento. Viram o pontinho que era Squall se aproximar do outro que tinha asas. Os dois pararam próximos, como se conversassem, então o pontinho alado avançou sobre o que era Squall e o agarrou. Pareciam estar se beijando. E estavam.

_ Olhem lá! Squall está beijando o elfo do céu! Mas é uma fêmea mesmo! – exclamou Nailo. Os pais do feiticeiro quase entraram em choque, Lady Valkyria entrou em desespero e abraçou seu marido engolindo o pranto. E todos assistiram, horrorizados, Squall se agarrando e beijando um elfo do céu. Viram quando o elfo o levou para um amontoado de árvores nas montanhas atrás do castelo, de mãos dadas, e desapareceu com ele entre a folhagem. Todos viram Squall traindo a elfa que ele amava com sordidez e pederastia. Somente os olhos apurados de Nailo viram que não era um elfo, mas sim uma elfa do céu. Nailo guardou aquela informação em segredo e se juntou aos outros. Todos retornaram para dentro do castelo e encerraram a noite de gala no castelo de Vectorius.

· · · · · ·

No céu.

_ Olá bonitão! Quem é você? – perguntou a elfa. Suas asas batiam devagar e ela pairava diante do recém chegado, olhando-o com curiosidade e entusiasmo. Seus olhos brilhavam e seu sorriso era largo e parecia brilhar também.

_ Olá! Sou Squall! – sorrindo e se exibindo.

_ Muito prazer! – mal falou e avançou sobre o outro. Beijou-lhe a boca como se quisesse sugar-lhe a alma. Squall ficou atordoado e completamente entregue. – Não quer passar a noite comigo bonitão?

_ Claro! – Squall quase não tinha fôlego.

_ Venha! – a elfa alada puxou-o pela mão e o levou para trás do castelo, sobre as montanhas, onde árvores teimavam em se crescer. Lá, os dois ficaram nus e se entregaram à luxúria e ao prazer. Quando acordou pela manhã, Squall não viu sinal da elfa. Nem de sua roupa de baixo. Não sabia quem era ela, nem ao menos seu nome, e ela o tinha abandonado sem nem deixar um bilhete ou dizer adeus. E ainda levara suas cuecas.

· · · · · ·

Nas ruas, ainda na noite, o grupo era guiado pelo criado de Vectorius. A cidade fervilhava como se o dia não tivesse fim, como uma festa que não se acabava. Foram levados a uma loja onde Nailo comprou o tal vaso sanitário e o tal bidê para Darin. Pressentindo encrencas, Legolas levou Liodriel discretamente para bem longe da loja enquanto o amigo gastava seus preciosos tibares.

Depois foram até a taverna, o criado arranjou-lhes uma mesa num canto distante da multidão, onde poderiam ter privacidade. Depois de alguns momentos de busca e perguntas, encontrou o tal bardo e o levou até a mesa dos aventureiros. O criado se despediu e partiu. Restava apenas o bardo.

_ Cante! – pediu um dos heróis, empurrando algumas moedas douradas para o menestrel.

_ Claro que sim amigos! – entusiasmou-se o bardo – O que gostariam de ouvir? Uma balada de amor? Uma canção de guerra? Uma cantiga de escárnio?

_ Queremos ouvir a Balada da Forja da Fúria. Do início ao fim. Não esqueça nenhum detalhe.

E o bardo cantou. Em versos rimados, acompanhados do som doce de uma lira, toda a história dos heróis sob a montanha do dente de pedra foi contada. O sonho premonitório, a chegada a Darkwood, o enterro de Smeágol, a fuga, a partida. A jornada pelas matas de Tollon, o encontro com a montanha, a batalha em seu portão vigiado por orcs. A luta pelo primeiro nível da mina, as várias batalhas contra os orcs, a morte de Loand, a chacina de Legolas, o resgate de Seelan. A descida para a escuridão, guiada pelas visões, o ataque dos stirges, o inferno nauseabundo nas mãos dos trogloditas, a morte de Sam e de Nailo. A amargura, a vingança, a ajuda de Nevan e a conquista do segundo nível. A alegria de encontrar os amigos vivos. O terror no terceiro nível, mortos, aparições, monstros gosmentos. Sam feito refém. A procura pelo tributo para libertar o amigo, o encontro com a anã morta, a libertação do bardo. O quarto nível, a luta contra estátuas, os anões gigantes, os mortos-vivos. Idalla. A passagem secreta, a escadaria para as trevas, o rio e o lago sob a montanha. O Ninho de luxúria. Escamas da Noite. E Draco. A batalha com a dragonesa, a revelação sobre Squall. A luta contra o elfo traidor, a súplica de Liodriel. A derrota de Draco, o reencontro com a bela dama e a aparição da deusa. A redenção de Draco, o adeus aos amigos, o retorno de Escamas da Noite. A vitória, tão aguardada e duramente conquistada, a volta para casa e o casamento. Tudo era narrado de forma prodigiosa pelo menestrel, causando emoção naqueles que ouviam. Qualquer um teria pensado “são apenas estórias de bardos”, mas não eram. Era uma história real e eles estavam ali, vivos e presentes, para confirmar tal fato. Enquanto a canção descrevia de forma magistral e elfa aprisionada, o bardo olhava para Liodriel, como se não acreditasse. Interrompeu a balada para confirmar o que seus olhos lhe diziam. Era verdade. Estava diante dos heróis cuja história ele cantava. Tomado de um novo entusiasmo, o trovador concluiu sua apresentação.

_ É uma imensa honra. Nunca imaginei que tal história fosse de fato verdade, quanto mais que teria a chance de encontrá-los pessoalmente. Sinto-me abençoado! – o bardo parecia prestes a explodir de emoção.

_ Sim, cada verso desta balada é verdade. Ficamos honrados em ter nossos nomes cantados por você. Agora, conte-nos onde a aprendeu!

O poeta lhes contou de suas andanças e que um outro bardo havia lhe ensinado a balada em uma taverna de Bielefeld. Infelizmente para os personagens da balada, esse bardo não era Sam. Entretanto, embora sem conhecer seu paradeiro, isso significava que Sam estava vivo e trabalhando incansavelmente, espalhando a história que vivera com seus amigos aos quatro ventos de Arton.

Permaneceram na taverna até altas horas, bebendo comendo e conversando com seu novo amigo bardo. Nailo contou a ele sobre Carvalho Quebrado, sobre a traição de Zulil e todos os perigos que passaram naquela ocasião. Explicou tudo com detalhes, para que uma nova canção fosse composta por James Sulivan, uma canção que já tinha até um nome.

_ Agora, você vai escrever uma nova canção baseada no que lhe contei. E assim com Sam, espalhará essa história pelo mundo. E o nome dessa nova balada será: Mais que um capitão, um amigo inesperado!

_ Sim, já sinto os versos pulsando em minha mente, ávidos por saírem e tomarem forma em papel e melodia. Vou começar a trabalhar agora mesmo e, se Tanna-Toh assim permitir, um dia nos encontraremos novamente e eu cantarei novamente para vocês, meus amigos!

Assim, James Sulivam se despediu de seus ídolos e, agora, amigos. Os heróis voltaram para a estalagem e esperaram a manhã chegar, quando então dariam adeus à maravilhosa cidade voadora.

· · · · · ·

Era o 28º dia de Aurea, o ano findava. Os heróis levantaram de suas camas e deixaram a estalagem onde tinham passado parte da noite. Despediram-se de Sara e Luana, ambas agradecendo com os olhos cheios de lágrimas. No ancoradouro da cidade, nenhum sinal de Squall.

As horas passavam e a manhã já quase acabara quando ele finalmente chegou, sem fôlego.

_ O que aconteceu? Onde você estava? Esqueceu que temos que ir embora? – perguntaram todos.

_ Calma, tive alguns problemas. Vou contar tudo.

· · · · · ·

Squall se levantara pela manhã, assim que os primeiros raios de Azgher vieram lhe tocar o rosto. Estava nu, deitado na relva, sozinho. Sua companheira, bem como suas roupas de baixo, tinha desaparecido, sem rastros. Felizmente para ele, nada além de suas cuecas havia sido roubado. Pegou em suas coisas outro pergaminho mágico de vôo que havia roubado de Deedlit, a quem ele havia também traído promiscuamente. Assim ele retornou para as ruas de Vectora.

Squall tinha um compromisso e se lembrava disso. Deveria encontrar seus amigos e familiares no ancoradouro principal, de onde se despediriam da cidade. Mas ele traiu a confiança deles também, mais parecia devoto de Sszzaas do que um filho de Glórien ou mesmo de Megalokk. Ao invés de ir ao encontro dos companheiros, decidiu procurar por Tião, o guia, pois queria retornar à casa de jogos de Gorco para vender suas engenhocas goblinóides.

Mas, o que Squall tinha de arrogante e desonrado, também tinha de estúpido. Chegou à prisão onde Tião agora residia tentando ditar ordens, exigindo ver o prisioneiro, proclamando-se capitão do exército de Tollon, como se isso importasse naquela cidade. Como lhe foi negado ver o prisioneiro pelo capitão da milícia (que nunca tinha visto Squall antes), o feiticeiro insistiu de todas as formas, chegando a dizer ser amigo pessoal de Tião e que por isso precisava vê-lo. Esse foi seu grande erro.

Era óbvio e qualquer criança saberia que um amigo de um criminoso bem poderia ser cúmplice deste. Logo, o capitão deu voz de prisão e Squall foi enjaulado. Preso, tentou ainda usar magia para dominar as mentes dos milicianos para ser libertado, tentou pedir ajuda a Cloud mas, depois de algemado e amordaçado, só lhe restou esperar até o meio-dia, quando o turno dos soldados terminou e o grupo do dia anterior, responsável pela prisão de Tião e dos outros bandidos, chegou para trabalhar. O Tenente Alber Rhino reconheceu o elfo atrapalhado de imediato, o mal entendido foi desfeito e Squall libertado. Assim, com horas de atraso e sem conseguir conversar com o guia aprisionado, Squall finalmente decidiu se juntar aos amigos quando estes já começavam a procurá-lo.

E todos se reuniram finalmente na praça de entrada da cidade voadora. O admirável passeio chegava ao fim. A encomenda de Legolas seria entregue no forte, quando estivesse pronta, por um mensageiro, de forma que não precisariam aguardar mais tempo ali. Tinham passado apenas um único dia no Mercado nas Nuvens, mas o pouco que haviam estado ali lhes garantiria incontáveis lembranças para o resto de suas vidas. Tinham feito compras, visto coisas fantásticas e inimagináveis, tinham conhecido uma das mais importantes figuras de todo o mundo, tinham vivido aventuras e aprendido muitas coisas e, acima de tudo, tinham ouvido uma maravilhosa canção que eles mesmos tinham criado e que era um sinal de que seu amigo Sam Rael estava vivo e de que o reencontro com o estimado bardo estava cada ver mais próximo.

Assim, Seelan evocou seus poderes mágicos e pôs todos a voar de volta para a superfície de Arton. Legolas ia em sua vassoura mágica, carregando sua amada e guiando seu companheiro eqüino. Estava em êxtase. Orion tentava se desgrudar de Seelan, já farto daquela bolinação. Lucano e Rael conversavam sobre os deuses e seus desígnios, enquanto que os pais de Anix viviam uma segunda lua-de-mel. Nailo carregava itens especiais que comprara, para os quais tinha grandes planos, e em sua bolsa mágica ainda havia espaço para transportar seu vaso sanitário e bidê. Anix tinha Enola nos braços, Silfo às costas sempre a lhe vigiar e um segredo a descobrir. O que teriam feito com ele? E Squall tinha dentro de si a imundície da traição e a leveza na consciência que somente os piores vilões conseguiriam ter após se comportarem da maneira que ele se comportava. Os dados rolavam, os deuses observavam atentos, e os grãos da areia do tempo chegavam pouco a pouco perto do fim. O momento prometido estava próximo.