fevereiro 26, 2015

Capítulo 1 - Cieri

O cavalo saltou a janela, estilhaçando seu vidro como se atravessasse o papel. O negrume de seus pelos mesclavam-se com a escuridão da noite sem lua. Suas chamas, azuis como as que ardiam na mansão atrás dele, inflamaram com voracidade enquanto o animal ganhava altura no céu noturno da cidade de Vallahim. Montada em seu lombo macio e quente, Cieri observava do alto a cidade diminuir à medida em que subia. Via os cidadãos, a maioria lenhadores simples e rústicos, correndo em direção ao prédio em chamas, atirando baldes de água, terra, abafando as labaredas com cobertas. Um ou outro tentava invadir o orfanato em busca de sobreviventes, mas o fogo azul os impedia. Em coro diversas pessoas gritavam quando apontavam para ela no alto: “Olhem, é Ônix, a ladra! Foi ela quem pôs fogo no orfanato! Ônix matou as crianças!”. Era um ultraje. Encolerada, Cieri conduziu Kurama rumo ao sul. Iria para longe dali, distante daqueles imbecis ignorantes. Como ousavam acusá-la de incendiar o orfanato? Absurdo! Sob a identidade de Ônix, a ladra, Cieri cometera diversos crimes, mas nunca matara. E seus furtos destinavam-se exclusivamente a custear o orfanato e a seu próprio sustento (e ao de seu companheiro equino). Enquanto voava pelos céus, agarrada ao pescoço de Kurama, flashes de memória brotavam sua mente. Lágrimas escapavam furtivamente de seus olhos díspares, ainda que ela não se desse conta disso, nem jamais admitisse tal fato.
Lembrava de sua infância. Ainda bebê, Cieri fora abandonada na porta do orfanato, em Vallahim, capital do reino de Tollon. Seria criada como órfã, em meio aos lenhadores que viviam da extração da valiosa e mágica madeira negra das árvores que davam nome ao reino. Dentro do cesto onde repousava a menina havia apenas um bilhete com seu nome e uma adaga de lâmina negra. Assim, Cieri Nocts Hesperus foi recolhida por Sindra, a administradora do orfanato, uma mulher simpática e ao mesmo tempo rígida e sistemática com seus pupilos. Ao pegar a criança, Sindra notara suas características incomuns. Seus olhos eram de cores diferentes, o direito tinha tonalidade roxa, enquanto o esquerdo era azul como o firmamento. “Seus pais viajaram muito antes de deixá-la aqui, pequenina” – pensou a mulher, compreendendo o que aquilo significava. A garotinha era oriunda de Collen, um reino insular a sudeste, cujos nativos – sem exceção – possuíam olhos de cores distintas (e, por vezes, com poderes mágicos). Os da garota, como se soube mais tarde, eram capazes de enxergar auras mágicas, se assim ela desejasse. Mas havia outra coisa que chamou a atenção da mulher: uma cauda. Cieri possuía um rabo esguio e preênsil que terminava em uma membrana pontuda, como uma ponta de flecha. Sindra empalideceu, pois aquilo só poderia significar uma coisa: sangue de demônio. Ou o pai ou a mãe da garotinha era uma criatura infernal, concedendo-lhe de herança aquela característica que a marcaria para sempre. A despeito de tudo isso, Sindra levou Cieri para dentro do orfanato que fundara e, junto com as demais cuidadoras e crianças, lhe deu todo o amor e carinho que uma criança merecia.
Anos se passaram e a menina foi crescendo. Era esperta e aprendia as coisas com extrema facilidade. Era ágil como um gato e curiosa como poucos. Divertia-se com seus “irmãos” todos os dias. Adorava pregar peças em todos. Aos poucos foi descobrindo seus poderes. Aprendeu a controlar as habilidades de seus olhos mágicos ainda com seis anos e encantava-se quando algum aventureiro passava pela cidade, carregado de itens mágicos brilhantes e coloridos. Talvez por sua herança abissal, descobriu que todo metal tocado por ela tornava-se preto. Essa sua habilidade era motivo de diversão entre as crianças, mas de preocupação para as zeladoras do abrigo que temiam que aquilo pudesse prejudicar a menina de alguma forma.
Foi aos dez anos que Cieri conheceu os ensinamentos da deusa Allihanna. Um homem apareceu no casarão, dizendo que estava se mudando para a cidade e pedindo permissão para ensinar às crianças as maravilhas da natureza. Trajava sempre roupas escuras e simples, nada além de um casaco e uma calça perfeitamente ajustados ao seu corpo e de um lenço vermelho que sempre trazia amarrado ao pescoço. Seu nome ninguém jamais soube, mas era chamado por todos de Senhor. Com ele Cieri aprendeu a lidar com plantas e animais, além de alguns pequenos truques mágicos.
Os anos continuaram se indo e foi então que as coisas começaram a ficar difíceis. O dinheiro começou a rarear ao passo que as crianças sem lar começavam a crescer em número – contribuição da Tormenta que se espalhava por mais e mais lugares. Arrojada como sempre, Cieri decidiu ajudar. Tentou emprego em todos os estabelecimentos da cidade, mas suas tentativas foram em vão. Nenhum comerciante ou artesão desejava ter em seu quadro de empregados uma pirralha sem lar e tão estranha quanto ela. Revoltada, não desistiu. Ajudaria o orfanato e se vingaria dos que a tinham desprezado. Passou a observar a rotina dos comerciantes, e se aproveitava dos seus momentos de distração para cometer seus furtos. No começo eram uma ou outra fruta, um pedaço de pão, um corte de tecido. Mas, com o tempo ela foi se especializando, mapeou a cidade e criou rotas de fugas. Ocultou suas feições sob um manto negro reluzente, que lhe rendeu a alcunha de Ônix. Todos os dias chegava no orfanato com uma boa quantia em dinheiro, dizendo que o tinha conseguido trabalhando.
O tempo passou, Cieri cresceu, a fama de Ônix também. Seus crimes também eram cada vez mais ousados. Recrutou alguns companheiros na cidade e criou sua própria guilda. Guardavam os espólios em um esconderijo na floresta, num lugar que descobrira durante as aulas a céu aberto do Senhor. Sentiu que era hora de se mudar, encontrar um lugar seguro onde não pusesse o orfanato em risco. Juntou dinheiro por um ano inteiro, fez uma grande doação ao orfanato e foi se despedir, dizendo que iria conhecer o mundo e ir em busca de seus pais. Sindra lhe entregou a adaga negra que lhe fazia companhia em seu cesto quando fora deixada no abrigo, dizendo que ela poderia ajudá-la em sua busca. Parou em uma taverna para comer algo antes de partir e assistiu à apresentação de um bardo talentoso. Cantava uma canção heroica, a Balada da Forja da Fúria, que falava de um lugar não muito distante dali, onde havia uma dragoa e muitos tesouros.
Impressionada com o relato, Cieri partiu rumo ao local descrito pelo bardo em busca de suas riquezas. Invadiu o lugar pela passagem oculta mencionada na narrativa e o encontrou desolado. Sem sinal de tesouros ou da dragoa. Vasculhou cada canto da gruta e encontrou o cadáver da fera no fundo do lago subterrâneo. Retirou escamas e dentes, pois sabia que eram valiosos e continuou sua busca. Encontrou uma pedra negra, lisa e elíptica e soube que encontrara algo de muito valor: era um ovo.
Cieri retornou a Vallahim com seus espólios. Pagou um bardo para cantar uma história fantasiosa nas tavernas da cidade, dizendo que tinha encontrado a famosa Ônix na estrada e que ela poupara sua vida em troca dele espalhar a todos o seu grande feito, o roubo do tesouro da dragoa. Procurou seu antigo mestre e lhe presenteou com o ovo (não queria ter um dragão chocando em seu colo, seria muito problemático). Para sua surpresa, Senhor já sabia de tudo o que tinha acontecido, inclusive sobre seu alter-ego. Aconselhou-a a ir em busca de seu passado, desta vez de verdade, e lhe disse que deveria, antes de tudo, saber quem realmente ela era, conhecer-se antes de conhecer sua história.
Assim, seguindo os conselhos de seu mestre, Cieri partiu numa jornada de autoconhecimento. Vagou pelos fartos bosques de Tollon, penetrando cada vez mais profundamente na mata escura até ser atacada por algo monstruoso. Uma criatura horrenda, que lembrava uma massa disforme de carne que vagamente lembrava uma figura humanoide com expressão de eterna agonia em sua face deformada, surgiu repentinamente e se arrastou em sua direção ameaçadoramente. Sem hesitar, a mulher sacou sua adaga negra e atacou o monstro com desespero. Conseguiu derrotá-lo com grande esforço e, exausta, desfaleceu ao lado da poça de carne e sangue fétido que se formara.
Não sabe quanto tempo permaneceu inconsciente, mas quando acordou, notou que estava em um lugar diferente. Era um campo florido que rodeava um gigantesco carvalho sob cuja sombra Cieri repousava. Diversos pirilampos voejavam ao redor dela, agitados. Ela cerrou os olhos e notou que tratavam-se de pequenas fadas. Pairaram todas diante de seus olhos brilhantes e uma delas, que se destacava pelo longo vestido prateado e pela coroa dourada em sua cabecinha, foi até ela.
Fez o que a fada mandou até porque se ficasse mais forte seria mais fácil viajar pelo mundo para descobrir seu passado. Rumou mais para o sul e começou a conviver com os espíritos da natureza. Aprendeu a ter paciência e começou a entender a sabedoria que a floresta possuía. Certa vez, enquanto descansava, foi dar uma volta pela mata e encontrou uma curiosa e bela criatura. Era um filhote de cavalo todo negro, altivo e imponente. No lugar de sua crina, chamas azuis cintilavam majestosamente, assim como na parte traseira de suas quatro patas. Os espíritos desejavam expulsá-lo, pois o consideravam um ser das trevas. Indignada, Cieri advertiu as entidades para que lembrassem de seus próprios ensinamentos e que tivessem compaixão com a criatura que nenhum mal causara a eles. Passou a cuidar e a proteger o animal e lhe deu o nome de Kurama. Com seu novo amigo ela conseguia percorrer grandes distâncias rapidamente já que, além de belo e misterioso, o equino era capaz de voar magicamente. Juntos passaram a explorar a floresta, indo cada vez mais distante do local em que se conheceram. Num desses passeios conheceu uma mulher que habitava uma gruta com um sátiro. Seu nome era Enola e fora escolhida pela própria deusa Allihanna para proteger aquele santuário. Seu amigo se chamava Silfo e era uma criatura extremamente simpática e amigável, dono de um coração mole e de mãos habilidosas nas artes de esculpir e costurar. Também era um talentoso músico e um amigo como poucos. Passou um ano junto a eles e aprendeu com Enola muitas outras coisas, completando o treinamento que iniciara com Senhor. Cieri, de ladra, tornou-se druida e passou a proteger a natureza e a compartilhar seus misteriosos poderes. Então chegou a hora de partir.
Junto com Kurama, Cieri seguiu para o norte, adentrando o território das Montanhas Uivantes. Passou longo período em meio ao gelo e à neve, conheceu algumas tribos que habitavam aquela região inóspita e muito aprendeu com eles. Quando já estava exausta daquele lugar friorento, decidiu que era hora de procurar um lugar um pouco mais quente.
Rumou para sudeste, até a magnífica cidade de Follen. Suas construções impressionaram-na, tudo era feito para estar em perfeita harmonia com a natureza. As casas eram construídas sobre as árvores, mesclando-se a elas sem que nenhum galho fosse derrubado. Pontes de corda interligavam todas as habitações e estabelecimentos, formando verdadeiras avenidas elevadas. Elevadores de madeira e corda transportavam as pessoas para cima e para baixo incessantemente. Cieri tomou um destes transportes e entrou na Estalagem Última Chance. Sentou-se a uma mesa no salão principal, observando o movimento local, vendo os fregueses que vinham apenas para uma refeição ou uma bebida e os que vinham para se instalar no lugar. Alugou um quarto e ficou alguns dias na cidade, conhecendo-a. Finalmente encontrou o homem chamado de Gurt. Apresentou-se e disse ter sido enviada por Saphiri. O homem se negou, a princípio, a ensinar Cieri. Mas, obstinada como era, a garota passou a segui-la e a imitá-lo. Após muita insistência, ele finalmente concordou em treiná-la. Gurt era um grande acrobata que utilizava suas habilidades para percorrer Follen sem dificuldades. Ensinou suas técnicas à sua nova aprendiz. Um ano se passou e a fama da ladra Ônix chegou à cidade suspensa. Cieri percebeu que Gurt começou a desconfiar dela, pois notara que o homem era extremamente perspicaz. Quando começou a fazer perguntas suspeitas repetidamente, ela decidiu que era a hora de novamente partir. Sem dar muitas explicações, despediu-se de seu mentor e se foi. Gurt deu adeus sem questionamentos, apenas exibia um sorriso arrogante, como se tivesse confirmado suas suspeitas.
A druida e seu cavalo deixaram a cidade nas árvores e foram rumo ao norte. Depois de muito viajarem, parando de vila em vila, conhecendo pessoas, lugares e costumes, chegaram às proximidades do lugar onde Cieri encontrara o ovo da dragoa. Era início de verão e o clima era ameno. Cieri observava o céu noturno, perto da montanha do Dente-de-Pedra, as estrelas brilhavam lindamente naquela noite. Então viu uma estrela cadente riscando o céu, produzindo um brilho intenso. A faísca cruzava uma zona desprovida de estrelas no céu, indo em direção ao norte quando se extinguiu. Segundos depois Cieri ouviu um som ensurdecedor, como o de um instrumento musical estridente e desafinado. Parecia vir de todo e nenhum lugar ao mesmo tempo. Cieri encolheu-se, espantada com aquilo, abraçando Kurama com força. Quando o ruído terminou, a floresta retornou ao silêncio e Cieri notou que tudo estava realmente quieto. Quieto até demais. Nenhum cricrilar, pio, ou coaxar podia ser ouvido. Era, sem dúvida um mau presságio.
Querendo respostas e temendo pelas vidas daqueles que lhes eram caros, Cieri montou em Kurama e partiu. Rumou ao norte, para o Bosque de Allihanna em busca de seus mentores. Chegou apressada à gruta onde treinara durante cerca de um ano. Entrou em disparada, esperando ver o rosto peludo e amigável de Silfo. Porém, não encontrou viva alma em seu interior. Silfo e Enola tinham partido. Deixaram a gruta e foram até o enorme carvalho, que era a morada de suas amigas fadas e as encontrou aflitas.
_ Uma tempestade se aproxima! – disse a rainha das pequenas criaturas feéricas. Como previra Cieri, Aquele som era realmente um mau presságio. A garota permaneceu com as fadas por vários dias esperando que seus amigos retornassem. Nem mesmo as fadas sabiam o paradeiro deles. O tempo passou e, como nem Silfo nem Enola retornavam, Cieri sentiu um forte desejo de retornar a Vallahim, e rever as crianças e cuidadoras do orfanato em que crescera. Despediu-se das sprites e partiu junto com Kurama. Em sua mochila levava uma recordação de seu amigo, Silfo, uma pequena boneca de pano, espetada de agulhas que o sátiro utilizava em suas criações.
A saudade apertava seu coração à medida em que avançava em direção à capital. Mas não era apenas a saudade que a deixava angustiada. Tinha, na verdade, um mau pressentimento. Acelerou sua marcha e já a poucas léguas da cidade seus temores mostraram-se certos. Uma estrela cadente riscou o céu negro na direção da cidade. O brilho foi seguido de gritos desesperados que ecoavam por milhas na escuridão.
Cieri correu em direção à cidade e a viu em chamas. Ao chegar mais perto, notou que uma parte da cidade ardia sob labaredas azuladas. Pessoas corriam desesperadamente de um lado para outro, tentando em vão extinguir as chamas. Cieri rumou para o orfanato e testemunhou com tristeza o local de sua infância tomado pelo fogo. Os gritos das crianças podiam ser ouvidos a quilômetros de distância. As pessoas observavam, impotentes, à tragédia que acontecia.
Sem hesitar, a órfã invadiu o lugar, num ato heroico. Assistiu com assombro ao que ocorria lá dentro. Dezenas de crianças tomadas pelo fogo gritavam e choravam. Cieri se aproximou da primeira, tentando extinguir as chamas com um cobertor, mas fracassou. O fogo tomou conta da manta como que magicamente, sem emitir qualquer calor. Algo estava muito errado ali. A criança caiu no chão, já sem forças e desfaleceu. As chamas foram desaparecendo lentamente, enquanto o pequeno corpo tornava-se cinzento. Porém, para maior espanto da garota, não era em um monte de cinzas em que a infante se transformava, mas sim em pedra. Uma pedra cinzenta, porosa e gélida.
Cieri percorreu todos os quartos e em cada um a cena se repetia. Na cozinha algo ainda mais estranho aconteceu. A fundadora do lugar, Sindra, era carregada por uma estranha criatura, uma espécie de javali bípede, pesadamente protegido por armadura. Cieri não sabia se a mulher estava viva ou morta, mas tentou impedir o raptor mesmo assim. Foi cercada pelas chamas, e nada pode fazer a não ser ver a besta deixar o orfanato.
Cieri protegeu seu corpo com seu manto e correu para a entrada, quando encontrou com seu companheiro, Kurama. O cavalo invadiu o orfanato, aflito, jogou a menina em seu lombo e num salto majestoso ganhou as ruas. Lá fora, a cidade se reunia, armados de ferramentas rurais tentando feri-los. Estava claro para Cieri. As pessoas simples e ignorantes de Vallahim a culpavam pela tragédia. Relacionavam o misterioso incêndio às chamas de Kurama. Cieri não teve outra opção senão correu por sua vida.
Cieri voltou a si já a várias léguas ao sul de seu antigo lar. Parou para que Kurama pudesse descansar e para que ela pudesse organizar seus pensamentos, tentar entender o que acontecera e decidir o que faria a seguir. Escondida na mata, ouviu o som de uma flauta não muito distante. Seguiu a melodia com cautela e parou a poucos metros de sua fonte, apreciando as notas por um breve instante. Foi quando o rugido de uma fera a despertou do torpor. Instintivamente ela se preparou para o combate iminente. Fitou com os olhos mágicos a claridade à frente e se deparou com uma clareira. No centro dela uma fogueira ardia, aprazível. Diante dela um homem soprava delicadamente uma flauta de bambu e ao seu lado um gigantesco tigre se erguia, atento, pronto para atacar. Cieri congelou ao ver o tamanho da criatura e ficou mais paralisada ainda quando o homem interrompeu sua música e disse em voz alta:

Cieri hesitava sobre o que fazer. Então viu com assombro uma garotinha de não mais que quinze anos entrar na clareira. Para seu maior espanto, notou que a menina era cega.

fevereiro 24, 2015

Um fim e um novo começo...

As Crônicas Artonianas estão de volta após uma nova e longa pausa. Durante anos alimentei este blog com carinho especial, carinho que nunca diminuiu, ao contrário do tempo do mestre. Muitas aventuras ainda foram vividas pela turma de Anix, Orion e companhia, após a chegada a Triumphus. Entretanto, infelizmente os jogadores cresceram, o poder subiu à cabeça e acabaram se transformando naquilo que mais odiavam: Digimons! Pisadas na bola consecutivas e cada vez piores me levaram a encerrar a campanha antes da história ter tido sua conclusão. O grupo foi desfeito, mas o desejo de jogar, mestrar e de continuar escrevendo nunca desapareceu.
Assim o tempo passou, uma nova tentativa foi feita com outro grupo, que também não deu certo (felizmente, agora reconheço). Então dei uma pausa geral e me afastei do escudo de mestre. O tempo passou mais uma vez, veio a 5ª edição do RPG Dungeons & Dragons, para a qual eu não dava a mínima bola (a horrível, em minha opinião, 4ª edição me afastou de vez do sistema, optando por ficar com o material que já possuía e por buscar um outro sistema que fosse tão completo e versátil, porém mais simples). Isso perdurou até que numa brincadeira de Facebook um amigo postou os seus 10 livros preferidos e entre eles estava o novo Livro do Jogador. Surpreso, contatei-o e perguntei se o jogo era assim tão bom. A resposta foi mais ou menos essa: “está f*da. É a melhor edição do jogo"! Bem, curioso e em busca de algo que substituísse minha tão amada 3.5, fui dar uma olhada na internet. Baixei o conteúdo pdf oficial e comecei a ler, ainda com desconfiança. Mas, para minha agradável surpresa, encontrei finalmente o que procurava. Devorei o starter set em 1 semana, comecei a comprar os livros pela Amazon e em menos de um mês começamos a jogar.
Desta vez um novo grupo foi formado, mantendo apenas um dos dois jogadores que ainda valiam a pena da turma antiga (Sim, o Anix continua, mas o Orion foi pra facul) e seguindo a premissa que levou à formação do grupo anterior e que rendeu 8 anos de bom rpg. Jogadores descontentes em outras mesas, outros que nenhuma ou poucas oportunidades tiveram de jogar uma campanha regular foram convidados. Estava formada uma nova turma de “excluídos”, jogadores marginalizados por outros grupos se juntaram para rolar dados e interpretar seus personagens.
O resultado? Bem sistema novo e muito bom, jogadores cansados de “mimimi” e dispostos a jogar, trouxeram de volta a mesma empolgação de quando os “(ex)Escolhidos” começaram suas aventuras. Hoje, praticamente 5 meses após a reunião inicial para criação dos personagens, o grupo está cada vez mais coeso e engajado. Novamente as cenas, situações e plots começam a surgir espontaneamente, tornando o jogo vivo, interessante, intrigante e divertido.
O grupo é novo, os personagens são novos, a história é nova, mas o cenário ainda é o mesmo. Continuamos a nos aventurar por Arton, a desbravar os mistérios nunca antes explorados pelo grupo antigo. E a cronologia foi mantida. Agora estamos 2 anos no futuro, após o grupo de Anix ter vencido o labirinto de Triumphus, a Pirâmide do Sol no Deserto da Perdição, o Torneio das Trevas em Sombria e ter recuperado algumas das jóias das almas. Enola já está liberta, após ter despertado poderes de meio-dríade, e vela os corpos das outras damas, enquanto seu marido continua a missão. Anix, Orion e seus companheiros continuam vivendo suas aventuras, mesmo que a campanha antiga não tenha mais suas sessões de jogo.
Agora o foco é em um novo grupo de heróis, que se conheceu involuntariamente e foi obrigado a se unir para combater um enorme mal. Um mal cujas proporções são gigantescas e que agora começam, aos poucos, a serem reveladas. Um mal que os próprios Deuses ignoram, já que no momento estão ocupados tentando consertar as cagadas de Legolas e companhia, tentando impedir que todos os selos sejam quebrados e a criação seja aniquilada. As aventuras do antigo grupo apareceção aos pedaços, a conta-gotas, à medida que os novos heróis forem tomando contato com elementos da campanha antiga e se envolvendo numa trama muito maior e universal. Crossovers ocorrerão ocasionalmente e a nova campanha interferirá na velha. Com a corrupção de Legolas, Squall, Nailo e etc., restou a Orion e Anix prosseguirem sozinhos com a missão de salvar as almas aprisionadas por Zulil.

Os novos heróis enfrentarão perigos ainda maiores que os seus antecessores e, espero, sairão vitoriosos onde os outros falharam. A nova jornada não será nem um pouco fácil, envolverá sacrifícios e definirá o destino de Arton. Será um caminho longo e penoso. Será uma Jornada de Sangue!

Ao final disso tudo, o mundo conhecido mudará radicalmente, Deuses cairão, heróis poderão ascender, dimensões entrarão em colapso e a verdade por trás do Destruidor de Mundos finalmente será revelada.

Desta vez, entretanto, a narrativa será diferente. Mais um relatório dos eventos do que um romance rebuscado, um material de consulta para mestre e jogadores. No futuro, quem sabe, eu não seja novamente capaz de dispender tempo para escrever em minúcias estas aventuras? O importante é que o show sempre deve continuar e é o que vem ocorrendo desde outubro de 2014 de forma surpreendentemente agradável.

Aos que lerem estes relatos mal e porcamente escritos, meu muito obrigado e sejam novamente bem vindos às Crônicas Artonianas, sejam bem vindos à Jornada de Sangue.

setembro 23, 2013

Resumo de sábado 21/09/2013

Resumo de sábado - 21/09/2013
Saímos do reino de Azgher com algumas respostas. Azgher dizia que, o Deus da Justiça carregava um grande fardo em seus ombros e que se quisessemos saber mais sobre isso, deveria perguntar ao Deus das Profecias. 
Antes, partimos em direção à cidade de Carvalho Quebrado para averiguarmos se a esposa de Lucano havia retornado à vida.
Constatamos que estava tudo bem e partimos então para cidade de Valkaria, onde poderiamos nos munir de suprimentos e afins.
Lá, conhecemos o Sirdis. digo, o Louco que se dizia Deus. Conversamos um pouco com ele a fim de saber sua história. Ele nos contou sobre o que houve no Panteão e a estória de 3 Deuses banidos. Dentre os 3, estava o Louco, conhecido antes por Deus Tillian, o Deus dos Gnomos.
Disse também que, Valkaria estava presa dentro da estátua que era o, de certa forma, o centro de toda cidade.
Citou sobre um outro Deus que foi banido para o esquecimento, aquele que chamavam de " Terceiro ". Talvez por ter sido o terceiro a ter recebido a punição.
Como de costume, o grupo causou problemas na cidade e foi forçado a se retirar.
Mas antes disso, Anix encontrou uma loja de previsões. Lá, conheceu uma garotinha chamada " Madame Zamira ". Embora no nome desse a ideia de alguém mais adulta, não fora isso que Anix constatou.
Zamira, se dizia vidente e que se quisesse saber de respostas, bastava perguntar, diante imediato pagamento por cada pergunta.
Anix então fez algumas perguntas, mas, apenas uma deu o desfecho inesperado. 
O jovem mago perguntou qual poderia ser o fardo que o Deus da Justiça carregava e, para seu espanto, ele recebeu uma visão, igual a que Enola proporcionava.
O que Anix viu o deixou perplexo.
Quando recobrou a consciencia, já não havia mais nada além de um corpo morto de uma garota em sua frente. A mesma começou entrar em uma espécia de buraco negro, criado a partir de seu próprio ventre. O mesmo fez com que a loja começasse a ser sugada e forçando o mago a sair as pressas do ambiente. Anix recolheu alguns livros que achava ser de grande importância e saiu.
Quando olhou para trás, não havia nada além de um terreno vazio.
O grupo enfim se reuniu e voltaram para Carvalho Quebrado, já que Squall havia sido teleportado para lá com a ajuda de Orion para cessar o problema que ele e Legolas havia causado.
Já na Vila, Anix começou a ver os livros que havia pego. Todos lhe chamavam atenção, mas não mais do que o ultimo que foi folheado. Ele mostrava em figuras desde a entrada do mago na loja da vidente até a sua saída da mesma, inclusive o que foi visto por ele em sua visão.
O grupo então partiu para sua missão, Reino de Tauron.
Chegando lá, se deparam com um ambiente que logo constataram ser um labirinto e, para a sorte deles, encontraram um minotauro que os ajudaram mediante pagando que, resultou na escravidão de Lilith.
O grupo então conseguiu sair do labirinto com a ajuda de Tau Maximus, o minotauro.
Já fora dele, o grupo pediu para que Tau os guiasse até a Arena, já que foi o ultimo lugar que Legolas viu a jóia que aprisionava a esposa de Squall. 
Rumaram então até o destino. 
No meio do caminho, o grupo foi emboscado por um pequeno grupo de humanos e elfos que diziam querer ajudar e nos libertar do minotauro. Eles foram precipitados ao achar que o ser estava de posse de nossa liberdade. 
Depois que o engano foi esclarecido, Tau então pode retornar para seu labirinto e terminar sua tarefa lá, mas agora é claro, com uma nova acompanhante.
Orion e Anix foram atrás do ser e libertaram a Succubus das patas do minotauro.
Já de volta com os demais, descobriram que os emboscadores na verdade era um grupo de refugiados que, tentava libertar as pessoas da escravidão.
Tinal, como havia se apresentado um dos do grupo, levou os aventureiro até um esconderijo secreto. Lá, viram que havia uma pequena colonia de pessoas esperançosas esperando que pudessem ter suas vidas, ou no caso, pós vidas, de volta.
Os aventureiros então decidiram levar essas pessoas para fora desse sofrimento.
Anix e Orion levaram então os Elfos até o reino da Deusa dos Elfos, Glórienn, enquanto os demais voltaram para Arton para ter sua segunda chance, mais especificamente em Valkarya.
Lá no reino da Deusa dos Elfos, Anix acabou por ter uma conversa com sua mãe e revelar que eles estavam, ainda que por um breve período, o Espelho de Wynna mas que Khalmyr havia tomado.
O jovem mago também mostrou à Mãe dos Elfos o livro que havia encontrado lá em Valkarya e contado o ocorrido à ela. 
Glórienn então se prontificou a ir até o Deus da Justiça ter respostas sobre o que Anix havia visto com a promessa de dar a resposta ao seu filho conjurador.
Pode então, junto de seu amigo Guerreiro, voltar para o grupo e continuar sua jornada no reino do Deus dos Minotauros. 
Já reunidos o grupo então, enfim, retornar sua caminhada até o Coliseu e lá, reaver a jóia com a alma de Deedlit.

novembro 18, 2012

Capítulo 392 – Moóck!


Um som ensurdecedor ecoava pelas ruas de Triunphus. Cornetas soavam por todos os lados, anunciando o perigo, gritos se juntavam a elas, produzindo uma cacofonia caótica. Pessoas corriam de um lado para outro em pânico, tentando se abrigar, buscando a salvação. Entre seus gritos histéricos de desespero apenas uma palavra podia ser entendida: Moóck!

_ Moóck! Moóck! – gritavam os moradores assustados. Ao lado de Nailo, o lobo negro eriçou os pelos de seu corpo, como se pressentisse a tragédia. Nailo, bem como o restante de seus amigos, não entendia o que acontecia. Mas a resposta para sua dúvida surgiu logo, vinda dos céus em uma gigantesca forma alada. O Moóck de Triunphus atacava.
Vindo da cordilheira ao norte da cidade, um colossal pássaro vermelho voava em grande velocidade. Abriu suas asas, tão grandes quanto a igreja de Thyatis, e planou sobre as construções abaixo dele. Suas duas cabeças se agitaram, seus bicos emitindo um som estridente que revelava o porquê de seu nome.
_ Moóck! – gritou o pássaro. As ruas tremeram com seu pio ensurdecedor e o rufar de suas asas. Suas duas caudas com forma de serpente se moveram, chicoteando o ar e seus bicos se abriram, cuspindo duas esferas de chamas sobre a cidade. As bolas de fogo explodiram, destruindo casas e lançando, além das chamas, escombros sobre os cidadãos que tentavam se proteger. O imenso animal avançou, cuspindo mais fogo e entulho sobre a cidade, destruindo construções, ceifando vidas e espalhando o caos.



Em pouco tempo as ruas se tornaram desertas, somente o grupo de aventureiros permanecia na avenida que levava à praça comercial. Sobre a cidade a cavalaria de grifos se movimentava, tentando expulsar o Moóck com seus ataques ineficazes. Sentindo o perigo, Legolas agarrou o braço de Nailo e falou:
_ Nailo, leve-me até um lugar seguro! - o velho conduziu o amigo cego até o interior de uma loja próxima. Lá, Legolas pediu: Agora, leve-me até a porta e direcione meu arco para o inimigo. Depois volte aqui para dentro e se abrigue, amigo.
Do lado de fora, Orion já saltava nas costas de Galanodel, inconsequente como sempre, de espada em punho. Os dois voaram até ficarem cara a cara com o imenso inimigo. A desproporção era gritante, era como se Orion lutasse sozinho contra um castelo. Flechas voavam do alto em direção ao pássaro, tentando obrigá-lo a recuar. Orion e Galanodel, vendo a ineficácia da guarda da cidade, continuaram a voar em direção ao inimigo. Mas, antes de chegar à distância de ataque, Orion foi atingido por uma violenta bicada da cabeça direita do animal, que destruiu parte de sua armadura e quase o derrubou de sua montaria alada. O guerreiro se agarrou às penas com dificuldade, já que tinha apenas um braço para lutar e se segurar.
_ Soul Eater! – gritou Orion. Esta alma está boa para você?
_ SIM! – gritou a espada em resposta.
O guerreiro se aproximou mais do inimigo. Galanodel tremia, mas mesmo assim não abandonava seu amigo e continuava avançando contra o adversário.

Creio que chegou o momento de eu me revelar – pensou Yule. – Minha Senhora tinha razão, eles precisam de muita ajuda. Cinco minutos nesta cidade e já estão em perigo. Por Allihanna, como eu gostaria de não ter vindo a este lugar. Preciso fazer alguma coisa rápido para salvá-los – olhou em volta e viu a situação dos seus protegidos: um cego, outro velho, um dragão morto. – Allihanna, dai-me sua força!

No chão, uma nuvem densa e gélida surgiu ao redor de onde estavam Squall e os outros, envolvendo-os e protegendo-os. – Legolas – pensou Anix, que observava a cena do alto. Seus amigos estariam a salvo dentro da nevasca, abrigados contra o fogo e os estilhaços.

_ Grande Senhora, mãe dos animais e plantas. Sua filha pede seu auxílio nesta hora de necessidade – Yule orava com fervor, oculta dentro da névoa que criara. Esperava que a Deusa mais uma vez entrasse em contato com ela como fizera antes quando pedira que Yule fosse ao encontro dos elfos e do humano. Para sua felicidade, sua prece foi atendida.
_ Diga minha filha – a voz de Allihanna preencheu a mente de Yule, como de uma floresta inteira se manifestasse, mas de forma suave e acalentadora. – Do que precisa, criança?
_ Senhora, peço que impeça este ataque. Fale com o senhor desta criatura e peça a ele que ordene a retirada de sua cria.
_ Isto é algo que está além do meu alcance, menina. Não tenho poderes para intervir nisto. Mas ao menos falarei com a Fênix e pedirei a ele que interceda. Enquanto isto, tente manter todos vivos.
_ Sim, minha senhora – concordou Yule, fazendo uma reverência mental. Sentiu a presença divina se distanciando de sua mente. Saiu do transe e voltou a ouvir o som da batalha. – Agora, salvar aquele humano tolo! – decidiu por fim.

No alto, Orion golpeava com sua espada negra com ferocidade. O som do impacto de cada golpe era como o bater de um martelo em um gongo. Ainda assim, o pássaro parecia não sofrer qualquer dano e continuava planando sobre o céu de Triunphus, agitando suas asas de forma destruidora, arrancando pedaços da cidade com o vento gerado. O pássaro revidou, desferindo poderosas bicadas e coices contra o humano. Partes da armadura negra despencaram no solo, junto com uma torrente de sangue. Orion não sentia dor alguma, mas era capaz de ver e compreender o seu estado. A lateral de seu corpo estava rasgada, ferida pelas poderosas garras do Moóck, e quem o observasse do solo podia ver seus órgãos pulsando dentro de seu corpo, enquanto ele se mexia para atacar e se defender.
Legolas apareceu na porta da loja, guiado por Nailo. O ranger se espantou ao ver que tudo estava coberto por uma densa névoa. Não conseguia enxergar seus amigos, nem mesmo o Moóck.
_ Nesta direção, uns quarenta metros adiante – gemeu Nailo, posicionando o arco de Legolas no meio da bruma. O arqueiro agradeceu e disparou uma saraivada. As flechas saltaram da bruma, rasgando o céu como cometas ascendentes. Três delas colidiram contra o peito do monstro e explodiram em gelo. O Moóck pareceu não se abalar diante do ataque.

Voando um pouco mais atrás, Anix olhou com preocupação para os amigos e viu Próximo dali viu Galarden observando o combate distraidamente, vulnerável a uma estranha mulher que se aproximava dele de forma furtiva, com uma espada nas mãos.
_ Galarden, cuidado! – aviou Anix. O elfo e a mulher começaram um acirrado combate nas ruas, ignorando a ameaça maior que pairava no céu. Anix nada viu disto, pois fechou os olhos, enquanto ganhava altura montado em sua vassoura, e começou uma conjuração. De sua mão voaram duas pequenas esferas brilhantes e em grande velocidade. Os orbes se chocaram contra o Moóck, gerando duas explosões estrondosas. Chamas gélidas se espalharam pelo corpo do animal, envolvendo-o por completo e causando-lhe ferimentos em diversos lugares. O monstro emitiu um grito de dor ante o ataque. Mesmo assim, a fera alada avançou sobre o diminuto alvo em sua frente e continuou atacando-o.
Mais sangue choveu sobre a cidade, junto com pedaços do corpo de Orion. Suas vísceras ficaram dependuradas, pendendo de sua barriga rasgada. O humano revidou, abrindo um grande talho na garganta da criatura, que para ela não passava de um pequeno arranhão.

Diliel estava espantada. Pega de surpresa pelo ataque repentino do monstro, não se abrigara. Estava espantada. Já testemunhara diversas vezes os efeitos dos ataques do Moóck, mas aquela era a primeira vez que presenciava de tão perto a fúria do animal. Mas outra coisa a espantava: o grupo que avistara ao sair para as ruas enfrentava o pássaro. Ou eram poderosos demais, ou loucos. Diliel viu ao redor deles uma nuvem de neve e gelo surgindo magicamente e pensou ser um ótimo abrigo, além de uma boa oportunidade para se aproximar daquele exótico grupo. Sem hesitar, ela saltou dentro da névoa e, invocando o nome de Thyatis, lançou sobre o Moóck sua magia mais poderosa em auxílio aos insanos combatentes.

Do alto, Anix viu uma mulher, vestida com uma armadura metálica, saltando dentro da proteção que julgava ter sido criada por seu amigo. Segundos depois, viu o Moóck curvar seu corpo, como se sentisse alguma dor, e depois abrir as asas e continuar a atacar Orion. – Alguém tentou feri-lo com magia, mas não conseguiu­ – pensou ele. Viu a misteriosa mulher que atacara Galarden procurando-o após ele desaparecer nas sombras. E viu também quando seu irmão surgiu de dentro da névoa, voando em direção ao inimigo.
Squall colocou o corpo de Mexkialroy no chão cuidadosamente e lançou-se ao ar, batendo as asas com força. Deixou a bruma para trás, abrindo um buraco em sua passagem. Usou seus poderes mágicos e fez surgir cinco cópias mágicas de si mesmo. Lado a lado, os seis Squalls se colocaram diante do Moóck, desafiando-o para dar tempo a Orion de escapar. O imenso pássaro se distraiu por um instante, confuso com tantos inimigos à sua volta. Nunca antes ele havia sido desafiado daquela forma. Legolas usou seu poder para criar uma parede de gelo, ligando dois prédios um no outro, de forma a protegê-los como um escudo. No chão, vendo a cena através do buraco criado por Squall na névoa, Yule percebeu que era chegada a hora de agir.
_ Chegou o momento de eu me revelar. Que Allihanna me guie – sussurrou Yule baixinho. Seu focinho se moveu, murmurando uma prece curta e ela retornou à sua forma original: uma linda mulher cuja aparência mesclava características élficas e dracônica. Seus cabelos eram longos e negros como a noite, seus olhos eram como prata líquida, sua pele alva e macia era coberta por uma túnica vermelho sangue e protegida por uma armadura feita de escamas de dragão vermelho. Adereços diversos, todos de origem dracônica, adornavam seu belo corpo e em sua pontuda orelha direita, um delicado brinco em forma de guizo tilintava suavemente. Yule se concentrou e fez surgirem suas asas que estavam magicamente escondidas. Elas se expandiram, refletindo a luz do sol num brilho prateado. Ela saltou, batendo as asas e serpenteando sua cauda prateada, ganhando altura. Em uma fração de segundo, suas mãos já alcançavam o humano cuja vida se esvaia diante do Moóck.
_ Orion, cuidado! – Gritou Anix ao ver a estranha, porém bela, criatura sair da névoa e avançar contra o amigo. Squall a viu passando ao seu lado e lançando as mãos de garras afiadas sobre o guerreiro. Sem hesitar, o Vermelho a atacou. Os seis dragões vermelhos, o real e suas cópias ilusórias, abocanharam o ombro da mulher com violência.
Yule sentiu seu corpo sendo rasgado. A dor era profunda, mas também prazerosa. Havia muito tempo que não sentia aquilo, o calor da batalha em suas veias. Porém, não era momento para se divertir, ela tinha uma missão urgente. Yule agarrou o humano, que tentou resistir ao seu delicado, porém forte, abraço, e o puxou para trás. Apoiou o pé nas costas da coruja, tomando impulso, e abriu as asas, usando-as como velas ao aproveitar a força do vento criado pelo bater de asas do Moóck. Yule se afastou rapidamente do inimigo, carregando Orion consigo ao mesmo tempo em que cuspia uma rajada congelante contra o animal monstruoso, ferindo-o no peito. Mas então, uma voz invadiu sua mente. Ela tentou resistir, mas o poder investido contra ela era muito grande e ela foi forçada a obedecer.
_ Desça meu amigo devagar até o chão – ordenava Anix mentalmente, usando seus poderes mágicos para controlar as ações de Yule. Enquanto não a agredisse, ela estaria à sua mercê.
Sem opção e seguindo aquilo que já era sua intenção, Yule foi descendo em direção ao chão. Em sua descida, ela ouviu novamente em sua mente uma voz cálida, elevando-se acima da voz do elfo, como o rugido de uma centena de animais.
Está feito, criança! O Moóck irá embora! – disse Allihanna. Yule comemorou em silêncio, mas sua alegria durou pouco.
O Moóck começou a se afastar, como se desistisse do combate. O pássaro bateu suas asas, criando um vendaval poderoso e recuou quase cem metros. Suas duas cabeças se juntaram, abrindo os bicos simultaneamente. Duas bolas de fogo foram cuspidas na direção dos heróis, juntando-se em uma única e devastadora esfera de chamas. A bola explodiu de forma devastadora, derrubando casas, matando cidadãos e atingindo Yule, Orion, Galanodel e Squall. O Vermelho nada sofreu com o ataque, permanecendo imóvel enquanto as chamas se espalhavam ao seu redor lhe causando prazer. Yule tentou defender o corpo de Orion com suas asas, mas não foi rápida o bastante. O fogo os envolveu, queimando seus corpos furiosamente. Ela agarrou Orion com força, vendo-o tornar-se uma massa carbonizada diante de seus olhos. Assistiu também impotente à morte de Galanodel, que se precipitou rumo ao chão como uma bola preta de carvão após ser fulminada pelo ataque do Moóck. O pássaro bateu novamente as asas, afastando-se mais e mais, e a cada recuo que dava, mais fogo ele cuspia sobre a cidade. Parte de Triunphus foi destruída e um grande incêndio se espalhou pela parte mais velha da cidade, tirando tudo daqueles que nada tinham.
Yule finalmente tocou o chão suavemente. Ao seu lado Anix já pousava também, ordenando-a que soltasse o corpo carbonizado de Orion. Distante no horizonte, o Moóck finalmente desaparecia na cordilheira que levava seu nome, onde aguardaria até que sua fúria novamente despertasse. Mais uma vez o pássaro fracassara em seu intento.

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Enquanto as pessoas comuns se escondiam e seus companheiros de viagem enfrentavam o Moóck, Galarden se deparava com um desafio inesperado. Uma nuvem de gás sufocante se formou ao seu redor, cegando-o e envenenando-o. O elfo correu, afastando-se daquela névoa esverdeada que tentava matá-lo, procurando com os olhos quem era o causador daquilo. Sem encontrar o inimigo, ele saltou na sombra de uma casa próxima onde se escondeu e desapareceu da vista do inimigo, graças à sua capa mágica.
Enuma praguejou ao ver o oponente escapar de eu truque mágico. Pegou a espada e foi procurá-lo. O Morcego pagaria por sua traição e seria morto por suas mãos. Ela seguiu os passos do homem que caçava e começou a tatear em busca de seu alvo. Dobrou a esquina, esgueirando-se entre caixotes e barracas destruídas pelo desespero das pessoas em fuga, então sua mão tocou em algo macio. Ela olhou e viu que tocava o peito do inimigo, que estava encostado na parede. Estranhou não tê-lo visto antes ali, mas, como notou que ele não reagira à sua presença, atacou-o com sua espada.
Galarden conseguiu se esquivar da misteriosa mulher que trombara com ele. Achava tratar-se de um morador em fuga, mas percebeu o engano ao ter que escapar do ataque de sua espada. Sem hesitar, ele apanhou o arco mágico e a atacou com suas flechas.
Enuma foi sendo pouco a pouco vencida pelo adversário, que lutava de forma desonrada. Se fosse realmente um membro da ordem, por que ele não usava as técnicas que aprendera lá? Ao invés disso ele cravava flechas em, seu peito, que coruscavam no impacto e lhe causavam potentes choques elétricos. Enuma revidava com sua espada, sem conseguir ferir o homem com gravidade. Sentindo que perderia se continuasse a lutar daquela forma, Enuma recuou e parou em meditação, canalizando a energia de seu corpo para fechar os ferimentos que recebera. O homem mostrou-se realmente desonrado, um traidor dos fundamentos da Sociedade da Lua Crescente, já que continuou atacando-a, mesmo enquanto ela estava em estado de transe.
Enuma foi ao chão, inconsciente, vítima das flechas de Galarden. O elfo notou que ela ainda respirava e, mesmo sem entender porque fora atacado, não teve clemência. Foi até ela, apanhou uma flecha na aljava e espetou a garganta de Enuma. Exausto, recostou-se na parede e sentou para recuperar o fôlego enquanto tentava localizar seus companheiros de viagem.

novembro 17, 2012

Capítulo 391 – Triunphus


No início da manhã do dia dezenove os viajantes avistaram uma floresta mais densa, para onde conduzia a estrada em que estavam. Agora com a luz do sol sobre suas cabeças, podiam ver detalhes da paisagem até então ocultos de seus olhos. Havia uma enorme cordilheira de picos escarpados ao norte da floresta e a noroeste existia uma gigantesca montanha que se erguia quilômetros acima do solo até ultrapassar as nuvens, seu pico era nevado e o topo não podia ser visto, pois estava oculto entre as nuvens. Continuaram a jornada, atravessando a mata. O sol já se aproximava da metade do céu, quando chegaram ao centro da floresta. A estrada se abria numa gigantesca clareira de vários quilômetros de extensão. Erguendo-se no centro da clareira havia uma colina baixa e verdejante e encravada nela uma enorme cidade murada. A muralha erguia-se a mais de vinte metros do solo e seis torres circulares se elevavam mais seis metros rumo ao céu, igualmente dispostas de modo a formar um colossal hexágono de pedras. Era possível ver outra muralha dentro da cidade, que protegia um grande e luxuoso palácio. Suas torres eram ainda mais altas, atingindo facilmente os trinta metros de altitude. Internamente, no porão leste da cidade, havia uma torre ainda mais alta, de topo abobadado no formato de uma gota d’água que refletia a luz do sol de forma ofuscante. À medida que se aproximavam, podiam distinguir mais e mais detalhes. Havia dezenas de soldados circulando no topo da muralha, muitos deles em prontidão, com seus arcos apontando para fora por trás das ameias. Outros soldados guardavam o portão de entrada, que ficava no centro da porção sul da muralha, abordando cada pessoa que tentasse entrar, interrogando-os e revistando seus pertences quando conveniente. Uma cavalaria alada chamava a atenção de todos, vários grifos circundavam a poderosa metrópole, comandados por seus cavaleiros atentos. Finalmente, após a longa caminhada, o grupo chegou diante da entrada de Triunphus. Aguardaram na fila até a sua vez de serem entrevistados, quando foram abordados por dois soldados fortemente armadados.