setembro 14, 2006

Capítulo 233 – Cinco grupos...novas missões para os heróis

Capítulo 233 Cinco grupos...novas missões para os heróis

Após darem adeus a Loand, os aventureiros foram ao encontro do capitão Glorin, conforme haviam combinado, na sala de comando do forte Rodick. A sala do general Wally Dold. O general estava atrás de um escrivaninha simples, atrás dele, havia um enorme mapa do reino de Tollon, pendurado na parede. Armas adornavam o local, presas a suportes nas paredes, em meio a belos quadros que retratavam a paisagem do reino da madeira mágica. Glorin já estava lá, esperando sentado em uma cadeira diante do líder. O general os recebeu cordialmente e pediu para que todos se sentassem.

_ Bem soldados! O capitão Glorin me falou sobre a atuação de todos vocês no incidente em Carvalho Quebrado! Ele me disse que vocês mostraram ter experiência em combate, com monstros e me disse que todos vocês são bem fortes e destemidos! Bem, aqui no forte, temos quase cem soldados, mas nenhum deles possui a experiência que vocês possuem! Todos são ainda muito jovens, e estão em início de carreira! São bons soldados, mas carecem de experiência, uma experiência que Glorin disse que vocês possuem! Apesar de não serem soldados, vocês têm muito a ensinar a esses jovens, e eu gostaria que vocês passassem todas as suas experiências para eles! Glorin e os outros oficiais até fazem isso, mas eles são poucos, e os soldados são muitos! Por isso, Glorin e eu estávamos pensando em aproveitar toda essa experiência de vocês para treinar os soldados menos experientes! – o general falava lentamente, seu tom de voz variava do mais grave para o agudo. Vez ou outra ele fazia uma breve pausa para continuar em seguida.

_ E o que isso significa? – perguntaram os heróis.

_ Significa que vocês não serão soldados rasos como os outros! Apesar de não conhecerem as rotinas militares, vocês tem habilidades muito acima da maioria dos que estão no forte! Vocês serão promovidos a sargentos, tanto pelo nível em que estão, quanto para recompensá-los pela atuação em Carvalho Quebrado! Cada um de vocês ficará responsável por um pequeno grupo de soldados! Vocês ensinarão suas habilidades a eles e sairão com eles em missões eventuais para ensiná-los a lidar com os monstros que habitam as redondezas! – era Glorin.

_ E que tipos de missões seriam essas? – perguntou Anix.

_ Bom, temos várias vilas próximas ao forte! Somos responsáveis pela seguranças dessas pessoas! Estamos aqui para protegê-las de monstros e de estrangeiros com más intenções! Muitos criminosos foragidos de reinos próximos passam por nosso território e esse forte está aqui justamente para vigiar a fronteira! As missões envolvem rondas periódicas nas redondezas, caça a monstros e a criminosos! O trabalho de vocês será transmitir seus e conhecimentos para os mais novos e levá-los nessas missões de campo para adquirirem experiência! Trancados aqui no forte, por mais que treinem, eles nunca estarão preparados para lidar com os desafios do mundo lá fora! Vocês irão ensiná-los como fazê-lo! Quanto à disciplina militar, e toda a rotina do forte, vocês poderão aprender com Glorin e com os próprios soldados! Isso fortalecerá os laços entre vocês! E então, o que me dizem? Estão de acordo? – continuou o general.

_ Sim, general! – responderam, sem hesitar. Com tudo acertado, Glorin os conduziu até a porta, para apresentar cada um deles à sua respectiva tropa. Quando estavam quase do lado de fora, Anix se voltou para o comandante.

_ General! Quero aproveitar que estamos aqui pra fazer uma queixa! – disse o mago.

_ Então vou lhe dar a primeira lição sobre o protocolo militar, meu jovem! Nunca quebre a hierarquia! Se você tem alguma dúvida ou reclamação, reporte-se sempre ao seu superior imediato, que no caso é o capitão Glorin! – disse o homem, interrompendo o elfo.

_ Ah, general! Mas ele nunca ouve a gente direito, e vive falando mal dos elfos, dizendo que somos afeminados e outras coisas! – respondeu o mago, exaltado.

_ Glorin...!!! – exclamou o homem, encarando seriamente o anão.

_ Pode deixar, general! Já sei, vou parar! Deixe que eu cuido de tudo! – disse o anão, meio desconcertado.

O general concordou, e todos se retiraram. Glorin apresentou os novos sargentos aos seus subordinados e todos começaram o treinamento. A rotina no forte era simples porém rigorosa. Pela manhã, por volta das seis horas, todos se levantavam e faziam duas horas de exercícios físicos. As oito horas faziam o desjejum e descansavam até as nove. Então recomeçavam os treinos, desta vez, exercícios mais técnicos, com treinamento com armas, manobras de combate e sobrevivência. As doze em ponto era servido o almoço, e as duas o treino recomeçava. Das duas até as quatro, faziam treinamento teórico, aprendendo todas as rotinas do forte, regras de hierarquia, disciplina, protocolos e coisas do tipo. Das quatro as seis, o treinamento era livre, os soldados tinham liberdade para escolherem o que gostariam de treinar, desde combate até aulas de culinária. Os magos e outros tipos de conjuradores, tinham a opção de trocar os treinamentos físicos por treinos no laboratório, sob a supervisão de Seelan.

Na manhã seguinte, Lars restaurou a forma de Nailo, e ele pode se juntar aos demais nos treinamentos. Assim eles passaram os dias no forte, até que, quase um mês após chegarem à base, receberam suas primeiras missões.

Era o décimo dia do mês de Marah, pace. O sol brilhava forte naquele kalag, amenizando os rigores que a proximidade com o reino de Beluhga impunha aos moradores de Tollon. O capitão Glorin reuniu os jovens heróis para transmitir-lhes as ordens do comando do forte Rodick.

_ Muito bem, sargentos! Cada um de vocês sairá em missão com seus respectivos grupos! – começou a falar o anão. – Squall irá para o norte, para as Uivantes!

_ Capitão! Deixe-me ir para as Uivantes, no lugar do Squall! Quero treinar por lá e aprender a fazer as mesmas coisas que o senhor faz! – pediu Legolas, interrompendo o anão.

_ Hum...está bem! Legolas irá para as Montanhas Uivantes, então! Squall cuidará de outra missão! Mas, vamos por partes! O primeiro a partir será Anix! Tenho uma missão especial pra você! Algo envolvendo magia e coisas que você conhece bem! Justamente por isso foi escolhido! Seu conhecimento será importante para a missão! – continuou o capitão.

_ E pra onde eu vou, capitão? – perguntou Anix.

_ Você irá para Rutorn! Uma vila próxima daqui, uns três dias ao sul! Parece que alguns fantasmas estão assombrando o local! Quero que você reúna seu grupo e siga para lá imediatamente! Investigue o que está acontecendo naquela vila e resolva o problema! Essa missão servirá para dar experiência aos seus subordinados, mas não se esqueça, você é responsável por ele! Eles ainda são jovens e inexperientes, portanto, evite expô-los a riscos! Entendido?

_ Sim capitão! Irei agora mesmo reunir o pelotão e pegarei recursos mágicos com o capitão Seelan! – Anix e os outros se retiraram. O mago reuniu seu grupo de soldados, composto por: Mao Necro, um mago necromante, o elfo que Anix conheceu quando entrou pela primeira vez no forte Rodick; Dragnus, um meio-orc combatente sem muita técnica, mas de grande força física; Jack, um humano hábil com a espada mas muito mais com sua boca, um galanteador nato que ficou amigo de Legolas; Lee Wood, o descendente de Tamura que cuidou dos novatos quando eles chegaram ao forte, lutador habilidoso, especialmente no combate desarmado, para surpresa dos seus inimigos. Anix os reuniu e explicou-lhes qual seria a missão que iriam cumprir. Depois, recebeu um mapa e instruções do capitão Glorin e por fim, foi ao laboratório mágico, buscar alguns itens para auxiliar os soldados em sua missão.

_ Sélan! Eu estou de partida para uma missão, e vim pedir que você forneça-nos algum equipamento para auxiliar meu grupo! – disse Anix, timidamente.

_ É Seelan! Seelan, meu caro! Ah, Anix, meu querido! Claro que sim, venha comigo! Você vai para a vila Rutorn, não é mesmo? Dizem que há fantasmas por lá! Tome, leve isso, é água benta, ajudará a expulsá-los de lá! E leve essas poções mágica de cura também, acho que umas dez doses de cada devem bastar! A propósito, vocês têm algum clérigo no grupo? – disse, delicadamente, o elfo, entregando vinte pequenos frascos para Anix.

_ Não! Nenhum! – respondeu o mago, incomodado com a proximidade de Seelan.

_ Bom, nesse caso, será melhor vocês levarem mais umas cinco poções de cura! Vamos ver o que mais...ah, sim! Aqui está poção do amor! Não, não é isso, poção do amor não vai ajudar em nada na sua missão! Mas, gostaria de provar uma delas? – perguntou Seelan, apertando carinhosamente o ombro de Anix, que ficou instantaneamente ruborizado.

_ Não, não quero! – respondeu Anix, secamente, tirando a mão que estava sobre seu ombro.

_ Ah, que pena! Mas tudo bem, leve isto com você então! É um óleo de arma mágica! Basta você passá-lo em uma arma, para que ela se torne capaz de atingir criaturas sem corpo, como os fantasmas! – Seelan sorriu, e entregou mais dez vidros para Anix.

_ Está bem, muito obrigado! Agora eu tenho que ir! Até a volta! – despediu-se Anix, afastando-se apressadamente de Seelan.

_ Ah...que pena! Vão nos separar, enfim! Sentirei sua falta! Ficarei aqui torcendo pelo seu sucesso! Boa sorte, amiguinho! E até a volta, queridinho! – Seelan suspirou de desgosto, e deu adeus a Anix.

Já na saída do forte, Anix distribuiu os recursos aos seus soldados. Cada um ficou com três poções de cura, duas águas bentas e uma dose de óleo de arma mágica. Jack, recusou os frascos de água.

_ Não vou levar isso, sargento! É um peso desnecessário! É só água mesmo! – reclamou Jack.

_ Recruta, guarde isso na sua mochila, é uma ordem! – gritou Anix.

_ Não quero! O Dragnus leva no meu lugar!

_ Droga! Vou chamar o capitão Glorin e você se entende com ele, então! – Anix saiu, enfurecido rumo ao centro de comando. Voltou acompanhado de Glorin.

_ Soldado, o que está acontecendo aqui? – perguntou o anão.

_ Ah, capitão! O sargento que me obrigar a carregar esses potes de água inúteis! Eu não vou levar! – respondeu o soldado.

_ Vai sim, isso será útil para a missão! Vocês vão precisar disso! – Glorin insistia, e parecia estar perdendo a paciência.

_ Mas não vai caber na minha mochila! – resmungou Jack

_ Então deixe uma das suas malditas garrafas de rum, soldado!­ – gritou o anão, já cheio de cólera.

_ Rum? Ele está levando rum na mochila? Mas capitão isso é permitido? – perguntou Anix, surpreso.

_ Bem, deixe-o levar o rum dele! Isso o manterá mais calmo e obediente! – cochichou o capitão para Anix. – Agora, soldado Jack! Guarde essa água benta na sua bolsa imediatamente, ou então jogarei todo esse seu rum fora! – ameaçou Glorin.

Jack deu-se finalmente por vencido. Abriu a mochila e jogou displicentemente os frascos de água benta dentro dela. Legolas, Squall, Nailo e Lucano apenas observavam e se divertiam com as trapalhadas dos soldados do amigo.

Finalmente o grupo se reuniu e montou em seus cavalos. Jack bufava, ainda inconformado por ter que carregar água num espaço que poderia conter mais rum. O pelotão se dirigiu para o portão que já se abria e saiu do forte. Já do lado de fora, Anix virou-se para trás, para dar um adeus aos amigos e ao irmão. E viu alguém que não gostaria de ter visto.

_ Aniiiiix! Aniiiiix! Tenha cuidado, amiguinho! Vou ficar te esperando ansioso! Boa sorte a vocês! E sejam gentis com o Anix, soldados, ou vocês vão se ver comigo! Até a volta, Aniiiix! - era Seelan, correndo nas pontas dos pés e acendo feito uma mulher, enquanto gritava o nome de Anix. Envergonhado, Anix esporeou o cavalo e desapareceu da vista de todos, sendo seguido de perto por seus subordinados.

Os portões se fecharam. Lucano e os outros riam e se divertiam com a situação ridícula que Anix passara. Squall tentava se esconder, já que sem seu irmão por perto, provavelmente seria com ele que o afeminado Seelan iria tentar flertar.

Seelan caminhava ao lado de Glorin. Os dois conversavam como velhos amigos que eram. Os dois, assim como Jonathan Wilkes, Todd Flathead, Lars Sween e o, até então desconhecido, Kuran Namino, faziam parte de um mesmo grupo de aventureiros, assim como Anix e seus amigos. Mas, o modo como os dois conversavam, deixou os quatro amigos intrigados. No lugar da voz aguda e feminina, Seelan tinha agora um tom mais grave. Até mesmo seu modo de andar e se portar estavam diferentes.

_ E ai, seu cotoco de tocha! Como estão as coisas? – perguntava Seelan, zombando da altura de Glorin.

_ Já disse que cotoco de tocha é a sua mãe, seu afeminado! – ralhou o anão.­ – Mas você não toma jeito mesmo! Já fez uma nova vítima! O otário caiu direitinho na sua conversa mole!

_ Pois é! Esse ai acha mesmo que eu gosto de pessoas do mesmo sexo! Ele nem desconfia de nada, tolinho! Nem passa pela cabeça dele que é tudo encenação, apenas pra brincar com ele! - era Seelan. Sua voz era grave e seu olhar firme.

_ Pois é! Esses garotos têm muito a aprender ainda!

Os dois passaram ao lado de Squall e dos outros. Os heróis observavam a conversa com ar de confusos.

_ Que é que vocês tão olhando? Bando de frutas! – disse Glorin, rindo.

_ Olá, amiguinhos! - era Seelan. Sua voz agora era fina, e ele acenava com a mão requebrada. Novamente, ele voltava a se fingir de afeminado, mas já era tarde, pois, com exceção de Anix, todos os outros já sabiam que tudo não passava de uma farsa. Apenas o inocente Anix continuava acreditando que Seelan era realmente um maricas.

setembro 13, 2006

Capítulo 232 – Ressurreição...a despedida de Loand

Capítulo 232 Ressurreição...a despedida de Loand

Anix ajudou seu irmão a se levantar debaixo do monte de cadeiras que se amontoavam sobre ele. O clérigo que cuidava dos mais feridos se aproximou dos dois. O homem se curvou diante dos dois elfos e ofereceu , gentilmente sua ajuda.

_ Posso ajudá-los? Estão feridos? – disse o homem.

_ Eu estou ferido! E bastante! – respondeu Squall.

_ Ah! Você é o bardo, realmente deve ser o mais ferido de todos! Deixe que eu cuido de suas feridas, meu amigo! Que o grande Thyatis derrame seu poder e cure seus ferimentos! – o clérigo recitou uma prece, invocando o nome do deus da ressurreição e da profecia. Suas mãos, estendidas sobre Squall, brilharam e o feiticeiro começou a se sentir melhor.

_ Muito obrigado, senhor! Por acaso o senhor é um clérigo de Thyatis? – perguntou o elfo, ao notar o símbolo na armadura e os versos do clérigo.

_Sim, meu rapaz! Sou o capitão Lars Sween e sirvo à grande fênix! Muito prazer! – Lars se apresentou, orgulhoso, e deu um amigável e caloroso aperto de mão nos dois elfos.

_ Muito prazer, eu sou Anix!

_ E eu sou Squall!

_ Ei, capitão Lars! O senhor é amigo do Seelan, certo? Ele tem um jeito meio delicado de falar, por acaso ele é um daqueles que gosta de homens ao invés de mulheres? – perguntou Anix.

_ Ele simpatizou com você, né? Hehehe, sim ele é! – respondeu Lars, rindo e chacoalhando a cabeça negativamente.

_ Capitão Lars! Eu tenho um pedido a lhe fazer! Eu tenho um amigo, muito querido, que morreu quando tentávamos salvar a esposa de outro amigo nosso! Eu estive procurando muito por um clérigo de Thyatis para poder trazê-lo de volta do mundo dos mortos! Por favor, o senhor poderia usar seu poder para ressuscitá-lo! Por favor, eu lhe peço! Pagarei qualquer quantia! – implorou Squall.

_ Um amigo morto, hein?! Para salvar uma mulher? Como era esse rapaz, era uma pessoa boa? – perguntou o clérigo.

_Sim! Ele era inclusive um paladino de Khalmyr! Era uma boa pessoa sim! –respondeu o feiticeiro.

_ Então eu o farei! Trarei seu amigo de volta a este mundo! Não há mal que não possa ser desfeito, e não há pessoa que não mereça uma segunda chance! E a grande fênix dará uma nova chance para o seu amigo! Vamos lá garotos, vamos até o seu amigo! – disse o homem, levantando-se orgulhoso e exaltado.

Já no alojamento, Squall entregou a Lars Sween o dedo que havia arrancado do corpo do amigo Loand. Lars olhou o dedo, já em estado meio putrefato e advertiu Squall para que tivesse maiores cuidados com os corpos dos amigos mortos. O clérigo pegou o dedo, enrolado num pedaço de pano e já estava quase se retirando, quando se lembrou de algo muito importante.

_ Ah! Ia me esquecendo! Para poder trazer seu amigo, precisarei que vocês façam um trabalho para mim! Preciso que consigam um item importante para a realização da magia! Sem isso, seu amigo não poderá ser trazido de volta! É um tributo que deve ser pago ao grande Thyatis! – explicou o sacerdote.

_ Por acaso seria isto? – perguntou Anix, mostrando a Lars um grande diamante amarronzado. A jóia fazia parte do tesouro que estava em posse de Zulil e que fora recolhido por Anix, às pressas, logo após a derrota do necromante.

_ Sim, é isso mesmo! Este diamante servirá! Será o tributo pago por vocês para mostrar o quanto gostam de seu amigo! Vocês abrirão mão de um precioso tesouro para ter seu amigo de volta! A grande fênix reconhecerá o seu valor e dará uma nova chance ao seu amigo! Agora vou trabalhar! Encontrem-me pela manhã! Adeus! – disse o clérigo, indo na direção da porta. Subitamente, ele parou e começou a olhar para um canto escuro do alojamento, com ar de desconfiado. – Saia daí, vamos! Vamos embora Todd! Deixe os novatos em paz! - ordenou o clérigo.

O pequeno e sinistro goblin, o mesmo que estava na taverna, surgiu do canto escuro e caminhou até a porta, resmungando algo em seu estranho idioma. Deu um amigável tapa nas costas do clérigo e sorriu para ele.

_ Devolva! Devolva logo, seu pilantra! – mandou Lars Sween. Todd argumentou alguma coisa em sua língua, com uma expressão de confusão. Lars insistiu e estendeu a mão para o pequenino. Vencido, Todd colocou na mão do clérigo o diamante que tinha sido dado por Anix para ressuscitar Loand. – Bem, garotos! Esse aqui é o capitão Todd Flathead! Eu vou levar esse pilantrinha daqui, assim vocês poderão descansar em paz! Tenham uma boa noite, e sejam bem vindos ao forte! Que Thyatis os abençoe! – e foram os dois, porta afora. Após conferirem se suas coisas não haviam sido roubadas, os heróis foram dormir.

O vigésimo dia de Lunaluz começou ensolarado, prometendo boas notícias para os jovens aventureiros. Todos levantaram bem cedo, junto com os demais soldados, e esperavam ansiosamente pelo capitão Glorin, para iniciarem o treinamento junto com os demais. Por volta das oito da manhã, o capitão chegou ao alojamento, convocando os aventureiros.

_ Venham comigo, tem uma pessoa que deseja falar com vocês! – disse o anão.

Todos o seguiram, até o alojamento dos oficiais. Entraram. Lá dentro, eles encontraram um jovem homem, terminando de vestir uma armadura de placas e atando uma grande bainha de espada à cintura. Quando se aproximaram, o rapaz se virou, e os olhos de todos se encheram de lágrimas. Era Loand.

_ Loand, meu amigo! Que bom que você voltou! Sentimos muito a sua falta, meu amigo! – disse Squall, emocionado, e dando um forte abraço no amigo.

_ Obrigado por me ressuscitarem, amigos! Durante todo esse tempo, eu fiquei em Ordine, o reino de Khalmyr! Um lugar maravilhoso, onde tudo é perfeito e exato! Espero voltar pra lá um dia, quando minha hora chegar definitivamente! Mas até lá, continuarei aqui, com vocês combatendo o mal e a injustiça! Muito obrigado por me darem essa nova oportunidade, amigos! Eu agradeço a todos! – respondeu o paladino, também muito emocionado.

_ Que bom tê-lo de volta ao grupo Loand! Sinceramente, é ao Squall que você deve agradecer! Eu, por mim, não o tiraria de Ordine! Mas o Squall não descansou um dia sequer, enquanto não conseguiu encontrar alguém com poder para trazê-lo de volta! Ele e o Nailo são os principais responsáveis por sua volta! Mas, vendo você ai, inteiro de novo, me faz ver o quanto valeu a pena a insistência deles! É bom tê-lo de novo no nosso grupo amigo! – disse Legolas, apertando a mão de Loand com emoção.

_ Sim, é muito bom estar de volta! Mas, infelizmente, não poderei ficar com vocês, amigos! Tenho uma missão a cumprir, e devo partir o quanto antes! Vocês estão com minha espada? – disse o paladino.

A notícia caiu como um balde de água fria sobre os heróis. Squall correu até o dormitório e pegou a bastarda que pertencia ao amigo. Entregou-a com cuidado a Loand. O paladino colocou a espada em sua bainha nova e novamente agradeceu.

_ Nós iremos com você Loand! – disse Legolas, com firmeza.

_ Não irão não! Agora vocês pertencem ao exército de Tollon! Tenho muito trabalho pra vocês! – intrometeu-se Glorin.

­_ Além do mais, isso é uma coisa que o Loand deve fazer sozinho! Os deuses impuseram a ele uma missão! É o preço por ter voltado à vida, e esse preço deve ser pago apenas por ele e mais ninguém! – era Lars Sween.

_ Está certo, entendo! – concordou Legolas.

_ Não se preocupem, amigos! Ficarei bem! Vocês já fizeram demais por mim! Agora eu devo me virar sozinho um pouco também! – completou Loand.

_ Bem, despeçam-se do seu amigo com calma! Quando terminarem, encontrem-me no centro de comando! O general e eu temos uns assuntos a tratar com vocês! – disse o anão, saindo da sala.

_ Bom, meus amigos! Adeus, por enquanto! E muito obrigado por tudo! – disse Loand.

_ Adeus, amigo! E boa sorte! –responderam.

Um a um, eles se despediram do paladino, com calorosos abraços já carregados de saudade. Estavam tristes pela partida do amigo. Mas ao mesmo tempo, sentiam uma enorme felicidade ao vê-lo novamente vivo. Loand notou a ausência de Nailo, Sairf e Sam e perguntou pelos ausentes. Os heróis explicaram tudo o que havia acontecido com eles desde sua morte. Falaram sobre o resgate de Liodriel, o julgamento de Legolas e seu casamento, sobre a decisão de Sairf e Sam em deixar o grupo ao menos temporariamente, sobre o exército e, finalmente, sobre Carvalho Quebrado e a traição de Zulil. Loand foi até o alojamento dos companheiros e se despediu de Nailo, mesmo sendo ele um simples camundongo. Lars o tranqüilizou, prometendo reverter a transformação do ranger no dia seguinte. Loand Hammerhand se despediu de seus grandes amigos e atravessou os portões do forte Rodick dando adeus aos seus companheiros de jornada. Tinha lágrimas nos olhos, e uma certeza no coração. Aquela não seria a última vez que ele os veria. Certo disso, o paladino agradeceu a Khalmyr e a Thyatis pela nova vida, e seguiu seu caminho, desta vez numa jornada solitária rumo à aventura e ao perigo.

setembro 12, 2006

Encontro de Rpg e Magic de Araraquara

Até que enfim algum evento do gênero na nossa cidade.
O evento tá prometendo, vai ter mesas pra rpg, torneio de magic, exibição de animes, palestras, workshops, sorteio de brindes, área para alimentação. A entrada do evento deverá ser 1kg de alimento não percivel pra ajudar um instituição de caridade da cidade. Assim, a gente ajuda a melhorar o mundo e quebramos o preconceito contra o nosso hobby, provando de uma vez por todas que rpg NÃO tem nada de demoníaco ou coisas do tipo.

Acompanhem as novidades no site oficial do evento (feito por este que vos escreve) e compareçam lá.
Praqueles que acompanham as aventuras descritas aqui, mas que nunca jogaram rpg, esta é a oportunidade. Estarei lá nos dois dias ensinando os novatos a jogarem, explicando os fundamentos do rpg, tipos de sistema, onde comprar, etc. Não percam!!!


http://rpgmagicararaquara.tripod.com

O site tá meio cru ainda, mas lá pra semana que vem provavelmente já teremos tudo definido.

Capítulo 231 – Festa de boas vindas

Capítulo 231 Festa de boas vindas

Era o 19º dia do mês de lunaluz. Já havia se passado um dia desde que Legolas e Anix tinham chegado ao forte Rodick. Durante esse período, cuidaram apenas de repousar seus corpos cansados e feridos. Ficaram alojados num dos dormitórios coletivos, onde receberam comida e água. Um jovem soldado, desprovido de armas ou armaduras, ficou encarregado de vigiar e prover os recém chegados. Tinha descendência tamuraniana, como Legolas percebeu ao notar traços como olhos pequenos e pele amarelada, também existentes em seu antigo mestre. O rapaz passava todo o tempo calado, vigiando a entrada do alojamento. Quando chegava a hora do almoço ele trazia pratos para os heróis se alimentarem, bem como rações para o rato, o falcão e moscas para a lagartixa, sem desconfiar que ele era um elfo. Assim eles passaram o dia todo, calados, pensativos e ansiosos pela volta dos companheiros.

Era por volta das 16:00hr, quando um tumulto dentro do quartel chamou a atenção de todos. Os soldados que treinavam interromperam seus exercícios repentinamente e correram para a entrada do forte. Legolas e Anix também foram ver o que acontecia, sempre acompanhados de perto pelo tamuraniano. Atravessaram toda a extensão do quartel e se juntaram à multidão que se aglomerava diante do portão que se abria lentamente. Em meio às dezenas de soldados amontoados, Legolas viu que chegava alguém a cavalo. Eram duas pessoas, dividindo uma mesma montaria.Uma delas era um elfo, o outro, um anão, que eles conheciam muito bem. Eram Glorin e Squall.

Legolas correu em disparada, acotovelando as pessoas que estavam na sua frente, derrubando alguns até. Estava ansioso para saber por onde os dois tinham andado, o que tinha acontecido com eles.

_ Capitão! Capitão! O que aconteceu, onde vocês estavam! Sentimos sua falta, estávamos preocupados! Vocês estão bem? – gritava Legolas, freneticamente.

_ Calma, garoto! Deixe de frescuras parece que está no cio! Elfos...! Está tudo bem! Só que o Cloud morreu! – respondeu Glorin, sorrindo.

Legolas baixou a cabeça e começou a recuar, entristecido. Glorin começou a gargalhar e desmentiu o que tinha dito.

_ Está tudo bem, seu idiota! Cloud está vivo! Eu só estava brincando! – riu o anão.

_ Isso não é brincadeira que se faça, capitão! Eu estava preocupado! – vociferou o arqueiro, enfurecido.

_ Ora, dane-se, moleque! Não pode reclamar, aprendi isso com vocês! Agora deixe de frescura e levem Squall para o alojamento! Eu tenho que me reportar ao general, e encontro com vocês depois! – concluiu o anão, descendo do cavalo e indo até o prédio que era o centro de comando do forte.

Squall se juntou aos amigos no alojamento. Contou sobre o que acontecera, que um amigo de Glorin tinha salvado a vida de seu amigo falcão, mas não deu detalhes sobre o que acontecera. Temia quebrar a promessa feita ao misterioso Segê e resolveu evitar falar muito sobre o ocorrido. Seus amigos também não se preocuparam em saber dos detalhes. Squall estava bem, Cloud estava vivo, era isso que importava para eles, embora tivessem estranhado o estado do animal, especialmente seus olhos reptilianos.

Após a metade de uma hora, Glorin chegou ao alojamento e convidou os três a darem uma volta no forte e conhecer o lugar. Caminharam por quase todos os lugares da base, enquanto o anão ia explicando sobre cada prédio, cada detalhe.

_ Bem, aqui nós temos a cozinha, o refeitório dos oficiais, ali adiante fica o dos soldados! Lá são os dormitórios dos soldados, ali dos sargentos e tenentes e aqui dos altos oficiais, com eu, por exemplo! Esse é o centro de comando, lá fica a cadeia e ali o laboratório alquímico e a capela! Esse forte foi construído numa região de fronteira com as Montanhas Uivantes! Existem várias vilas pequenas nas redondezas, e nossa função é protegê-los do ataque de monstros e de forasteiros! De vez em quando aparece algum troll por essas bandas e nossa missão é acabar com criaturas como eles! São quase cem soldados dentro do forte, 83 pra ser mais exato! Agora com a chegada de vocês 5, somos 88 loucos trancados nesse quartel! Só sendo muito louco mesmo pra ficar trancado no meio de um monte de machos, ou sendo muito elfo, hahaha! – o anão ia explicando com muito bom humor todos os detalhes da base. Não perdia uma oportunidade de zombar da masculinidade dos elfos, pra irritação dos heróis.

Anix se afastou dos demais, entrando no laboratório. Sentia-se em casa naquele lugar cercado de frascos, pergaminhos e livros empoeirados. Tentou fazer amizade com um elfo que tomava conta do local, um tal Mao Necro, que não se mostrou muito amistoso. Anix resolveu deixá-lo em paz e retornou para seu grupo, que já voltava para o dormitório.

_ Capitão! Estou fraco! – queixou-se Legolas.

­_ Ora, e por que não comeu melhor? Por acaso não te deram comida? – indagou Glorin.

_ Não é isso! Aquele Zulil fez alguma magia maléfica em mim e me deixou muito fraco! Além disso, o Nailo e o Lucano não voltaram ao normal ainda! Precisamos de ajuda! O senhor disse que aqui teria alguém pra cuidar disso! – explicou o arqueiro.

_ Está certo, já entendi! Pode deixar que eu vou cuidar disso! Ei você, soldado! Qual seu nome? – disse o anão, tentando tranqüilizar Legolas e depois se dirigindo para o tamuraniano na entrada do alojamento.

_ Soldado Lee Wood, capitão! – respondeu o rapaz.

_ Ô Lee, me faz um favor! Vá chamar o capitão Lars! – ordenou Glorin.

_ Ele não está, capitão! Está fora do forte, em missão!

_ Mas que droga! Sem aquele bastardo, ninguém aqui no forte poderá ajudar! Os outros clérigos daqui são muito inexperientes ainda, não vão dar conta do recado! – resmungou o anão.

_ Bom, senhor, há um outro clérigo aqui no forte, que chegou recentemente! Ele é um viajante que está de passagem, um clérigo do panteão! Pelos rumores que eu ouvi, ele parece ser poderoso! Se quiser, eu posso ir procurá-lo! – disse o soldado.

_ Mas que ótimo, talvez ele possa nos ajudar! Você está fazendo o que agora, soldado?

_ Estou cumprindo pena por ter me envolvido numa briga! Por isso estou aqui cuidando dos recém chegados, senhor!

_ Ótimo, não está fazendo nada! Então vá até lá e traga esse tal clérigo aqui! Está dispensado do castigo, soldado!

_ Sim senhor! – o jovem fez continência ao capitão e saiu apressado pelo forte, em busca do clérigo que desfaria os danos causados por Zulil.

Encontrou-o diante do prédio de comando, conversando com o general Wally Dold. Lee se aproximou respeitosamente dos dois, bateu continência para o seu superior e pediu para que o homem o acompanhasse.

_ Com licença, senhor! O senhor é um clérigo, certo? O capitão Glorin deseja falar com o senhor e pediu para que eu o viesse buscar! Senhor...?

_Tamamaru! Sou Tamamaru, muito prazer! Mas quem é esse Glorin e o que ele quer comigo?

_ Ah não, esse anão outra vez! Tudo bem senhor Tamamaru, ele é um dos meus soldados! Pode ir ver o que ele quer, depois terminaremos nossa conversa! – respondeu o general.

Lee retornou para o dormitório, acompanhado de Tamamaru. O clérigo, assim como o soldado, tinha feições típicas do povo de Tamura. Vestia um manto vermelho e carregava uma longa espada curvilínea na cintura, uma katana. Tinha cabelos longos e negros com algumas mechas brancas na frente. Eram soltos e lisos, agitando-se de forma revoltosa ao sabor do vento frio. Embora não soubessem, ambos tinham mais coisas em comum que imaginavam. Lee, assim como Tamamaru, eram oriundos de uma pequena aldeia no meio de Tollon chamada Shimei. Uma pequena vila de agricultores, todos de origem tamuraniana. Tamamaru Aoagi era filho do antigo senhor da vila, que tivera, anos atrás, uma morte trágica justamente por causa do filho que agora estava em busca de vingança pela morte do pai. Mais que isso, Tamamaru almejava retomar aquilo que ele considerava seu por direito, o controle de Shimei. Sem que ninguém desconfiasse de nada, ele viajava incógnito, disfarçado de clérigo do panteão, quando na verdade servia a Leen, o deus da morte, ou, como diziam os goblinóides, Ragnar. Tamamaru dizia orar a todos os deuses, sem desagradar a nenhum, o que não era verdade. Alegava estar recuperando itens roubados de seu templo em Valkaria, quando na verdade os estava reunindo para si, para sua vingança. Mas, ninguém além dele mesmo sabia disso, e seus planos maléficos só seriam desmascarados anos mais tarde, por outro grupo de aventureiros.

Os dois chegaram ao alojamento dos soldados. Glorin explicou a situação e contou, resumidamente, tudo o que havia acontecido no confronto com Zulil. Tamamaru, se prontificou a ajudá-los, sem cobrar nada, fazendo-se passar facilmente por uma pessoa bondosa.

_ Venha aqui meu rapaz, deixe-me tentar restaurar sua força! Que os deuses canalizem seu poder e livrem-no da maldição que o aflige! – disse o clérigo, estendendo suas mãos sobre Legolas. Sua voz era suave, e transmitia uma sensação de paz. Seu disfarce era praticamente perfeito.

O corpo do arqueiro foi tomado pelo brilho que emanava das mãos do clérigo. As forças de Legolas foram totalmente restauradas. O arqueiro agradeceu ao clérigo e comemorou o retorno de seus poderes.

_ Pronto, agora, quanto aos outros dois, somente um deles receberá minha ajuda! Só poderei usar novamente este tipo de poder amanhã, e amanhã eu não estarei mais aqui! Estou de partida! Logo, vocês terão que escolher quem terá sua forma restaurada! – Tamamaru continuava a falar de maneira suave, mas demonstrava frieza em suas palavras ao sequer se dispor a ajudar os heróis na manhã seguinte.

Os aventureiros pensaram e repensaram em qual dos dois deveria permanecer mais tempo como um animal. Então, Anix chegou a uma conclusão que não foi contestada pelos outros.

_ Restaure o Lucano! Assim o Nailo fica um pouco de boca fechada! – sorriu o mago.

Instruído pelo elfo, Tamamaru lançou uma magia sobre a lagartixa, fazendo com que ela aos poucos voltasse a ser novamente o sacerdote de Glórienn. Squall viu a oportunidade tão esperada e foi falar com o clérigo.

_ Senhor Tamamaru, será que o senhor poderia me ajudar também! Eu tenho um amigo que morreu e eu gostaria que ele fosse ressuscitado! – disse o feiticeiro.

_ Ressuscitar alguém?! Não posso fazer esse tipo de coisa! Os mortos pertencem a Leen! Quero dizer, aos deuses! E eu jamais iria contra a vontade deles! – respondeu o homem, exaltado.

_ Leen? Quem é Leen? É o deus a quem você serve? – perguntou Legolas.

_ Sim! Quero dizer, também! Eu sou um clérigo do panteão, um sacerdote que presta tributo a todos os deuses do panteão! Tudo que eu quis dizer é que os motos pertencem aos deuses! E Leen é o deus da morte, também conhecido como Ragnar entre os goblinóides! Então é natural que a maioria dos mortos pertençam a ele! – explicou Tamamaru.

_ Entendo! E o senhor é daqui de Tollon mesmo? Ouvi dizer que é um viajante! – perguntou Glorin.

_ Não, eu venho de Valkaria! Estou numa missão para meu templo! Alguns itens foram roubados por ladrões e eu vim recuperá-los! Já consegui quase todos! Vejam! – Tamamaru hesitou ao responder seu local de origem, depois rapidamente falou de sua missão. Mostrou um colar que tinha por baixo do manto, ao qual estava presa uma mão mumificada. Pelo formato esguio e delicado dos dedos, devia ter pertencido a um elfo. O clérigo apontou para o rato em cima da cama, para Nailo, e com um comando o pequeno animal veio flutuando diretamente para sua mão. Assustado, o rato começou a se debater na mão do homem, que o apertava de forma esmagadora, enquanto tentava acalmar o rato com suas palavras. Entretanto, seu olhar e sua voz estavam mudados. Ele parecia sentir prazer com o sofrimento do pobre animal que fora um ranger. Parecia tentar matá-lo. Assustados, os heróis o impediram, gritando para que parasse de machucar o amigo.

_ Calma, meus jovens! Não ia fazer nada com ele! Pronto, está de volta à sua cama! – disse o clérigo, sorrindo. Sua expressão mudara novamente, desta vez ele era de novo aquele homem pacífico de fala mansa. Tamamaru mostrou outro item, uma maça estrela, que segundo ele era amaldiçoada. – É uma arma maligna! Ela precisa ser banhada e sangue todos os dias! Quando retornar para Valkaria, eu irei destruí-la!

Legolas puxou Glorin para um canto isolado (o anão novamente questionou a masculinidade do elfo), dizendo achar muito estranho o comportamento do clérigo. O arqueiro não poderia imaginar que suas suspeitas estavam mais do que corretas. Entretanto, o capitão não levou em consideração as suspeitas do elfo, e tratou de tirar aquelas idéias de sua cabeça.

_ Bom, agora se me dão licença, tenho que me retirar! Devo preparar minhas coisas para minha partida amanhã cedo! Adeus, que Le...que os deuses os abençoem! – Tamamaru se despediu, quase revelando sua fé, e deixou o alojamento dos soldados.

_ Bem, está na hora do rango! Lee, leve todos pro refeitório! Vamos jantar! – anunciou Glorin.

O soldado mostrou a todos onde era o refeitório. Receberam uma farta refeição, javali assado com batatas, legumes, verduras e pão. Sentiam falta daquilo, todos já estavam cansados de comer apenas rações secas e sem gosto. Após o jantar, o capitão puxou Anix pelo braço, levando-o para fora do refeitório.

_ Venha comigo, garoto! Você está me devendo um barril de cerveja! Chegou a hora de pagar! – disse o anão, com um sorriso malicioso, levando o elfo para a casa em frente, a taverna.

_ Belie Wines! Há quanto tempo não o vejo! Dê-me um barril de cerveja! Meu amigo elfo aqui irá pagar! – pediu o anão.

O taverneiro, um homem magro e baixo, de cabelos negros curtos e lisos atendeu prontamente ao pedido, trazendo uma barrica de uns vinte litros, recheada de cerveja. Glorin sorriu, girou a torneira e derramou o líquido dourado numa caneca de madeira. E, começou a beber. Aos poucos o local foi se enchendo. Com exceção dos soldados que ficavam de plantão nas muralhas do forte e dos que não bebiam, praticamente todos estavam na taverna. Legolas se sentou junto com um tal Jack, cuja mesa estava coberta de garrafas de rum. Juntos, os dois começaram a secar, uma a uma, as garrafas. Anix começou a conversar com o capitão, sobre sua ida ao laboratório.

_ Capitão, quem era aquele cara que estava no laboratório hoje à tarde? Ele era super estranho! Mal falou comigo, aliás, apenas balançava a cabeça pra dizer sim e não! Achei muito estranho isso! – disse o mago.

_ E como ele era? Por acaso era algum elfo? – perguntou o anão, já com segundas intenções.

_ Sim, por que?

_ Está explicado então! Elfos...não passam de uns frescos!

_ Ei, capitão, pare de falar isso! Você fica falando mal dos elfos, mas se não fosse por nós, você teria morrido naquele castelo! – rosnou Anix.

_ Ora, não diga besteiras garoto! Agora pare de falar asneiras e encha logo sua caneca! Essa cerveja está muito boa!

_ Não quero cerveja! Prefiro vinho!

_ Elfos...! Depois, reclama, vem dizer que não é fresco! Vocês elfos não passam de um bando de afrescalhados! – disse o anão, dando uma gargalhada.

_ Ora, rapaz! Não deixe que esse cotoco de tocha fale assim com você! – disse uma voz na entrada da taverna. Era um elfo de longos cabelos negros. Vestia um manto aveludado de cor azul e andava e falava com ar de nobreza, ou frescura, na visão do capitão Glorin. O elfo atravessou toda a taverna, indo até o balcão onde estava o anão. – Não deixe que esse cotoco de tocha o agrida assim! Ele tem é inveja de nossa superioridade élfica!

Anix sorriu para o elfo que o defendia. Estava feliz, finalmente alguém que respeitasse e entendesse sua raça. O elfo também sorria, e ambos começaram a encarar o anão, com desdém.

_ Tá legal, seus frutas! Fiquem então com sua “superioridade”, que eu vou ficar com meu barril, que é muito melhor companhia! Já que você se intrometeu, Seelan, ajude seu amiguinho elfo a pagar minha cerveja! Eu vou embora daqui com meu barril! Tenham uma boa noite! – bufou o anão, retirando-se da taverna com o barril debaixo do braço e a caneca cheia na outra mão.

_ Não ligue pra ele! É só um ranzinza invejoso! Eu sou Seelan Fatoak, é um prazer conhecê-lo! – disse o elfo, estendendo a mão.

_ Muito prazer, eu sou Anix! – respondeu o herói.

_ O prazer é todo meu Anix! Belie, uma caneca de vinho! E então, Anix? O que você faz? Pelos trajes você deve ser um mago, certo? – perguntou Seelan

_ Sim, isso mesmo! E você? – respondeu Anix, entusiasmado.

_ Eu também! Sinto que vamos nos dar muito bem! – Seelan sorriu e jogou seu braço sobre o ombro de Anix, abraçando-o como se fossem velhos amigos. Sua mão massageava carinhosamente o ombro de Anix, de forma estranha.

_ Que bom! Será que você poderia me ensinar suas magias? A gente poderia aprender muito juntos! – perguntou o herói.

_ Que ótimo! Era nisso que eu estava pensando! Vou te ensinar muitas coisas sim! Tudo que você quiser!­ – Seelan deu um sorriso malicioso para Anix, que começou a ficar desconfiado das intenções do novo amigo.

_ E você faz o que aqui no forte? É soldado também?

_ Não, não! Eu sou capitão! E se você quiser, eu te ensino tudo que você precisa fazer para chegar a ser um capitão também! Sabe que eu simpatizei com você! Você é um encanto de rapaz! – os olhos do elfo brilharam, e sua voz se tornou melodiosa. Anix ganhara um pretendente.

Pouco depois, enquanto Anix tentava livrar-se da companhia afeminada de Seelan, e Legolas se embebedava junto com Jack, outras pessoas, aparentemente bem populares no forte, entraram na taverna. O primeiro a surgir foi um homem alto e corpulento, aparentando uns trinta anos de idade. Tinha cabelos castanhos na altura dos olhos. Ostentava um cavanhaque, também castanho e aparentemente muito bem cuidado. Trajava uma armadura de metal sólido e reluzente. Em seu peitoral, havia a bela figura de um pássaro alçando vôo das chamas, uma fênix. O homem entrou como se desfilasse entre as mesas da taverna, cumprimentando a todos os que ali bebiam. Chegando ao balcão, fez um cumprimento com a cabeça para Anix, e se dirigiu ao acompanhante do mago.

_ Então Seelan! Pelo que vejo, você já pegou mais um, não é? Belie, uma caneca de cerveja pra aplacar minha sede! – o homem sorriu com malícia para Seelan enquanto falava em tom debochado. Depois, gritou de modo que todos ouvissem, o seu pedido ao taverneiro, terminando com um largo sorriso no rosto. O homem se pôs a tomar sua bebida, enquanto observava o movimento no estabelecimento. Seelan apenas sorriu ao ouvir o comentário, sem responder e continuou sua conversa com Anix, aproximando-se cada vez mais dele. Anix sentia-se cada vez mais encurralado pelo seu novo amigo.

O segundo a entrar foi um pequeno, sujo e mal-encarado goblin. O pequeno monstro trajava uma armadura fina de couro e se movia furtivamente entre as mesas a passos curtos e rápidos. Caminhava tranqüilamente, com as mãos dentro dos bolsos da calça e o pescoço arqueado para frente. Tinha o topo da cabeça achatado, o que se destacava entre todas as suas peculiaridades. Em pouco tempo, ele já estava diante do balcão. O pequenino olhou para o homem de armadura e sorriu, dando um tapa amigável em suas costas.

_ Todd! Devolva! Devolva já minha bolsa de moedas, seu ladrãozinho safado! – ordenou o homem de armadura, furiosamente, mas ainda assim, sem perder o bom humor.

O goblin abriu a mão, mostrando uma bolsa de couro e fazendo uma careta de deboche. O homem de armadura tomou o pacote das mãos do pequenino e voltou a beber. Com um gesto, e pronunciando alguma coisa incompreensível no seu próprio idioma, o goblin pediu uma caneca de cerveja ao taverneiro.

Logo depois, saltou um homem, vestido com uma pesada e brilhante armadura metálica, dentro da taverna, com uma espada bastarda desembainhada apontada para os presentes. Tinha longos cabelos castanhos, presos num rabo de cavalo. De barba por fazer e pele levemente bronzeada, aparentava ter também uns trinta anos. Seu corpo era alto e frondoso como um carvalho, que impressionaria até o mais orgulhoso dos minotauros.

_ Vamos pessoal! Quem será o primeiro? Quem é que vai me encarar? – gritava o homem, fazendo caretas, como se estivesse irritado. Sua voz era altiva e carregada de confiança. Girava de um lado para outro com o corpo encurvado, encarando os presentes, fazendo caretas e despertando risos na multidão.

_ Quem vai ser o primeiro a fazer o que? – perguntou Legolas ao homem, com um ar de inocência e arrogância misturadas. Toda a taverna se calou. O homem parou diante de Legolas, ergue-se diante dele e começou a medi-lo e a olhá-lo com uma expressão séria. Após alguns segundos de tensão, o homem voltou a sorrir e a fazer caretas para o arqueiro.

_ O primeiro a pular de peito em minha poderosa espada, ora essa! Até parece que você não me conhece! Aliás, não conhece mesmo! Seu rosto é novo por aqui! Qual seu nome soldado? – disse o homem, debochadamente. Todos voltaram a beber e a conversar calmamente.

_ Sou Legolas Greenleaf! Cheguei aqui no forte ontem! E você, quem é? – disse o arqueiro, ainda sem perder a pose.

_ Eu sou o major Jonathan Wilkes, meu rapaz! É um prazer conhecê-lo! Seja bem vindo ao forte Rodick, soldado! – respondeu o homem, dando um caloroso aperto de mão no elfo.

Jonathan seguiu para o balcão, onde pediu uma caneca de vinho. Cumprimentou os outros três que haviam chegado antes dele e riu ao ver Anix, constrangido, envolto nos braços de Seelan.

Lee Wood, o jovem soldado que ficara responsável dos recém chegados nos últimos dois dias, saiu da taverna, apressado. Uma das pessoas que entrara na taverna era o clérigo que o capitão Glorin procurava quando retornou ao forte com Squall. Lee chegou ao alojamento dos oficiais e encontrou Glorin sentado numa cadeira bebendo. Tinha como única companhia o seu barril de cerveja e a chama solitária de uma vela que iluminava o lugar.

_ Capitão Glorin! Aquele que o senhor procurava já retornou! O capitão Lars está na taverna agora, junto com os outros! – disse o rapaz.

_ Ótimo, garoto! Vou terminar minha cerveja e vou lá falar com ele! Obrigado pela informação! – respondeu o anão, enchendo novamente a caneca.

Lee retornou para a taverna e a encontrou fervilhando de agitação. Havia um novo bardo, disposto a tentar agradar à platéia embriagada do local. O bardo era Squall. O feiticeiro pegou seu alaúde, conseguido no castelo de Zulil, e começou a tocá-lo laboriosamente. Os soldados estavam entusiasmados para vê-lo se apresentar, rapidamente juntaram quatro mesas para formar um palco e puseram o feiticeiro em cima dele. Squall era o assunto do momento na taverna.

_ Quem é esse bardo? É novo aqui também! Você o conhece, Anix? – perguntou Seelan.

_ Sim, conheço! Ele é meu irmão Squall! Mas ele não é bardo, é um feiticeiro! Mas ele sempre tenta tocar aquele alaúde! – respondeu Anix, tirando a mão de Seelan de seu ombro.

_ Quer dizer que ele não sabe tocar? Isso não é muito bom! Mas, sabe, até que ele é bonitinho! – disse Seelan, recolocando a mão sobre o ombro de Anix.

Squall começou a tocar. Estava nervoso e não contava com a presença encantadora da bela Lana para lhe dar confiança. Suas notas começaram desafinadas e foram piorando aos poucos. Não foi uma apresentação nem de longe bela, mas tampouco foi horrível a ponto de gerar o que se seguiu.

Um dos soldados se levantou, atirando uma garrafa em Squall. O feiticeiro ficou atordoado com o golpe e perdeu a noção daquilo que estava tocando. Um segundo ataque veio na direção do feiticeiro, desta vez uma caneca. O objeto passou direto, sem sequer resvalar em Squall, e atingiu outro soldado que assistia. Estava armada a confusão. Os soldados começaram atirar objetos uns nos outros. Quando as canecas, garrafas e pratos terminaram, partiram para o combate corpo a corpo. Socos, pontapés, cadeiradas, tudo era permitido.

Anix saltou para trás do balcão do bar, escondendo-se a salvo. Já seu irmão, era o que mais apanhava durante a luta. Acusado por vários soldados de ser o culpado de toda aquela bandalheira, Squall era o principal alvo dos soldados. Vários golpes o atingiam, outros tantos erravam o alvo para atingir algum outro brigão e aumentar ainda mais o clima de tensão no lugar.

Lee Wood invadiu o lugar, dando um salto mortal a partir do telhado e entrando na taverna dando piruetas no ar e aterrissando com os pés no rosto de um soldado. Legolas e Jack lutavam lado a lado, como dois grandes amigos, entre um gole e outro de rum. Lucano, estava no alojamento, estudando seu misterioso manual do dragão, sem nem desconfiar do que acontecia. E Nailo, ainda era um simples rato.

Os quatro oficiais, que haviam chegado por último, se entreolharam e decidiram ir embora dali. Saíram do local calmamente, como se nada estivesse acontecendo, e deixaram que a briga se desenrolasse sem interferência. Apenas um deles permaneceu no local, admirando a confusão. O clérigo, com quem Glorin deveria se encontrar. Então a porta da taverna se abriu bruscamente e um homem baixo, de aspecto ameaçador surgiu. Era Glorin.

_ Mas o que está acontecendo aqui? – gritou o anão, furioso, ao ver a confusão na taverna. – Uma briga! E ninguém me chamou! Droga, onde está mesmo aquela poção de Força de Touro? – completou o capitão, tomando uma poção que trazia no bolso e atirando-se como louco no meio da briga.

Minutos depois, a briga havia terminado. Garrafas, quebradas, mesas e cadeiras viradas, tudo estava um caos. Soldados que até então trocavam golpes violentos, agora cantarolavam juntos, enquanto comemoravam, embalados por goles de bebida, sem sequer se lembrar do motivo pelo qual tinham lutado. O clérigo amigo de Glorin se encarregava de cuidar dos feridos.

_ Ah, idiotas! Desse jeito vocês acabam com todas as minhas magias! Palermas! – resmungava ele, enquanto evocava o nome de Thyatis para curar as feridas dos soldados.

Entre os feridos, estava Squall, caído sob uma pilha de cadeiras. Anix saiu de trás do balcão e caminhou até o irmão lentamente, avaliando o estrago na taverna.

_ Ei Anix! Não se feriu na briga? – perguntou Glorin, sorrindo. O anão estava sentado em uma cadeira, com os pés sobre uma das poucas mesas que permaneceram em pé, enquanto tomava outra caneca de cerveja.

_ Claro que não, capitão! Eu fui esperto e me escondi atrás do balcão! – respondeu o elfo, orgulhoso.

_ Ah é?! Então tome! – o anão arremessou sua caneca, ainda cheia, na cabeça de Anix. A caneca se partiu e Anix ficou todo ensopado. Um pequeno corte se abriu em sua cabeça. – Pronto garoto! Agora você está batizado! Seja bem vindo ao forte Rodick! Aqui é sempre assim! Agora vá descansar! Amanhã começa o seu treinamento no exército! – completou.

Irritado, Anix descarregou sua cólera em cima do anão na forma de uma magia. Vários projéteis de luz saíram de suas mãos na direção do guerreiro. Os mísseis mágicos, ao invés de explodirem, desapareceram misteriosamente ao entrar em contato com o corpo do anão.

_ Hahahaha! Isso não funciona comigo, não, garoto! Agora vá dormir! Amanhã teremos um longo dia pela frente! – disse o capitão enquanto se levantava. Deu mais um gole em sua caneca, colocou-a em cima da mesa e saiu, alegre, pela porta.

setembro 09, 2006

Capítulo 230 – Contrato de sangue

Capítulo 230 Contrato de sangue

Era o entardecer do 18º dia de Lunaluz, um tirag. Após viajar por dois dias inteiros rumo ao norte e desviar para o leste no terceiro dia, Glorin finalmente parou o cavalo e desceu.

_ Squall, você terá que esperar aqui! Entregue-me o Cloud! Aconteça o que acontecer, me espere aqui! – pediu Glorin.

Squall entregou seu amigo pássaro nas mãos do capitão. Cloud estava cada vez mais fraco, quase nem respirava mais direito. Suas penas caiam e seu corpo parecia apodrecer. Exalava um cheiro que lembrava o dos mortos-vivos do castelo de Zulil. Cloud estava aos poucos se tornando um deles.

Glorin apanhou o pássaro cuidadosamente e o tomou em seus pequenos braços. O animal estava embrulhado em várias camadas de tecido, para mantê-lo protegido do frio que os cercava. Tudo ao redor era branco. Estavam cercados de neve e gelo por todos os lados. Assim era o território da rainha Beluhga. Assim eram as Montanhas Uivantes.

Glorin se afastou de Squall lentamente, descendo um pequeno morro e seguindo na direção oposta ao poente. Squall o observava, angustiado, rezando para que ele conseguisse salvar seu estimado amigo. A tristeza que sentia em seu peito era indescritível, ele quase não conseguia segurar as lágrimas.

Quando estava já bem distante, Glorin se virou para trás, segurando o embrulho onde estava Cloud com apenas uma mão, e acenou para Squall com a outra, dizendo para que ele aguardasse até a volta do anão. Era exatamente como Squall havia sonhado, dias atrás, após ter desmaiado quando usou a varinha de invisibilidade pela primeira vez. Glorin continuou andando. Squall mal podia reconhecê-lo naquela imensidão branca, os raios do sol, que refletiam na neve, ofuscavam sua visão. O anão continuou andando até desaparecer, dentro de uma caverna de gelo, camuflada no meio da paisagem alva. À medida que o anão se afastava com Cloud, o feiticeiro sentia suas forças lhe abandonando. Parte de Squall estava morrendo.

Após longos e intermináveis minutos, Glorin surgiu na entrada da caverna, mandando que Squall fosse até ele, com um gesto de mão. Rapidamente o feiticeiro montou no cavalo e partiu em disparada até a caverna. Glorin foi direto e implacável.

_ Squall! Seu pássaro está morrendo! Ele não vai durar muito tempo! Mas parece que há um meio de salvá-lo! Venha comigo! – disse o anão, pesaroso.

Os dois seguiram, caverna adentro, sem trocarem uma palavra sequer. À medida que caminhavam, a caverna ia se tornando cada vez mais ampla, até tomar dimensões de um verdadeiro palácio. Lá dentro, havia mesas, prateleiras, estantes, cadeiras, e outros móveis todos esculpidos no próprio gelo que se formava na gruta. Espalhados por todos os lugares, havia ferramentas, vidros e papéis com anotações. O lugar inteiro parecia um grande laboratório feito de gelo e iluminado por estranhas tochas que emitiam uma luz fantasmagórica.

No fundo da caverna havia um tipo de bancada de gelo, sobre a qual estava Cloud, já desenrolado de seus panos. Squall se aproximou do amigo já desiludido, quando notou a presença de uma pessoa oculta ao lado de uma estante.

_ Aqui estamos, Segê! – disse Glorin.

Um elfo de longos cabelos brancos se virou para os dois. Tinha a pele quase tão alva quanto a neve que o cercava, e olhos tão azuis quanto o céu num dia claro de verão. Trajava um manto simples de tecido também branco e caminhava com tamanha firmeza, que inspirava temor em Squall. Seu olhar era frio e cortante, como uma estalactite de gelo. O elfo caminhou até Squall lentamente, encarando-o firmemente.

_ Você é Squall, certo? Serei sincero e direto! Seu falcão está morrendo! Acredito que não lhe reste mais do que uns trinta minutos! O feitiço usado nele era bem poderoso e está transformando-o num morto-vivo, pouco a pouco! Dentro de minutos ele se tornará um zumbi, ou um carniçal, e nós seremos obrigados a destruí-lo! Contudo, há um meio de tentar salvá-lo, embora não haja garantias de que ele funcione! Está disposto a tentar? – disse o elfo. Sua voz era calma e firme, inspirava ao mesmo tempo confiança e temor. Seus modos de falar e se portar, indicavam tratar-se de uma pessoa muito sábia e importante.

_ Sim! Estou disposto a tudo pra salvar o Cloud! – respondeu Squall, enxugando as lágrimas que escorriam pelo rosto.

_ Ótimo! Glorin disse-me que você é um feiticeiro, e que o pássaro é seu familiar! Vocês devem possuir um elo místico que os une um ao outro! Se ele morrer, parte de você também morre, você já deve saber disso! Seu pássaro está morrendo, sua vida está sendo drenada pouco a pouco pela magia que o atingiu! O único modo de salvá-lo, seria dando-lhe uma nova vida! A sua vida! É preciso que você sacrifique sua vida para salvá-lo! Uma parte de você está ligada a ele! Se ele morrer, essa parte também morrerá! Mas, você pode sacrificar essa parte para ceder a ele, ou seja, é preciso que você sacrifique sua vida para que ele tenha esperanças de viver! Então, está disposto a abrir mão de sua vida para salvá-lo? – continuou o misterioso elfo, falando com total frieza.

_ Sim! Estou disposto a tudo pelo Cloud! Se ele puder viver, eu darei minha vida de bom grado! – respondeu Squall, sem hesitar. Sua voz era firme e decidida.

_ Está certo! Então morraaaaa!!! – o elfo apontou sua mão para Squall e gritou. Seus olhos azuis brilharam como opalas e Squall perdeu os sentidos.

Squall acordou tempos depois. Não sabia quanto tempo havia se passado, mas sabia apenas que estava vivo. Sentia uma forte dor no ombro esquerdo, uma dor aguda e contínua. Olhou para o lado e compreendeu o motivo de tanta dor. Havia um tubo de metal cravado no pescoço de Squall. Do tubo saia um tipo de tripa, pela qual o sangue do feiticeiro fluía em abundância. Na outra extremidade, havia outro tubo de metal conectado à tripa e que estava encravado no peito de Cloud. Squall estava deitado em uma cama de gelo ao lado daquela em que estava seu familiar. Glorin estava abaixado, pressionando um fole que estava conectado à tripa por um frasco de vidro cheio de sangue. A cada vez que o anão pressionava o fole, maior era a dor sentida por Squall. Ao lado de Cloud estava o misterioso Segê. Com as mãos sobre o corpo do falcão, o enigmático elfo recitava versos e mais versos em total concentração, como se conjurasse alguma magia. Cloud se debatia como louco em cima da bancada de gelo. Estava sofrendo uma dor pior que a morte, e Squall sofria junto com seu amigo por não poder ajudá-lo. Squall viu seu sangue fluindo para o corpo de Cloud, e logo depois perdeu os sentidos novamente.

Acordou novamente muito tempo depois. Estava zonzo e fraco e percebeu que estava em uma outra cama, também de gelo. Sua visão foi aos poucos voltando ao normal, e seus ouvidos puderam perceber gritos não muito longe dali.

_ Glorin! Seu maldito, verme traidor! Como ousa trazer um dragão vermelho aos meus domínios? O que pretendia com isso, seu miserável? – gritava enfurecida a primeira voz, muito parecida com a de Segê, mas sem aquela calma de antes.

_ Me desculpe Segê! Não fiz de propósito! Eu até sabia que ele tinha sangue de dragão, mas não sabia que era de dragão vermelho! Também nem me lembrei disso quando o trouxe pra cá! E...espere, ele está acordando! – era a voz de Glorin.

Subitamente, a discussão cessou, e o anão surgiu e se aproximou de Squall. O anão colocou a mão no ombro do feiticeiro e suspirou, enquanto balançava a cabeça para os lados.

_ Sinto muito, garoto! Ele morreu! – disse o anão. Os olhos de Squall se encheram de lágrimas e Glorin estampou um largo sorriso no rosto. - Estou brincando! Hahaha, essa é minha vingança, agora é minha vez de dar susto em vocês! Deu tudo certo! Venha, vou levá-lo até o cloud!

Com a ajuda do anão, o elfo se levantou da cama, e notou algo de estranho. Havia um buraco no gelo, que tinha o formato exato do corpo de Squall. O feiticeiro olhou, assustado para a cama de gelo e perguntou a Glorin o que tinha acontecido.

_ É, vocês deram o maior trabalho pra gente essa noite! Gastei várias pedras de gelo para resfriá-lo, dê uma olhada no chão! – respondeu o guerreiro.

Squall olhou para baixo e viu que havia uma enorme poça de água congelada sob seus pés. O buraco na placa de gelo da cama tinha o formato do corpo de Squall porque ele afundara no gelo ao derretê-lo com seu calor.

Os dois caminharam até a bancada onde Cloud estava. Estava vazia. Squall se desesperou, mas Glorin o acalmou, dizendo que estava tudo bem. Os dois continuaram caminhando até a entrada da caverna, onde Segê os aguardava, com Cloud nos braços.

_ Bom dia, Squall! Parece que a experiência funcionou! Entretanto, esse anão inútil não me disse que você possui sangue de dragão correndo em suas veias! Isso acarretou uma série de conseqüências! Seu falcão não será mais o mesmo que era antes! Seu sangue dracônico causou uma mutação nele! Não posso dizer ao certo no que isso resultará, mas posso garantir que ele ficará bem! Entretanto, os efeitos dessa mutação, você só saberá quando ele se restabelecer completamente! Lembre-se de uma coisa! A ligação sobrenatural que vocês possuíam se aprimorou! Você está mais ligado a ele do que nunca esteve! É melhor que você cuide muito bem desse falcão daqui por diante, para seu próprio bem e dele! Seu sangue corre nas veias dele, e o dele nas suas! Vocês agora são quase um só! Lembre-se muito bem disso! Outra coisa! Ele já chegou muito fraco aqui, já estava praticamente morto! Foi quase um milagre nós termos conseguido salvá-lo! Porém, ele não saiu ileso dessa experiência! A parte dele que morreu demorará a ser recuperada, em outras palavras, ele perdeu muitas habilidades após tudo isso! Mais um detalhe importante! Não deve revelar a ninguém a localização deste lugar! Eu só o ajudei por que foi a pedido de Glorin! E se um dia você revelar esse lugar para alguém, irá pagar caro por isso! Agora parta, jovem Squall, e tenha boa sorte em seu caminho! – disse o misterioso elfo.

_ Muito obrigado por tudo! E eu prometo que não revelarei nada a ninguém sobre esse lugar! Obrigado e adeus, Segê! É esse seu nome, certo? Segê? – disse o feiticeiro, emocionado.

Segê apenas olhou para o anão e balançou a cabeça em sinal de desaprovação. Glorin e Squall montaram no cavalo, que já estava selado e pronto para partir. Squall pegou seu amigo Cloud nos braços, sentia a presença dele mais forte do que nunca. Olhou nos olhos dele e percebeu que já não eram os mesmos. Ao invés dos olhos amarelos, com grandes pupilas negras circulares, o falcão possuía agora pupilas achatadas e verticais. Seus olhos pareciam com os olhos de répteis, como olhos de dragão.

Partiram, deixando para trás o enigmático Segê. Squall tinha sua mente tomada por dúvidas sinistras, em relação ao elfo que o ajudara.

_ Capitão! Que é esse Segê? Aliás, esse é mesmo o nome dele?­ – perguntou o feiticeiro.

_ Bem, Segê é só um tipo de apelido! Eu o conheci há muito tempo atrás! Ele salvou minha vida, e desde então eu sempre venho visitá-lo para lhe contar das novidades do mundo! Nós já tivemos algumas desavenças no passado, mas hoje somos bons amigos! Mas lembre-se! Não deve contar a ninguém onde ele vive! – respondeu Glorin.

_ Entendo! Ele parece ser bem poderoso! Nem vou perguntar o nome verdadeiro dele! Acho que é melhor assim!

_ Ótimo, garoto, assim é melhor! Saiba que ele não só é muito poderoso, como também é a pessoa mais sábia que eu já conheci! Ele é capaz de responder quase qualquer coisa! Sempre que preciso de algum conselho ou resolver algum mistério, venho pedir ajuda a ele!

_ Nossa, que interessante! Pensando bem, acho que vou perguntar o nome dele sim!

_ Agora já é tarde demais! Você já disse que não perguntaria, não pode mais voltar atrás!

_ Ah capitão, conta vai!

_ Não! Agora pare com essas perguntas chatas!

E Squall ficou sem saber o nome verdadeiro de Segê. Viajaram pelo resto do dia, rumo a sudeste, até que finalmente avistaram o forte Rodick, pouco antes do pôr-do-sol. Glorin e Squall foram recebidos com alegria por seus amigos e por todos os soldados do forte. Tudo finalmente acabara bem. Era o 19º dia de Lunaluz, o mês de Lena, a deusa da cura. Era um morag ensolarado no reino de Tollon. Era o final de uma jornada cheia de perigos e o início de uma nova era de aventuras para aqueles jovens e corajosos heróis. Um novo tempo começava, prometendo fortes emoções e aventuras inesquecíveis que seriam cantadas pelos bardos de Arton e além, até o final dos tempos.